A voz, e a letra, de mulheres escritoras

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No livro Um teto todo seu (Editora Tordesilhas, 2014), Vírginia Woolf fala sobre o que seria necessário para que uma mulher escreva ficção: um lugar sossegado para trabalhar, certa independência financeira e alguma validação social. Parece pouco, mas, como a autora nos mostra, a vida das mulheres foi por muito tempo condicionada aos cuidados do lar, dos filhos e do marido, e suas capacidades intelectuais questionadas. A luta das mulheres vem trazendo importantes mudanças para esse cenário, mas os desafios ainda são muitos.

Por isso, neste 8 de março queremos relembrar o trabalho de grandes escritoras brasileiras e estrangeiras que superam as mais diversas dificuldades para colocar sua voz no mundo.

Ana Cristina Cesar: a Ana C., como era conhecida, foi uma escritora, poeta e tradutora brasileira que participou do movimento Literatura Marginal, na década de 1970. Sua obra, em tom confessional e íntimo, é também irreverente e muitas vezes enigmática. Conheça mais sobre ela

Ecléa Bosi: foi uma estudiosa das relações entre memória e velhice. Em seu livro Memória e sociedade – Lembranças de velhos (Companhia das Letras, 1994), ela faz um resgate não apenas das informações sobre o passado de famílias imigrantes na cidade de São Paulo, mas da arte e do trabalho de viver, lembrar, narrar e registrar. Leia alguns trechos selecionados

Elena Ferrante: a italiana tem obras publicadas desde o começo da década de 1990, mas tornou-se um fenômeno global nos últimos anos, com o sucesso de sua Série Napolitana. A escritora é ao mesmo tempo autora e personagem, ficção e realidade. Isso porque não sabemos quem é a pessoa física que escreve suas obras. A autora fala sobre seu processo de escrita, construção de linguagem e relações familiares na obra Frantumaglia.

Alice Munro: a canadense é a primeira autora de contos a conquistar o Nobel de Literatura – prêmio recebido por ela em 2013. Leia mais sobre seu livro O amor de uma boa mulher.

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Outros nomes – entre tantos – que merecem ser conhecidos:

Ana Paula Tavares, poeta angolana; Teolinda Gersão, escritora portuguesa que une diversas artes em suas obras líricas e sensíveis; Graça Graúna, poeta indígena potiguara e professora de literatura; Lídia Jorge, que une realidade e fantasia em sua narrativa e também na linguagem; Amélie Nothomb, autora belga de humor ácido e personagens excêntricos; Carmen Laforet, com sua narrativa existencialista num mundo marcado pela violência; e Margaret Artwood, com suas personagens femininas fortes e cenários distópicos. Falamos mais sobre  todas elas neste post.

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8 escritoras para conhecer em 2018

Ana Paula Tavares
ana2bpaula2btavares3A poeta angolana Ana Paula Tavares é uma das principais vozes da poesia africana de língua portuguesa. Em seus versos, a cultura e as tradições africanas aparecem não apenas como opção temática, mas num processo de reconstituição da identidade nacional e de afirmação da ótica do colonizado sobre a terra e o mundo em que vive. Ela também é uma das primeiras poetas angolanas a reivindicar para a mulher o papel de sujeito de sua vida, de seu corpo e seus desejos. O erotismo do ponto de vista feminino também está presente em muitas de suas poesias, assim como uma visão africana de valorização do prazer corporal e isenta da noção de pecado. Conheça algumas de suas obras: http://www.elfikurten.com.br/2015/06/ana-paula-tavares.html, http://www.lusofoniapoetica.com/artigos/angola/ana-paula-tavares.html  e http://www.jornaldepoesia.jor.br/anap05.html

Teolinda Gersão
teolinda-gersao2Teolinda Gersão usa a arte para falar da vida e do mundo em que vivemos. Não apenas a arte de sua escrita, lírica e sensível, mas também a música, a dança, a pintura… Nascida em Portugal, ela viveu também na Alemanha, em São Paulo (reflexos dessa estada surgem em alguns textos de Os Guarda-Chuvas Cintilantes, 1984) e Moçambique, onde se passa A árvore das palavras (1997). Nesse romance, os elementos da natureza se fundem com a dança – a africana e o balé – na vida da protagonista Gita, ou talvez da África. Em Os teclados (1999) é a música, e às vezes o silêncio, que nos faz pensar no sentido da vida, da arte e da literatura. Entre outras premiações, ela ganhou duas vezes o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Saiba mais: https://teolindagersao.com/

Graça Graúna
grauna02“É difícil viver entre dois mundos, mas a gente se acostuma”, ouvi Graça Graúna falando em uma palestra em São Paulo. A escritora, poeta, crítica e professora de literatura é indígena, do povo potiguara, e traz esse universo para sua obra (assim como para seu trabalho acadêmico). A aparente simplicidade de suas palavras acaba por revelar ao leitor uma profundidade de sentidos e saberes ancestrais. Conheça mais: http://ggrauna.blogspot.com.br/ e http://www.elfikurten.com.br/2016/02/graca-grauna.html

Lídia Jorge
lidiajorgeUnindo o fantástico à realidade, com uma imaginação que alcança também o nível lexical e morfológico, Lídia Jorge é uma das mais reconhecidas escritoras portuguesas contemporâneas. Professora, ela lecionou alguns anos em Angola e Moçambique, em pleno período da guerra colonial – que será retratada em A Costa dos Murmúrios (1988). Seu primeiro romance, O dia dos prodígios (1980), é uma alegoria sobre o impacto da revolução dos cravos portuguesa na vida de uma pequena aldeia no interior do país. Entre livros de contos e romances, como o ótimo A manta do soldado (2003), que trata do emaranhado entre memória e imaginação, suas obras já foram traduzidas para mais de 20 línguas. Veja mais: http://www.lidiajorge.com/

Amélie Nothomb
anothomb_600x600-400x400A escritora belga passou sua infância e adolescência na Ásia, que tem grande influência em sua obra. O Japão, onde seu pai foi embaixador, é um dos países que mais a marcaram e que aparece em diversos de seus livros, como no alegórico A metafísica dos tubos (2000). Com uma escrita crua e de humor cortante, seus romances e contos recorrem ao realismo mágico para dar vida a personagens excêntricos e diálogos muito vivos. Sucesso de vendas e traduzida para muitas línguas, suas obras já foram adaptadas para o cinema e o teatro. Em 1999, recebeu o Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa.

Carmen Laforet
10945049_111582445700A espanhola Carmen Laforet Díaz (1921 – 2004) desenvolveu a maior parte de seu trabalho durante o regime franquista, de caráter ditatorial. Publicou em 1945, aos 24 anos, aquela que se tornaria sua obra mais conhecida: o romance Nada, sucesso entre críticos e leitores. O livro conta a história de uma jovem estudante que chega a Barcelona logo após o fim da Guerra Civil Espanhola. A narrativa, considerada existencialista, constrói um ambiente asfixiante, marcado pela violência, pela fome e pela opressão. Um tema constante em suas obras é o embate entre o idealismo juvenil e um entorno marcado pela mediocridade e pela desilusão.

Elena Ferrante
A escritora italiana já é bem conhecida entre leitores e críticos no mundo tudo. O sucesso mais estrondoso veio com sua Série Napolitana, sequência de quatro romances que contam a história de duas amigas, Elena Greco e Lila Cerullo. A narrativa de Ferrante se constrói em camadas: a mais superficial é composta por uma escrita simples, fácil de acompanhar e que consegue prender o leitor. Mas, para além dessa “simplicidade”, surgem camadas mais profundas, que retratam de forma crua as complexidades das relações sociais, da busca por ascensão, da desigualdade de gênero e dos relacionamentos. O estilo e a obsessão pela sinceridade estão em todas as obras publicadas pela autora, com destaque para Dias de Abandono (2002). Infelizmente, o fato de Elena Ferrante ser um pseudônimo e os rumores em torno de quem seria a “pessoa real” por trás das obras muitas vezes tomam o primeiro plano em discussões sobre a obra da escritora. Leia mais no post Ferrante, frantumaglia e léxico familiar.

Margaret Atwood
margaret-atwoodMais um nome bem conhecido no meio literário, mas a produção da escritora canadense vai muito além de O Conto da Aia (1985), que recentemente deu origem a uma série de TV de sucesso. Atwood tem uma produção extensa, de estudos literários a contos e poesias, passando por livros infantis. Uma constante em suas obras são as personagens femininas que se distanciam de qualquer postura passiva ou romântica.

E mais:

É claro que há muito mais escritoras a se conhecer, e muitas delas publicam suas obras de forma independente. Existem perfis nas redes sociais que divulgam diariamente o trabalho dessas autoras – conheça alguns deles:

Leia Mulheres – https://www.facebook.com/leiamulheres

Leia Mulheres Negras – https://www.facebook.com/intelectuaisnegras/

Mulheres que escrevem – https://www.facebook.com/mulheresqueescrevem/

Clube da escrita para mulheres – https://www.facebook.com/clubedaescritaparamulheres/

 

E leia também:

8 escritoras que você deveria conhecer | Guia do Estudante

Mulheres escritoras | Huffpost Brasil

40 escritoras para ler antes de morrer | Revista Fórum

14 livros de escritoras brasileiras contemporâneas que você deve ler | Galileu

 

[Marina Almeida e Flávia Siqueira]

Natal em letras

Que o humor de Drummond, a comoção de Rubem Alves, a gula (recheada de ironia) de Mário de Andrade, o abraço terno e nostálgico de Vinicius e o lirismo fraterno de Pessoa façam parte do seu natal. É o que nós desejamos a todos vocês!

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Este Natal

“— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava-os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.”

O humor e a ironia de Drummond nos ajudam a superar os perigos dessa época do ano. Leia aqui: http://www.releituras.com/drummond_estenatal.asp

 

O presépio

crib-1807861_1920-e1512527285302.jpgOs pinheiros eram bonitos, mas não me comoviam como o presépio: uma estrela no céu, uma cabaninha na terra coberta de sapé, Maria, José, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados com reis e anjos numa mansa tranqüilidade, os campos iluminados com a glória de Deus, milhares de vaga-lumes acendendo e apagando suas luzes, tudo por causa de uma criancinha. A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança.

Leia Rubem Alves contando sobre seu natal de menino em Minas Gerais: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2312200804.htm

 

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Peru de Natal

“Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas…”

Leia o conto completo de Mário Andrade sobre gulas natalinas e relações familiares complicadas: http://www.releituras.com/marioandrade_natal.asp

 

Poema de Natal

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Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Conheça mais da obra de Vinicius de Moraes: http://www.viniciusdemoraes.com.br

 

O guardador de rebanhos (canto VIII)

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Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

(…)
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
……………………………………………
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
……………………………………………
Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Pessoa, sob o heterônimo de Alberto Caeiro, nos apresenta um encontro do poeta com Jesus, feito outra vez menino, criança a brincar e correr pelos campos. Leia aqui o poema completo: http://www.releituras.com/fpessoa_guardador.asp

Ou ouça a interpretação de Abujamra: https://www.youtube.com/watch?v=zoZ3q7ON5wA

 

 

Cartas de Meu Avô

Conheça o poema de Manuel Bandeira sobre as cartas de seus avós, que revelam ao neto outras facetas de suas vidas e juventude:

Cartas de Meu Avô

A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.

A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme…
A dor… a visão da morte…
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu…
Do meu, — fruto sem cuidado
Que ainda verde apodreceu.

O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora abismada no luto
Das minhas desesperanças…

E a noite vem, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

*Poema publicado no livro A cinza das horas (1917).

Suas cartas também contam histórias? Entre em contato conosco para transformá-las em livro.

[BLOG] Entrevistas em vídeo de Carlos Drummond de Andrade

Nesta quinta-feira (17) completam-se 30 anos desde a morte do poeta Carlos Drummond de Andrade. Trinta anos, uma data redonda, destas que — segundo se aprende entre jornalistas — pedem um lembrar-se especial: uma matéria grande e vistosa, uma sequência de entrevistas com grandes teóricos…

Sim, há algo de artificial nisso, mas onde não há? Os marcos da vida e da rotina são invenções nossas, de qualquer maneira. E nunca é demais falar de Drummond. Então, falemos.

O Drummond do papel é o gênio que todos que estudam literatura conhecem. Mas existem, por aí, entrevistas em vídeo que mostram de relance também o gênio humano de Drummond, que fala de maneira franca e meio tímida sobre a vida e sua poesia. Selecionamos alguns desses vídeos:

1) Nesta entrevista, o poeta fala sobre ser ao mesmo otimista e pessimista, a idade e seu método de trabalho. Seus “perrengues” como trabalhador da escrita o aproximam de nós todos: “Quando tô no ônibus, assim, vem uma ideia, mas eu não tenho lápis nem papel… Aquilo voa e não volta mais, né? Chato, mesmo…”

2) Aqui, Drummond fala um pouco sobre Itabira, sua cidade natal. Pacata, tranquila e entediante, é dela que o poeta fala em Cidadezinha qualquer:

3) No próximo vídeo, Drummond recita o poema No meio do caminho e fala sobre o espanto que ele causou na época, por sua simplicidade:

[BLOG] Drummond a seu pai: Como um presente

Neste poema, Drummond imagina uma conversa póstuma com seu pai no dia em que ele faria aniversário:

Como um presente

(…)

Em verdade paraste de fazer anos.
Não envelheces. O último retrato
vale para sempre. És um homem cansado
mas fiel: carteira de identidade.

(…)

Perdoa a longa conversa.
Palavras tão poucas, antes!
É certo que intimidavas.
Guardavas talvez o amor
em tripla cerca de espinhos.
Já não precisas guardá-lo.

No escuro em que fazes anos,
no escuro,
é permitido sorrir.

Como um presente (poema completo aqui), de Carlos Drummond de Andrade, se inicia como uma reflexão do filho na data do aniversário do pai, já morto. Ele relembra o último retrato do pai, seus olhos estriados e as mãos enrugadas do senhor já idoso, o aspecto cansado. O pai agitado, inquieto, finalmente está calmo, imóvel e essa contradição o impressiona. O poema é a conversa que nunca houve entre o filho e seu pai, que era homem de poucas palavras.

A força do pai, seu poder, os olhos que jamais derramavam lágrimas, o amor nunca demonstrado e a falta de sorrisos, que assombravam o menino, podem ser finalmente compreendidos de outra maneira: não são só a expressão de um pai severo, frio e distante, mas a expressão de um homem de seu tempo e sua classe, criado numa sociedade patriarcal, hierarquizada e opressora. Num mundo caduco, as relações de amor, família e sociedade se dão também de maneira torta, com indivíduos tortos de alguma forma.

Esse entendimento permite uma dupla redenção pela poesia: do pai, limitado pelo seu tempo e história, e do filho, que se liberta da mágoa até então guardada. O poeta consegue pela primeira vez conversar com o pai, já morto, e ligar-se a ele, senti-lo presente e compreendê-lo. Assim, o que o filho dá a seu pai como um presente no dia em que ele faria anos é a possibilidade de libertação, ainda que apenas após a morte, é a possibilidade de sorrir, ainda que no escuro.

 

[Marina Almeida]

José Paulo Paes: poesia crítica

Jose Paulo Paes.jpgJosé Paulo Paes nasceu em 22 de julho de 1926 e publicou seu primeiro livro de poesias em 1947. Cronologicamente, portanto, pertence à geração de 1945, mas sua obra se diversifica bastante do lirismo e seriedade desse período. Em sua busca por concisão, desafetação e intensidade, o poeta se aproxima do concretismo. Mas há um grande diferencial de Paes frente aos outros concretistas: seu forte espírito crítico e satírico, muito utilizado na crítica político-social à situação pela qual o país passava nos anos de ditadura militar.

Os recursos gráficos potencializaram sua tendência ao poema curto e sintético. O poeta busca o recorte exato e revelador para levar sua palavra de rebeldia da forma mais depressa e eficaz possível. Olha para o pequeno, cotidiano, banal – herança modernista –, e busca ali a representação do mundo grande, refletido no pequeno.

A dimensão pública de sua obra acontece com maior força no momento em que os direitos civis estão mais ameaçados no país. Em Saldo, publicado no livro De meia palavra, a situação brasileira parece tocar o poeta que, triste com o que vê, também fala o mínimo, pois o que se há mais para dizer?

Saldo
a torneira seca
(mas pior: a falta
de sede)

a luz apagada
(mas pior: o gosto
do escuro)

a porta fechada
(mas pior: a chave
por dentro)

O poema chama a atenção para as forças externas que reprimem quem não tem força para lutar, pois sente-se também por dentro seco, escuro, fechado, voluntariamente ou não.

Ele também escreveu um livro de poemas infantis chamado Poemas para brincar, que li e reli muitas vezes quando criança. E num cartão perdido em alguma caixa da minha casa tem um poeminha que ele fez para mim quando nasci, a pedido de meu pai 🙂

Convite

Poesia é… brincar com as palavras
como se brinca com bola,
papagaio, pião.

Só que bola, papagaio, pião
de tanto brincar se gastam.

As palavras não:
Quanto mais se brinca com elas,
mais novas ficam.

Como a água do rio
que é água sempre nova.

Como cada dia que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?

Conheça outros poemas do autor: https://www.pensador.com/autor/jose_paulo_paes/

[Marina Almeida]

Conheça a escritora Ana Cristina Cesar

 

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Ana Cristina Cesar, ou Ana C., como era conhecida, foi uma escritora, poeta e tradutora brasileira. Sua obra em tom confessional e íntimo é também irreverente e muitas vezes enigmática. Nascida em 1952, no Rio de Janeiro, ela participou do movimento Literatura marginal dos anos 70 e seus primeiros livros foram edições caseiras mimeografadas. Em 1982 publicou pela editora Brasiliense A Teus Pés, reunindo novos poemas e reeditando os livros publicados de forma independente. Um ano depois, aos 31 anos, a autora se suicidou e boa parte de sua obra conhecida hoje foi publicada postumamente. São rascunhos e poemas inéditos, correspondências pessoais e traduções, além da reedição de artigos publicados em jornais, ensaios sobre literatura e tradução.

Em 2013, no livro Poética, a Companhia das Letras publicou sua obra completa. Alguns trechos estão disponíveis em pdf aqui: http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13623 Em 2016, ela foi homenageada na Festa Literária Internacional de Paraty.

Saiba mais:

A obra e o processo de criação da autora: http://www.revistaserrote.com.br/2016/06/meios-de-transporte-por-alice-santanna/

Sobre a construção poética de Ana Cristina César: http://www.cartaeducacao.com.br/aulas/medio/jogos-poeticos/

Conheça outros poemas: http://www.avozdapoesia.com.br/autores.php?poeta_id=212

Confira um de seus poemas:

Chove

A chuva cai.

Os telhados estão molhados,

Os pingos escorrem pelas vidraças.

O céu está branco,

O tempo está novo.

A cidade lavada.

A tarde entardece,

Sem o ciciar das cigarras,

Sem o jubilar dos pássaros,

Sem o sol, sem o céu.

Chove.

A chuva chove molhada,

No teto dos guarda-chuvas.

Chove.

A chuva chove ligeira,

Nos nossos olhos e molha.

O vento venta ventado,

Nos vidros que se embalançam,

Nas plantas que se desdobram.

Chove nas praias desertas,

Chove no mar que está cinza,

Chove no asfalto negro,

Chove nos corações.

Chove em cada alma,

Em cada refúgio chove;

E quando me olhaste em mim,

Com os olhos que me seguiam,

Enquanto a chuva caía

No meu coração chovia

A chuva do teu olhar.

[BLOG] Três poemas em homenagem às mães

Neste Dia das Mães (e no ano todo), que elas tenham tudo o que merecem, começando por empatia, respeito e liberdade. Cada mãe é uma mulher com história e características únicas — e nada mais inspirador do que a diversidade.

Selecionamos três poemas de grandes escritores brasileiros sobre o amor dos filhos pelas mães:

Ensinamento

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor. Essa palavra de luxo.
(Adélia Prado)

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
(Carlos Drummond de Andrade)

MÃE…

São três letras apenas,
As desse nome bendito:
Três letrinhas, nada mais…
E nelas cabe o infinito
E palavra tão pequena
Confessam mesmo os ateus
És do tamanho do céu
E apenas menor do que Deus!
(Mario Quintana)

Gostaria de transformar a trajetória da sua mãe ou de sua família em livro? Conheça nosso trabalho.