A praia quando criança

Não há um dia sequer em que eu coloque os pés numa praia e não me lembre do deslumbramento que o mar e a areia me causavam quando eu era criança.

Eu conheci o mar na Praia Grande, quando tinha uns quatro anos de idade. Me lembro de estar no carro a caminho desse lugar chamado “praia”, imaginando uma espécie de laguinho com uma multidão de pessoas em volta.

Mas, não. Era algo muito diferente. Era enorme. Era cheio de ondas barulhentas. Tinha aquela areia molhada que, escorrendo do meu baldinho vermelho, formava bolinhas. E as bolinhas podiam ser empilhadas. E aquilo era muito, muito legal. E dava pra correr no mar e encher o baldinho de água. E a água era salgada. Um dia peguei um peixinho preto no baldinho. Cheguei a carregá-lo comigo por aí, até que alguém me convenceu a devolver o pobre coitado ao mar.

Mas nada superava o mar em si. Entrar na água. Estar no mar, levar pancadas das ondas, sair rolando, me ralar na areia, levantar e voltar correndo para a água, esperando a próxima onda. Ficava no raso, e mesmo assim engolia muita água – mas muita mesmo.

E então eu pegava uma virose em praticamente toda e qualquer ida à praia. Me esbaldava o quanto podia no mar e depois passava uns dois dias vomitando. Mas, tudo bem. Não conseguia ainda examinar e entender as causas do mal-estar. Só lamentava não poder mais entrar na água naquela semana.

Ir embora, de volta à grande cidade sem praias, era um momento de profundo luto.

[Flávia Siqueira]

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José Paulo Paes: poesia crítica

Jose Paulo Paes.jpgJosé Paulo Paes nasceu em 22 de julho de 1926 e publicou seu primeiro livro de poesias em 1947. Cronologicamente, portanto, pertence à geração de 1945, mas sua obra se diversifica bastante do lirismo e seriedade desse período. Em sua busca por concisão, desafetação e intensidade, o poeta se aproxima do concretismo. Mas há um grande diferencial de Paes frente aos outros concretistas: seu forte espírito crítico e satírico, muito utilizado na crítica político-social à situação pela qual o país passava nos anos de ditadura militar.

Os recursos gráficos potencializaram sua tendência ao poema curto e sintético. O poeta busca o recorte exato e revelador para levar sua palavra de rebeldia da forma mais depressa e eficaz possível. Olha para o pequeno, cotidiano, banal – herança modernista –, e busca ali a representação do mundo grande, refletido no pequeno.

A dimensão pública de sua obra acontece com maior força no momento em que os direitos civis estão mais ameaçados no país. Em Saldo, publicado no livro De meia palavra, a situação brasileira parece tocar o poeta que, triste com o que vê, também fala o mínimo, pois o que se há mais para dizer?

Saldo
a torneira seca
(mas pior: a falta
de sede)

a luz apagada
(mas pior: o gosto
do escuro)

a porta fechada
(mas pior: a chave
por dentro)

O poema chama a atenção para as forças externas que reprimem quem não tem força para lutar, pois sente-se também por dentro seco, escuro, fechado, voluntariamente ou não.

Ele também escreveu um livro de poemas infantis chamado Poemas para brincar, que li e reli muitas vezes quando criança. E num cartão perdido em alguma caixa da minha casa tem um poeminha que ele fez para mim quando nasci, a pedido de meu pai 🙂

Convite

Poesia é… brincar com as palavras
como se brinca com bola,
papagaio, pião.

Só que bola, papagaio, pião
de tanto brincar se gastam.

As palavras não:
Quanto mais se brinca com elas,
mais novas ficam.

Como a água do rio
que é água sempre nova.

Como cada dia que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?

Conheça outros poemas do autor: https://www.pensador.com/autor/jose_paulo_paes/

[Marina Almeida]

Causos de onça, jacaré e outros animais

Em volta da fogueira, cercados pela floresta que começava a revelar seus sons noturnos, conversávamos antes de ir para as nossas redes. Foi quando Isaquias, mateiro e caboclo que não fala inglês, mas conta um causo como o que, disparou a lembrar suas histórias. E era engraçado, mas também era uma viagem àquela realidade de ribeirinhos crescidos entre cheias e vazantes, entre a floresta amazônica e as águas dos rios.

Tinham ido pescar, ele, o pai e o irmão. Mas não era que nem aqui, não. Era um paranazão assim. Pegaram um tracajá e fizeram uma fogueira que nem aquela nossa. Depois de comer, resolveram queimar o casco ali no fogo e foram dormir. Nem era em rede, era no chão mesmo, tudo junto. Acordaram com o barulho dos animais.

Estavam todos indo para lá. Jacaré, capivara, paca, macaco… tudo os bichos. Eles saíram correndo pro bote e os jacarés atrás deles. Foram para o meio do rio, e os bichos atrás. Pegaram a rede de pesca e colocaram em volta do barco, para não deixar eles chegarem mais perto. A noite foi toda assim, nem dormiram mais direito. Os jacarés ali: só via o olhão deles para fora da água cercando o bote. Ouviram até barulho de onça na beira do rio. Nunca mais queima nada, Deus o livre, que o cheiro atrai mais de longe os bichos.

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Lucivado também tem suas histórias de onça. Seu pai, conta, matava para vender a pele. Ele se lembra de pequeno estar na canoa com o pai quando ouviram um rugido. Fizeram silêncio. O barulho vinha cada vez mais alto, a onça cada vez mais perto. E não parava. Parecia que estava falando com outra. A água do rio toda tremia e a onça pulsava dentro dele. Coração disparado, compassado pelos rugidos que chegam mais fortes. Seu pai já se preparava para ir atrás: uma onça assim, ou duas, não queria perder. Arma no colo, remo nas mãos. Mas o menino não segura o choro. Um tanto de medo, de dó também quem sabe.

Os rugidos se afastam. Já não ressoam mais no oco de seu peito. São novamente dois corações: um humano e pequeno que segue pelo rio, e um animal, grande e felino, que corre solto e livre, farejando o fresco do ar pelas florestas enquanto tiver sorte.

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Você e sua família também são cheios de histórias? Causos de animais, coragem e medo, da vida na roça, de longas viagens de barco desses e de outros tempos? Já pensou em registrar essas histórias no papel? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando você a preservar memórias.

Leia os causos completos aqui: Causos ribeirinhos (uma noite na floresta amazônica) IMG_0239trat.JPG

[Marina Almeida]

Memórias de infância

“A brincadeira favorita era pular amarelinha com os primos. Em vez de pedras, jogavam ameixas para marcar as casas – as árvores ficavam tão carregadas no verão que ninguém aguentava comer tudo aquilo. Quando cansavam, iam até o riacho molhar os pés e as mãos, e logo voltavam a brincar. Agora o desafio era pular de um lado para o outro do pequeno córrego sem escorregar. Ao cair da tarde, era hora de voltar para casa e a fumaça das chaminés já avisava que por trás das silenciosas casas de pedra havia panelas ao fogo. Em frente à lareira, a mãe e as tias aproveitavam para terminar a costura enquanto a vó contava histórias de seu tempo de moça bonita até a hora do sono chegar.”

A novidade de quem vê o mundo pela primeira vez, as descobertas, as brincadeiras, o tempo que passava mais devagar e as lembranças daqueles que nem sempre puderam nos acompanhar em outras fases da vida fazem da infância um momento muito importante. Ainda que a memória falhe algumas vezes, as pequenas histórias e os momentos marcantes nos ajudam a entender de onde viemos e quem somos hoje.


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