5 dicas para preservar memórias de família

Já aconteceu com todo mundo: você está folheando o álbum de fotos de família, depara-se com uma imagem e não sabe quem são as pessoas que aparecem naquela foto. Pergunta para um familiar, que também não sabe… e a dúvida permanece.

É claro que situações como essa acabam se transformando em momentos de muita conversa e descobertas. Mas que tal organizar as informações e registrar as lembranças para o futuro?

Reunimos 5 dicas para preservar as memórias de família:

1) Registre em texto informações sobre fotografias
Quem são aquelas pessoas? Onde estavam? O que faziam? Que época era aquela? Você pode fazer anotações no verso das imagens ou (melhor) em um arquivo separado – pode ser em papel ou no formato digital.

2) Faça uma árvore genealógica e, se possível, digitalize e guarde os documentos que encontrar
Anote os nomes completos de seus familiares e antepassados. Existem ferramentas on-line que facilitam a criação da árvore, como o Canva. Para mais detalhes e ideias, veja também este passo a passo.

3) Entreviste seus familiares e registre suas histórias e lembranças
Você pode gravar as entrevistas em áudio ou vídeo. Imagine que incrível será rever o material daqui a alguns anos! Outra opção é fazer um livro, nossa especialidade aqui na Daria um Livro – saiba mais sobre nosso trabalho 🙂

4) Digitalize as fotografias mais significativas
Esse é um passo importante, já que as fotos impressas se deterioram com o tempo. Se o volume for muito grande, escolha as imagens mais significativas. Para mais segurança, armazene em um pen drive e também em algum serviço de nuvem, como o Google Drive ou o Dropbox.

5) Considere restaurar algumas das fotografias impressas mais desgastadas
Existem profissionais especializados em restauração digital de fotografias. Nós já testamos esse serviço e gostamos muito do resultado – veja aqui o antes e depois.

Sua história importa.
Sua história é única.
Sua história daria um livro.
Fale conosco.

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Objetos de memória

Quando minha avó chegou ao Brasil com minha mãe, trouxe, no navio, um baú de ferro e madeira. Quando eu era criança, fazia de conta que aquele era o baú de um tesouro pirata.

Eu gostava de abrir a caixa pesada e ficar remexendo nas coisas que estavam dentro dela. Brincava que eram meus tesouros, embora nada ali se parecesse com as moedas de ouro e as joias que eu via nos filmes de pirata.

A verdade é que só hoje eu consigo perceber que aquele baú realmente guardava – e guarda – alguns dos tesouros da minha família.

Nosso baú está cheio de tecidos: toalhas, colchas, panos bordados, retalhos diversos. Minha avó costurava, e cada pedaço de pano ali tem uma história. Entre eles, uma toalhinha feita do linho que minha própria bisavó plantou, colheu, lavou, fiou, teceu e costurou. Tudo feito em casa por mãos que nunca cheguei a conhecer, mas que se comunicam comigo não só pelo desenho de minhas digitais, mas pelo toque de seu trabalho manual.

No baú também está uma colcha de frio feita com a lã dos carneiros que minha família criava em Portugal.  E alguns dos retalhos de pano comprados por minha avó na feira, já aqui no Brasil – tecidos que, com muita criatividade, foram transformados em peças de roupa para toda a família, e sem nenhum remendo visível, como até hoje todos se orgulham de lembrar.

Também estão lá os bordados da minha mãe, a renda fina da Ilha da Madeira dada pela vizinha em troca de um empréstimo num momento de necessidade…

Alguns objetos podem guardar parte da nossa história. Os trabalhos manuais são recordações que nos permitem tocar as mãos de outras gerações. E não precisam ser coisas grandiosas ou caras – importa apenas que nos ajudem a contar, sentir e ver um pouco da história que fez nossa vida ser o que é. Ainda quero aprender a tecer algo com as mãos, para dar minha contribuição ao nosso baú.

E você? Que objetos contam sua história?

E já pensou em transformar a história de sua família em livro? Conheça nosso trabalho.

[Marina Almeida]

Documentos de família revelam história secreta

O remanescente (Cia. das Letras) é uma história de perda e de reinvenção de si. É também a história de um neto que, ao vasculhar as gavetas dos avós, descobre fotografias, cartas e documentos que revelam a trajetória de sua família. O mergulho na vida de seus antepassados, dessas pessoas com quem conviveu, mas que até então não tinha sido capaz de compreender, deu origem ao livro em que Rafael Cardoso conta suas descobertas.

Seus avós, um alemão e uma judia, chegaram ao Brasil fugindo do holocausto e da perseguição nazista. O país, no auge do Estado Novo, ainda flertava com os alemães, e por isso seus avós se protegeram sob uma nova identidade. O autor lembra que os avós nunca falavam sobre assuntos de guerra e exílio: “talvez porque não quisessem repassar os traumas para os netos. Talvez porque nunca os tivessem superado”. Foi só aos 16 anos que Rafael descobriu que tinha ascendência alemã e judia, e só muitos anos depois ele resolveu pesquisar essa história a fundo.

Nesse mergulho, o autor chegou à história de seu bisavô, Hugo Simon, que foi banqueiro e ministro de Finanças da Prússia, socialista, mecenas e colecionador de arte. Pacifista, junto com seu amigo Albert Einstein, ele fundou um movimento que deu origem à liga alemã pelos direitos humanos. Uma história só recuperada agora, quase 80 anos depois.

Você conhece as histórias de sua família? Quais os segredos guardados pela trajetória de seus pais e avós que podem estar se perdendo com o tempo? Registrar essas histórias em livros pode revelar muitas surpresas e garantir que esse legado chegue às futuras gerações. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando a preservar suas memórias.

[Marina Almeida]

Natal em letras

Que o humor de Drummond, a comoção de Rubem Alves, a gula (recheada de ironia) de Mário de Andrade, o abraço terno e nostálgico de Vinicius e o lirismo fraterno de Pessoa façam parte do seu natal. É o que nós desejamos a todos vocês!

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Este Natal

“— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava-os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.”

O humor e a ironia de Drummond nos ajudam a superar os perigos dessa época do ano. Leia aqui: http://www.releituras.com/drummond_estenatal.asp

 

O presépio

crib-1807861_1920-e1512527285302.jpgOs pinheiros eram bonitos, mas não me comoviam como o presépio: uma estrela no céu, uma cabaninha na terra coberta de sapé, Maria, José, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados com reis e anjos numa mansa tranqüilidade, os campos iluminados com a glória de Deus, milhares de vaga-lumes acendendo e apagando suas luzes, tudo por causa de uma criancinha. A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança.

Leia Rubem Alves contando sobre seu natal de menino em Minas Gerais: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2312200804.htm

 

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Peru de Natal

“Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas…”

Leia o conto completo de Mário Andrade sobre gulas natalinas e relações familiares complicadas: http://www.releituras.com/marioandrade_natal.asp

 

Poema de Natal

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Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Conheça mais da obra de Vinicius de Moraes: http://www.viniciusdemoraes.com.br

 

O guardador de rebanhos (canto VIII)

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Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

(…)
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
……………………………………………
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
……………………………………………
Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Pessoa, sob o heterônimo de Alberto Caeiro, nos apresenta um encontro do poeta com Jesus, feito outra vez menino, criança a brincar e correr pelos campos. Leia aqui o poema completo: http://www.releituras.com/fpessoa_guardador.asp

Ou ouça a interpretação de Abujamra: https://www.youtube.com/watch?v=zoZ3q7ON5wA

 

 

10 tradições de Natal pelo mundo

1. Itália

Na Itália, quem distribui presentes para as crianças no Natal é a Befana, uma velhinha que anda montada numa vassoura carregando um saco com caramelos, chocolates e brinquedos. A personagem tem origem pagã, mas a tradição popular conta que os Reis Magos a caminho de Belém pararam para pedir informações para uma velha. Ela recebeu os visitantes em sua casa e foi convidada a acompanhá-los na visita ao menino Jesus, mas recusou. Mais tarde, arrependida, ela tentou reencontrá-los, mas não conseguiu. Desde então, para em todas as casas pelo caminho e distribui doces às crianças, na esperança de que uma delas seja o Menino Jesus.

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2. Portugal

Em Portugal, nas festas natalinas é tradição comer o Bolo-rei: um bolo em forma de coroa, coberto e recheado com passas, castanhas, e frutas secas e cristalizadas. Tradicionalmente também é colocada uma fava seca e um brinde na massa: quem receber o pedaço com a fava terá de pagar o bolo do próximo ano e quem achar o brinde terá muita sorte. Em 1910, quando foi proclamada a república em Portugal, o bolo chegou a receber outros nomes, até mesmo de bolo-presidente, mas com o tempo ele voltou a ser chamado pelo nome original (aprenda a fazer aqui. Não gosta de frutas cristalizadas? Experimente o Bolo Rainha).

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 3. Islândia

Na Islândia, 13 duendes visitam as crianças nos 13 dias que antecedem o Natal para brincar e fazer traquinagens. Nessas noites, as crianças colocam seus sapatos nas janelas e os duendes deixam presentes para as que se comportaram bem e batatas podres para as que se comportaram mal. Além de levar presentes, os duendes gostam de aprontar travessuras nas casas que visitam e seus nomes – “o “espiador de janelas”, o “ladrão de salsichas” e o “lambedor de colheres”, entre outros – já mostram o tipo de coisa que eles fazem.

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O Espiador de Janelas e o Batedor de portas

4. Filipinas

Em San Fernando, a “capital do Natal nas Filipinas” acontece o Festival das Lanternas Gigantes, uma competição entre vilarejos para ver quem cria as lanternas mais elaboradas. Hoje, algumas lanternas chegam a medir mais de seis metros, formando desenhos num caleidoscópio de luz.

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5. Alemanha

Em pleno inverno, não faltam bebidas fortes no Natal alemão. As mais tradicionais são o Glühwein, parecido com o nosso vinho quente (aprenda a fazer), e o Jägertee, o Chá dos caçadores, uma bebida quente e de alto teor alcoólico, feita a partir da mistura de diversas ervas. Já a estrela da ceia é o ganso, mas ainda há espaço para o pato ou para o salsichão.

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6. Áustria

Na Áustria, na região dos Alpes, o Natal é a época dos Krampus, criaturas de aparência demoníaca, com chifres e pele de ovelha pelo corpo. Enquanto São Nicolau presenteia as crianças boas, os Kraus assustam as más com chicotes e correntes. Nos anos 1930, a tradição chegou a ser proibida no país, mas ressurgiu no final do século e perdura até hoje, com desfiles onde pessoas fantasiadas assustam os espectadores (leia mais).

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7. Rússia

Sabia que na Rússia o Natal é comemorado dia 7 de janeiro? A Igreja Ortodoxa Russa festeja o Natal de acordo com o calendário juliano, “atrasado” em 13 dias em relação ao nosso calendário, o gregoriano, por isso essa diferença. E o Papai Noel russo se chama Ded Moroz, ou Vovô do Frio, que visita as crianças acompanhado de sua neta, a nevezinha.

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8. Austrália

Saem os bonecos de neve e entram os bonecos de areia. E que tal um Papai Noel surfista? Na Austrália, assim como no Brasil, o Natal acontece em pleno verão, por isso a tradição lá é comemorar a data na praia, com muitos peixes e frutos do mar.

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9. Colômbia

O Día de las Velitas (dia das velinhas) marca o início das festas natalinas no país. A tradição começou com velas e lanternas deixadas nas janelas e varandas das casas em homenagem a imaculada concepção de Maria. Hoje decorações muito elaboradas iluminam cidades inteiras.

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10. Japão

No Japão, de tradição budista, o Natal não é uma data muito importante e muitas vezes acaba sendo entendido como uma antecipação do dia dos namorados. Nos últimos anos, porém, surgiu uma ‘tradição’ diferente: comer frango frito de uma grande rede de fast-food americana neste dia. A procura é tanta, que é preciso reservar com antecedência!

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***

E você, como comemora o Natal? Tem muitas histórias dessa época? Quais as tradições da sua família? Sabe de onde elas vêm? Já pensou em registrá-las para as próximas gerações? Se precisar de nossa ajuda, é só entrar em contato!

No tempo da zagaia de gancho

— Acho que eu tô tão atrasada que eu sou do tempo da zagaia de gancho.

— O que é zagaia de gancho, dona Elza?

— Ó, eu ouvia os caipiras lá da roça falando quando achava que era muito véio, que não ia com as coisas de hoje, mas eu mesmo não sei.

Meu pai pega o celular e descobre imagens da tal zagaia de gancho. Mostra para dona Elza, minha avó, que não esconde a surpresa:

— Agora que eu fiquei sabendo. A gente fala as coisas e não sabe, se fosse um palavrão feio…

E ela explica, para mim, o que viu:

— É feito um naviinho, daquele que… na água, mas não aqueles grandão, aqueles pequenininho, quadradinho, amarradinho, é feito uns esgueio. Acho que toca, na água, não sei. Chama zagaia de gancho.

Entendeu? Em outras palavras, e menos estilo, a Wikipedia explica que é uma lança curta e delgada usada como arma de arremesso para a caça ou pesca. Os registros sobre o uso da expressão que encontrei eram poucos, mas ao que tudo indica, a zagaia (ou azagaia) de gancho era uma ferramenta muito utilizada pelos indígenas brasileiros e também por outras pessoas desde o período colonial. Provavelmente daí vem sua associação ao que é antigo, de outros tempos.

Mas as explicações difundidas pela internet vão ainda mais longe. Na Serra da Canastra, em Minas Gerais, contam que havia um pouso de tropeiros em que o dono escondia uma zagaia no quarto e lançava-a no meio da noite contra os hóspedes que dormiam. Em seguida roubava suas posses. Mas contam também que as maldades tiveram fim com um destino trágico para o dono da pousada (conheça a história completa aqui).

Outra versão dizia que zagaia era uma corruptela de “H’s” e a expressão se referiria, assim, ao tempo em que as palavras eram escritas com ph (como pharmacia).

A expressão era tão conhecida que na música Couro de boi, composta por Palmeira e Teddy Vieira e gravada por diversos cantores caipiras, encontramos a referência a um ditado “do tempo do zagais”. Seria uma referência ao tempo dos Hs? Da zagaia de gancho? Ou ao destino trágico dos hóspedes da fazenda na Canastra?

Novos tempos

— Internet, celular… acha tudo, não, Marina? Nossa, como evoluiu as coisas. No meu tempo, quando apareceu o avião o povo tinha medo, falava que era assombração. Eu não achava nada, mas alembro. As coisas evoluiu totalmente.

— E o que a senhora acha disso?

— Uai, é bom! Que era muito atrasado. A gente falava de estudar, meu padrasto falava: “bobagem, para que estudar? Mulher não precisa aprender a ler”. Já pensou que ignorância!

Pensando bem, do alto dos seus 93 anos, dona Elza não é do tempo da zagaia de gancho, não.

Cartas de Meu Avô

Conheça o poema de Manuel Bandeira sobre as cartas de seus avós, que revelam ao neto outras facetas de suas vidas e juventude:

Cartas de Meu Avô

A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.

A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme…
A dor… a visão da morte…
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu…
Do meu, — fruto sem cuidado
Que ainda verde apodreceu.

O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora abismada no luto
Das minhas desesperanças…

E a noite vem, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

*Poema publicado no livro A cinza das horas (1917).

Suas cartas também contam histórias? Entre em contato conosco para transformá-las em livro.

O que é o tempo e o ser velho hoje

O escritor indígena Daniel Munduruku conta que ser avô é motivo de grande orgulho entre seu povo, pois aos avós cabe a nobre tarefa de educar o espírito das crianças, enquanto os pais precisam cuidar do corpo e dos ensinamentos da vida prática. Ser velho, para eles, não é motivo de vergonha, pelo contrário.

Se os sentidos e significados que damos para a velhice são culturais, quando foi que o ser velho se tornou um estigma a ser combatido? Seja disfarçado entre tintas para cabelo e cirurgias plásticas, seja escondido dentro de casa, pois a vida cotidiana já não lhe diz mais respeito?

O modo como encaramos o tempo e a vida tem relação direta com nosso olhar para a velhice. E os mitos gregos sobre o tempo podem ajudar a entender como chegamos ao lugar em que estamos hoje.

Mitos gregos

Para os gregos, o tempo é representado por Cronos, um ancião casado com a terra, Rea. Mas Cronos tinha uma obsessão: devorar seus filhos recém-nascidos por medo de ser destronado por um deles. Cronos é o mito do tempo que destrói tudo e representa a impossibilidade da criação.

Já Prometeu é um jovem deus que roubou o fogo dos deuses e o ofereceu aos homens — que, graças ao presente, puderam dominar a natureza e vencer seu estado de penúria original. Como castigo pela traição aos outros deuses, Prometeu foi preso a uma pedra no alto de um penhasco. Todos os dias uma ave gigantesca vinha devorar seu fígado. À noite, o fígado crescia novamente para, no dia seguinte, a ave retornar e comê-lo outra vez.

Ao dar o fogo aos homens, Prometeu os libertou da luta mais básica pela sobrevivência e deu a eles a possibilidade de futuro, de criação. Mas sua punição repete o seu crime: o pior não é ter seu fígado comido, é saber que amanhã tudo acontecerá novamente, é essa consciência do futuro que traz ansiedade e maior angústia — para Prometeu e para os homens.

Tempo para o trabalho

Nossa sociedade valoriza a produção constante, a criação, e seu tempo por excelência é o tempo para o trabalho. Portanto, a força física e a juventude tornam-se valores muito caros para nós, pois representam o auge da força para a produção. Além disso, as revoluções tecnológica e da informática reforçaram ainda mais a valorização do novo e a ideia de que o que é velho torna-se logo obsoleto e, portanto, perde seu valor – uma lógica que pode funcionar para as máquinas, mas que precisa ser revista quando falamos de pessoas. Portanto, de certa forma vivemos ainda o tempo de Prometeu, voltado para a criação, que transforma o mundo numa experiência cada vez mais complexa e que tende a sair do controle, o que dá origem a nossa ansiedade e angústia pelo futuro.

O resultado, como aponta o historiador Nicolau Sevcenko no artigo O envelhecimento e o mistério da passagem do tempo, é a criação de uma sociedade profundamente desumana, injusta e opressiva, em que nós, pessoas portadoras dessa cultura, somos os responsáveis pela opressão de nós mesmos e de nossos semelhantes. Portanto, acreditamos que já passa da hora de incorporarmos novas referências ao sentido da passagem do tempo e da velhice. Culturas como a dos indígenas Munduruku podem ter muito a nos ensinar sobre como transformar nossa sociedade num lugar mais humano para todos – já que, com sorte, todos seremos velhos um dia – e que valorize todos os aprendizados que os idosos podem nos ensinar.

Uma forma de valorizar a cultura e os ensinamentos dos mais velhos é ouvindo-os com atenção. Registrar suas histórias e experiências também pode ser importante para transmiti-las às futuras gerações. Quer escrever as histórias de seus pais e avós e não sabe por onde começar? Entre em contato conosco.

Império Kalunga: cortejo de tradição e fé

Papel colorido e flores pra enfeitar a praça em frente à capela da Vila de São Jorge. A mesa de bolos já está pronta e os músicos se aquecem enquanto o povo vai chegando. O Império, do povo Kalunga, vai começar no Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros. É uma festa tradicional da comunidade quilombola de Vão de Almas, no Sítio Histórico Kalunga (GO), em honra ao Divino Espírito Santo.

Os Kalungas todos já aguardam. Vêm arrumados para a festa, que dia de santo é dia de tirar a gravata do armário, a melhor camisa. Chapéu de palha para arrematar, mas a turma mais nova só quer é saber de boné. Faz mal não, o importante é proteger a cabeça, fazer a homenagem e não atrasar o compasso do pandeiro. Também saem de casa os brincos e as pulseiras. E os laços de fita amarrando as tranças dos cachos.

No cantinho, enquanto não começa o cortejo, dá tempo de chupar uma laranja, mas come com pressa, não pode perder a saída. Os músicos aceleram, viola, sanfona, pandeiro, triângulo e atabaque. Um pé que bate daqui, outro dali… Os turistas estão chegando, vai começar.

Bandeira e espada se apresentam. Cada uma na sua vez e com sua dança – esgrima no ar, movimentos e giros e voltas. “É uma comparação, mostrando a tradição. Ele me mostra a dele, e eu mostro a minha. Isso é de muito tempo que eles fazem”, me explica no final da festa o seu Santana dos Santos Rosa, nome de nascido no dia da mãe de Nossa Senhora. Sua apresentação da espada é tradição antiga. “Eu via os mais velhos e disse: uai, vou aprender a fazer isso. Tinha um velho que fazia e peguei entendimento de fazer. Prestando atenção faz bem, né? Igual ele, aprendeu com os criador dele, né, Antero?”, e o colega da dança da bandeira concorda.

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Pelas ruas

O cortejo sai. Protegido por um quadro feito de varas coloridas, lá vai seu Santana com a espada, seu Antero com a bandeira do Divino. Vão também o rei e os anjos. E mais a avó para segurar as asas, “que o anjo é pequeno e não vá deixar cair as asas”. Anda muito compenetrado em sua função e só aperta com força de susto os olhos quando soltam fogos – às vezes os anjos também dão de ter medo. Já a anjinha no colo mal ainda sabe andar, mas de nada se assusta, vai toda grande de olhos, curiosidade.

O rei vai firme em sua coroa de flores, não abaixa a cabeça, não tropeça, não perde o passo. Óculos escuros para não franzir o rosto com o sol que já quer se pôr. Coisas de realeza. Na tradição Kalunga, a cada ano um rei é escolhido e seu trabalho é organizar toda a festa. Sorriso mesmo só em quem segura o bastão, que às vezes é difícil segurar o orgulho num momento assim.

Segue o povo, não para a música e quando a rua é de aperto, eles fazem do quadro losango, que esse é povo de adaptação. Seu Santana fala o porquê da separação: “Vamos ali dentro do quadro, que se não for é muita gente e separa os cabeceiras. Ali só o líder, o rei, os anjos…”. Na volta para a praça tem mais apresentação de espada e de bandeira. Os tocadores param e a voz das mulheres assume na capela. Agudas, tremendo pedidos ao Divino e ao nosso Senhor. Mas não se enganem, que o trabalho delas começou bem antes, nas flores, nos enfeites de papel, da coroa do rei e dos anjos. “Antes era flor do campo porque nem tinha papel lá, pelos anos 60, agora nós faz assim. Comecei a fazer essas flores com uns nove pra dez anos, era mais destacada e começaram a sempre me chamar para ajudar. Fui professora e agora todos já sabem fazer”, fala dona Dainda, que desde a véspera ajudava as mulheres a preparar todos os enfeites.

Na capela

Dona Procópia já não tem pernas para o cortejo, mas é o povo chegar que ela sai se apoiando na bengala para alcançar a capela. Logo já está bem na frente, lenço colorido enrolado na cabeça puxando o canto. A voz é fininha, mas, ai, que a fé é das largas. Olhos fixos no pequeno altar, tem sempre outra música pra não parar tão cedo as rezas. Só não peçam pra benzer. “Quando que eu sei benzer? Reza de rezar no altar pra defender todo mundo, pode me chamar que eu tô pronta. Mas benzimento? Isso não é comigo, não, uai”.

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Texto escrito originalmente para o Encontro de culturas

Fotos: Ana Caroline de Lima (Antropologia visual)

[Marina Almeida]

[BLOG] Drummond a seu pai: Como um presente

Neste poema, Drummond imagina uma conversa póstuma com seu pai no dia em que ele faria aniversário:

Como um presente

(…)

Em verdade paraste de fazer anos.
Não envelheces. O último retrato
vale para sempre. És um homem cansado
mas fiel: carteira de identidade.

(…)

Perdoa a longa conversa.
Palavras tão poucas, antes!
É certo que intimidavas.
Guardavas talvez o amor
em tripla cerca de espinhos.
Já não precisas guardá-lo.

No escuro em que fazes anos,
no escuro,
é permitido sorrir.

Como um presente (poema completo aqui), de Carlos Drummond de Andrade, se inicia como uma reflexão do filho na data do aniversário do pai, já morto. Ele relembra o último retrato do pai, seus olhos estriados e as mãos enrugadas do senhor já idoso, o aspecto cansado. O pai agitado, inquieto, finalmente está calmo, imóvel e essa contradição o impressiona. O poema é a conversa que nunca houve entre o filho e seu pai, que era homem de poucas palavras.

A força do pai, seu poder, os olhos que jamais derramavam lágrimas, o amor nunca demonstrado e a falta de sorrisos, que assombravam o menino, podem ser finalmente compreendidos de outra maneira: não são só a expressão de um pai severo, frio e distante, mas a expressão de um homem de seu tempo e sua classe, criado numa sociedade patriarcal, hierarquizada e opressora. Num mundo caduco, as relações de amor, família e sociedade se dão também de maneira torta, com indivíduos tortos de alguma forma.

Esse entendimento permite uma dupla redenção pela poesia: do pai, limitado pelo seu tempo e história, e do filho, que se liberta da mágoa até então guardada. O poeta consegue pela primeira vez conversar com o pai, já morto, e ligar-se a ele, senti-lo presente e compreendê-lo. Assim, o que o filho dá a seu pai como um presente no dia em que ele faria anos é a possibilidade de libertação, ainda que apenas após a morte, é a possibilidade de sorrir, ainda que no escuro.

 

[Marina Almeida]