A alma literária das nossas correspondências eletrônicas

Reencontros, novas e velhas amizades, namoros, pedidos de ajuda, desculpas… Quase todas as experiências que temos hoje produzem registros escritos em formato digital. Pense em seus e-mails, em seus posts de Facebook, nas longas conversas de WhatsApp.

Existe literatura nessas trocas de mensagens? A resposta pode ser controversa, mas é certo que esse tipo de material documenta com riqueza nossas vivências. Ele tem uma alma, composta por emoções, silêncios, medos, surpresas e alegrias.

A publicação americana The California Sunday Magazine abordou o tema em uma reportagem publicada no dia 04 de abril:

Boa parte da nossa comunicação acontece por meio da escrita, dos pequenos e grandes textos que escrevemos uns para os outros. Hoje, com as inúmeras ferramentas que nos permitem exteriorizar pensamentos em tempo real, cada um de nós se torna seu próprio biógrafo, produzindo registros íntimos do que se vive ao mesmo tempo em que as experiências acontecem.

Algumas pessoas abriram esses registros à publicação. Entre elas, dois estranhos que descobriram ser irmãos. Traduzimos, a seguir, o resumo da história e a troca de mensagens:

:: Dois estranhos que descobriram ser irmão e irmã ::

Yadira Izaguirre tinha 17 anos quando deu à luz seu primeiro filho – uma menina – em São Francisco (EUA), em 1965. Na época, ela morava com uma tia, que não permitiu que a jovem ficasse com o bebê. A criança foi entregue para adoção.

Mais tarde, Yadira se casou e teve mais três filhos – Marcos, Daniel e Raquel -, para quem ela falava abertamente sobre a filha mais velha. Em 2018, décadas após a morte de Yadira, Daniel se inscreveu em um serviço de testes genéticos e foi conectado a outra cliente – com quem, segundo o serviço, ele estava relacionado.

Daniel recebeu uma mensagem de Bianca Seed:

“Olá, a mãe da minha mãe tem exatamente a mesma história que a sua. Sua mãe veio para São Francisco quando chegou nos Estados Unidos?”

Ele ficou encarando a mensagem, atordoado, antes de responder:

Sim, minha mãe deixou a Nicarágua e foi criada por uma tia em São Francisco. Bianca, sua mãe pode ser minha irmã.”

Bianca colocou sua mãe em contato com ele.

28 de maio de 2018

LUCIANNA SEED:
Olá, Daniel.
Nasci em San Francisco em 8 de janeiro de 1965. O nome da minha mãe é Yadira Izaguirre. Eu fui colocada para adoção. Minha mãe tinha 17 anos. Estou muito curiosa para saber se temos a mesma mãe!!!

DANIEL RIVERA:
Oi, Lucianna.
O nome da minha mãe também é Yadira Izaguirre e ela foi criada pela tia Josephina. Meus irmãos e eu sempre soubemos que nossa mãe teve que desistir de seu primeiro filho e dá-lo para adoção. Parece que você é nossa irmã mais velha.

LUCIANNA SEED:
Meu Deus!!!! Estou maravilhada. Eu tenho um irmão!!! Você tem outros irmãos e irmãs?

DANIEL RIVERA:
Luci,
Você tem outro irmão, Marcos, e uma irmã, Raquel. Ambos moram em Ohio. Eu também tenho outras três meias-irmãs com quem cresci. Raquel e Marcos estão me mandando mensagens e querem se conectar com você também.

LUCIANNA SEED:
Estou sem palavras!!

A conversa migra para um grupo formado pelos irmãos.

29 de maio de 2018

LUCIANNA:
Olá, Daniel. Olá, Marcos! Olá, Raquel! Isso é tão surreal. Ainda estou em choque. Sou Lucianna (Luci). Não posso acreditar que este dia se tornou realidade. Eu tenho 2 irmãos e uma irmã !!!

RAQUEL:
Eu mal consigo me expressar em palavras. Você é uma conexão com a mamãe, e só por isso já é gratificante.

DANIEL:
Ficou difícil me concentrar no trabalho. Eu amo tanto todos vocês.

RAQUEL:
Não posso acreditar que isso está acontecendo.

MARCOS:
Eu não sou mais o irmão mais velho, hahaha. Falando sério, eu sempre pensava sobre onde minha irmã poderia estar. E aqui estamos.

Traduzido e adaptado de Re: re: re: re: A glimpse inside the lives of asylum-seekers, new couples, prisoners, and pen pals through their letters, texts, WhatsApp messages, and Facebook posts (The California Sunday Magazine).

Leia também:
Como transformar posts de redes sociais em livro


Você já pensou em transformar suas histórias ou correspondências em livro? Conheça o trabalho da Daria um Livro.

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A voz, e a letra, de mulheres escritoras

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No livro Um teto todo seu (Editora Tordesilhas, 2014), Vírginia Woolf fala sobre o que seria necessário para que uma mulher escreva ficção: um lugar sossegado para trabalhar, certa independência financeira e alguma validação social. Parece pouco, mas, como a autora nos mostra, a vida das mulheres foi por muito tempo condicionada aos cuidados do lar, dos filhos e do marido, e suas capacidades intelectuais questionadas. A luta das mulheres vem trazendo importantes mudanças para esse cenário, mas os desafios ainda são muitos.

Por isso, neste 8 de março queremos relembrar o trabalho de grandes escritoras brasileiras e estrangeiras que superam as mais diversas dificuldades para colocar sua voz no mundo.

Ana Cristina Cesar: a Ana C., como era conhecida, foi uma escritora, poeta e tradutora brasileira que participou do movimento Literatura Marginal, na década de 1970. Sua obra, em tom confessional e íntimo, é também irreverente e muitas vezes enigmática. Conheça mais sobre ela

Ecléa Bosi: foi uma estudiosa das relações entre memória e velhice. Em seu livro Memória e sociedade – Lembranças de velhos (Companhia das Letras, 1994), ela faz um resgate não apenas das informações sobre o passado de famílias imigrantes na cidade de São Paulo, mas da arte e do trabalho de viver, lembrar, narrar e registrar. Leia alguns trechos selecionados

Elena Ferrante: a italiana tem obras publicadas desde o começo da década de 1990, mas tornou-se um fenômeno global nos últimos anos, com o sucesso de sua Série Napolitana. A escritora é ao mesmo tempo autora e personagem, ficção e realidade. Isso porque não sabemos quem é a pessoa física que escreve suas obras. A autora fala sobre seu processo de escrita, construção de linguagem e relações familiares na obra Frantumaglia.

Alice Munro: a canadense é a primeira autora de contos a conquistar o Nobel de Literatura – prêmio recebido por ela em 2013. Leia mais sobre seu livro O amor de uma boa mulher.

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Outros nomes – entre tantos – que merecem ser conhecidos:

Ana Paula Tavares, poeta angolana; Teolinda Gersão, escritora portuguesa que une diversas artes em suas obras líricas e sensíveis; Graça Graúna, poeta indígena potiguara e professora de literatura; Lídia Jorge, que une realidade e fantasia em sua narrativa e também na linguagem; Amélie Nothomb, autora belga de humor ácido e personagens excêntricos; Carmen Laforet, com sua narrativa existencialista num mundo marcado pela violência; e Margaret Artwood, com suas personagens femininas fortes e cenários distópicos. Falamos mais sobre  todas elas neste post.

O tempo das mudanças

Sobre os planos de mudanças e o tempo que nem sempre segue a nossa vontade, Domingos Pellegrini nos diz tudo que precisamos ouvir:

“O tempo pôs a mão na tua cabeça e ensinou três coisas.

Primeiro: você pode crer em mudanças quando duvida de tudo, quando procura a luz dentro das pilhas, o caroço nas pedras, a causa das coisas, seu sangue bruto.

Segundo: você não pode mudar o mundo conforme o coração. Tua pressa não apressa a História. Melhor que teu heroísmo, tua disciplina na multidão.

Terceiro: é preciso trabalhar todo dia, toda madrugada para mudar um pedaço de horta, uma paisagem, um homem. Mas mudam, essa é a verdade.”

Feliz ano novo a todos!

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Uma visita à casa (e à obra) de Guimarães Rosa

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Cordisburgo (MG) é uma cidadezinha de menos de 10 mil habitantes e a terra natal do escritor Guimarães Rosa. Na casa-museu do autor, que viveu ali até os 9 anos de idade, podemos conhecer um pouco mais sobre sua vida, sua obra, suas inspirações e a origem de seus personagens tão singulares…

A casa mantém a decoração de uma moradia do interior no início do século 20. O quarto da família tem terços, oratório e colcha bordada; a cozinha, fogão a lenha, panelas de ferro, pilão e cristaleira; além de um poço e um carro de boi no quintal dos fundos.

O pai de Guimarães Rosa tinha uma venda e conta-se que o primeiro contato do autor com as falas e as histórias sertanejas vem do que ele ouvia ali enquanto seu pai trabalhava. Na venda encontramos os produtos que serviam à vida daqueles tempos: os artigos de couro e de palha, os vasos de barro, o berrante, ­os brinquedinhos da época, os chapéus e as violas, as espingardas, as selas, os esteios, entre outros.

Descobertas sobre Rosa

O museu também possui um grande acervo sobre Guimarães Rosa. A máquina de escrever do autor, objetos de seu escritório pessoal, cartas, originais de suas obras e as correções feitas por ele. Podemos ver ali o longo processo por trás de cada um de seus trabalhos: ele relembrava, com a ajuda de cartas ao pai, as histórias da região, pesquisava sobre as plantas e o vestuário das pessoas, fazia viagens… Claro que seu trabalho ia muito além de recolher essas histórias, transformando-as em grandes obras literárias, mas é interessante ver que mesmo um grande autor precisa estudar e pesquisar. Não se cria no vazio, é preciso perguntar, ver e ouvir de peito aberto a natureza e o povo do sertão para escrever sobre ele. Viver para contar.

Portal do sertão

A cidade ainda abriga o Portal do Sertão, uma homenagem ao escritor e a alguns de seus personagens mais famosos: sete estátuas em bronze, que representam parte do bando de jagunços de Riobaldo – do livro Grande Sertão: Veredas. Atrás deles, de óculos, papel e caneta na mão, o próprio autor nos sorri e parece cumprimentar quem se aproxima de sua criação.

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Leia mais sobre o passeio a Cordisburgo (MG)

[Marina Almeida]

Dica de leitura: Alice Munro

alicemunro_livroDica de leitura: você conhece Alice Munro? A canadense é a primeira autora de contos a conquistar o Nobel de Literatura – prêmio recebido por ela em 2013.

No livro O amor de uma boa mulher (Companhia das Letras, 2013), viajamos com a escritora para pequenas cidades do interior do Canadá e conhecemos os detalhes de seu cotidiano e da vida de mulheres dali, em histórias que se passam entre os anos 1950 e os dias atuais.

As personagens, muitas aspirantes a artistas, buscam seu espaço em um mundo que as relega a posições marginais, de caminhos estreitos e limitados, ora subvertendo-os, ora dobrando-se para se encaixar neles.

A riqueza das descrições e o olhar intimista para o interior das personagens, aliados a um texto de linguagem clara, garantem um mergulho profundo em cada uma de suas histórias.

Recomendamos! 🙂

Ocupação Antonio Candido: pensar a literatura, pensar a vida

O que perdemos ao abrir mão da literatura em nosso dia a dia? Ao encarar Machado de Assis, Clarice Lispector e outros grandes nomes apenas como tópicos enfadonhos de um currículo escolar burocrático?

ant-candido.jpgPara o crítico literário e professor universitário Antonio Candido (1918 – 2017), “negar a fruição da literatura é mutilar nossa humanidade”. Afinal, os livros organizam sentimentos e visões de mundo, ajudando seus leitores a encontrar uma saída para o caos externo e interno. Colocar a literatura num pedestal de acesso restrito contribui apenas para manter os privilégios de poucos.

Facetas várias e entrelaçadas

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Na obra e na vida de Antonio Candido, a produção acadêmica, a docência e a busca por justiça social andam juntas. É o que mostra a Ocupação Antonio Candido, em cartaz no Itaú Cultural, em São Paulo.

Painéis, vídeos, fotografias, recortes e objetos apresentam a variedade dos trabalhos de Candido. Em cópias de seus manuscritos, o processo de (re)escrita vem à tona: trechos riscados, a busca pela palavra mais precisa, ideias sendo reorganizadas… Afinal, não existe reflexão verdadeira sem autocrítica.

Num documento da época em que Candido era estudante (e já leitor voraz de grandes obras), descobrimos uma nota 7 em Português. Não seria uma prova de que a literatura e a reflexão são muito maiores do que um boletim escolar?

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O boletim de Candido quando estudante
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Dedicatória de Guimarães Rosa a Antonio Candido

Ocupação Antonio Candido
Até 12 de agosto.
De terça a sexta, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h.
Itaú Cultural (Av. Paulista, 149. São Paulo, SP).
Entrada gratuita.
Saiba mais em http://www.itaucultural.org.br/ocupacao/antonio-candido/



Leia também:

Literatura como direito humano: arte, educação e justiça social se entrelaçam na Ocupação Antonio Candido | Escrevendo o futuro

[Por Flávia Siqueira]

 

 

 

8 escritoras para conhecer em 2018

Ana Paula Tavares
ana2bpaula2btavares3A poeta angolana Ana Paula Tavares é uma das principais vozes da poesia africana de língua portuguesa. Em seus versos, a cultura e as tradições africanas aparecem não apenas como opção temática, mas num processo de reconstituição da identidade nacional e de afirmação da ótica do colonizado sobre a terra e o mundo em que vive. Ela também é uma das primeiras poetas angolanas a reivindicar para a mulher o papel de sujeito de sua vida, de seu corpo e seus desejos. O erotismo do ponto de vista feminino também está presente em muitas de suas poesias, assim como uma visão africana de valorização do prazer corporal e isenta da noção de pecado. Conheça algumas de suas obras: http://www.elfikurten.com.br/2015/06/ana-paula-tavares.html, http://www.lusofoniapoetica.com/artigos/angola/ana-paula-tavares.html  e http://www.jornaldepoesia.jor.br/anap05.html

Teolinda Gersão
teolinda-gersao2Teolinda Gersão usa a arte para falar da vida e do mundo em que vivemos. Não apenas a arte de sua escrita, lírica e sensível, mas também a música, a dança, a pintura… Nascida em Portugal, ela viveu também na Alemanha, em São Paulo (reflexos dessa estada surgem em alguns textos de Os Guarda-Chuvas Cintilantes, 1984) e Moçambique, onde se passa A árvore das palavras (1997). Nesse romance, os elementos da natureza se fundem com a dança – a africana e o balé – na vida da protagonista Gita, ou talvez da África. Em Os teclados (1999) é a música, e às vezes o silêncio, que nos faz pensar no sentido da vida, da arte e da literatura. Entre outras premiações, ela ganhou duas vezes o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Saiba mais: https://teolindagersao.com/

Graça Graúna
grauna02“É difícil viver entre dois mundos, mas a gente se acostuma”, ouvi Graça Graúna falando em uma palestra em São Paulo. A escritora, poeta, crítica e professora de literatura é indígena, do povo potiguara, e traz esse universo para sua obra (assim como para seu trabalho acadêmico). A aparente simplicidade de suas palavras acaba por revelar ao leitor uma profundidade de sentidos e saberes ancestrais. Conheça mais: http://ggrauna.blogspot.com.br/ e http://www.elfikurten.com.br/2016/02/graca-grauna.html

Lídia Jorge
lidiajorgeUnindo o fantástico à realidade, com uma imaginação que alcança também o nível lexical e morfológico, Lídia Jorge é uma das mais reconhecidas escritoras portuguesas contemporâneas. Professora, ela lecionou alguns anos em Angola e Moçambique, em pleno período da guerra colonial – que será retratada em A Costa dos Murmúrios (1988). Seu primeiro romance, O dia dos prodígios (1980), é uma alegoria sobre o impacto da revolução dos cravos portuguesa na vida de uma pequena aldeia no interior do país. Entre livros de contos e romances, como o ótimo A manta do soldado (2003), que trata do emaranhado entre memória e imaginação, suas obras já foram traduzidas para mais de 20 línguas. Veja mais: http://www.lidiajorge.com/

Amélie Nothomb
anothomb_600x600-400x400A escritora belga passou sua infância e adolescência na Ásia, que tem grande influência em sua obra. O Japão, onde seu pai foi embaixador, é um dos países que mais a marcaram e que aparece em diversos de seus livros, como no alegórico A metafísica dos tubos (2000). Com uma escrita crua e de humor cortante, seus romances e contos recorrem ao realismo mágico para dar vida a personagens excêntricos e diálogos muito vivos. Sucesso de vendas e traduzida para muitas línguas, suas obras já foram adaptadas para o cinema e o teatro. Em 1999, recebeu o Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa.

Carmen Laforet
10945049_111582445700A espanhola Carmen Laforet Díaz (1921 – 2004) desenvolveu a maior parte de seu trabalho durante o regime franquista, de caráter ditatorial. Publicou em 1945, aos 24 anos, aquela que se tornaria sua obra mais conhecida: o romance Nada, sucesso entre críticos e leitores. O livro conta a história de uma jovem estudante que chega a Barcelona logo após o fim da Guerra Civil Espanhola. A narrativa, considerada existencialista, constrói um ambiente asfixiante, marcado pela violência, pela fome e pela opressão. Um tema constante em suas obras é o embate entre o idealismo juvenil e um entorno marcado pela mediocridade e pela desilusão.

Elena Ferrante
A escritora italiana já é bem conhecida entre leitores e críticos no mundo tudo. O sucesso mais estrondoso veio com sua Série Napolitana, sequência de quatro romances que contam a história de duas amigas, Elena Greco e Lila Cerullo. A narrativa de Ferrante se constrói em camadas: a mais superficial é composta por uma escrita simples, fácil de acompanhar e que consegue prender o leitor. Mas, para além dessa “simplicidade”, surgem camadas mais profundas, que retratam de forma crua as complexidades das relações sociais, da busca por ascensão, da desigualdade de gênero e dos relacionamentos. O estilo e a obsessão pela sinceridade estão em todas as obras publicadas pela autora, com destaque para Dias de Abandono (2002). Infelizmente, o fato de Elena Ferrante ser um pseudônimo e os rumores em torno de quem seria a “pessoa real” por trás das obras muitas vezes tomam o primeiro plano em discussões sobre a obra da escritora. Leia mais no post Ferrante, frantumaglia e léxico familiar.

Margaret Atwood
margaret-atwoodMais um nome bem conhecido no meio literário, mas a produção da escritora canadense vai muito além de O Conto da Aia (1985), que recentemente deu origem a uma série de TV de sucesso. Atwood tem uma produção extensa, de estudos literários a contos e poesias, passando por livros infantis. Uma constante em suas obras são as personagens femininas que se distanciam de qualquer postura passiva ou romântica.

E mais:

É claro que há muito mais escritoras a se conhecer, e muitas delas publicam suas obras de forma independente. Existem perfis nas redes sociais que divulgam diariamente o trabalho dessas autoras – conheça alguns deles:

Leia Mulheres – https://www.facebook.com/leiamulheres

Leia Mulheres Negras – https://www.facebook.com/intelectuaisnegras/

Mulheres que escrevem – https://www.facebook.com/mulheresqueescrevem/

Clube da escrita para mulheres – https://www.facebook.com/clubedaescritaparamulheres/

 

E leia também:

8 escritoras que você deveria conhecer | Guia do Estudante

Mulheres escritoras | Huffpost Brasil

40 escritoras para ler antes de morrer | Revista Fórum

14 livros de escritoras brasileiras contemporâneas que você deve ler | Galileu

 

[Marina Almeida e Flávia Siqueira]

Vingança e injustiça: de quantas dores é feito um rio?

capaNo reino das palavras, os poemas esperam calmamente o momento em que serão escritos, dizia Drummond. Acredito em algo parecido quanto aos romances, que algumas tramas já existem e aguardam que alguém as desenlace com as palavras certas para que possam finalmente ganhar vida. Ao ler O rio de todas as nossas dores (2017) essa ideia me veio novamente à mente. A obra fala sobre uma vingança que se alimenta de uma das muitas injustiças sociais surgidas no período militar brasileiro. Se ainda estamos longe de acertar nossas contas com esse passado ao contrário, continuamos produzindo esse tipo de ação violenta , desta vez, ao menos, essa história foi finalmente escrita. Um passo importante para nos fazer lembrar dessas histórias e suas implicações futuras.

O livro fala ainda de histórias que não costumam ser contadas, lugares geralmente esquecidos, dos trabalhadores em suas lutas diárias, da vida que se leva do jeito que dá enquanto tudo acontece. E se às tensões do cotidiano soma-se o suspense da trama, outros momentos de grande lirismo nos lembram que, apesar de tudo, nunca se atravessa duas vezes o mesmo rio: são outras as águas, outras as dores.

A obra traz uma narrativa não convencional, em que os tempos se mesclam e pensamento e ação misturam-se, sem, no entanto, comprometer a fluência da narrativa. Já as situações inusitadas, o clima de suspense que permeia todo o livro, e ainda algumas doses de humor, garantem uma leitura fácil e envolvente.

O livro é uma publicação independente do jornalista João Caetano do Nascimento, que atua nos movimentos culturais e sociais na Zona Leste de São Paulo desde a década de 1970 e ficou entre os finalistas do Prêmio SESC de Literatura de 2011 com seu primeiro romance, não publicado.

O rio de todas as nossas dores pode ser adquirido diretamente com o autor ou pelo site da editora Expressão Popular: https://expressaopopular.com.br/loja/produto/o-rio-de-todas-as-nossas-dores/

O  rio de todas as nossas dores
Romance, 2017: 230 páginas; R$ 30,00
Edição do autor – João Caetano do Nascimento
Ilustração de capa – Rodrigo Martins

[Marina Almeida]

Ferrante, frantumaglia e léxico familiar

Li quase tudo o que há para ler de Elena Ferrante e sinto que em breve precisarei voltar a seus livros: há muitas camadas em suas histórias, e várias delas ainda não consegui acessar. Hoje, me debruço sobre o livro Frantumaglia (Intrínseca, 413 págs.), coletânea de correspondências, artigos e entrevistas nos quais a escritora fala sobre seu trabalho.

Ferrante é italiana e tem obras publicadas desde o começo da década de 1990. Tornou-se um fenômeno global nos últimos anos, com o sucesso de sua Série Napolitana, traduzida e publicada no Brasil pelo selo Biblioteca Azul.

Elena Ferrante é ao mesmo tempo autora e personagem, ficção e realidade. Isso porque não sabemos quem é a pessoa física que escreve suas obras. Não há ninguém para tietar, pedir um autógrafo ou enquadrar numa selfie. Justificativas não faltam para essa decisão: segundo a autora, o que importa são os livros e o que seus leitores fazem deles; trazer à tona uma suposta “autoria real”, sob formato de celebridade, não faz sentido nenhum em seu universo.

Além disso, é impossível não colocar muito de si e das pessoas próximas na literatura que se produz. E a escrita de Ferrante é visceral, dolorosamente íntima e reveladora. Ficção e realidade não são opostos – e, no caso de Elena, é a ficção de si que permite a exposição de realidades tão cruas em suas obras.

É claro que, mesmo “ausente”, Elena Ferrante pode ter adquirido status de celebridade –  que, aliás, vende seu produto falando justamente de seu distanciamento. Mas essa é uma discussão que vai longe e tira o foco do que é mais interessante: o que Ferrante e seus personagens têm a dizer sobre a condição e as relações humanas.

Léxico familiar
Frantumaglia é daqueles títulos que atraem. Palavra longa e cortante. Com a obra em mãos, fui direto para o capítulo 16, no qual ela explica o termo:

“Minha mãe me deixou um vocábulo do seu dialeto [napolitano] que ela usava para dizer como se sentia quando era puxada para um lado e para o outro por impressões contraditórias que a dilaceravam. Dizia que tinha dentro de si uma frantumaglia. A frantumaglia (ela pronunciava frantumalha) a deprimia. Às vezes, causava-lhe tonteira, um gosto de ferro na boca. Era a palavra para um mal-estar que não podia ser definido de outra maneira, remetia a um monte de coisas heterogêneas na cabeça, detritos em uma água lamacenta do cérebro. A frantumaglia era misteriosa, causava atos misteriosos, estava na raiz de todos os sofrimentos que não podiam ser atribuídos a uma razão única e evidente. (…) essa palavra ficou na minha mente desde a infância para definir, sobretudo, os choros imprevistos e sem um motivo consciente: lágrimas de frantumaglia.

(…) O que de fato era a frantumaglia, eu não sabia e não sei. Hoje, no entanto, tenho em mente um catálogo de imagens que tem mais a ver com os meus problemas do que com os dela. (…) A frantumaglia é o efeito da noção de perda, quando temos certeza de que tudo o que nos parece estável, duradouro, uma ancoragem para a nossa vida, logo se unirá àquela paisagem de detritos que temos a impressão de enxergar. (…)”

É impossível definir com exatidão a frantumaglia. As palavras se aproximam, contornam o significado, mas nunca chegam a ele de fato. Como são, aliás, as leituras que nos absorvem e que levamos para a vida: o que as torna tão fascinantes é enxergarmos nelas esse algo a mais tão grandioso e inacessível, do qual nos aproximamos sem nunca tocar.

Frantumaglia é também sobre herança familiar imaterial. Ferrante toma a palavra da mãe e a reorganiza para si, emprestando-a a cada uma de suas personagens. Uma amostra de como somos ao mesmo tempo semelhantes aos adultos de nossa infância e diferentes deles, de como o que veio antes de nós permanece conosco, ainda que reelaborado.

[FLÁVIA SIQUEIRA]

Você já pensou em transformar em livro sua história, a de sua família ou a de uma pessoa querida? Conheça o trabalho da Daria um Livro.

> Mais sobre a frantumaglia de Ferrante:
Elena Ferrante: autora ou personagem? (Revista Cult)

Documentos de família revelam história secreta

O remanescente (Cia. das Letras) é uma história de perda e de reinvenção de si. É também a história de um neto que, ao vasculhar as gavetas dos avós, descobre fotografias, cartas e documentos que revelam a trajetória de sua família. O mergulho na vida de seus antepassados, dessas pessoas com quem conviveu, mas que até então não tinha sido capaz de compreender, deu origem ao livro em que Rafael Cardoso conta suas descobertas.

Seus avós, um alemão e uma judia, chegaram ao Brasil fugindo do holocausto e da perseguição nazista. O país, no auge do Estado Novo, ainda flertava com os alemães, e por isso seus avós se protegeram sob uma nova identidade. O autor lembra que os avós nunca falavam sobre assuntos de guerra e exílio: “talvez porque não quisessem repassar os traumas para os netos. Talvez porque nunca os tivessem superado”. Foi só aos 16 anos que Rafael descobriu que tinha ascendência alemã e judia, e só muitos anos depois ele resolveu pesquisar essa história a fundo.

Nesse mergulho, o autor chegou à história de seu bisavô, Hugo Simon, que foi banqueiro e ministro de Finanças da Prússia, socialista, mecenas e colecionador de arte. Pacifista, junto com seu amigo Albert Einstein, ele fundou um movimento que deu origem à liga alemã pelos direitos humanos. Uma história só recuperada agora, quase 80 anos depois.

Você conhece as histórias de sua família? Quais os segredos guardados pela trajetória de seus pais e avós que podem estar se perdendo com o tempo? Registrar essas histórias em livros pode revelar muitas surpresas e garantir que esse legado chegue às futuras gerações. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando a preservar suas memórias.

[Marina Almeida]