Natal em letras

Que o humor de Drummond, a comoção de Rubem Alves, a gula (recheada de ironia) de Mário de Andrade, o abraço terno e nostálgico de Vinicius e o lirismo fraterno de Pessoa façam parte do seu natal. É o que nós desejamos a todos vocês!

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Este Natal

“— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava-os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.”

O humor e a ironia de Drummond nos ajudam a superar os perigos dessa época do ano. Leia aqui: http://www.releituras.com/drummond_estenatal.asp

 

O presépio

crib-1807861_1920-e1512527285302.jpgOs pinheiros eram bonitos, mas não me comoviam como o presépio: uma estrela no céu, uma cabaninha na terra coberta de sapé, Maria, José, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados com reis e anjos numa mansa tranqüilidade, os campos iluminados com a glória de Deus, milhares de vaga-lumes acendendo e apagando suas luzes, tudo por causa de uma criancinha. A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança.

Leia Rubem Alves contando sobre seu natal de menino em Minas Gerais: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2312200804.htm

 

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Peru de Natal

“Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas…”

Leia o conto completo de Mário Andrade sobre gulas natalinas e relações familiares complicadas: http://www.releituras.com/marioandrade_natal.asp

 

Poema de Natal

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Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Conheça mais da obra de Vinicius de Moraes: http://www.viniciusdemoraes.com.br

 

O guardador de rebanhos (canto VIII)

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Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

(…)
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
……………………………………………
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
……………………………………………
Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Pessoa, sob o heterônimo de Alberto Caeiro, nos apresenta um encontro do poeta com Jesus, feito outra vez menino, criança a brincar e correr pelos campos. Leia aqui o poema completo: http://www.releituras.com/fpessoa_guardador.asp

Ou ouça a interpretação de Abujamra: https://www.youtube.com/watch?v=zoZ3q7ON5wA

 

 

10 tradições de Natal pelo mundo

1. Itália

Na Itália, quem distribui presentes para as crianças no Natal é a Befana, uma velhinha que anda montada numa vassoura carregando um saco com caramelos, chocolates e brinquedos. A personagem tem origem pagã, mas a tradição popular conta que os Reis Magos a caminho de Belém pararam para pedir informações para uma velha. Ela recebeu os visitantes em sua casa e foi convidada a acompanhá-los na visita ao menino Jesus, mas recusou. Mais tarde, arrependida, ela tentou reencontrá-los, mas não conseguiu. Desde então, para em todas as casas pelo caminho e distribui doces às crianças, na esperança de que uma delas seja o Menino Jesus.

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2. Portugal

Em Portugal, nas festas natalinas é tradição comer o Bolo-rei: um bolo em forma de coroa, coberto e recheado com passas, castanhas, e frutas secas e cristalizadas. Tradicionalmente também é colocada uma fava seca e um brinde na massa: quem receber o pedaço com a fava terá de pagar o bolo do próximo ano e quem achar o brinde terá muita sorte. Em 1910, quando foi proclamada a república em Portugal, o bolo chegou a receber outros nomes, até mesmo de bolo-presidente, mas com o tempo ele voltou a ser chamado pelo nome original (aprenda a fazer aqui. Não gosta de frutas cristalizadas? Experimente o Bolo Rainha).

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 3. Islândia

Na Islândia, 13 duendes visitam as crianças nos 13 dias que antecedem o Natal para brincar e fazer traquinagens. Nessas noites, as crianças colocam seus sapatos nas janelas e os duendes deixam presentes para as que se comportaram bem e batatas podres para as que se comportaram mal. Além de levar presentes, os duendes gostam de aprontar travessuras nas casas que visitam e seus nomes – “o “espiador de janelas”, o “ladrão de salsichas” e o “lambedor de colheres”, entre outros – já mostram o tipo de coisa que eles fazem.

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O Espiador de Janelas e o Batedor de portas

4. Filipinas

Em San Fernando, a “capital do Natal nas Filipinas” acontece o Festival das Lanternas Gigantes, uma competição entre vilarejos para ver quem cria as lanternas mais elaboradas. Hoje, algumas lanternas chegam a medir mais de seis metros, formando desenhos num caleidoscópio de luz.

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5. Alemanha

Em pleno inverno, não faltam bebidas fortes no Natal alemão. As mais tradicionais são o Glühwein, parecido com o nosso vinho quente (aprenda a fazer), e o Jägertee, o Chá dos caçadores, uma bebida quente e de alto teor alcoólico, feita a partir da mistura de diversas ervas. Já a estrela da ceia é o ganso, mas ainda há espaço para o pato ou para o salsichão.

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6. Áustria

Na Áustria, na região dos Alpes, o Natal é a época dos Krampus, criaturas de aparência demoníaca, com chifres e pele de ovelha pelo corpo. Enquanto São Nicolau presenteia as crianças boas, os Kraus assustam as más com chicotes e correntes. Nos anos 1930, a tradição chegou a ser proibida no país, mas ressurgiu no final do século e perdura até hoje, com desfiles onde pessoas fantasiadas assustam os espectadores (leia mais).

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7. Rússia

Sabia que na Rússia o Natal é comemorado dia 7 de janeiro? A Igreja Ortodoxa Russa festeja o Natal de acordo com o calendário juliano, “atrasado” em 13 dias em relação ao nosso calendário, o gregoriano, por isso essa diferença. E o Papai Noel russo se chama Ded Moroz, ou Vovô do Frio, que visita as crianças acompanhado de sua neta, a nevezinha.

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8. Austrália

Saem os bonecos de neve e entram os bonecos de areia. E que tal um Papai Noel surfista? Na Austrália, assim como no Brasil, o Natal acontece em pleno verão, por isso a tradição lá é comemorar a data na praia, com muitos peixes e frutos do mar.

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9. Colômbia

O Día de las Velitas (dia das velinhas) marca o início das festas natalinas no país. A tradição começou com velas e lanternas deixadas nas janelas e varandas das casas em homenagem a imaculada concepção de Maria. Hoje decorações muito elaboradas iluminam cidades inteiras.

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10. Japão

No Japão, de tradição budista, o Natal não é uma data muito importante e muitas vezes acaba sendo entendido como uma antecipação do dia dos namorados. Nos últimos anos, porém, surgiu uma ‘tradição’ diferente: comer frango frito de uma grande rede de fast-food americana neste dia. A procura é tanta, que é preciso reservar com antecedência!

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E você, como comemora o Natal? Tem muitas histórias dessa época? Quais as tradições da sua família? Sabe de onde elas vêm? Já pensou em registrá-las para as próximas gerações? Se precisar de nossa ajuda, é só entrar em contato!