Leia trechos de ‘Do outro lado do Atlântico’

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Entre trincheiras

No escuro das frias trincheiras dos alpes italianos, após um dia de combates, numa noite quem sabe de que medos e dores feita, imagino meu pai, um jovem soldado pensando na família e na mulher cuidando de tudo sozinha desde que ele fora convocado para servir o exército italiano. Ele devia se afligir sem saber o que se passava conosco, se teríamos escapado aos bombardeios, se estaríamos passando quais necessidades…

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Na Segunda Guerra Mundial (1940-1945), escapar da morte é a tarefa de dia e noite. Mas, quando cai a luz do sol e os combates diminuem, é a hora da saudade de casa e da incerteza da guerra. Lavinio, meu pai, trabalhava memórias e saudades com as mãos. Esculpia sonhos e mensagens em sua mente, imaginando um dia registrá-las. Como? Onde? Na gaveta de alumínio onde era servida sua comida. Eu, Franco, seu filho primogênito, ainda era um bebê – nasci seis meses antes do início da guerra –, e o pai não sabia se voltaria para me ver crescer. (…)

Um tesouro que guardo com muito cuidado. As mensagens se combinam com ilustrações de traço fino e perspectiva perfeita. Contra a dureza da guerra, a leveza e a precisão das mãos de artista. Não era só à noite que era preciso ocupar a cabeça. Às vezes o trabalho podia ser também durante o dia. Quando os bombardeios eram muitos e todos precisavam se esconder enquanto o mundo explodia acima de suas cabeças, entalhar a vida e a saudade era a sua forma de não enlouquecer. Quem sabe pelo que passava quando fez cada um desses desenhos, inscreveu os nomes da família, suas dedicatórias e pensamentos.

***

 

Quando a guerra acaba…

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Finda a guerra, era hora de reconstruir cidades e famílias. Os escombros podiam ser reerguidos, mas e as pessoas que ficaram pelo caminho? O pai voltou para casa, mas seu cunhado, Enzo, que também tinha sido convocado, não. Ele foi dado como morto, embora seu corpo nunca tivesse sido encontrado.

Dois anos já haviam se passado quando, um dia, chegaram da rua gritando pela avó:

— Albina, Albina!

— Calma, o que foi?

— O Enzo! O Enzo! Não sei se é… está muito magro! Está vindo aí!

Ela correu o máximo que aguentava em seu vestido negro de luto até os pés, avental branco por cima. Ao se aproximar do homem que chegava, ela perdeu o fôlego e diminuiu o passo, embora tivesse os olhos sempre fixos nele. Ele foi chegando mais e mais perto…

— Enzo!

A voz embarga e os olhos se enchem de lágrimas – os da nonna Albina e os meus, ao relembrar a história. Ele estava um esqueleto ambulante, mas ali só uma coisa importava: ele estava vivo! O filho perdido na guerra voltara para casa.

Tio Enzo havia sido enviado para combater no front russo, mas a chegada do inverno deixou os soldados italianos totalmente desguarnecidos. Ele foi preso pelo exército inimigo e quase morreu fuzilado.

Estava prestes a ser morto por um soldado quando um oficial russo se colocou entre eles com seu cavalo.

— Deixa o rapaz ir embora! Acaba com essa história…

Enzo deu o nome daquele oficial russo, Ivan, a um de seus filhos, como homenagem àquele que salvara sua vida. Havia homens de boa índole também do lado de lá das trincheiras…

***

 

Rumo ao Brasil

Para nós, crianças, a viagem de navio era uma aventura com destino a um mundo desconhecido. Tentava imaginar como seria o Brasil, principalmente as pessoas que habitavam aquele país recente: feições diferentes, outras tonalidades de pele, outros cheiros e cores. Antes de deixar a Itália, o navio fez uma parada em Nápoles, para o embarque de mais passageiros e carga e, através de Gibraltar, passamos do Mediterrâneo ao Oceano Atlântico. Nenhum dragão, nem monstros marinhos. Sol, bom oceano, com ondas mais alongadas e tranquilas. (…)

Dias antes de nos aproximarmos do Equador, a tripulação do navio começou a preparar uma festa em comemoração à passagem pela fronteira entre os hemisférios norte e sul. As mentes infantis imaginavam como seria aquele momento especial de travessia. Como faz? Passa por baixo? Haveria um risco no céu? O oceano mudaria de cor? A festa no navio era simples, mas divertida e com boa comida. Houve um concurso para premiar aquele que fosse capaz de comer a maior quantidade de macarrão à bolonhesa em menor tempo. Gritos e palmas acompanhavam os grandes comedores em sua luta, sem talheres, com a massa e o molho. Entre homens grandes e gordos, um genovês alto e magro – magro como uma caneta! – começou a chamar atenção: sugava com rapidez e barulho porções imensas de espaguete.

Terminou a montanha do primeiro prato e pediu logo o segundo, enquanto seus adversários desistiam um a um:

— Bota outro aí! — ele gritou mais de uma vez, com os braços para cima e feliz da vida.

E logo fez a comida do segundo prato desaparecer. O navio inteiro ficou alucinado com o feito do genovês esguio! A música e a dança seguiram noite adentro, em meio a risos e homenagens.

Eu tinha apenas 12 anos, mas já conhecia bem a guerra para imaginar que aquele homem provavelmente sofrera muito com a fome durante os anos de escassez. Mesmo com o balançar do oceano e da dança, o genovês não passou mal com o estômago tão cheio.

Aquelas porções imensas de comida e o baile que veio depois talvez festejassem, na verdade, a promessa de fartura em terras distantes.

***

 

Música para viver

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Meados da década de 1940. Na cozinha de uma casa simples de Padova, uma família se reúne para o jantar. Nos pratos, pouca comida, mas o suficiente para resistir aos tempos difíceis e esperar pelo retorno daqueles que travam as batalhas da Segunda Guerra Mundial. Quando todos terminam de comer, tio Gastone – ainda muito jovem para o front – quebra o silêncio com os primeiros versos de La Montanara. Aos poucos, todos se unem e cantam juntos aquela canção sobre amor no alto das montanhas.

A montanara é a jovem das montanhas e também o cântico dos que se esforçam nas subidas em terreno íngreme e gelado. A música marcava o ritmo de caminhada dos povos dos Alpes, soando como um espetacular coral de anjos. Hoje, se não podemos ouvi-los, nos resta imaginar. Gastone aprendeu a cantar La Montanara com o pai, que tivera como companhia aquela música durante seus anos de combate na Primeira Guerra Mundial. Os soldados entoavam aquela canção para se aquecer e ganhar forças. A emoção de cantar em grupo ajudava a encarar o medo da morte e aceitar que sacrifícios seriam necessários em nome de suas famílias. Cantava-se para viver e para sobreviver, por dentro e por fora.

Tio Gastone cantava para mim na hora de dormir, mas eu muitas vezes preferia cantar junto em vez de me entregar ao sono. O treino informal de quase todos os dias deu afinação ao timbre de criança e fez com que eu me tornasse a segunda voz de um dueto que muitas vezes seguia por mais quatro ou cinco músicas antes de o sono vencer.

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Conheça outros livros nossos

22 dicas e inspirações para escrever sobre sua infância

Algumas pessoas se lembram com clareza da própria infância. Outras têm mais dificuldade, talvez por estarem mergulhadas em preocupações da vida adulta.

Se você faz parte do segundo grupo, considere este convite: faça uma pausa, pegue caneta e papel, concentre-se. Busque uma memória de infância que costume vir com mais facilidade e mergulhe nela. Tente recordar sensações, pensamentos, lugares. Escreva livremente sobre tudo isso e perceba como outras lembranças virão em seguida.

Ao longo do nosso trabalho na Daria um Livro, percebemos que recordar é como puxar a linha de um novelo de lã. De história em história, de personagem em personagem, o emaranhado vai se soltando e compondo uma narrativa.

Dicas
No blog do site WriteShop, encontramos 22 perguntas e dicas que podem nos ajudar a escrever sobre nossas infâncias e reativar memórias adormecidas. Vamos a elas:

1. Pense nos seus amigos de infância. Liste seus nomes, características e brincadeiras favoritas.

2. Descreva suas memórias mais antigas. Quantos anos você tinha? Que imagens e sensações vêm à sua mente?

3. Você já tentou fugir de casa? Já se escondeu dos seus pais? Como foi?

4. Tente descrever a cozinha da sua avó ou da sua mãe. O que havia nela?

5. Descreva os lugares em que você morou quando criança – as casas, as ruas e vizinhanças.

6. Você tinha um quarto só seu ou dividia com irmãos? Como era?

7. Como você era quando criança? Tímido? Mandão? Sorridente? Você continua do mesmo jeito?

8. Que memórias você tem dos seus pais? Descreva algumas situações vividas com eles.

9. Escreva sobre alguma viagem que você fez quando criança. Estava de férias? Qual foi o destino?

10. Você gostava de se esconder em algum lugar?

11. Você ia à escola? Como eram seus colegas e professores?

12. Tente se lembrar de algo errado que você fez quando criança. Como foi? Como você se sentiu?

13. Você se machucou quando criança? Ficou doente? Conte como foi.

14. De que parentes você se lembra?

15. Como eram as datas comemorativas na sua casa, como Natal e Páscoa?

16. Sua família tinha algum hábito ou tradição? Descreva um ou dois deles.

17. Você teve contato com livros quando criança? Algum deles foi marcante?

18. Que jogos e brincadeiras você e seus irmãos ou primos faziam?

19. Qual era seu brinquedo favorito? Como ele era? Que sentimentos ele traz à sua mente?

20. Algum acontecimento assustou você quando criança? Procure descrevê-lo.

21. Que expressões você ouvia quando criança? Que conselhos recebeu? Você levou algum deles para sua vida adulta?

22. Quais são suas memórias mais felizes de infância? Tente descrevê-las.

Gostou das inspirações? Essa lista de perguntas também é bem útil se você pretende entrevistar familiares e registrar suas histórias de vida.

(Traduzido e adaptado de 22 writing prompts that jog childhood memories – Write Shop)

Se você está pensando em escrever um livro de memórias ou registrar a trajetória da sua família, a Daria um Livro pode ajudar a concretizar esse projeto. Saiba mais aqui.

Leia também:

Documentos de família revelam história secreta

Mente mais velha, mente mais cheia

Por que nos esquecemos?

Por que escrever nos ajuda a viver melhor

Reaprendendo a caminhar: a história de Pedro Alves

Conheci Pedro no Caminho do Sertão. Enquanto caminhávamos por dezenas de quilômetros – eu calejando os pés, e ele calejando também as mãos, do aperto firme nas muletas –, ele me ensinava a ter tranquilidade para enfrentar os desafios da estrada e da vida. Esta é sua história:

 

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Pedro Alves e seus recomeços. Foto: Patrícia Pacheco

Aos 32 anos, Pedro Alves estava casado, tinha filhos e trabalhava como vigia noturno numa empresa. Naquela altura, ele já tinha superado a dureza do trabalho infantil no campo – onde ajudava os pais no plantio de milho, mamona e feijão desde os 7 anos de idade, muitas vezes trocando a escola, a 5 km de caminhada, pela enxada sob o sol quente de Irecê (BA). Mas no dia 20 de maio de 2011, durante seu expediente, um disparo atravessou o caminho, e também sua perna esquerda. Calibre 12. “Eram cerca de 22h30 e eu vi a morte na minha frente”.

Pedro estava perdendo muito sangue, e com ele os sentidos, mas conseguiu se arrastar até o telefone para pedir socorro. Ele ainda se lembra do foco de luz da viatura da polícia que chegava, como uma esperança a se agarrar.

A noite foi longa. O hospital local não tinha as condições necessárias para atendê-lo e foi preciso fazer sua transferência para uma unidade maior. Quando chegou ao hospital de Campina Grande, a 450 km de São Bento (PB), onde vivia, já passava das 5h da manhã. Apesar de suas condições, as lembranças de Pedro ainda são nítidas: “pedi ao médico que colocasse minha perna no lugar. Não acreditei quando acordei da cirurgia e vi que ela não estava mais lá”.

 

Recomeços

Três dias depois, ele estava de volta à sua cidade, mas recomeçar foi difícil. Ele tinha perdido uma perna, o emprego e o rumo. “Minha esposa tinha vergonha de ser vista comigo, andando com uma perna só. Meu casamento acabou e muitas pessoas, ao me verem sozinho, acharam que seria meu fim.”

Pedro chegou a conseguir um novo emprego, de garçom, em uma churrascaria. “Mesmo com uma perna só eu atendia os clientes, mas ainda não estava bem. Foi quando resolvi sair pelo mundo à procura de novos horizontes.” Ele tinha uma irmã morando em Uauá, no norte da Bahia, e foi visitá-la por alguns dias.

Andando pela nova cidade, na região de Canudos e Monte Santo, parou para ouvir um artista local que se apresentava na rua. Foi quando algo inesperado aconteceu: “soltei as muletas e fui dançar no meio da praça – coisa que, quando eu tinha as duas pernas, eu não fazia! As pessoas foram se aproximando para ver… O músico parou de cantar para observar enquanto eu dançava, depois disse que aquilo era um exemplo de vida.”

Ali Pedro percebeu, pela primeira vez, que poderia recomeçar sua vida em Uauá. Alugou uma casa e começou a trabalhar na rádio comunitária Luz do Sertão, como locutor de um programa romântico e também como repórter cidadão pelas ruas da cidade.

É onde vive até hoje, apesar dos desafios que continua a enfrentar. “Amo o que faço, mas não ganho quase nada com isso. Do INSS são R$ 480, mas às vezes cortam o benefício e demora até conseguir restabelecê-lo, e só de aluguel são R$ 250. É difícil.”

Lutando a batalha de todo dia para viver num país como o Brasil e com uma deficiência física, Pedro buscava um sentido para sua trajetória. Ele conta que um dia estava na rádio quando ouviu sobre a Caminhada dos Umbuzeiros, um trajeto de 55 km a serem percorridos em três dias pelo sertão baiano. “Senti que era uma oportunidade para eu me redescobrir, liguei e me inscrevi. Queria ver até onde eu podia ir, qual era meu limite físico. Eu queria desafiar a mim mesmo, saber para que fiquei vivo depois de perder minha perna.”

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Nas caminhadas, Pedro supera limites e descobre novos horizontes para sua vida. Foto: Patrícia Pacheco

No dia da caminhada todos se surpreenderam ao conhecer Pedro pessoalmente e descobrir que ele usava muletas e não tinha uma perna. “Alguns caminhantes disseram que eu iria dar trabalho para eles durante o percurso. O maior desafio foi eu acreditar em mim mesmo e passar essa crença para as pessoas que estavam comigo. Tive medo, não vou dizer que não tive. Tive medo de desapontar a mim mesmo.” Mas Pedro conseguiu. E ali algo começou a mudar.

“Conseguir chegar foi um sonho realizado, o melhor presente da minha vida foi ter completado o percurso da Caminhada dos Umbuzeiros. Ali eu percebi que poderia ir muito mais além. Meu maior desafio não era nem a caminhada em si, era eu ter uma vida… normal.”

 

Atleta

Empolgado com a experiência, Pedro se inscreveu depois no Caminho do Sertão. O percurso – 180 km pelo noroeste mineiro – assustou-o, mas mesmo assim resolveu tentar e conseguiu completar a maior parte do trajeto.

Animado com as conquistas, ele participou de uma mini-maratona de 10 km e depois foi até São Paulo para a São Silvestre de 2017. “Tinha 18 pessoas na categoria deficiente por amputação da perna e eu cheguei em sexto lugar. Foi uma felicidade sem tamanho”.

Em 2018, aos 39 anos, ele voltou ao Caminho do Sertão para completar o trajeto incluindo o que faltava: o Morro do Fogo, com 3,5km de subida e depois descida, e o Vão dos Buracos, uma trilha estreita e íngreme que pede a subida em 4 apoios em alguns trechos.

“Tive medo, mas a vontade de vencer foi maior que o meu medo”.

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Com força e persistência, Pedro atravessa o sertão. Foto: Patrícia Pacheco

Foi nessa caminhada que conheci Pedro. Enquanto caminhávamos – eu calejando os pés, e ele calejando também as mãos, do aperto firme nas muletas –, ele me deu conselhos sobre ter tranquilidade para enfrentar os desafios.

Pedro pretendia voltar à São Silvestre em 2018, mas não conseguiu os recursos para a viagem – ele não tem nenhum apoio institucional, apesar de ter a resistência de um atleta. Em 2019, ele vai tentar novamente.

“Tudo isto tem servido para eu ser grato a Deus. Podemos pensar que estamos entregues, mas ainda conseguimos enxergar um novo horizonte. Esta é minha história”.

***

Mais sobre o Caminho do Sertão

E meu relato pessoal sobre a caminhada: Pelos caminhos do Grande Sertão: Veredas

[Por Marina Almeida]

A voz, e a letra, de mulheres escritoras

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No livro Um teto todo seu (Editora Tordesilhas, 2014), Vírginia Woolf fala sobre o que seria necessário para que uma mulher escreva ficção: um lugar sossegado para trabalhar, certa independência financeira e alguma validação social. Parece pouco, mas, como a autora nos mostra, a vida das mulheres foi por muito tempo condicionada aos cuidados do lar, dos filhos e do marido, e suas capacidades intelectuais questionadas. A luta das mulheres vem trazendo importantes mudanças para esse cenário, mas os desafios ainda são muitos.

Por isso, neste 8 de março queremos relembrar o trabalho de grandes escritoras brasileiras e estrangeiras que superam as mais diversas dificuldades para colocar sua voz no mundo.

Ana Cristina Cesar: a Ana C., como era conhecida, foi uma escritora, poeta e tradutora brasileira que participou do movimento Literatura Marginal, na década de 1970. Sua obra, em tom confessional e íntimo, é também irreverente e muitas vezes enigmática. Conheça mais sobre ela

Ecléa Bosi: foi uma estudiosa das relações entre memória e velhice. Em seu livro Memória e sociedade – Lembranças de velhos (Companhia das Letras, 1994), ela faz um resgate não apenas das informações sobre o passado de famílias imigrantes na cidade de São Paulo, mas da arte e do trabalho de viver, lembrar, narrar e registrar. Leia alguns trechos selecionados

Elena Ferrante: a italiana tem obras publicadas desde o começo da década de 1990, mas tornou-se um fenômeno global nos últimos anos, com o sucesso de sua Série Napolitana. A escritora é ao mesmo tempo autora e personagem, ficção e realidade. Isso porque não sabemos quem é a pessoa física que escreve suas obras. A autora fala sobre seu processo de escrita, construção de linguagem e relações familiares na obra Frantumaglia.

Alice Munro: a canadense é a primeira autora de contos a conquistar o Nobel de Literatura – prêmio recebido por ela em 2013. Leia mais sobre seu livro O amor de uma boa mulher.

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Outros nomes – entre tantos – que merecem ser conhecidos:

Ana Paula Tavares, poeta angolana; Teolinda Gersão, escritora portuguesa que une diversas artes em suas obras líricas e sensíveis; Graça Graúna, poeta indígena potiguara e professora de literatura; Lídia Jorge, que une realidade e fantasia em sua narrativa e também na linguagem; Amélie Nothomb, autora belga de humor ácido e personagens excêntricos; Carmen Laforet, com sua narrativa existencialista num mundo marcado pela violência; e Margaret Artwood, com suas personagens femininas fortes e cenários distópicos. Falamos mais sobre  todas elas neste post.

Geraldinho: a alegria e os causos do interior do Brasil

geraldinhoGeraldinho Nogueira era um contador de causos, um homem que falava a língua da roça, do interior do Brasil e fazia todos rirem com suas histórias e suas habilidades cênicas para a narração. Conta-se que Geraldinho não perdia uma oportunidade de contar (e alegrar com) suas histórias. Toda hora era hora: na roça, nas festas, no boteco, nas folias, quermesses e – acreditem – até nos velórios!

Natural de Bela Vista de Goiás (GO), Geraldinho não tinha estudos e dizia “minha caneta é a enxada na saroba”. Ainda assim, seus causos chamaram a atenção tanto pela originalidade quanto por sua linguagem única. Seu talento foi revelado por Hamilton Carneiro e José Batista em 1984. Eles levaram os causos de Geraldinho para o programa Frutos da Terra, da TV Anhanguera, o que trouxe reconhecimento nacional para o contador.

Além das características próprias da linguagem regional e oral, as histórias de Geraldinho utilizam-de de variações estilísticas para criar seu efeito cômico e original. Como bom contador de causos, Geraldinho usava expressões muito criativas: “subaquim da perna” (atrás do joelho), “recursim de minguar a toada” (freio), “esgotamento do mês” (menstruação), “molas do jueio” e “ferramenta de mijá” são algumas das expressões que se tornaram sua marca.

Antes de se apresentar para o grande público na TV, o linguajar do contador de causo sofreu algumas alterações. Orientado pelo apresentador e empresário, adequou sua linguagem aos meios de comunicação, removeu algumas palavras e expressões que conteriam “excessos de regionalismo”. Mas a originalidade de Geraldinho está justamente em sua habilidade com a linguagem e em sua espontaneidade.

Geraldinho Nogueira é um dos grandes contadores de causos do Brasil. Apesar de bastante esquecido após sua morte, seu trabalho merece ser preservado pela maestria com que trabalhava a linguagem dos contos e a originalidade de suas histórias.

Conheça o “Causo da Bicicleta”, uma de suas histórias mais famosas:

 

Você ou seus familiares também têm muitos causos para contar? Já pensou em registrar essas histórias como forma de preservá-las? Nós, da Daria um livro, podemos ajudá-lo nesse trabalho, com muito respeito às suas histórias e valorizando a linguagem original do contador. Entre em contato conosco!

 

Documentos de família revelam história secreta

O remanescente (Cia. das Letras) é uma história de perda e de reinvenção de si. É também a história de um neto que, ao vasculhar as gavetas dos avós, descobre fotografias, cartas e documentos que revelam a trajetória de sua família. O mergulho na vida de seus antepassados, dessas pessoas com quem conviveu, mas que até então não tinha sido capaz de compreender, deu origem ao livro em que Rafael Cardoso conta suas descobertas.

Seus avós, um alemão e uma judia, chegaram ao Brasil fugindo do holocausto e da perseguição nazista. O país, no auge do Estado Novo, ainda flertava com os alemães, e por isso seus avós se protegeram sob uma nova identidade. O autor lembra que os avós nunca falavam sobre assuntos de guerra e exílio: “talvez porque não quisessem repassar os traumas para os netos. Talvez porque nunca os tivessem superado”. Foi só aos 16 anos que Rafael descobriu que tinha ascendência alemã e judia, e só muitos anos depois ele resolveu pesquisar essa história a fundo.

Nesse mergulho, o autor chegou à história de seu bisavô, Hugo Simon, que foi banqueiro e ministro de Finanças da Prússia, socialista, mecenas e colecionador de arte. Pacifista, junto com seu amigo Albert Einstein, ele fundou um movimento que deu origem à liga alemã pelos direitos humanos. Uma história só recuperada agora, quase 80 anos depois.

Você conhece as histórias de sua família? Quais os segredos guardados pela trajetória de seus pais e avós que podem estar se perdendo com o tempo? Registrar essas histórias em livros pode revelar muitas surpresas e garantir que esse legado chegue às futuras gerações. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando a preservar suas memórias.

[Marina Almeida]

Seu Chico: histórias para não esquecer

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— Você que tá aí tem férias, não tem? Tem sua folga… E de premero não tinha férias e descanso nem de 5 minutos. Eu mesmo não tive. Sabe como era o descanso? Era capinando no meio do mato. De premero não tinha tempo de conversar um com o outro assim como eu tô conversando c’ocê. Hoje em dia tá bom demais.

Na rua quase sem movimento de meio de tarde em Milho Verde (MG), Seu Chico, que finalmente tem um pouco de tempo, puxa assunto com os passantes seja gente conhecida ou a se conhecer. Sentado de cócoras na frente de sua casa, olhos apertados para a rua quarada pelo sol do cerrado e sorriso de poucos dentes, ele acolhe quem passa com simpatia e muitos casos.

— No tempo de eu menino, comecei a trabalhar eu tava com 4 anos e meio, que era a idade que começava… Pegava serviço era cedo, bebia café, pegava uma pazinha redonda e ia pra roça ainda tava meio escuro. Ia carregar lenha na cabeça. Comia banana pra aguentar até as sete horas da noite, das 7 às 7. Agora hoje em dia tem descanso de almoço, uma hora, de premeiro não. Tinha dia que ia comer era só arroz. Você é menina nova, mas eu tô com 83, já vou completar 84 anos e ainda tô querendo trabalhar!

— O senhor está bem forte!

— Mas de premero o povo vivia mais. Meu avô viveu 120 ano. 120 ano! E meu pai chegou aos 130. Hoje não vive assim, não. Porque comia melhor. Comia sopa… o caldo de mocotó com a gordura, né? De osso gordo. Hoje fica tirando a gordura da carne. De premero, não. Era mocotó, gordura, osso gordo…

Mas ele logo lembra que a gordura às vezes ainda era muito pouca:

— Nego só comia angu, às vez arroz branco, feijão, macarrão, carne, costela… Um dia um nego disse assim: “vou comer com o sinhô, quer ver?”. Falou que tinha diamante, aí foi convidado pra comer com o sinhô. Sujou tudo porque não sabia comer na mesa, né, comeu carne e tudo, tava satisfeito. Muito bem, no final, o sinhô perguntou do diamante, o nego falou: “eu disse que tem diamante, não que eu tinha um”.

Nós rimos da esperteza e do esforço que se faz por uma boa refeição.

— Isso é do tempo que minha vó era menina. Ela conta esses casos. Era muito sofrimento pros negros. Gosto de contar essas histórias pros mais novo, pra não esquecer, saber o que foi.

Tradições
Seu Chico sabe casos e cantos. Lembra orgulhoso que foi chamado para ensiná-los às crianças na escola:

— Os véio que sabe a cantiga do tempo da escravidão levaram na escola a modo de a professora poder seguir pra frente, senão acaba, né?

E canta para mim. A primeira música fala do nego que caiu no sono enquanto vigiava a plantação de arroz. Acordou com o Assum preto comendo tudo e foi logo correndo e tocando:

— “Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô passarinho, que o arroz é de Deus…”

Seu Chico fala das festas, da Marujada, da procissão, da festa de São Benedito, cada uma com suas tradições e suas músicas.

— “Meu São Benedito, vossa casa cheia, cheira cravo e rosa, flor de laranjeira…” Você que tá aqui, ocê já viu festa aqui?

— Aqui não.

— Vem que ocê vê essas cantigas que eu tô cantando e ainda tem mais um monte. Canta no meio da rua, na porta de casa, o povo vai lá pro terreiro.

Ele lembra de mais uma:

— “Papagaio come milho, periquito levou fama. Papagaio come milho, periquito levou fama…” É muito interessante. Nós somos periquito, o papagaio tá rasgando espiga de milho, lá no pé, nós tamo debaixo catando, tamo na rua trabalhando…

Ele vai explicando as músicas, o significado das histórias… Por trás do seu jeito simples, ele sabe da importância do que conta:

— Sei mais de cem música sem olhar papel. Muita cantiga do tempo da escravidão. Eu gosto de contar pros novos. Porque muitos véio às vez sabe cantar, mas não é capaz de explicar o que vem a ser a cantiga, né? Fica embasbatado. Eu gosto de contar…

Seu Chico não mora sozinho e logo dona Maria da Luz aparece na janela. A senhora negra, de cabelos curtos, emana força, apesar do corpo magro e da idade avançada. É curandeira, descubro depois. E ciumenta – não gosta de seu Chico cheio de conversa na porta de casa. Ela empilha uns sacos de urucum na janela enquanto pergunta meu nome, depois diz para ele:

— Passa para dentro – e volta para o interior da casa.

— A mulher viu que eu tava falando perto d’ôce, entrou pra dentro, não gosta, não – ele explica, mas continua a conversa sem pressa.

— Eu tô com problema no olho, mas ainda vejo ó…

Seu Chico pega um punhadinho da terra arenosa do cerrado na mão. Elas formam pequenas pedrinhas que ele separa com os dedos enquanto conta:

— Um, dois, três, quatro, cinco… Tá veno? Eu ainda vejo!

A casa
Agora ele me convida para entrar. Hesito, mas ele insiste.

— Entra pra lá!

Na sala de paredes já gastas e manchadas pelo tempo, muitas imagens de santos, uma foto de criança, algumas fotos de seu Chico, alguns recortes de revistas enquadrados. Na mesa, sobre uma toalha de plástico, um pequeno altar com muitas imagens, flores de plástico, um filtro de barro com um paninho bordado e já amarelado por cima, duas garrafas de água, um prato para velas.

Seu Chico me aponta para uma foto sua na parede, roupa colorida, boné e penacho vermelho e amarelo na cabeça, sorriso aberto.

— É na festa da procissão, né?

Ele confirma:

— Na festa é dança, a gente vai pra entrada da rua com um monte de canto. E eu só vivo alegre porque ó…

E me conta feliz sobre como ainda está ativo:

— Eu tô velho, mas ainda tô trabalhando. Ainda faço vassoura… – entra no quarto para pegar alguma coisa e volta com um saco cheio de vassouras de palha.

— Olha como ainda trabalho! Ainda gosto de trabalhar!

Pergunto se posso contar sua história no meu blog, tento explicar, ele parece não entender muito, mas repete:

— Gosto de contar pros mais novo, é bom pra poder ficar sabendo pra frente, senão acaba, né, senão acaba…

Entendi a resposta como um sim.

Eu finalmente me despeço de seu Chico, não quero irritar dona Maria da Luz.

— Vai com Deus. Depois ocê passa pra nós contar mais caso – ele diz, enquanto acena.

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Seu Chico mostrando as vassouras de palha que faz

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Fui conhecer um pouco mais do pequeno distrito de Milho Verde, em Minas Gerais. Mais tarde encontrei-o novamente. Estava sentado aos pés da pequena igreja do Rosário contemplando o final da tarde. Ao seu lado, um cachorro se esparramava pelo gramado. Já faz algum tempo que estive lá, mas demorei para escrever essa história. Pesquisando agora sobre a região, descobri que seu Chico morreu em agosto deste ano. Foi enterrado ao lado da igrejinha onde ele gostava de ver a noite chegar.

Vai com Deus, seu Chico. Você já contou muito caso e cantiga para nós, agora nós é que contamos as suas por aí. Pros mais novos saberem o que foi e não esquecerem.

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[Fotos e texto: Marina Almeida]

A praia quando criança

Não há um dia sequer em que eu coloque os pés numa praia e não me lembre do deslumbramento que o mar e a areia me causavam quando eu era criança.

Eu conheci o mar na Praia Grande, quando tinha uns quatro anos de idade. Me lembro de estar no carro a caminho desse lugar chamado “praia”, imaginando uma espécie de laguinho com uma multidão de pessoas em volta.

Mas, não. Era algo muito diferente. Era enorme. Era cheio de ondas barulhentas. Tinha aquela areia molhada que, escorrendo do meu baldinho vermelho, formava bolinhas. E as bolinhas podiam ser empilhadas. E aquilo era muito, muito legal. E dava pra correr no mar e encher o baldinho de água. E a água era salgada. Um dia peguei um peixinho preto no baldinho. Cheguei a carregá-lo comigo por aí, até que alguém me convenceu a devolver o pobre coitado ao mar.

Mas nada superava o mar em si. Entrar na água. Estar no mar, levar pancadas das ondas, sair rolando, me ralar na areia, levantar e voltar correndo para a água, esperando a próxima onda. Ficava no raso, e mesmo assim engolia muita água – mas muita mesmo.

E então eu pegava uma virose em praticamente toda e qualquer ida à praia. Me esbaldava o quanto podia no mar e depois passava uns dois dias vomitando. Mas, tudo bem. Não conseguia ainda examinar e entender as causas do mal-estar. Só lamentava não poder mais entrar na água naquela semana.

Ir embora, de volta à grande cidade sem praias, era um momento de profundo luto.

[Flávia Siqueira]

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Cartas de Meu Avô

Conheça o poema de Manuel Bandeira sobre as cartas de seus avós, que revelam ao neto outras facetas de suas vidas e juventude:

Cartas de Meu Avô

A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.

A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme…
A dor… a visão da morte…
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu…
Do meu, — fruto sem cuidado
Que ainda verde apodreceu.

O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora abismada no luto
Das minhas desesperanças…

E a noite vem, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

*Poema publicado no livro A cinza das horas (1917).

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O que é o tempo e o ser velho hoje

O escritor indígena Daniel Munduruku conta que ser avô é motivo de grande orgulho entre seu povo, pois aos avós cabe a nobre tarefa de educar o espírito das crianças, enquanto os pais precisam cuidar do corpo e dos ensinamentos da vida prática. Ser velho, para eles, não é motivo de vergonha, pelo contrário.

Se os sentidos e significados que damos para a velhice são culturais, quando foi que o ser velho se tornou um estigma a ser combatido? Seja disfarçado entre tintas para cabelo e cirurgias plásticas, seja escondido dentro de casa, pois a vida cotidiana já não lhe diz mais respeito?

O modo como encaramos o tempo e a vida tem relação direta com nosso olhar para a velhice. E os mitos gregos sobre o tempo podem ajudar a entender como chegamos ao lugar em que estamos hoje.

Mitos gregos

Para os gregos, o tempo é representado por Cronos, um ancião casado com a terra, Rea. Mas Cronos tinha uma obsessão: devorar seus filhos recém-nascidos por medo de ser destronado por um deles. Cronos é o mito do tempo que destrói tudo e representa a impossibilidade da criação.

Já Prometeu é um jovem deus que roubou o fogo dos deuses e o ofereceu aos homens — que, graças ao presente, puderam dominar a natureza e vencer seu estado de penúria original. Como castigo pela traição aos outros deuses, Prometeu foi preso a uma pedra no alto de um penhasco. Todos os dias uma ave gigantesca vinha devorar seu fígado. À noite, o fígado crescia novamente para, no dia seguinte, a ave retornar e comê-lo outra vez.

Ao dar o fogo aos homens, Prometeu os libertou da luta mais básica pela sobrevivência e deu a eles a possibilidade de futuro, de criação. Mas sua punição repete o seu crime: o pior não é ter seu fígado comido, é saber que amanhã tudo acontecerá novamente, é essa consciência do futuro que traz ansiedade e maior angústia — para Prometeu e para os homens.

Tempo para o trabalho

Nossa sociedade valoriza a produção constante, a criação, e seu tempo por excelência é o tempo para o trabalho. Portanto, a força física e a juventude tornam-se valores muito caros para nós, pois representam o auge da força para a produção. Além disso, as revoluções tecnológica e da informática reforçaram ainda mais a valorização do novo e a ideia de que o que é velho torna-se logo obsoleto e, portanto, perde seu valor – uma lógica que pode funcionar para as máquinas, mas que precisa ser revista quando falamos de pessoas. Portanto, de certa forma vivemos ainda o tempo de Prometeu, voltado para a criação, que transforma o mundo numa experiência cada vez mais complexa e que tende a sair do controle, o que dá origem a nossa ansiedade e angústia pelo futuro.

O resultado, como aponta o historiador Nicolau Sevcenko no artigo O envelhecimento e o mistério da passagem do tempo, é a criação de uma sociedade profundamente desumana, injusta e opressiva, em que nós, pessoas portadoras dessa cultura, somos os responsáveis pela opressão de nós mesmos e de nossos semelhantes. Portanto, acreditamos que já passa da hora de incorporarmos novas referências ao sentido da passagem do tempo e da velhice. Culturas como a dos indígenas Munduruku podem ter muito a nos ensinar sobre como transformar nossa sociedade num lugar mais humano para todos – já que, com sorte, todos seremos velhos um dia – e que valorize todos os aprendizados que os idosos podem nos ensinar.

Uma forma de valorizar a cultura e os ensinamentos dos mais velhos é ouvindo-os com atenção. Registrar suas histórias e experiências também pode ser importante para transmiti-las às futuras gerações. Quer escrever as histórias de seus pais e avós e não sabe por onde começar? Entre em contato conosco.