Entre Abismos – Aventura no Carstensz

mockupAtravessar o mundo para enfrentar dias de caminhada em meio a selva e lama. Com o corpo dolorido, após noites mal dormidas, ainda encarar uma escalada de quase 800 metros e andar sobre uma crista de montanha escorregadia, com abismos despencando pelos dois lados. O médico brasileiro Rafael Scanavacca relata essas experiências no livro Entre Abismos – Aventura no Carstensz, publicado pela Editora Extremos.

Fizemos o trabalho de revisão e preparação de texto para o livro, o segundo publicado por Rafael. A seguir, o depoimento do autor sobre nosso trabalho:

“Fiquei muito satisfeito. Os ajustes e sugestões não descaracterizaram minha linguagem original. O trabalho foi realizado de maneira tranquila, dentro do prazo combinado e sempre aberta a conversas – me senti muito à vontade para apontar os caminhos que preferia seguir. Eu certamente indicaria a Daria um Livro para trabalhos de revisão e preparação de texto.” (Rafael Scanavacca)

O livro amarra experiências vividas por Rafael no Nepal – onde ele presenciou o trágico terremoto de 2015 – e na Papua, província da Indonésia onde está localizada a Pirâmide Cartensz, montanha mais alta da Oceania e parte do projeto Sete Cumes.

Rafael Scanavacca conquistou o cume do Cartensz ao lado de montanhistas como Eduardo Sator Filho, Carlos Santalena e Thais Pegoraro –  ela, aliás, bateu naquele momento o recorde brasileiro de escalada dos Sete Cumes e assina o prefácio da obra.

Leia alguns trechos do livro Entre Abismos:

O terremoto de 2015 no Nepal

“Eu estava sentado na calçada de uma viela estreita quando senti um impacto que me empurrou para cima e me deixou em pé. Os prédios balançavam e tremiam, o chão se movia instável sob meus pés, como se eu tentasse me equilibrar numa placa de madeira sobre um rio. Por vezes tudo balançava de um lado para o outro, como se eu estivesse no convés de um navio atravessando um mar em tormenta. Pedaços de tijolos se desprendiam dos prédios e caíam à minha volta enquanto eu tentava me reequilibrar. Fiquei em pé e novamente fui jogado ao chão, vendo o asfalto da pequena rua se partir ao meio – uma rachadura foi se formando e percorrendo toda a sua extensão. Pessoas corriam desesperadas de um lado para o outro, tropeçando e se desequilibrando. Outro tijolo caiu muito perto de mim e se espatifou no chão, desfazendo-se em pó e pedaços. Era um aviso de que eu não podia ficar ali parado. Novamente fiz um esforço para me equilibrar, fiquei em pé e entrei numa pequena loja com a porta aberta para a rua. Uma mulher desesperada abraçava uma criança de cerca de cinco anos de idade, que berrava enquanto os pequenos suvenires empilhados nas prateleiras balançavam e vinham ao chão, mostrando que aquele também não era um lugar seguro. Voltei para o lado de fora e reencontrei ali meu amigo Gustavo Villa. Olhamos apavorados um para o outro e, com o pingo de racionalidade que nos restava, nos perguntamos: ‘o que a gente faz?’. Fomos nos arrastando em meio ao tremor pelo chão de asfalto, que mais parecia uma maré, e nos sentamos no meio da rua, tentando ficar o mais longe possível dos humildes e pequenos prédios de Katmandu e seus tijolos à mostra – e quem sabe minimizar o risco de algo cair sobre nossas cabeças. No fim da rua, um prédio cedeu e levantou uma grande nuvem de pó, como em uma implosão.  Ao me sentar, parei de brigar com o tremor, fiquei apenas observando e pensei: ‘meu Deus, estamos no meio de um terremoto’.”

A escalada da Pirâmide Carstensz

“Às 3h30 da manhã comecei a ouvir sons de pessoas se revirando dentro das barracas, pegando equipamentos e acendendo lanternas. Estava cansado, não tinha conseguido pregar o olho um minuto, na expectativa de como seria a escalada. Enquanto isso, meu companheiro de barraca, Carlos Mussoi, dormia o sono dos justos e roncava, com sua missão já concluída. Eu sabia que estava a um dia de concretizar um sonho e finalizar uma jornada que tinha relevância no mundo da escalada. Quantos escaladores mais experientes e dedicados do que eu não sonham em ter a oportunidade de escalar o Carstensz? E eu estava ali, deitado aos seus pés, a um dia de seu cume. A expectativa de como seria a escalada me deixava eletrizado, e o perigo que a cercava parecia tornar tudo mais real: a textura da rocha, a arquitetura da montanha, o perfil das nuvens. Tentava não imaginar o momento de chegada ao cume, para não dar azar. Sabia que seria uma subida difícil, que era um novato tentando acompanhar montanhistas experientes. Sabia que, apesar dos equipamentos de segurança, há sempre um perigo real.

(…)

Eu tinha dormido – ou, melhor, descansado – praticamente pronto, com casacos, luvas e equipamentos. Não queria perder tempo. Juntei-me ao grupo e vesti minha cadeirinha, conferindo as outras ferramentas de escalada: ascensor, freios e mosquetões. Em pouco tempo estávamos todos prontos. Havia silêncio, tensão e seriedade no ar. Ainda era noite e, sob a luz de nossas headlamps, fizemos um círculo e uma breve oração em respeito à montanha. Que ela nos deixasse escalar e nos permitisse voltar a salvo no fim do dia. Fizemos alguns minutos de silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos e motivações.

Saímos rumo ao Carstensz.

(…)

Logo começou a amanhecer e a crescente claridade foi revelando a imensa parede de pedra escura e vulcânica, sob o céu nublado e chuvoso da Papua. Caía uma fina garoa. Ao redor, eu podia ver os picos sem nome que se erguiam e pareciam maiores e mais ameaçadores do que antes. Ao lado, uma construção colossal, muito maior do que uma cidade e com aspecto feio e industrial. Também via um enorme buraco perfurado no chão em meio a camadas e camadas de terra e pedras reviradas, e um rio cor de lama esbranquiçada. Era a mina de ouro, uma presença incômoda e que destoava da paisagem.

A escalada foi se tornando cada vez mais íngreme e exposta e às vezes fazia minha cabeça rodopiar. Sob meus pés, a parede despencava por 400 metros; para cima, elevava-se com autoridade por 370 metros em direção à crista.”

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Objetos de memória

Quando minha avó chegou ao Brasil com minha mãe, trouxe, no navio, um baú de ferro e madeira. Quando eu era criança, fazia de conta que aquele era o baú de um tesouro pirata.

Eu gostava de abrir a caixa pesada e ficar remexendo nas coisas que estavam dentro dela. Brincava que eram meus tesouros, embora nada ali se parecesse com as moedas de ouro e as joias que eu via nos filmes de pirata.

A verdade é que só hoje eu consigo perceber que aquele baú realmente guardava – e guarda – alguns dos tesouros da minha família.

Nosso baú está cheio de tecidos: toalhas, colchas, panos bordados, retalhos diversos. Minha avó costurava, e cada pedaço de pano ali tem uma história. Entre eles, uma toalhinha feita do linho que minha própria bisavó plantou, colheu, lavou, fiou, teceu e costurou. Tudo feito em casa por mãos que nunca cheguei a conhecer, mas que se comunicam comigo não só pelo desenho de minhas digitais, mas pelo toque de seu trabalho manual.

No baú também está uma colcha de frio feita com a lã dos carneiros que minha família criava em Portugal.  E alguns dos retalhos de pano comprados por minha avó na feira, já aqui no Brasil – tecidos que, com muita criatividade, foram transformados em peças de roupa para toda a família, e sem nenhum remendo visível, como até hoje todos se orgulham de lembrar.

Também estão lá os bordados da minha mãe, a renda fina da Ilha da Madeira dada pela vizinha em troca de um empréstimo num momento de necessidade…

Alguns objetos podem guardar parte da nossa história. Os trabalhos manuais são recordações que nos permitem tocar as mãos de outras gerações. E não precisam ser coisas grandiosas ou caras – importa apenas que nos ajudem a contar, sentir e ver um pouco da história que fez nossa vida ser o que é. Ainda quero aprender a tecer algo com as mãos, para dar minha contribuição ao nosso baú.

E você? Que objetos contam sua história?

E já pensou em transformar a história de sua família em livro? Conheça nosso trabalho.

[Marina Almeida]

José Paulo Paes: poesia crítica

Jose Paulo Paes.jpgJosé Paulo Paes nasceu em 22 de julho de 1926 e publicou seu primeiro livro de poesias em 1947. Cronologicamente, portanto, pertence à geração de 1945, mas sua obra se diversifica bastante do lirismo e seriedade desse período. Em sua busca por concisão, desafetação e intensidade, o poeta se aproxima do concretismo. Mas há um grande diferencial de Paes frente aos outros concretistas: seu forte espírito crítico e satírico, muito utilizado na crítica político-social à situação pela qual o país passava nos anos de ditadura militar.

Os recursos gráficos potencializaram sua tendência ao poema curto e sintético. O poeta busca o recorte exato e revelador para levar sua palavra de rebeldia da forma mais depressa e eficaz possível. Olha para o pequeno, cotidiano, banal – herança modernista –, e busca ali a representação do mundo grande, refletido no pequeno.

A dimensão pública de sua obra acontece com maior força no momento em que os direitos civis estão mais ameaçados no país. Em Saldo, publicado no livro De meia palavra, a situação brasileira parece tocar o poeta que, triste com o que vê, também fala o mínimo, pois o que se há mais para dizer?

Saldo
a torneira seca
(mas pior: a falta
de sede)

a luz apagada
(mas pior: o gosto
do escuro)

a porta fechada
(mas pior: a chave
por dentro)

O poema chama a atenção para as forças externas que reprimem quem não tem força para lutar, pois sente-se também por dentro seco, escuro, fechado, voluntariamente ou não.

Ele também escreveu um livro de poemas infantis chamado Poemas para brincar, que li e reli muitas vezes quando criança. E num cartão perdido em alguma caixa da minha casa tem um poeminha que ele fez para mim quando nasci, a pedido de meu pai 🙂

Convite

Poesia é… brincar com as palavras
como se brinca com bola,
papagaio, pião.

Só que bola, papagaio, pião
de tanto brincar se gastam.

As palavras não:
Quanto mais se brinca com elas,
mais novas ficam.

Como a água do rio
que é água sempre nova.

Como cada dia que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?

Conheça outros poemas do autor: https://www.pensador.com/autor/jose_paulo_paes/

[Marina Almeida]

Conheça a escritora Ana Cristina Cesar

 

Ana C.jpg

Ana Cristina Cesar, ou Ana C., como era conhecida, foi uma escritora, poeta e tradutora brasileira. Sua obra em tom confessional e íntimo é também irreverente e muitas vezes enigmática. Nascida em 1952, no Rio de Janeiro, ela participou do movimento Literatura marginal dos anos 70 e seus primeiros livros foram edições caseiras mimeografadas. Em 1982 publicou pela editora Brasiliense A Teus Pés, reunindo novos poemas e reeditando os livros publicados de forma independente. Um ano depois, aos 31 anos, a autora se suicidou e boa parte de sua obra conhecida hoje foi publicada postumamente. São rascunhos e poemas inéditos, correspondências pessoais e traduções, além da reedição de artigos publicados em jornais, ensaios sobre literatura e tradução.

Em 2013, no livro Poética, a Companhia das Letras publicou sua obra completa. Alguns trechos estão disponíveis em pdf aqui: http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13623 Em 2016, ela foi homenageada na Festa Literária Internacional de Paraty.

Saiba mais:

A obra e o processo de criação da autora: http://www.revistaserrote.com.br/2016/06/meios-de-transporte-por-alice-santanna/

Sobre a construção poética de Ana Cristina César: http://www.cartaeducacao.com.br/aulas/medio/jogos-poeticos/

Conheça outros poemas: http://www.avozdapoesia.com.br/autores.php?poeta_id=212

Confira um de seus poemas:

Chove

A chuva cai.

Os telhados estão molhados,

Os pingos escorrem pelas vidraças.

O céu está branco,

O tempo está novo.

A cidade lavada.

A tarde entardece,

Sem o ciciar das cigarras,

Sem o jubilar dos pássaros,

Sem o sol, sem o céu.

Chove.

A chuva chove molhada,

No teto dos guarda-chuvas.

Chove.

A chuva chove ligeira,

Nos nossos olhos e molha.

O vento venta ventado,

Nos vidros que se embalançam,

Nas plantas que se desdobram.

Chove nas praias desertas,

Chove no mar que está cinza,

Chove no asfalto negro,

Chove nos corações.

Chove em cada alma,

Em cada refúgio chove;

E quando me olhaste em mim,

Com os olhos que me seguiam,

Enquanto a chuva caía

No meu coração chovia

A chuva do teu olhar.

[BLOG] Como preservar fotos impressas

4 cuidados essenciais para garantir que as fotos não se deteriorem com o tempo

Sempre gostei de olhar os álbuns de fotos antigas da minha família. Aquelas pessoas em preto e branco — mulheres sempre de saia e homens de chapéu — pareciam ser de um outro mundo, mas não: eram meus pais e avós quando tinham a minha idade.

Depois de um tempo olhando para aquelas pessoas tão diferentes, começava a enxergar nossas semelhanças: aquele sorriso era mesmo o da minha vó — ainda hoje, tanto anos depois —, o rosto daquela criança pequena lembrava mesmo meu pai, o olhar daquela moça bonita era o da minha mãe… E aí começava a me ver também nos traços daquelas pessoas.

“De tudo fica um pouco”, como escreveu Drummond sobre retratos e memórias de família. “Fica um pouco do teu queixo no queixo da tua filha.” Perceber essas pequenas ou grandes heranças era como desvendar um mistério guardado pelo tempo.

Mas será que essas fotos, que podem nos revelar tanto sobre outros tempos e nossas origens, estão armazenadas de forma adequada? Ou, por descuido e desconhecimento, estaríamos encurtando sua vida útil?

Para nos ajudar a preservar fotografias impressas (antigas ou recentes), conversamos com Júlio Prado, impressor fine art da Papel Algodão, estúdio de impressão certificado que atende galerias, artistas e fotógrafos profissionais e amadores.

Confira as principais dicas dele: 

Limpeza
Júlio explica que não é recomendado utilizar nenhum produto abrasivo nas imagens e que qualquer substância que não seja de PH neutro pode danificar as fotos. “Existem alguns produtos e papéis importados que podem ser utilizados para este fim. Os produtos se chamam PEC Pad e PEC-12 e podem ser encontrados na Casa do restaurador”, recomenda.

Armazenamento
“O ideal é armazenar as fotos impressas em caixas ou em álbuns de material neutro, se possível separadas por papel glassine”, diz Júlio. Antigamente, ele explica, alguns álbuns possuíam folhas de separação ou proteção feitas de um material plástico que não era neutro. Por isso, essas folhas amarelavam com o tempo e transferiam acidez para as fotos, que também se deterioravam. Hoje, porém, existem álbuns com folhas de papel glassine neutro que funcionam como separadores e protetores das fotos.

Cuidados com o porta-retrato
“O maior inimigo das fotos é a própria luz”, alerta o impressor. Por isso, porta-retratos não devem receber luz solar diretamente. Ele também recomenda evitar porta-retratos com fundo de um material conhecido como eucatex, que é ácido.

Restauração de fotos deterioradas
Se as fotos já foram danificadas, Júlio indica usar os produtos PEC pad e PEC-12 para limpá-las e neutralizar parte do efeito sofrido. “O ideal é mantê-las em uma caixa de PH neutro e no escuro”.

Além disso, ele sugere que as fotos sejam digitalizadas (veja como cuidar das fotos digitais) e os arquivos, então, restaurados em softwares de edição de imagens. Depois, é possível fazer uma nova impressão em papel de algodão ou alfa celulose. Lembrando que essas cópias também devem ser mantidas ao abrigo da luz.

Outra opção é imprimir as imagens em um livro que pode ser distribuído para os familiares e trazer, além de fotos e informações sobre datas e lugares, detalhes sobre a trajetória de sua família.

As memórias de seus avós e seus pais, lembranças de viagens, momentos marcantes entre amigos, histórias de amor… Tudo isso pode ser transformado em livro. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando você a preservar memórias.

[Marina Almeida]

[BLOG] Georgina: a voz no livro

“Minha avó materna, a Georgina, tem 90 anos. Eu tenho 32. Nesse tempo todo que a gente convive, ela já tinha me contado vários episódios da vida dela. Mas era muito difícil juntar tudo e lembrar dos detalhes.

Aí, a Flávia Siqueira e a Marina Almeida foram conversar com a minha vó. E buscaram fotografias antigas que ficavam guardadas láááá no fundo do armário. E fizeram um livro de 92 páginas com uma narrativa que me levou pra região de Morungaba e Bragança Paulista, no interior de São Paulo dos anos 1920, 1930, 1940… Muito antes de eu querer nascer. Muito antes de a minha mãe nascer. Antes de vários fatos históricos do século 20.

Por motivos óbvios, foi um dos livros mais interessantes que eu já li. Quem tem um exemplar, vai guardar com muito cuidado, porque a edição é limitada. Não tem na Livraria Cultura, nem na Saraiva, nem na Amazon.” (Renato, neto)

Daria um livro
No começo, Dona Geórgia achava que não teria muita coisa a contar. Perguntávamos sobre a infância, ela falava um pouco, depois parava e dizia “não alembro”. Pensava por alguns instantes em silêncio e, de repente, começava a puxar pela memória um lugar ou acontecimento. Assim, as lembranças iam se encaixando e compondo suas histórias de vida — uma vida que daria não apenas um, mas vários livros.

“Dona Georgina é minha mãe e mora comigo. Quando ficou sabendo que sua história seria contada em livro, ficou toda faceira e não se cansava de dizer, admirada: ‘Já pensou quantas pessoas vão ficar sabendo da minha história?’ Todas as vezes que iria ser entrevistada, ficava ansiosa esperando pela visita das autoras do livro. Ela fica horas olhando a obra da sua vida. Parabéns, Flavia e Marina! Vocês não imaginam o bem que fizeram à minha mãe! Um trabalho como este não tem preço, enriquece os laços familiares e diviniza a alma do homenageado.” (Lucinda, filha)

A voz de Georgina
A fala de Dona Geórgia traz o modo de se expressar de certas regiões do interior paulista: “nós” é pronunciado como nói; o diminutivo aparece com muita frequência e musicalidade, como em banhinhinha. Não podíamos deixar esses detalhes de fora: decidimos manter muitos trechos da fala de Dona Geórgia exatamente como os ouvimos — a ideia é que, ao lermos suas frases, seja possível imaginá-la falando. E assim foi se construindo a obra: uma dança entre a voz de Dona Geórgia e nossa descrição de lugares e acontecimentos.

Leia alguns trechos do livro Georgina – Costurando histórias.

Leia os capítulos 3 e 7 do livro (formato PDF).

[BLOG] Reorganizando fotos e histórias

— Nossa… Se eu sentasse e escrevesse tudo pelo que já passei… Foi tanta coisa!

Não era a primeira vez que eu ouvia minha avó dizer isso. E, agora, era a hora perfeita para colocar tudo no papel. Já havia trabalhado alguns anos como jornalista e estava começando a organizar, com a Marina Almeida, a ideia de abrir uma empresa de produção de livros personalizados.

— Vó, quer que a gente faça um livro com suas fotos e histórias?

— Ah, eu quero!

Como ela tinha acumulado muitas fotos (algumas do início do século 20), pensei em criar um livro organizado a partir delas. Quais fotos eram as mais significativas para ela? O que ela notava primeiro? Qual era a história daquela fotografia? Que lugar era aquele? Que ano era? Que roupa era aquela?

Mas é claro que havia muito mais além das fotos. Histórias que não tinham sido registradas em imagens: sustos com os filhos pequenos, brincadeiras de infância, o cansaço sem fim da vida de comerciante, o sumiço da cachorrinha Mel e sua volta para casa…

O resultado foi um livro que mescla textos longos sobre memórias (páginas de fundo branco) e observações sobre fotografias relacionadas aos períodos que coincidem com essas lembranças (páginas de fundo preto).

Para mim, foi uma incrível volta às histórias que minha vó contava, aos lugares de que ela falava, às fotos que eu costumava tirar dos armários para fuçar sempre que, quando criança, ia passar meu período de férias escolares na casa dela. Olhava aquelas fotos em preto e branco, perguntava quem eram aquelas pessoas e ela me explicava — só para eu esquecer e voltar, nas férias seguintes, a olhar as mesmas imagens e fazer as mesmas perguntas.

Gravar entrevistas com minha vó e depois transcrevê-las, digitalizar imagens, anotar informações sobre quem eram aquelas pessoas… Todo o processo me ajudou a organizar coisas que eu ouvia desde criança, mas que estavam bagunçadas na minha cabeça.

Então, o Barreirão — esse lugar de que ela tanto falava — foi onde ela passou os primeiros anos de infância… A adolescência foi em Osvaldo Cruz… Os nomes dos avós paternos eram Domingas e João, ambos portugueses. Os avós maternos eram Henrique e Carolina — ela, mineira; ele, também português. Domingas e João vieram de Funchal; Henrique, de Trás-os-Montes…

Na primeira entrevista, os nomes e lugares de origem ainda me confundiam. Montei uma árvore genealógica para não me perder e parar de repetir perguntas. Deu certo.

A maior parte das fotografias estava bem conservada. Gosto de pensar que devo agradecer, em parte, à súbita vontade que tive um dia, quando criança, de colar nos álbuns as fotos que antes estavam soltas. Isso provavelmente ajudou a evitar que elas se desbotassem. Claro que em meu trabalho/diversão de infância não havia organização nenhuma — de repente, em meio a fotos da década de 1980, aparecia uma imagem dos anos 30.

Eis que, agora, o livro existe! Antes de receber os exemplares impressos, cheguei a sonhar que tudo tinha dado errado. Que havia erros na capa, que a impressão estava ruim, que faltavam páginas… Mas nada disso aconteceu. A impressão está ótima, as cores estão vivas, nenhuma página falta.

Agora, o livro existe (leia trechos)! Olha… Ainda me impressiono com isso. (risos)

[FLÁVIA SIQUEIRA]

 

BLOG | A história de um livro (e o início de outros)

Escrever um livro contando as memórias de um casal prestes a completar 60 anos juntos? Ouvir suas histórias e transformá-las em texto? O convite era muito interessante, e também desafiador. Minha empolgação foi crescendo conforme eu conversava com o filho do casal, que os presentearia com o livro. A história deles trazia um pouco da história do nosso país: a imigração para o Brasil da família italiana de dona Dalva, a vida no campo, com seus desafios e trabalho duro,a cultura e os causos da roça, a mudança para São Paulo e a adaptação ao trabalho das fábricas e ao modo de vida da cidade grande… E a vida comum e os grandes momentos da história também se encontravam, como quando seu Domingos presenciou os soldados da revolução de 1932 ou as lembranças de como a Segunda Guerra Mundial afetou a vida dos dois no interior do país.

Antes da primeira entrevista descobri que eles estavam um pouco nervosos para falar com uma jornalista e que tinham dúvidas se suas histórias de vida, tão simples, seriam interessantes o suficiente para serem transformadas em livro. Mas a primeira conversa logo foi ficando mais descontraída e a satisfação pela história construída tomou o lugar da apreensão inicial. Eles riam das dificuldades por que passaram e me convidavam a ver, também, com bons olhos a vida. O trabalho duro, no campo ou na fábrica, era lembrado com orgulho. Já a festa de casamento da roça, simples e animada, foi motivo de risadas – sem luxos, eles tinham o necessário e não precisavam de mais.

As histórias de dona Dalva e seu Domingos são contadas não só com palavras, mas também com gestos, modos, olhares e vozes. Para o texto escrito, além de organizar e hierarquizar o grande volume de informações, era preciso valer-se de recursos literários para garantir a leveza, a vivacidade e a força do que estava sendo contado. Isso, claro, sem perder a fidelidade aos fatos vivenciados por eles.

Após a redação de todo o livro, que tem quase 200 páginas (leia alguns trechos aqui), o material ainda passou por algumas etapas complementares e de finalização: revisão da família – para garantir que nenhuma informação errada fosse publicada –, revisão gramatical, criação de ilustrações para algumas passagens, seleção de fotos e documentos a serem reproduzidos na obra, diagramação das páginas, elaboração da capa e, finalmente, a impressão. Ao final, ver os livros impressos foi muito gratificante para todos nós. Foi também neste momento que eu comecei a pensar em como gostaria de continuar este trabalho de ouvir com atenção as histórias e ajudar as pessoas a escrevê-las, registrando sua vida e seu legado. Foi a partir daí que a ideia do Daria um livro nasceu.

[MARINA ALMEIDA]

BLOG | Explorando os detalhes de uma fotografia

De tempos em tempos, chega a hora de tirar os álbuns do armário e trazê-los para a mesa. Junto com eles, vêm também algumas caixas de sapatos com fotografias antigas. É quase como um chamado: depois de meses (talvez anos), as imagens querem sua atenção novamente.

Uma fotografia nunca é vista da mesma forma duas vezes: o nosso olhar muda com o tempo. Podemos perceber hoje coisas que nem notávamos anos atrás — detalhes no fundo da imagem, por exemplo. Se a fotografia foi tirada em uma rua comercial, talvez seja possível visualizar os nomes das lojas. Será que elas ainda existem? A internet pode ajudar a descobrir.

Vale usar uma lupa, escanear a imagem ou tirar uma fotografia dela com uma boa câmera, que gere uma imagem de alta resolução. Dar zoom e passear pelos detalhes da foto é como uma pequena viagem no tempo.

Fizemos isso com uma foto da década de 1950 que está em um dos álbuns de Apparecida, protagonista de um livro (biografia) que estamos escrevendo (leia trechos desse livro aqui). Uma página será dedicada à imagem e alguns de seus detalhes:

detalhes_fotografia_antiga

Após algumas pesquisas na internet, descobrimos que o time juvenil de baseball da ADOC (Associação Desportiva de Osvaldo Cruz) foi campeão sul-americano em 1956.

[Flávia Siqueira]

BLOG | Nó de tijolos e concreto

(Dona Cida é paulista e tem 76 anos. Como muitas pessoas da sua geração, sua história começa no interior e chega à grande metrópole no começo da vida adulta. Da cidade de Oswaldo Cruz para uma casa alugada em Santo André, para outra em São Mateus, bairro da zona leste de São Paulo. Do aluguel para uma construção improvisada em terreno próprio, feita aos poucos. Como é a história de tantas casas nesta cidade.)

***

Tudo foi construído aos poucos. Começando pelo salão comercial, na época em que as ruas dos bairro ainda eram de terra. Ali, abriram um bar. Decidiram morar no porão do comércio enquanto não faziam dinheiro para erguer uma casa.

O dinheiro foi entrando aos poucos, e a construção seguiu no mesmo ritmo. Primeiro, uma cozinha anexa ao porão. Depois, uma casa de três cômodos para o filho mais velho, com casamento marcado. Depois, sobre o salão do bar, a casa para o filho mais novo, que também se casaria. Duas garagens. Escadas, espaços sob escadas, portões. Uma escada ao lado da primeira casa para chegar até o comércio sem precisar dar a volta pela calçada. Dois cômodos extras para a casa do filho mais velho.

Tudo acabou interligado. Janelas do porão — que virou depósito do comércio — davam para o quintal da casa do filho mais velho e para a garagem do filho mais novo. O quintal do filho mais novo ficava sobre o quarto do filho mais velho.

Décadas se passaram. A família cresceu. Todos começavam a pensar no que fazer com aquela construção nos próximos anos. Seria possível vender as casas separadamente? Só com muitas reformas e muito dinheiro gasto.

Melhor esquecer a ideia. Ou alugariam — se é que alguém aceitaria dividir espaço daquela forma —, ou ficariam por ali mesmo (como tem sido).

A construção havia dado um nó em todos. E ela conseguiu o que queria: ficar ali, do jeito que escolheu crescer, com as mesmas pessoas.

[Flávia Siqueira]