Reaprendendo a caminhar: a história de Pedro Alves

Conheci Pedro no Caminho do Sertão. Enquanto caminhávamos por dezenas de quilômetros – eu calejando os pés, e ele calejando também as mãos, do aperto firme nas muletas –, ele me ensinava a ter tranquilidade para enfrentar os desafios da estrada e da vida. Esta é sua história:

 

Pedro por Patrícia Pacheco
Pedro Alves e seus recomeços. Foto: Patrícia Pacheco

Aos 32 anos, Pedro Alves estava casado, tinha filhos e trabalhava como vigia noturno numa empresa. Naquela altura, ele já tinha superado a dureza do trabalho infantil no campo – onde ajudava os pais no plantio de milho, mamona e feijão desde os 7 anos de idade, muitas vezes trocando a escola, a 5 km de caminhada, pela enxada sob o sol quente de Irecê (BA). Mas no dia 20 de maio de 2011, durante seu expediente, um disparo atravessou o caminho, e também sua perna esquerda. Calibre 12. “Eram cerca de 22h30 e eu vi a morte na minha frente”.

Pedro estava perdendo muito sangue, e com ele os sentidos, mas conseguiu se arrastar até o telefone para pedir socorro. Ele ainda se lembra do foco de luz da viatura da polícia que chegava, como uma esperança a se agarrar.

A noite foi longa. O hospital local não tinha as condições necessárias para atendê-lo e foi preciso fazer sua transferência para uma unidade maior. Quando chegou ao hospital de Campina Grande, a 450 km de São Bento (PB), onde vivia, já passava das 5h da manhã. Apesar de suas condições, as lembranças de Pedro ainda são nítidas: “pedi ao médico que colocasse minha perna no lugar. Não acreditei quando acordei da cirurgia e vi que ela não estava mais lá”.

 

Recomeços

Três dias depois, ele estava de volta à sua cidade, mas recomeçar foi difícil. Ele tinha perdido uma perna, o emprego e o rumo. “Minha esposa tinha vergonha de ser vista comigo, andando com uma perna só. Meu casamento acabou e muitas pessoas, ao me verem sozinho, acharam que seria meu fim.”

Pedro chegou a conseguir um novo emprego, de garçom, em uma churrascaria. “Mesmo com uma perna só eu atendia os clientes, mas ainda não estava bem. Foi quando resolvi sair pelo mundo à procura de novos horizontes.” Ele tinha uma irmã morando em Uauá, no norte da Bahia, e foi visitá-la por alguns dias.

Andando pela nova cidade, na região de Canudos e Monte Santo, parou para ouvir um artista local que se apresentava na rua. Foi quando algo inesperado aconteceu: “soltei as muletas e fui dançar no meio da praça – coisa que, quando eu tinha as duas pernas, eu não fazia! As pessoas foram se aproximando para ver… O músico parou de cantar para observar enquanto eu dançava, depois disse que aquilo era um exemplo de vida.”

Ali Pedro percebeu, pela primeira vez, que poderia recomeçar sua vida em Uauá. Alugou uma casa e começou a trabalhar na rádio comunitária Luz do Sertão, como locutor de um programa romântico e também como repórter cidadão pelas ruas da cidade.

É onde vive até hoje, apesar dos desafios que continua a enfrentar. “Amo o que faço, mas não ganho quase nada com isso. Do INSS são R$ 480, mas às vezes cortam o benefício e demora até conseguir restabelecê-lo, e só de aluguel são R$ 250. É difícil.”

Lutando a batalha de todo dia para viver num país como o Brasil e com uma deficiência física, Pedro buscava um sentido para sua trajetória. Ele conta que um dia estava na rádio quando ouviu sobre a Caminhada dos Umbuzeiros, um trajeto de 55 km a serem percorridos em três dias pelo sertão baiano. “Senti que era uma oportunidade para eu me redescobrir, liguei e me inscrevi. Queria ver até onde eu podia ir, qual era meu limite físico. Eu queria desafiar a mim mesmo, saber para que fiquei vivo depois de perder minha perna.”

Pedro por Patrícia Pacheco2
Nas caminhadas, Pedro supera limites e descobre novos horizontes para sua vida. Foto: Patrícia Pacheco

No dia da caminhada todos se surpreenderam ao conhecer Pedro pessoalmente e descobrir que ele usava muletas e não tinha uma perna. “Alguns caminhantes disseram que eu iria dar trabalho para eles durante o percurso. O maior desafio foi eu acreditar em mim mesmo e passar essa crença para as pessoas que estavam comigo. Tive medo, não vou dizer que não tive. Tive medo de desapontar a mim mesmo.” Mas Pedro conseguiu. E ali algo começou a mudar.

“Conseguir chegar foi um sonho realizado, o melhor presente da minha vida foi ter completado o percurso da Caminhada dos Umbuzeiros. Ali eu percebi que poderia ir muito mais além. Meu maior desafio não era nem a caminhada em si, era eu ter uma vida… normal.”

 

Atleta

Empolgado com a experiência, Pedro se inscreveu depois no Caminho do Sertão. O percurso – 180 km pelo noroeste mineiro – assustou-o, mas mesmo assim resolveu tentar e conseguiu completar a maior parte do trajeto.

Animado com as conquistas, ele participou de uma mini-maratona de 10 km e depois foi até São Paulo para a São Silvestre de 2017. “Tinha 18 pessoas na categoria deficiente por amputação da perna e eu cheguei em sexto lugar. Foi uma felicidade sem tamanho”.

Em 2018, aos 39 anos, ele voltou ao Caminho do Sertão para completar o trajeto incluindo o que faltava: o Morro do Fogo, com 3,5km de subida e depois descida, e o Vão dos Buracos, uma trilha estreita e íngreme que pede a subida em 4 apoios em alguns trechos.

“Tive medo, mas a vontade de vencer foi maior que o meu medo”.

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Com força e persistência, Pedro atravessa o sertão. Foto: Patrícia Pacheco

Foi nessa caminhada que conheci Pedro. Enquanto caminhávamos – eu calejando os pés, e ele calejando também as mãos, do aperto firme nas muletas –, ele me deu conselhos sobre ter tranquilidade para enfrentar os desafios.

Pedro pretendia voltar à São Silvestre em 2018, mas não conseguiu os recursos para a viagem – ele não tem nenhum apoio institucional, apesar de ter a resistência de um atleta. Em 2019, ele vai tentar novamente.

“Tudo isto tem servido para eu ser grato a Deus. Podemos pensar que estamos entregues, mas ainda conseguimos enxergar um novo horizonte. Esta é minha história”.

***

Mais sobre o Caminho do Sertão

E meu relato pessoal sobre a caminhada: Pelos caminhos do Grande Sertão: Veredas

[Por Marina Almeida]

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Geraldinho: a alegria e os causos do interior do Brasil

geraldinhoGeraldinho Nogueira era um contador de causos, um homem que falava a língua da roça, do interior do Brasil e fazia todos rirem com suas histórias e suas habilidades cênicas para a narração. Conta-se que Geraldinho não perdia uma oportunidade de contar (e alegrar com) suas histórias. Toda hora era hora: na roça, nas festas, no boteco, nas folias, quermesses e – acreditem – até nos velórios!

Natural de Bela Vista de Goiás (GO), Geraldinho não tinha estudos e dizia “minha caneta é a enxada na saroba”. Ainda assim, seus causos chamaram a atenção tanto pela originalidade quanto por sua linguagem única. Seu talento foi revelado por Hamilton Carneiro e José Batista em 1984. Eles levaram os causos de Geraldinho para o programa Frutos da Terra, da TV Anhanguera, o que trouxe reconhecimento nacional para o contador.

Além das características próprias da linguagem regional e oral, as histórias de Geraldinho utilizam-de de variações estilísticas para criar seu efeito cômico e original. Como bom contador de causos, Geraldinho usava expressões muito criativas: “subaquim da perna” (atrás do joelho), “recursim de minguar a toada” (freio), “esgotamento do mês” (menstruação), “molas do jueio” e “ferramenta de mijá” são algumas das expressões que se tornaram sua marca.

Antes de se apresentar para o grande público na TV, o linguajar do contador de causo sofreu algumas alterações. Orientado pelo apresentador e empresário, adequou sua linguagem aos meios de comunicação, removeu algumas palavras e expressões que conteriam “excessos de regionalismo”. Mas a originalidade de Geraldinho está justamente em sua habilidade com a linguagem e em sua espontaneidade.

Geraldinho Nogueira é um dos grandes contadores de causos do Brasil. Apesar de bastante esquecido após sua morte, seu trabalho merece ser preservado pela maestria com que trabalhava a linguagem dos contos e a originalidade de suas histórias.

Conheça o “Causo da Bicicleta”, uma de suas histórias mais famosas:

 

Você ou seus familiares também têm muitos causos para contar? Já pensou em registrar essas histórias como forma de preservá-las? Nós, da Daria um livro, podemos ajudá-lo nesse trabalho, com muito respeito às suas histórias e valorizando a linguagem original do contador. Entre em contato conosco!

 

Objetos de memória

Quando minha avó chegou ao Brasil com minha mãe, trouxe, no navio, um baú de ferro e madeira. Quando eu era criança, fazia de conta que aquele era o baú de um tesouro pirata.

Eu gostava de abrir a caixa pesada e ficar remexendo nas coisas que estavam dentro dela. Brincava que eram meus tesouros, embora nada ali se parecesse com as moedas de ouro e as joias que eu via nos filmes de pirata.

A verdade é que só hoje eu consigo perceber que aquele baú realmente guardava – e guarda – alguns dos tesouros da minha família.

Nosso baú está cheio de tecidos: toalhas, colchas, panos bordados, retalhos diversos. Minha avó costurava, e cada pedaço de pano ali tem uma história. Entre eles, uma toalhinha feita do linho que minha própria bisavó plantou, colheu, lavou, fiou, teceu e costurou. Tudo feito em casa por mãos que nunca cheguei a conhecer, mas que se comunicam comigo não só pelo desenho de minhas digitais, mas pelo toque de seu trabalho manual.

No baú também está uma colcha de frio feita com a lã dos carneiros que minha família criava em Portugal.  E alguns dos retalhos de pano comprados por minha avó na feira, já aqui no Brasil – tecidos que, com muita criatividade, foram transformados em peças de roupa para toda a família, e sem nenhum remendo visível, como até hoje todos se orgulham de lembrar.

Também estão lá os bordados da minha mãe, a renda fina da Ilha da Madeira dada pela vizinha em troca de um empréstimo num momento de necessidade…

Alguns objetos podem guardar parte da nossa história. Os trabalhos manuais são recordações que nos permitem tocar as mãos de outras gerações. E não precisam ser coisas grandiosas ou caras – importa apenas que nos ajudem a contar, sentir e ver um pouco da história que fez nossa vida ser o que é. Ainda quero aprender a tecer algo com as mãos, para dar minha contribuição ao nosso baú.

E você? Que objetos contam sua história?

E já pensou em transformar a história de sua família em livro? Conheça nosso trabalho.

[Marina Almeida]

Vingança e injustiça: de quantas dores é feito um rio?

capaNo reino das palavras, os poemas esperam calmamente o momento em que serão escritos, dizia Drummond. Acredito em algo parecido quanto aos romances, que algumas tramas já existem e aguardam que alguém as desenlace com as palavras certas para que possam finalmente ganhar vida. Ao ler O rio de todas as nossas dores (2017) essa ideia me veio novamente à mente. A obra fala sobre uma vingança que se alimenta de uma das muitas injustiças sociais surgidas no período militar brasileiro. Se ainda estamos longe de acertar nossas contas com esse passado ao contrário, continuamos produzindo esse tipo de ação violenta , desta vez, ao menos, essa história foi finalmente escrita. Um passo importante para nos fazer lembrar dessas histórias e suas implicações futuras.

O livro fala ainda de histórias que não costumam ser contadas, lugares geralmente esquecidos, dos trabalhadores em suas lutas diárias, da vida que se leva do jeito que dá enquanto tudo acontece. E se às tensões do cotidiano soma-se o suspense da trama, outros momentos de grande lirismo nos lembram que, apesar de tudo, nunca se atravessa duas vezes o mesmo rio: são outras as águas, outras as dores.

A obra traz uma narrativa não convencional, em que os tempos se mesclam e pensamento e ação misturam-se, sem, no entanto, comprometer a fluência da narrativa. Já as situações inusitadas, o clima de suspense que permeia todo o livro, e ainda algumas doses de humor, garantem uma leitura fácil e envolvente.

O livro é uma publicação independente do jornalista João Caetano do Nascimento, que atua nos movimentos culturais e sociais na Zona Leste de São Paulo desde a década de 1970 e ficou entre os finalistas do Prêmio SESC de Literatura de 2011 com seu primeiro romance, não publicado.

O rio de todas as nossas dores pode ser adquirido diretamente com o autor ou pelo site da editora Expressão Popular: https://expressaopopular.com.br/loja/produto/o-rio-de-todas-as-nossas-dores/

O  rio de todas as nossas dores
Romance, 2017: 230 páginas; R$ 30,00
Edição do autor – João Caetano do Nascimento
Ilustração de capa – Rodrigo Martins

[Marina Almeida]

Documentos de família revelam história secreta

O remanescente (Cia. das Letras) é uma história de perda e de reinvenção de si. É também a história de um neto que, ao vasculhar as gavetas dos avós, descobre fotografias, cartas e documentos que revelam a trajetória de sua família. O mergulho na vida de seus antepassados, dessas pessoas com quem conviveu, mas que até então não tinha sido capaz de compreender, deu origem ao livro em que Rafael Cardoso conta suas descobertas.

Seus avós, um alemão e uma judia, chegaram ao Brasil fugindo do holocausto e da perseguição nazista. O país, no auge do Estado Novo, ainda flertava com os alemães, e por isso seus avós se protegeram sob uma nova identidade. O autor lembra que os avós nunca falavam sobre assuntos de guerra e exílio: “talvez porque não quisessem repassar os traumas para os netos. Talvez porque nunca os tivessem superado”. Foi só aos 16 anos que Rafael descobriu que tinha ascendência alemã e judia, e só muitos anos depois ele resolveu pesquisar essa história a fundo.

Nesse mergulho, o autor chegou à história de seu bisavô, Hugo Simon, que foi banqueiro e ministro de Finanças da Prússia, socialista, mecenas e colecionador de arte. Pacifista, junto com seu amigo Albert Einstein, ele fundou um movimento que deu origem à liga alemã pelos direitos humanos. Uma história só recuperada agora, quase 80 anos depois.

Você conhece as histórias de sua família? Quais os segredos guardados pela trajetória de seus pais e avós que podem estar se perdendo com o tempo? Registrar essas histórias em livros pode revelar muitas surpresas e garantir que esse legado chegue às futuras gerações. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando a preservar suas memórias.

[Marina Almeida]

Seu Chico: histórias para não esquecer

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— Você que tá aí tem férias, não tem? Tem sua folga… E de premero não tinha férias e descanso nem de 5 minutos. Eu mesmo não tive. Sabe como era o descanso? Era capinando no meio do mato. De premero não tinha tempo de conversar um com o outro assim como eu tô conversando c’ocê. Hoje em dia tá bom demais.

Na rua quase sem movimento de meio de tarde em Milho Verde (MG), Seu Chico, que finalmente tem um pouco de tempo, puxa assunto com os passantes seja gente conhecida ou a se conhecer. Sentado de cócoras na frente de sua casa, olhos apertados para a rua quarada pelo sol do cerrado e sorriso de poucos dentes, ele acolhe quem passa com simpatia e muitos casos.

— No tempo de eu menino, comecei a trabalhar eu tava com 4 anos e meio, que era a idade que começava… Pegava serviço era cedo, bebia café, pegava uma pazinha redonda e ia pra roça ainda tava meio escuro. Ia carregar lenha na cabeça. Comia banana pra aguentar até as sete horas da noite, das 7 às 7. Agora hoje em dia tem descanso de almoço, uma hora, de premeiro não. Tinha dia que ia comer era só arroz. Você é menina nova, mas eu tô com 83, já vou completar 84 anos e ainda tô querendo trabalhar!

— O senhor está bem forte!

— Mas de premero o povo vivia mais. Meu avô viveu 120 ano. 120 ano! E meu pai chegou aos 130. Hoje não vive assim, não. Porque comia melhor. Comia sopa… o caldo de mocotó com a gordura, né? De osso gordo. Hoje fica tirando a gordura da carne. De premero, não. Era mocotó, gordura, osso gordo…

Mas ele logo lembra que a gordura às vezes ainda era muito pouca:

— Nego só comia angu, às vez arroz branco, feijão, macarrão, carne, costela… Um dia um nego disse assim: “vou comer com o sinhô, quer ver?”. Falou que tinha diamante, aí foi convidado pra comer com o sinhô. Sujou tudo porque não sabia comer na mesa, né, comeu carne e tudo, tava satisfeito. Muito bem, no final, o sinhô perguntou do diamante, o nego falou: “eu disse que tem diamante, não que eu tinha um”.

Nós rimos da esperteza e do esforço que se faz por uma boa refeição.

— Isso é do tempo que minha vó era menina. Ela conta esses casos. Era muito sofrimento pros negros. Gosto de contar essas histórias pros mais novo, pra não esquecer, saber o que foi.

Tradições
Seu Chico sabe casos e cantos. Lembra orgulhoso que foi chamado para ensiná-los às crianças na escola:

— Os véio que sabe a cantiga do tempo da escravidão levaram na escola a modo de a professora poder seguir pra frente, senão acaba, né?

E canta para mim. A primeira música fala do nego que caiu no sono enquanto vigiava a plantação de arroz. Acordou com o Assum preto comendo tudo e foi logo correndo e tocando:

— “Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô passarinho, que o arroz é de Deus…”

Seu Chico fala das festas, da Marujada, da procissão, da festa de São Benedito, cada uma com suas tradições e suas músicas.

— “Meu São Benedito, vossa casa cheia, cheira cravo e rosa, flor de laranjeira…” Você que tá aqui, ocê já viu festa aqui?

— Aqui não.

— Vem que ocê vê essas cantigas que eu tô cantando e ainda tem mais um monte. Canta no meio da rua, na porta de casa, o povo vai lá pro terreiro.

Ele lembra de mais uma:

— “Papagaio come milho, periquito levou fama. Papagaio come milho, periquito levou fama…” É muito interessante. Nós somos periquito, o papagaio tá rasgando espiga de milho, lá no pé, nós tamo debaixo catando, tamo na rua trabalhando…

Ele vai explicando as músicas, o significado das histórias… Por trás do seu jeito simples, ele sabe da importância do que conta:

— Sei mais de cem música sem olhar papel. Muita cantiga do tempo da escravidão. Eu gosto de contar pros novos. Porque muitos véio às vez sabe cantar, mas não é capaz de explicar o que vem a ser a cantiga, né? Fica embasbatado. Eu gosto de contar…

Seu Chico não mora sozinho e logo dona Maria da Luz aparece na janela. A senhora negra, de cabelos curtos, emana força, apesar do corpo magro e da idade avançada. É curandeira, descubro depois. E ciumenta – não gosta de seu Chico cheio de conversa na porta de casa. Ela empilha uns sacos de urucum na janela enquanto pergunta meu nome, depois diz para ele:

— Passa para dentro – e volta para o interior da casa.

— A mulher viu que eu tava falando perto d’ôce, entrou pra dentro, não gosta, não – ele explica, mas continua a conversa sem pressa.

— Eu tô com problema no olho, mas ainda vejo ó…

Seu Chico pega um punhadinho da terra arenosa do cerrado na mão. Elas formam pequenas pedrinhas que ele separa com os dedos enquanto conta:

— Um, dois, três, quatro, cinco… Tá veno? Eu ainda vejo!

A casa
Agora ele me convida para entrar. Hesito, mas ele insiste.

— Entra pra lá!

Na sala de paredes já gastas e manchadas pelo tempo, muitas imagens de santos, uma foto de criança, algumas fotos de seu Chico, alguns recortes de revistas enquadrados. Na mesa, sobre uma toalha de plástico, um pequeno altar com muitas imagens, flores de plástico, um filtro de barro com um paninho bordado e já amarelado por cima, duas garrafas de água, um prato para velas.

Seu Chico me aponta para uma foto sua na parede, roupa colorida, boné e penacho vermelho e amarelo na cabeça, sorriso aberto.

— É na festa da procissão, né?

Ele confirma:

— Na festa é dança, a gente vai pra entrada da rua com um monte de canto. E eu só vivo alegre porque ó…

E me conta feliz sobre como ainda está ativo:

— Eu tô velho, mas ainda tô trabalhando. Ainda faço vassoura… – entra no quarto para pegar alguma coisa e volta com um saco cheio de vassouras de palha.

— Olha como ainda trabalho! Ainda gosto de trabalhar!

Pergunto se posso contar sua história no meu blog, tento explicar, ele parece não entender muito, mas repete:

— Gosto de contar pros mais novo, é bom pra poder ficar sabendo pra frente, senão acaba, né, senão acaba…

Entendi a resposta como um sim.

Eu finalmente me despeço de seu Chico, não quero irritar dona Maria da Luz.

— Vai com Deus. Depois ocê passa pra nós contar mais caso – ele diz, enquanto acena.

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Seu Chico mostrando as vassouras de palha que faz

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Fui conhecer um pouco mais do pequeno distrito de Milho Verde, em Minas Gerais. Mais tarde encontrei-o novamente. Estava sentado aos pés da pequena igreja do Rosário contemplando o final da tarde. Ao seu lado, um cachorro se esparramava pelo gramado. Já faz algum tempo que estive lá, mas demorei para escrever essa história. Pesquisando agora sobre a região, descobri que seu Chico morreu em agosto deste ano. Foi enterrado ao lado da igrejinha onde ele gostava de ver a noite chegar.

Vai com Deus, seu Chico. Você já contou muito caso e cantiga para nós, agora nós é que contamos as suas por aí. Pros mais novos saberem o que foi e não esquecerem.

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[Fotos e texto: Marina Almeida]

[BLOG] Fotografar ajuda ou prejudica nossa memória?

Nunca tivemos nossas experiências tão mediadas por telas como nos dias de hoje. Em locais turísticos, shows, museus, diante de um prato de comida visivelmente apetitoso… Lá está a câmera do celular apontando para as coisas do mundo. Será que, na ansiedade de registrar o momento em bits e pixels, estamos esquecendo de viver? Perdemos contato com a realidade? Estamos deixando nossos cérebros preguiçosos e transferindo o papel de memorizar para os arquivos digitais?

Embora tirar momentos para se “desintoxicar” da vida digital e enxergar as coisas apenas com os próprios olhos possa ser mesmo uma boa ideia, talvez nossa situação não seja assim tão desesperadora. A fotografia, afinal, não é uma vilã: pesquisas recentes apontam que o ato de fotografar nos ajuda a recordar com mais eficiência dos aspectos visuais de um determinado momento — mesmo que nunca mais olhemos de novo para a foto.

Muitas dessas pesquisas são feitas em museus, buscando comparar as recordações mentais de dois grupos: pessoas orientadas a fotografar os objetos e pessoas orientadas a não tirar fotos. Nos estudos mais recentes, aquelas que fotografaram — sobretudo se tivessem usado o recurso de zoom para capturar detalhes — conseguiram reconhecer mais objetos do que o outro grupo. Por outro lado, aqueles que fotografaram também tiveram desempenho pior ao tentar recordar as explicações em áudio sobre as obras.

Efeito back-up?
Pesquisas realizadas nos anos 1960 apontavam para um fenômeno chamado “cognitive offloading” (“descarga cognitiva”), uma espécie de esquecimento intencional: como nosso cérebro sabe que pode contar com outros dispositivos para se lembrar de objetos e afazeres, ele economizaria esforços e deixaria de memorizar essas coisas. Faz sentido, principalmente se pensarmos em recursos como listas de compras e receitas.

A hipótese atual, contudo, é que o comportamento do cérebro dependeria, na verdade, da nossa intenção ao realizar determinado registro num suporte externo (papel, galeria do celular etc.). Se escrevemos um aviso no papel simplesmente para tirá-lo da nossa cabeça e reduzirmos nossa preocupação, o cérebro “relaxa” e abre mão daquela memória. Mas, se o que queremos é guardar o registro de algo que foi significativo para nós, essa motivação pode nos ajudar a olhar com mais atenção para os detalhes ao fotografar — e, consequentemente, produzir recordações mentais mais ricas.

(Adaptado de How Taking Photos Affects Your Memory of the Moment Later On – Nymag.com)

Você tem fotografias que são muito importantes para você? Guarda imagens antigas da família, registros de viagem, fotos dos filhos quando pequenos? A Daria um Livro pode ajudar você a reunir todas essas imagens num livro, acompanhadas de textos produzidos com muito cuidado. Conheça nosso trabalho e entre em contato conosco.

[FLÁVIA SIQUEIRA]

Leia também:

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4 dicas para editar e organizar suas fotos digitais

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[BLOG] Por que nos esquecemos?

Tendemos a achar que ter uma boa memória é se lembrar de tudo — ou quase tudo. Mas será que carregar em nossa mente tanta informação sobre coisas do passado seria mesmo algo desejável? De acordo com um artigo publicado por dois neurocientistas na revista Neuron, o esquecimento exerce, sim, um papel importante em nosso cérebro.

Segundo eles, a memória não tem a função de gravar tudo o que vemos e ouvimos, mas de registrar informações e regras que sejam úteis para tomarmos decisões. Ela deve ser seletiva, portanto. Por isso, faz todo o sentido que o cérebro se livre de informações irrelevantes e desatualizadas — coisas que, se não caíssem no esquecimento, poderiam até nos causar problemas no dia a dia.

E esquecer não sai “de graça” para o cérebro: na verdade, ele gasta energia para desfazer antigas conexões entre os neurônios e substituí-las por novas. Se evoluímos ao longo de milênios para operar dessa maneira, é porque deve valer a pena.

Esquecer nos deixa mais eficientes. Imagine, por exemplo, que você memorize o nome errado de uma pessoa — se você não conseguir esquecê-lo e substituí-lo pelo nome correto, acabará sempre se confundindo. Outro aspecto útil do esquecimento é impedir que a mente gaste energia se apegando a inúmeros detalhes e consiga, em vez disso, formar “quadros gerais” para definir objetos e situações.

De qualquer maneira, não existe uma fórmula que defina o que vamos esquecer e do que vamos nos lembrar. Esquecer-se logo em seguida ou lembrar-se de algo por anos (ou talvez pela vida inteira) são caminhos que dependem de muitos fatores: a novidade da situação, o grau da nossa atenção naquele momento, o nível de adrenalina no organismo. Memórias de eventos traumáticos, por exemplo, continuam conosco porque o cérebro as entende como informações importantes para nossa sobrevivência.

Portanto, esquecer-se é uma função do cérebro, e não um defeito.

(Traduzido e adaptado de Are you forgetful? That’s just your brain erasing useless memories | The Verge)

Mas é claro que há maneiras de driblar nossa tendência ao esquecimento. Há muita coisa que merece ser lembrada! Você costuma registrar os bons momentos? Guarda com você as boas histórias vividas ao lado de amigos e familiares? Criar um livro com essas histórias (e lições) pode ser uma forma de autoconhecimento, além de um belo registro para as gerações futuras. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias.

[Flávia Siqueira]

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Memórias que atravessam gerações (por meio de seus genes!)

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Por que escrever nos ajuda a viver melhor

[BLOG] Ecléa Bosi e seu pensar sobre a memória

Morreu nesta segunda-feira (10) a professora e pesquisadora Ecléa Bosi. Ecléa era professora emérita do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e foi a idealizadora do Programa Universidade Aberta à Terceira Idade.

O tema memória é central em seu trabalho. No livro Memória e sociedade – Lembranças de velhos (Companhia das Letras, 1994), Ecléa faz um resgate não apenas das informações sobre o passado de famílias imigrantes na cidade de São Paulo, mas da arte e do trabalho de viver, lembrar, narrar e registrar. Velhos somos e seremos todos — e isso é bom (e necessário). Leia, a seguir, alguns trechos do livro:

“A criança recebe do passado não só os dados da história escrita; mergulha suas raízes na história vivida, ou melhor, sobrevivida, das pessoas de idade que tomaram parte na sua socialização. Sem estas haveria apenas uma competência abstrata para lidar com os dados do passado, mas não a memória.”

“Curiosa é a expressão ‘meu tempo’ usada pelos que recordam. Qual é o meu tempo, se ainda estou vivo e não tomei emprestada minha época a ninguém, pois ela me pertence tanto quanto a outros, meus coetâneos?”

“A memória do trabalho é o sentido, é a justificação de toda uma biografia. Quando o sr. Amadeu fecha a história de sua vida, qual o conselho que dá? De tolerância para com os velhos, tolerância mesmo para com aqueles que se transviaram na juventude: ‘Eles também trabalharam’.”

“Por muito que deva à memória coletiva, é o indivíduo que recorda. Ele é o memorizador e das camadas do passado a que tem acesso pode reter objetos que são, para ele, e só para ele, significativos dentro de um tesouro comum.”

“É preciso reconhecer que muitas de nossas lembranças, ou mesmo de nossas ideias, não são originais: foram inspiradas nas conversas com os outros. Com o correr do tempo, elas passam a ter uma história dentro da gente, acompanham nossa vida e são enriquecidas por experiências e embates.”

“O narrador é um mestre do ofício que conhece seu mister: ele tem o dom do conselho. A ele foi dado abranger uma vida inteira. Seu talento de narrar lhe vem da experiência; sua lição, ele extraiu da própria dor; sua dignidade é a de contá-la até o fim, sem medo. Uma atmosfera sagrada circunda o narrador.”

“Há casas em cidades tranquilas em que o tempo parou; o relógio das salas é o mesmo que pulsava antigamente e as pessoas que pisam as tábuas largas do assoalho conservam um forte estilo de vida que nos surpreende pela continuidade.”

“Por que decaiu a arte de contar histórias? Talvez porque tenha decaído a arte de trocar experiências. A experiência que passa de boca em boca e que o mundo da técnica desorienta.”

 

 

Memórias que atravessam gerações (por meio de seus genes!)

hand-619733.jpgJá pensou se seu comportamento pudesse ser influenciado pela experiência de seus antepassados, mesmo que você não tenha convivido com eles? É o que aponta um estudo publicado na Nature Neuroscience.

A pesquisa treinou ratos para evitar o cheiro de flor de cerejeira e eles passaram sua aversão para seus filhos e netos, que se mostraram extremamente sensíveis ao aroma mesmo que nunca o tivessem experimentado. Segundo os pesquisadores, o evento traumático afetou o DNA no esperma dos animais e alterou os cérebros e o comportamento das gerações seguintes.

“As experiências de um pai, mesmo antes de conceber, influenciam marcadamente a estrutura e a função no sistema nervoso das gerações subsequentes”, concluiu o relatório.

Para os especialistas, os resultados são importantes para a pesquisa de fobia e ansiedade e fornecem “provas convincentes” de que uma forma de memória poderia ser passada entre as gerações. Eles apontam que essa abordagem multigeracional também pode ajudar a entender o aumento de distúrbios neuropsiquiátricos e de problemas como obesidade, diabetes e perturbações metabólicas em geral.

Fiquei pensando no quanto a história da minha família influencia meu modo de viver… E você? Sente isso de maneira forte também?

Registrar suas histórias e as de seus familiares pode ser uma forma de autoconhecimento, além de um belo registro de um legado que fica para as gerações futuras. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando você a preservar memórias.

A matéria completa sobre o estudo, publicada na BBC (em inglês), pode ser lida aqui: http://www.bbc.com/news/health-25156510

Foto: Pixabay.com

[Marina Almeida]