Sabedoria indígena: uma língua não é feita só de palavras

“Às vezes fico pensando por que Deus fez nós índios falar cada um uma língua diferente. Mas acho que é porque nós falamos a língua da terra, das matas, dos bichos. Os animais da caatinga não são os mesmos da floresta, como é que a nossa língua ia ser a mesma? A língua dos Fulni ôs é a língua do sertão, da seca, daquelas pedras, daquelas plantas, dos calangos… não podia ser a mesma língua de quem vive na Amazônia, onde chove todo dia. E por isso que é importante que cada um de nós preserve a nossa língua, porque é a língua que conhece as plantas da nossa região, os animais, que conhece a vida na seca…”

Parece poesia, mas foi só uma conversa com a jornalista Amazonir, que pertence à etnia Fulni ô – povo de cantos fortes e alegria transbordante que vive no interior de Pernambuco, lutando contra a seca e pelo direito à terra.

Lembro dos Fulni ô cantando à noite em volta da fogueira, vozes potentes de timbres que se completam preenchendo espaços e corações. Era contagiante e eles sabiam: nos convidavam a acompanhá-los. Algumas frases em português para facilitar intercaladas com outras em Iatê, sua língua. Nada mais justo. “ Agora é homens contra mulheres para ver quem canta mais”. E a brincadeira seguia.

20232332_1639570616115122_3505750905201986398_o
Foto de André Rodrigo Pacheco para o Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros

A Amazonir escreve um blog sobre questões indígenas:  http://amazonirfulnio.blogspot.com.br/

Leia mais posts como este no blog: Notícias de toda sorte

[Marina Almeida]

Documentos de família revelam história secreta

O remanescente (Cia. das Letras) é uma história de perda e de reinvenção de si. É também a história de um neto que, ao vasculhar as gavetas dos avós, descobre fotografias, cartas e documentos que revelam a trajetória de sua família. O mergulho na vida de seus antepassados, dessas pessoas com quem conviveu, mas que até então não tinha sido capaz de compreender, deu origem ao livro em que Rafael Cardoso conta suas descobertas.

Seus avós, um alemão e uma judia, chegaram ao Brasil fugindo do holocausto e da perseguição nazista. O país, no auge do Estado Novo, ainda flertava com os alemães, e por isso seus avós se protegeram sob uma nova identidade. O autor lembra que os avós nunca falavam sobre assuntos de guerra e exílio: “talvez porque não quisessem repassar os traumas para os netos. Talvez porque nunca os tivessem superado”. Foi só aos 16 anos que Rafael descobriu que tinha ascendência alemã e judia, e só muitos anos depois ele resolveu pesquisar essa história a fundo.

Nesse mergulho, o autor chegou à história de seu bisavô, Hugo Simon, que foi banqueiro e ministro de Finanças da Prússia, socialista, mecenas e colecionador de arte. Pacifista, junto com seu amigo Albert Einstein, ele fundou um movimento que deu origem à liga alemã pelos direitos humanos. Uma história só recuperada agora, quase 80 anos depois.

Você conhece as histórias de sua família? Quais os segredos guardados pela trajetória de seus pais e avós que podem estar se perdendo com o tempo? Registrar essas histórias em livros pode revelar muitas surpresas e garantir que esse legado chegue às futuras gerações. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando a preservar suas memórias.

[Marina Almeida]

Seu Chico: histórias para não esquecer

srchicopb3.png

— Você que tá aí tem férias, não tem? Tem sua folga… E de premero não tinha férias e descanso nem de 5 minutos. Eu mesmo não tive. Sabe como era o descanso? Era capinando no meio do mato. De premero não tinha tempo de conversar um com o outro assim como eu tô conversando c’ocê. Hoje em dia tá bom demais.

Na rua quase sem movimento de meio de tarde em Milho Verde (MG), Seu Chico, que finalmente tem um pouco de tempo, puxa assunto com os passantes seja gente conhecida ou a se conhecer. Sentado de cócoras na frente de sua casa, olhos apertados para a rua quarada pelo sol do cerrado e sorriso de poucos dentes, ele acolhe quem passa com simpatia e muitos casos.

— No tempo de eu menino, comecei a trabalhar eu tava com 4 anos e meio, que era a idade que começava… Pegava serviço era cedo, bebia café, pegava uma pazinha redonda e ia pra roça ainda tava meio escuro. Ia carregar lenha na cabeça. Comia banana pra aguentar até as sete horas da noite, das 7 às 7. Agora hoje em dia tem descanso de almoço, uma hora, de premeiro não. Tinha dia que ia comer era só arroz. Você é menina nova, mas eu tô com 83, já vou completar 84 anos e ainda tô querendo trabalhar!

— O senhor está bem forte!

— Mas de premero o povo vivia mais. Meu avô viveu 120 ano. 120 ano! E meu pai chegou aos 130. Hoje não vive assim, não. Porque comia melhor. Comia sopa… o caldo de mocotó com a gordura, né? De osso gordo. Hoje fica tirando a gordura da carne. De premero, não. Era mocotó, gordura, osso gordo…

Mas ele logo lembra que a gordura às vezes ainda era muito pouca:

— Nego só comia angu, às vez arroz branco, feijão, macarrão, carne, costela… Um dia um nego disse assim: “vou comer com o sinhô, quer ver?”. Falou que tinha diamante, aí foi convidado pra comer com o sinhô. Sujou tudo porque não sabia comer na mesa, né, comeu carne e tudo, tava satisfeito. Muito bem, no final, o sinhô perguntou do diamante, o nego falou: “eu disse que tem diamante, não que eu tinha um”.

Nós rimos da esperteza e do esforço que se faz por uma boa refeição.

— Isso é do tempo que minha vó era menina. Ela conta esses casos. Era muito sofrimento pros negros. Gosto de contar essas histórias pros mais novo, pra não esquecer, saber o que foi.

Tradições
Seu Chico sabe casos e cantos. Lembra orgulhoso que foi chamado para ensiná-los às crianças na escola:

— Os véio que sabe a cantiga do tempo da escravidão levaram na escola a modo de a professora poder seguir pra frente, senão acaba, né?

E canta para mim. A primeira música fala do nego que caiu no sono enquanto vigiava a plantação de arroz. Acordou com o Assum preto comendo tudo e foi logo correndo e tocando:

— “Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô passarinho, que o arroz é de Deus…”

Seu Chico fala das festas, da Marujada, da procissão, da festa de São Benedito, cada uma com suas tradições e suas músicas.

— “Meu São Benedito, vossa casa cheia, cheira cravo e rosa, flor de laranjeira…” Você que tá aqui, ocê já viu festa aqui?

— Aqui não.

— Vem que ocê vê essas cantigas que eu tô cantando e ainda tem mais um monte. Canta no meio da rua, na porta de casa, o povo vai lá pro terreiro.

Ele lembra de mais uma:

— “Papagaio come milho, periquito levou fama. Papagaio come milho, periquito levou fama…” É muito interessante. Nós somos periquito, o papagaio tá rasgando espiga de milho, lá no pé, nós tamo debaixo catando, tamo na rua trabalhando…

Ele vai explicando as músicas, o significado das histórias… Por trás do seu jeito simples, ele sabe da importância do que conta:

— Sei mais de cem música sem olhar papel. Muita cantiga do tempo da escravidão. Eu gosto de contar pros novos. Porque muitos véio às vez sabe cantar, mas não é capaz de explicar o que vem a ser a cantiga, né? Fica embasbatado. Eu gosto de contar…

Seu Chico não mora sozinho e logo dona Maria da Luz aparece na janela. A senhora negra, de cabelos curtos, emana força, apesar do corpo magro e da idade avançada. É curandeira, descubro depois. E ciumenta – não gosta de seu Chico cheio de conversa na porta de casa. Ela empilha uns sacos de urucum na janela enquanto pergunta meu nome, depois diz para ele:

— Passa para dentro – e volta para o interior da casa.

— A mulher viu que eu tava falando perto d’ôce, entrou pra dentro, não gosta, não – ele explica, mas continua a conversa sem pressa.

— Eu tô com problema no olho, mas ainda vejo ó…

Seu Chico pega um punhadinho da terra arenosa do cerrado na mão. Elas formam pequenas pedrinhas que ele separa com os dedos enquanto conta:

— Um, dois, três, quatro, cinco… Tá veno? Eu ainda vejo!

A casa
Agora ele me convida para entrar. Hesito, mas ele insiste.

— Entra pra lá!

Na sala de paredes já gastas e manchadas pelo tempo, muitas imagens de santos, uma foto de criança, algumas fotos de seu Chico, alguns recortes de revistas enquadrados. Na mesa, sobre uma toalha de plástico, um pequeno altar com muitas imagens, flores de plástico, um filtro de barro com um paninho bordado e já amarelado por cima, duas garrafas de água, um prato para velas.

Seu Chico me aponta para uma foto sua na parede, roupa colorida, boné e penacho vermelho e amarelo na cabeça, sorriso aberto.

— É na festa da procissão, né?

Ele confirma:

— Na festa é dança, a gente vai pra entrada da rua com um monte de canto. E eu só vivo alegre porque ó…

E me conta feliz sobre como ainda está ativo:

— Eu tô velho, mas ainda tô trabalhando. Ainda faço vassoura… – entra no quarto para pegar alguma coisa e volta com um saco cheio de vassouras de palha.

— Olha como ainda trabalho! Ainda gosto de trabalhar!

Pergunto se posso contar sua história no meu blog, tento explicar, ele parece não entender muito, mas repete:

— Gosto de contar pros mais novo, é bom pra poder ficar sabendo pra frente, senão acaba, né, senão acaba…

Entendi a resposta como um sim.

Eu finalmente me despeço de seu Chico, não quero irritar dona Maria da Luz.

— Vai com Deus. Depois ocê passa pra nós contar mais caso – ele diz, enquanto acena.

IMG_0389MarinaAlmeida.JPG
Seu Chico mostrando as vassouras de palha que faz

IMG_0383c

Fui conhecer um pouco mais do pequeno distrito de Milho Verde, em Minas Gerais. Mais tarde encontrei-o novamente. Estava sentado aos pés da pequena igreja do Rosário contemplando o final da tarde. Ao seu lado, um cachorro se esparramava pelo gramado. Já faz algum tempo que estive lá, mas demorei para escrever essa história. Pesquisando agora sobre a região, descobri que seu Chico morreu em agosto deste ano. Foi enterrado ao lado da igrejinha onde ele gostava de ver a noite chegar.

Vai com Deus, seu Chico. Você já contou muito caso e cantiga para nós, agora nós é que contamos as suas por aí. Pros mais novos saberem o que foi e não esquecerem.

IMG_0395malmeida.JPG

[Fotos e texto: Marina Almeida]

Império Kalunga: cortejo de tradição e fé

Papel colorido e flores pra enfeitar a praça em frente à capela da Vila de São Jorge. A mesa de bolos já está pronta e os músicos se aquecem enquanto o povo vai chegando. O Império, do povo Kalunga, vai começar no Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros. É uma festa tradicional da comunidade quilombola de Vão de Almas, no Sítio Histórico Kalunga (GO), em honra ao Divino Espírito Santo.

Os Kalungas todos já aguardam. Vêm arrumados para a festa, que dia de santo é dia de tirar a gravata do armário, a melhor camisa. Chapéu de palha para arrematar, mas a turma mais nova só quer é saber de boné. Faz mal não, o importante é proteger a cabeça, fazer a homenagem e não atrasar o compasso do pandeiro. Também saem de casa os brincos e as pulseiras. E os laços de fita amarrando as tranças dos cachos.

No cantinho, enquanto não começa o cortejo, dá tempo de chupar uma laranja, mas come com pressa, não pode perder a saída. Os músicos aceleram, viola, sanfona, pandeiro, triângulo e atabaque. Um pé que bate daqui, outro dali… Os turistas estão chegando, vai começar.

Bandeira e espada se apresentam. Cada uma na sua vez e com sua dança – esgrima no ar, movimentos e giros e voltas. “É uma comparação, mostrando a tradição. Ele me mostra a dele, e eu mostro a minha. Isso é de muito tempo que eles fazem”, me explica no final da festa o seu Santana dos Santos Rosa, nome de nascido no dia da mãe de Nossa Senhora. Sua apresentação da espada é tradição antiga. “Eu via os mais velhos e disse: uai, vou aprender a fazer isso. Tinha um velho que fazia e peguei entendimento de fazer. Prestando atenção faz bem, né? Igual ele, aprendeu com os criador dele, né, Antero?”, e o colega da dança da bandeira concorda.

20248488_1646271655445018_8377698119780768915_o.jpg

Pelas ruas

O cortejo sai. Protegido por um quadro feito de varas coloridas, lá vai seu Santana com a espada, seu Antero com a bandeira do Divino. Vão também o rei e os anjos. E mais a avó para segurar as asas, “que o anjo é pequeno e não vá deixar cair as asas”. Anda muito compenetrado em sua função e só aperta com força de susto os olhos quando soltam fogos – às vezes os anjos também dão de ter medo. Já a anjinha no colo mal ainda sabe andar, mas de nada se assusta, vai toda grande de olhos, curiosidade.

O rei vai firme em sua coroa de flores, não abaixa a cabeça, não tropeça, não perde o passo. Óculos escuros para não franzir o rosto com o sol que já quer se pôr. Coisas de realeza. Na tradição Kalunga, a cada ano um rei é escolhido e seu trabalho é organizar toda a festa. Sorriso mesmo só em quem segura o bastão, que às vezes é difícil segurar o orgulho num momento assim.

Segue o povo, não para a música e quando a rua é de aperto, eles fazem do quadro losango, que esse é povo de adaptação. Seu Santana fala o porquê da separação: “Vamos ali dentro do quadro, que se não for é muita gente e separa os cabeceiras. Ali só o líder, o rei, os anjos…”. Na volta para a praça tem mais apresentação de espada e de bandeira. Os tocadores param e a voz das mulheres assume na capela. Agudas, tremendo pedidos ao Divino e ao nosso Senhor. Mas não se enganem, que o trabalho delas começou bem antes, nas flores, nos enfeites de papel, da coroa do rei e dos anjos. “Antes era flor do campo porque nem tinha papel lá, pelos anos 60, agora nós faz assim. Comecei a fazer essas flores com uns nove pra dez anos, era mais destacada e começaram a sempre me chamar para ajudar. Fui professora e agora todos já sabem fazer”, fala dona Dainda, que desde a véspera ajudava as mulheres a preparar todos os enfeites.

Na capela

Dona Procópia já não tem pernas para o cortejo, mas é o povo chegar que ela sai se apoiando na bengala para alcançar a capela. Logo já está bem na frente, lenço colorido enrolado na cabeça puxando o canto. A voz é fininha, mas, ai, que a fé é das largas. Olhos fixos no pequeno altar, tem sempre outra música pra não parar tão cedo as rezas. Só não peçam pra benzer. “Quando que eu sei benzer? Reza de rezar no altar pra defender todo mundo, pode me chamar que eu tô pronta. Mas benzimento? Isso não é comigo, não, uai”.

20449009_1646271812111669_5891563958064610213_o.jpg

Texto escrito originalmente para o Encontro de culturas

Fotos: Ana Caroline de Lima (Antropologia visual)

[Marina Almeida]