Entre Abismos – Aventura no Carstensz

mockupAtravessar o mundo para enfrentar dias de caminhada em meio a selva e lama. Com o corpo dolorido, após noites mal dormidas, ainda encarar uma escalada de quase 800 metros e andar sobre uma crista de montanha escorregadia, com abismos despencando pelos dois lados. O médico brasileiro Rafael Scanavacca relata essas experiências no livro Entre Abismos – Aventura no Carstensz, publicado pela Editora Extremos.

Fizemos o trabalho de revisão e preparação de texto para o livro, o segundo publicado por Rafael. A seguir, o depoimento do autor sobre nosso trabalho:

“Fiquei muito satisfeito. Os ajustes e sugestões não descaracterizaram minha linguagem original. O trabalho foi realizado de maneira tranquila, dentro do prazo combinado e sempre aberta a conversas – me senti muito à vontade para apontar os caminhos que preferia seguir. Eu certamente indicaria a Daria um Livro para trabalhos de revisão e preparação de texto.” (Rafael Scanavacca)

O livro amarra experiências vividas por Rafael no Nepal – onde ele presenciou o trágico terremoto de 2015 – e na Papua, província da Indonésia onde está localizada a Pirâmide Cartensz, montanha mais alta da Oceania e parte do projeto Sete Cumes.

Rafael Scanavacca conquistou o cume do Cartensz ao lado de montanhistas como Eduardo Sator Filho, Carlos Santalena e Thais Pegoraro –  ela, aliás, bateu naquele momento o recorde brasileiro de escalada dos Sete Cumes e assina o prefácio da obra.

Leia alguns trechos do livro Entre Abismos:

O terremoto de 2015 no Nepal

“Eu estava sentado na calçada de uma viela estreita quando senti um impacto que me empurrou para cima e me deixou em pé. Os prédios balançavam e tremiam, o chão se movia instável sob meus pés, como se eu tentasse me equilibrar numa placa de madeira sobre um rio. Por vezes tudo balançava de um lado para o outro, como se eu estivesse no convés de um navio atravessando um mar em tormenta. Pedaços de tijolos se desprendiam dos prédios e caíam à minha volta enquanto eu tentava me reequilibrar. Fiquei em pé e novamente fui jogado ao chão, vendo o asfalto da pequena rua se partir ao meio – uma rachadura foi se formando e percorrendo toda a sua extensão. Pessoas corriam desesperadas de um lado para o outro, tropeçando e se desequilibrando. Outro tijolo caiu muito perto de mim e se espatifou no chão, desfazendo-se em pó e pedaços. Era um aviso de que eu não podia ficar ali parado. Novamente fiz um esforço para me equilibrar, fiquei em pé e entrei numa pequena loja com a porta aberta para a rua. Uma mulher desesperada abraçava uma criança de cerca de cinco anos de idade, que berrava enquanto os pequenos suvenires empilhados nas prateleiras balançavam e vinham ao chão, mostrando que aquele também não era um lugar seguro. Voltei para o lado de fora e reencontrei ali meu amigo Gustavo Villa. Olhamos apavorados um para o outro e, com o pingo de racionalidade que nos restava, nos perguntamos: ‘o que a gente faz?’. Fomos nos arrastando em meio ao tremor pelo chão de asfalto, que mais parecia uma maré, e nos sentamos no meio da rua, tentando ficar o mais longe possível dos humildes e pequenos prédios de Katmandu e seus tijolos à mostra – e quem sabe minimizar o risco de algo cair sobre nossas cabeças. No fim da rua, um prédio cedeu e levantou uma grande nuvem de pó, como em uma implosão.  Ao me sentar, parei de brigar com o tremor, fiquei apenas observando e pensei: ‘meu Deus, estamos no meio de um terremoto’.”

A escalada da Pirâmide Carstensz

“Às 3h30 da manhã comecei a ouvir sons de pessoas se revirando dentro das barracas, pegando equipamentos e acendendo lanternas. Estava cansado, não tinha conseguido pregar o olho um minuto, na expectativa de como seria a escalada. Enquanto isso, meu companheiro de barraca, Carlos Mussoi, dormia o sono dos justos e roncava, com sua missão já concluída. Eu sabia que estava a um dia de concretizar um sonho e finalizar uma jornada que tinha relevância no mundo da escalada. Quantos escaladores mais experientes e dedicados do que eu não sonham em ter a oportunidade de escalar o Carstensz? E eu estava ali, deitado aos seus pés, a um dia de seu cume. A expectativa de como seria a escalada me deixava eletrizado, e o perigo que a cercava parecia tornar tudo mais real: a textura da rocha, a arquitetura da montanha, o perfil das nuvens. Tentava não imaginar o momento de chegada ao cume, para não dar azar. Sabia que seria uma subida difícil, que era um novato tentando acompanhar montanhistas experientes. Sabia que, apesar dos equipamentos de segurança, há sempre um perigo real.

(…)

Eu tinha dormido – ou, melhor, descansado – praticamente pronto, com casacos, luvas e equipamentos. Não queria perder tempo. Juntei-me ao grupo e vesti minha cadeirinha, conferindo as outras ferramentas de escalada: ascensor, freios e mosquetões. Em pouco tempo estávamos todos prontos. Havia silêncio, tensão e seriedade no ar. Ainda era noite e, sob a luz de nossas headlamps, fizemos um círculo e uma breve oração em respeito à montanha. Que ela nos deixasse escalar e nos permitisse voltar a salvo no fim do dia. Fizemos alguns minutos de silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos e motivações.

Saímos rumo ao Carstensz.

(…)

Logo começou a amanhecer e a crescente claridade foi revelando a imensa parede de pedra escura e vulcânica, sob o céu nublado e chuvoso da Papua. Caía uma fina garoa. Ao redor, eu podia ver os picos sem nome que se erguiam e pareciam maiores e mais ameaçadores do que antes. Ao lado, uma construção colossal, muito maior do que uma cidade e com aspecto feio e industrial. Também via um enorme buraco perfurado no chão em meio a camadas e camadas de terra e pedras reviradas, e um rio cor de lama esbranquiçada. Era a mina de ouro, uma presença incômoda e que destoava da paisagem.

A escalada foi se tornando cada vez mais íngreme e exposta e às vezes fazia minha cabeça rodopiar. Sob meus pés, a parede despencava por 400 metros; para cima, elevava-se com autoridade por 370 metros em direção à crista.”

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Uma visita à casa (e à obra) de Guimarães Rosa

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Cordisburgo (MG) é uma cidadezinha de menos de 10 mil habitantes e a terra natal do escritor Guimarães Rosa. Na casa-museu do autor, que viveu ali até os 9 anos de idade, podemos conhecer um pouco mais sobre sua vida, sua obra, suas inspirações e a origem de seus personagens tão singulares…

A casa mantém a decoração de uma moradia do interior no início do século 20. O quarto da família tem terços, oratório e colcha bordada; a cozinha, fogão a lenha, panelas de ferro, pilão e cristaleira; além de um poço e um carro de boi no quintal dos fundos.

O pai de Guimarães Rosa tinha uma venda e conta-se que o primeiro contato do autor com as falas e as histórias sertanejas vem do que ele ouvia ali enquanto seu pai trabalhava. Na venda encontramos os produtos que serviam à vida daqueles tempos: os artigos de couro e de palha, os vasos de barro, o berrante, ­os brinquedinhos da época, os chapéus e as violas, as espingardas, as selas, os esteios, entre outros.

Descobertas sobre Rosa

O museu também possui um grande acervo sobre Guimarães Rosa. A máquina de escrever do autor, objetos de seu escritório pessoal, cartas, originais de suas obras e as correções feitas por ele. Podemos ver ali o longo processo por trás de cada um de seus trabalhos: ele relembrava, com a ajuda de cartas ao pai, as histórias da região, pesquisava sobre as plantas e o vestuário das pessoas, fazia viagens… Claro que seu trabalho ia muito além de recolher essas histórias, transformando-as em grandes obras literárias, mas é interessante ver que mesmo um grande autor precisa estudar e pesquisar. Não se cria no vazio, é preciso perguntar, ver e ouvir de peito aberto a natureza e o povo do sertão para escrever sobre ele. Viver para contar.

Portal do sertão

A cidade ainda abriga o Portal do Sertão, uma homenagem ao escritor e a alguns de seus personagens mais famosos: sete estátuas em bronze, que representam parte do bando de jagunços de Riobaldo – do livro Grande Sertão: Veredas. Atrás deles, de óculos, papel e caneta na mão, o próprio autor nos sorri e parece cumprimentar quem se aproxima de sua criação.

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Leia mais sobre o passeio a Cordisburgo (MG)

[Marina Almeida]

Dica de leitura: Alice Munro

alicemunro_livroDica de leitura: você conhece Alice Munro? A canadense é a primeira autora de contos a conquistar o Nobel de Literatura – prêmio recebido por ela em 2013.

No livro O amor de uma boa mulher (Companhia das Letras, 2013), viajamos com a escritora para pequenas cidades do interior do Canadá e conhecemos os detalhes de seu cotidiano e da vida de mulheres dali, em histórias que se passam entre os anos 1950 e os dias atuais.

As personagens, muitas aspirantes a artistas, buscam seu espaço em um mundo que as relega a posições marginais, de caminhos estreitos e limitados, ora subvertendo-os, ora dobrando-se para se encaixar neles.

A riqueza das descrições e o olhar intimista para o interior das personagens, aliados a um texto de linguagem clara, garantem um mergulho profundo em cada uma de suas histórias.

Recomendamos! 🙂

Como transformar posts de redes sociais em livro

Tenho uma amiga que publica com frequência pequenas crônicas de seu cotidiano nas redes sociais – texto bem escrito, olhar apurado e bem-humorado para as pequenas aventuras do dia a dia. Ela, que é também uma grande leitora, nunca havia levado a sério minhas sugestões de que guardasse seus textos também fora das redes sociais de algoritmos desconhecidos e regras que sempre mudam sem nosso prévio conhecimento. Foi quando tive a ideia de reunir seus textos num pequeno livro. Quando entreguei o presente ela ficou muito surpresa: disse que não imaginava que já tinha escrito tanto e que nem se lembrava mais de algumas histórias registradas.

Grande parte do trabalho foi encontrar seus textos entre as fotos, notícias e outras publicações que postamos diariamente em nossas redes. Daí que minha primeira sugestão para todos que gostam de escrever e postar nas redes sociais – sejam crônicas, pequenas histórias cotidianas, frases engraçadas dos filhos ou comentários políticos, econômicos ou sociais mais elaborados – é: guardem também num arquivo pessoal seus textos, pois muitos podem se perder nesse processo. Como eu disse a ela, queria um livro que fosse inspiração e também espelho, em que ela pudesse se reconhecer, para incentivá-la a continuar escrevendo e, quem sabe, um dia publicar suas histórias para mais pessoas. Acredito ter conseguido alcançar meu objetivo.

Reunidos os textos, meu próximo passo foi organizá-los, fazer o sumário e o prefácio (onde escrevi minha dedicatória). Em seguida, cuidei da diagramação dos textos, design da capa, impressão, encadernação… Pronto: tinha um livro de 60 páginas, inédito e muito pessoal para presenteá-la.

E vocês, já olharam para as publicações de seus blogs e redes sociais e pensaram neles como o início de algo maior, mais perene? Ou procuram um presente especial para um familiar ou amigo que gosta de escrever? Ou talvez de desenhar, pintar… São muitas as possibilidades de fazer lindos presentes e ainda incentivar um merecido talento. E nós podemos ajudar com todo o processo de revisão, edição, design e impressão do livro, é só entrar em contato conosco! 🙂

[Marina Almeida]

8 escritoras para conhecer em 2018

Ana Paula Tavares
ana2bpaula2btavares3A poeta angolana Ana Paula Tavares é uma das principais vozes da poesia africana de língua portuguesa. Em seus versos, a cultura e as tradições africanas aparecem não apenas como opção temática, mas num processo de reconstituição da identidade nacional e de afirmação da ótica do colonizado sobre a terra e o mundo em que vive. Ela também é uma das primeiras poetas angolanas a reivindicar para a mulher o papel de sujeito de sua vida, de seu corpo e seus desejos. O erotismo do ponto de vista feminino também está presente em muitas de suas poesias, assim como uma visão africana de valorização do prazer corporal e isenta da noção de pecado. Conheça algumas de suas obras: http://www.elfikurten.com.br/2015/06/ana-paula-tavares.html, http://www.lusofoniapoetica.com/artigos/angola/ana-paula-tavares.html  e http://www.jornaldepoesia.jor.br/anap05.html

Teolinda Gersão
teolinda-gersao2Teolinda Gersão usa a arte para falar da vida e do mundo em que vivemos. Não apenas a arte de sua escrita, lírica e sensível, mas também a música, a dança, a pintura… Nascida em Portugal, ela viveu também na Alemanha, em São Paulo (reflexos dessa estada surgem em alguns textos de Os Guarda-Chuvas Cintilantes, 1984) e Moçambique, onde se passa A árvore das palavras (1997). Nesse romance, os elementos da natureza se fundem com a dança – a africana e o balé – na vida da protagonista Gita, ou talvez da África. Em Os teclados (1999) é a música, e às vezes o silêncio, que nos faz pensar no sentido da vida, da arte e da literatura. Entre outras premiações, ela ganhou duas vezes o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Saiba mais: https://teolindagersao.com/

Graça Graúna
grauna02“É difícil viver entre dois mundos, mas a gente se acostuma”, ouvi Graça Graúna falando em uma palestra em São Paulo. A escritora, poeta, crítica e professora de literatura é indígena, do povo potiguara, e traz esse universo para sua obra (assim como para seu trabalho acadêmico). A aparente simplicidade de suas palavras acaba por revelar ao leitor uma profundidade de sentidos e saberes ancestrais. Conheça mais: http://ggrauna.blogspot.com.br/ e http://www.elfikurten.com.br/2016/02/graca-grauna.html

Lídia Jorge
lidiajorgeUnindo o fantástico à realidade, com uma imaginação que alcança também o nível lexical e morfológico, Lídia Jorge é uma das mais reconhecidas escritoras portuguesas contemporâneas. Professora, ela lecionou alguns anos em Angola e Moçambique, em pleno período da guerra colonial – que será retratada em A Costa dos Murmúrios (1988). Seu primeiro romance, O dia dos prodígios (1980), é uma alegoria sobre o impacto da revolução dos cravos portuguesa na vida de uma pequena aldeia no interior do país. Entre livros de contos e romances, como o ótimo A manta do soldado (2003), que trata do emaranhado entre memória e imaginação, suas obras já foram traduzidas para mais de 20 línguas. Veja mais: http://www.lidiajorge.com/

Amélie Nothomb
anothomb_600x600-400x400A escritora belga passou sua infância e adolescência na Ásia, que tem grande influência em sua obra. O Japão, onde seu pai foi embaixador, é um dos países que mais a marcaram e que aparece em diversos de seus livros, como no alegórico A metafísica dos tubos (2000). Com uma escrita crua e de humor cortante, seus romances e contos recorrem ao realismo mágico para dar vida a personagens excêntricos e diálogos muito vivos. Sucesso de vendas e traduzida para muitas línguas, suas obras já foram adaptadas para o cinema e o teatro. Em 1999, recebeu o Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa.

Carmen Laforet
10945049_111582445700A espanhola Carmen Laforet Díaz (1921 – 2004) desenvolveu a maior parte de seu trabalho durante o regime franquista, de caráter ditatorial. Publicou em 1945, aos 24 anos, aquela que se tornaria sua obra mais conhecida: o romance Nada, sucesso entre críticos e leitores. O livro conta a história de uma jovem estudante que chega a Barcelona logo após o fim da Guerra Civil Espanhola. A narrativa, considerada existencialista, constrói um ambiente asfixiante, marcado pela violência, pela fome e pela opressão. Um tema constante em suas obras é o embate entre o idealismo juvenil e um entorno marcado pela mediocridade e pela desilusão.

Elena Ferrante
A escritora italiana já é bem conhecida entre leitores e críticos no mundo tudo. O sucesso mais estrondoso veio com sua Série Napolitana, sequência de quatro romances que contam a história de duas amigas, Elena Greco e Lila Cerullo. A narrativa de Ferrante se constrói em camadas: a mais superficial é composta por uma escrita simples, fácil de acompanhar e que consegue prender o leitor. Mas, para além dessa “simplicidade”, surgem camadas mais profundas, que retratam de forma crua as complexidades das relações sociais, da busca por ascensão, da desigualdade de gênero e dos relacionamentos. O estilo e a obsessão pela sinceridade estão em todas as obras publicadas pela autora, com destaque para Dias de Abandono (2002). Infelizmente, o fato de Elena Ferrante ser um pseudônimo e os rumores em torno de quem seria a “pessoa real” por trás das obras muitas vezes tomam o primeiro plano em discussões sobre a obra da escritora. Leia mais no post Ferrante, frantumaglia e léxico familiar.

Margaret Atwood
margaret-atwoodMais um nome bem conhecido no meio literário, mas a produção da escritora canadense vai muito além de O Conto da Aia (1985), que recentemente deu origem a uma série de TV de sucesso. Atwood tem uma produção extensa, de estudos literários a contos e poesias, passando por livros infantis. Uma constante em suas obras são as personagens femininas que se distanciam de qualquer postura passiva ou romântica.

E mais:

É claro que há muito mais escritoras a se conhecer, e muitas delas publicam suas obras de forma independente. Existem perfis nas redes sociais que divulgam diariamente o trabalho dessas autoras – conheça alguns deles:

Leia Mulheres – https://www.facebook.com/leiamulheres

Leia Mulheres Negras – https://www.facebook.com/intelectuaisnegras/

Mulheres que escrevem – https://www.facebook.com/mulheresqueescrevem/

Clube da escrita para mulheres – https://www.facebook.com/clubedaescritaparamulheres/

 

E leia também:

8 escritoras que você deveria conhecer | Guia do Estudante

Mulheres escritoras | Huffpost Brasil

40 escritoras para ler antes de morrer | Revista Fórum

14 livros de escritoras brasileiras contemporâneas que você deve ler | Galileu

 

[Marina Almeida e Flávia Siqueira]

Vingança e injustiça: de quantas dores é feito um rio?

capaNo reino das palavras, os poemas esperam calmamente o momento em que serão escritos, dizia Drummond. Acredito em algo parecido quanto aos romances, que algumas tramas já existem e aguardam que alguém as desenlace com as palavras certas para que possam finalmente ganhar vida. Ao ler O rio de todas as nossas dores (2017) essa ideia me veio novamente à mente. A obra fala sobre uma vingança que se alimenta de uma das muitas injustiças sociais surgidas no período militar brasileiro. Se ainda estamos longe de acertar nossas contas com esse passado ao contrário, continuamos produzindo esse tipo de ação violenta , desta vez, ao menos, essa história foi finalmente escrita. Um passo importante para nos fazer lembrar dessas histórias e suas implicações futuras.

O livro fala ainda de histórias que não costumam ser contadas, lugares geralmente esquecidos, dos trabalhadores em suas lutas diárias, da vida que se leva do jeito que dá enquanto tudo acontece. E se às tensões do cotidiano soma-se o suspense da trama, outros momentos de grande lirismo nos lembram que, apesar de tudo, nunca se atravessa duas vezes o mesmo rio: são outras as águas, outras as dores.

A obra traz uma narrativa não convencional, em que os tempos se mesclam e pensamento e ação misturam-se, sem, no entanto, comprometer a fluência da narrativa. Já as situações inusitadas, o clima de suspense que permeia todo o livro, e ainda algumas doses de humor, garantem uma leitura fácil e envolvente.

O livro é uma publicação independente do jornalista João Caetano do Nascimento, que atua nos movimentos culturais e sociais na Zona Leste de São Paulo desde a década de 1970 e ficou entre os finalistas do Prêmio SESC de Literatura de 2011 com seu primeiro romance, não publicado.

O rio de todas as nossas dores pode ser adquirido diretamente com o autor ou pelo site da editora Expressão Popular: https://expressaopopular.com.br/loja/produto/o-rio-de-todas-as-nossas-dores/

O  rio de todas as nossas dores
Romance, 2017: 230 páginas; R$ 30,00
Edição do autor – João Caetano do Nascimento
Ilustração de capa – Rodrigo Martins

[Marina Almeida]

Documentos de família revelam história secreta

O remanescente (Cia. das Letras) é uma história de perda e de reinvenção de si. É também a história de um neto que, ao vasculhar as gavetas dos avós, descobre fotografias, cartas e documentos que revelam a trajetória de sua família. O mergulho na vida de seus antepassados, dessas pessoas com quem conviveu, mas que até então não tinha sido capaz de compreender, deu origem ao livro em que Rafael Cardoso conta suas descobertas.

Seus avós, um alemão e uma judia, chegaram ao Brasil fugindo do holocausto e da perseguição nazista. O país, no auge do Estado Novo, ainda flertava com os alemães, e por isso seus avós se protegeram sob uma nova identidade. O autor lembra que os avós nunca falavam sobre assuntos de guerra e exílio: “talvez porque não quisessem repassar os traumas para os netos. Talvez porque nunca os tivessem superado”. Foi só aos 16 anos que Rafael descobriu que tinha ascendência alemã e judia, e só muitos anos depois ele resolveu pesquisar essa história a fundo.

Nesse mergulho, o autor chegou à história de seu bisavô, Hugo Simon, que foi banqueiro e ministro de Finanças da Prússia, socialista, mecenas e colecionador de arte. Pacifista, junto com seu amigo Albert Einstein, ele fundou um movimento que deu origem à liga alemã pelos direitos humanos. Uma história só recuperada agora, quase 80 anos depois.

Você conhece as histórias de sua família? Quais os segredos guardados pela trajetória de seus pais e avós que podem estar se perdendo com o tempo? Registrar essas histórias em livros pode revelar muitas surpresas e garantir que esse legado chegue às futuras gerações. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando a preservar suas memórias.

[Marina Almeida]

Natal em letras

Que o humor de Drummond, a comoção de Rubem Alves, a gula (recheada de ironia) de Mário de Andrade, o abraço terno e nostálgico de Vinicius e o lirismo fraterno de Pessoa façam parte do seu natal. É o que nós desejamos a todos vocês!

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Este Natal

“— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava-os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.”

O humor e a ironia de Drummond nos ajudam a superar os perigos dessa época do ano. Leia aqui: http://www.releituras.com/drummond_estenatal.asp

 

O presépio

crib-1807861_1920-e1512527285302.jpgOs pinheiros eram bonitos, mas não me comoviam como o presépio: uma estrela no céu, uma cabaninha na terra coberta de sapé, Maria, José, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados com reis e anjos numa mansa tranqüilidade, os campos iluminados com a glória de Deus, milhares de vaga-lumes acendendo e apagando suas luzes, tudo por causa de uma criancinha. A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança.

Leia Rubem Alves contando sobre seu natal de menino em Minas Gerais: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2312200804.htm

 

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Peru de Natal

“Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas…”

Leia o conto completo de Mário Andrade sobre gulas natalinas e relações familiares complicadas: http://www.releituras.com/marioandrade_natal.asp

 

Poema de Natal

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Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Conheça mais da obra de Vinicius de Moraes: http://www.viniciusdemoraes.com.br

 

O guardador de rebanhos (canto VIII)

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Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

(…)
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
……………………………………………
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
……………………………………………
Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Pessoa, sob o heterônimo de Alberto Caeiro, nos apresenta um encontro do poeta com Jesus, feito outra vez menino, criança a brincar e correr pelos campos. Leia aqui o poema completo: http://www.releituras.com/fpessoa_guardador.asp

Ou ouça a interpretação de Abujamra: https://www.youtube.com/watch?v=zoZ3q7ON5wA

 

 

[BLOG] Faça download gratuito das obras de Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839 no Rio de Janeiro. Morreu em setembro de 1908, aos 69 anos. Mestre da ironia, é considerado por muitos como o maior nome da literatura brasileira. Neto de escravos alforriados, ele não frequentou a escola de forma regular — foi um autodidata.

As obras de Machado estão em domínio público e, portanto, o acesso a elas é livre e gratuito. Reunimos, a seguir, alguns links para baixar seus contos e romances em formato digital:

– No endereço http://machado.mec.gov.br/obra-completa-mainmenu-123, disponibilizado no centenário da morte do escritor, está disponível a obra completa de Machado de Assis, nos formatos PDF e HTML — dos livros mais famosos a seus textos de crítica literária.

– No site LeLivros, é possível baixar romances e coletâneas de contos em vários formatos: ePUB (livro digital), mobi (para leitura no aparelho Kindle), pdf e leitura online. Algumas sugestões:

  1. Memórias Póstumas de Brás Cubas, a obra-prima cujo narrador é um autor defunto (ou seria um defunto autor)?
  2. Dom Casmurro, outra obra-prima sempre lembrada pelas listas de leitura para vestibulares. Embora muitos leitores considerem a pergunta Capitu traiu Bentinho? como algo central na narrativa, mais importante é perceber como Machado constrói o narrador, que está ali para dar sua versão dos acontecimentos, e não para apresentar um retrato imparcial da verdade.
  3. Memorial de Aires, útimo romance de Machado. Construído como um diário, muitos enxergam nesse livro elementos autobiográficos.
  4. 50 Contos de Machado de Assis, antologia de 2007. Está ali A Cartomante, um dos contos mais lidos de Machado.
  5. Quincas Borba, a história de um homem que recebe toda a herança e o cachorro de um filósofo.

 

Já conhece a Daria um Livro? Somos uma editora especializada em livros personalizados. As memórias de seus avós e seus pais, lembranças de viagens, momentos marcantes entre amigos, histórias de amor… Tudo isso pode ser transformado em livro. Saiba mais sobre nosso trabalho.