Geraldinho: a alegria e os causos do interior do Brasil

geraldinhoGeraldinho Nogueira era um contador de causos, um homem que falava a língua da roça, do interior do Brasil e fazia todos rirem com suas histórias e suas habilidades cênicas para a narração. Conta-se que Geraldinho não perdia uma oportunidade de contar (e alegrar com) suas histórias. Toda hora era hora: na roça, nas festas, no boteco, nas folias, quermesses e – acreditem – até nos velórios!

Natural de Bela Vista de Goiás (GO), Geraldinho não tinha estudos e dizia “minha caneta é a enxada na saroba”. Ainda assim, seus causos chamaram a atenção tanto pela originalidade quanto por sua linguagem única. Seu talento foi revelado por Hamilton Carneiro e José Batista em 1984. Eles levaram os causos de Geraldinho para o programa Frutos da Terra, da TV Anhanguera, o que trouxe reconhecimento nacional para o contador.

Além das características próprias da linguagem regional e oral, as histórias de Geraldinho utilizam-de de variações estilísticas para criar seu efeito cômico e original. Como bom contador de causos, Geraldinho usava expressões muito criativas: “subaquim da perna” (atrás do joelho), “recursim de minguar a toada” (freio), “esgotamento do mês” (menstruação), “molas do jueio” e “ferramenta de mijá” são algumas das expressões que se tornaram sua marca.

Antes de se apresentar para o grande público na TV, o linguajar do contador de causo sofreu algumas alterações. Orientado pelo apresentador e empresário, adequou sua linguagem aos meios de comunicação, removeu algumas palavras e expressões que conteriam “excessos de regionalismo”. Mas a originalidade de Geraldinho está justamente em sua habilidade com a linguagem e em sua espontaneidade.

Geraldinho Nogueira é um dos grandes contadores de causos do Brasil. Apesar de bastante esquecido após sua morte, seu trabalho merece ser preservado pela maestria com que trabalhava a linguagem dos contos e a originalidade de suas histórias.

Conheça o “Causo da Bicicleta”, uma de suas histórias mais famosas:

 

Você ou seus familiares também têm muitos causos para contar? Já pensou em registrar essas histórias como forma de preservá-las? Nós, da Daria um livro, podemos ajudá-lo nesse trabalho, com muito respeito às suas histórias e valorizando a linguagem original do contador. Entre em contato conosco!

 

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Uma visita à casa (e à obra) de Guimarães Rosa

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Cordisburgo (MG) é uma cidadezinha de menos de 10 mil habitantes e a terra natal do escritor Guimarães Rosa. Na casa-museu do autor, que viveu ali até os 9 anos de idade, podemos conhecer um pouco mais sobre sua vida, sua obra, suas inspirações e a origem de seus personagens tão singulares…

A casa mantém a decoração de uma moradia do interior no início do século 20. O quarto da família tem terços, oratório e colcha bordada; a cozinha, fogão a lenha, panelas de ferro, pilão e cristaleira; além de um poço e um carro de boi no quintal dos fundos.

O pai de Guimarães Rosa tinha uma venda e conta-se que o primeiro contato do autor com as falas e as histórias sertanejas vem do que ele ouvia ali enquanto seu pai trabalhava. Na venda encontramos os produtos que serviam à vida daqueles tempos: os artigos de couro e de palha, os vasos de barro, o berrante, ­os brinquedinhos da época, os chapéus e as violas, as espingardas, as selas, os esteios, entre outros.

Descobertas sobre Rosa

O museu também possui um grande acervo sobre Guimarães Rosa. A máquina de escrever do autor, objetos de seu escritório pessoal, cartas, originais de suas obras e as correções feitas por ele. Podemos ver ali o longo processo por trás de cada um de seus trabalhos: ele relembrava, com a ajuda de cartas ao pai, as histórias da região, pesquisava sobre as plantas e o vestuário das pessoas, fazia viagens… Claro que seu trabalho ia muito além de recolher essas histórias, transformando-as em grandes obras literárias, mas é interessante ver que mesmo um grande autor precisa estudar e pesquisar. Não se cria no vazio, é preciso perguntar, ver e ouvir de peito aberto a natureza e o povo do sertão para escrever sobre ele. Viver para contar.

Portal do sertão

A cidade ainda abriga o Portal do Sertão, uma homenagem ao escritor e a alguns de seus personagens mais famosos: sete estátuas em bronze, que representam parte do bando de jagunços de Riobaldo – do livro Grande Sertão: Veredas. Atrás deles, de óculos, papel e caneta na mão, o próprio autor nos sorri e parece cumprimentar quem se aproxima de sua criação.

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Leia mais sobre o passeio a Cordisburgo (MG)

[Marina Almeida]

Sabedoria indígena: uma língua não é feita só de palavras

“Às vezes fico pensando por que Deus fez nós índios falar cada um uma língua diferente. Mas acho que é porque nós falamos a língua da terra, das matas, dos bichos. Os animais da caatinga não são os mesmos da floresta, como é que a nossa língua ia ser a mesma? A língua dos Fulni ôs é a língua do sertão, da seca, daquelas pedras, daquelas plantas, dos calangos… não podia ser a mesma língua de quem vive na Amazônia, onde chove todo dia. E por isso que é importante que cada um de nós preserve a nossa língua, porque é a língua que conhece as plantas da nossa região, os animais, que conhece a vida na seca…”

Parece poesia, mas foi só uma conversa com a jornalista Amazonir, que pertence à etnia Fulni ô – povo de cantos fortes e alegria transbordante que vive no interior de Pernambuco, lutando contra a seca e pelo direito à terra.

Lembro dos Fulni ô cantando à noite em volta da fogueira, vozes potentes de timbres que se completam preenchendo espaços e corações. Era contagiante e eles sabiam: nos convidavam a acompanhá-los. Algumas frases em português para facilitar intercaladas com outras em Iatê, sua língua. Nada mais justo. “ Agora é homens contra mulheres para ver quem canta mais”. E a brincadeira seguia.

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Foto de André Rodrigo Pacheco para o Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros

A Amazonir escreve um blog sobre questões indígenas:  http://amazonirfulnio.blogspot.com.br/

Leia mais posts como este no blog: Notícias de toda sorte

[Marina Almeida]

10 tradições de Natal pelo mundo

1. Itália

Na Itália, quem distribui presentes para as crianças no Natal é a Befana, uma velhinha que anda montada numa vassoura carregando um saco com caramelos, chocolates e brinquedos. A personagem tem origem pagã, mas a tradição popular conta que os Reis Magos a caminho de Belém pararam para pedir informações para uma velha. Ela recebeu os visitantes em sua casa e foi convidada a acompanhá-los na visita ao menino Jesus, mas recusou. Mais tarde, arrependida, ela tentou reencontrá-los, mas não conseguiu. Desde então, para em todas as casas pelo caminho e distribui doces às crianças, na esperança de que uma delas seja o Menino Jesus.

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2. Portugal

Em Portugal, nas festas natalinas é tradição comer o Bolo-rei: um bolo em forma de coroa, coberto e recheado com passas, castanhas, e frutas secas e cristalizadas. Tradicionalmente também é colocada uma fava seca e um brinde na massa: quem receber o pedaço com a fava terá de pagar o bolo do próximo ano e quem achar o brinde terá muita sorte. Em 1910, quando foi proclamada a república em Portugal, o bolo chegou a receber outros nomes, até mesmo de bolo-presidente, mas com o tempo ele voltou a ser chamado pelo nome original (aprenda a fazer aqui. Não gosta de frutas cristalizadas? Experimente o Bolo Rainha).

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 3. Islândia

Na Islândia, 13 duendes visitam as crianças nos 13 dias que antecedem o Natal para brincar e fazer traquinagens. Nessas noites, as crianças colocam seus sapatos nas janelas e os duendes deixam presentes para as que se comportaram bem e batatas podres para as que se comportaram mal. Além de levar presentes, os duendes gostam de aprontar travessuras nas casas que visitam e seus nomes – “o “espiador de janelas”, o “ladrão de salsichas” e o “lambedor de colheres”, entre outros – já mostram o tipo de coisa que eles fazem.

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O Espiador de Janelas e o Batedor de portas

4. Filipinas

Em San Fernando, a “capital do Natal nas Filipinas” acontece o Festival das Lanternas Gigantes, uma competição entre vilarejos para ver quem cria as lanternas mais elaboradas. Hoje, algumas lanternas chegam a medir mais de seis metros, formando desenhos num caleidoscópio de luz.

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5. Alemanha

Em pleno inverno, não faltam bebidas fortes no Natal alemão. As mais tradicionais são o Glühwein, parecido com o nosso vinho quente (aprenda a fazer), e o Jägertee, o Chá dos caçadores, uma bebida quente e de alto teor alcoólico, feita a partir da mistura de diversas ervas. Já a estrela da ceia é o ganso, mas ainda há espaço para o pato ou para o salsichão.

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6. Áustria

Na Áustria, na região dos Alpes, o Natal é a época dos Krampus, criaturas de aparência demoníaca, com chifres e pele de ovelha pelo corpo. Enquanto São Nicolau presenteia as crianças boas, os Kraus assustam as más com chicotes e correntes. Nos anos 1930, a tradição chegou a ser proibida no país, mas ressurgiu no final do século e perdura até hoje, com desfiles onde pessoas fantasiadas assustam os espectadores (leia mais).

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7. Rússia

Sabia que na Rússia o Natal é comemorado dia 7 de janeiro? A Igreja Ortodoxa Russa festeja o Natal de acordo com o calendário juliano, “atrasado” em 13 dias em relação ao nosso calendário, o gregoriano, por isso essa diferença. E o Papai Noel russo se chama Ded Moroz, ou Vovô do Frio, que visita as crianças acompanhado de sua neta, a nevezinha.

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8. Austrália

Saem os bonecos de neve e entram os bonecos de areia. E que tal um Papai Noel surfista? Na Austrália, assim como no Brasil, o Natal acontece em pleno verão, por isso a tradição lá é comemorar a data na praia, com muitos peixes e frutos do mar.

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9. Colômbia

O Día de las Velitas (dia das velinhas) marca o início das festas natalinas no país. A tradição começou com velas e lanternas deixadas nas janelas e varandas das casas em homenagem a imaculada concepção de Maria. Hoje decorações muito elaboradas iluminam cidades inteiras.

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10. Japão

No Japão, de tradição budista, o Natal não é uma data muito importante e muitas vezes acaba sendo entendido como uma antecipação do dia dos namorados. Nos últimos anos, porém, surgiu uma ‘tradição’ diferente: comer frango frito de uma grande rede de fast-food americana neste dia. A procura é tanta, que é preciso reservar com antecedência!

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***

E você, como comemora o Natal? Tem muitas histórias dessa época? Quais as tradições da sua família? Sabe de onde elas vêm? Já pensou em registrá-las para as próximas gerações? Se precisar de nossa ajuda, é só entrar em contato!

Seu Chico: histórias para não esquecer

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— Você que tá aí tem férias, não tem? Tem sua folga… E de premero não tinha férias e descanso nem de 5 minutos. Eu mesmo não tive. Sabe como era o descanso? Era capinando no meio do mato. De premero não tinha tempo de conversar um com o outro assim como eu tô conversando c’ocê. Hoje em dia tá bom demais.

Na rua quase sem movimento de meio de tarde em Milho Verde (MG), Seu Chico, que finalmente tem um pouco de tempo, puxa assunto com os passantes seja gente conhecida ou a se conhecer. Sentado de cócoras na frente de sua casa, olhos apertados para a rua quarada pelo sol do cerrado e sorriso de poucos dentes, ele acolhe quem passa com simpatia e muitos casos.

— No tempo de eu menino, comecei a trabalhar eu tava com 4 anos e meio, que era a idade que começava… Pegava serviço era cedo, bebia café, pegava uma pazinha redonda e ia pra roça ainda tava meio escuro. Ia carregar lenha na cabeça. Comia banana pra aguentar até as sete horas da noite, das 7 às 7. Agora hoje em dia tem descanso de almoço, uma hora, de premeiro não. Tinha dia que ia comer era só arroz. Você é menina nova, mas eu tô com 83, já vou completar 84 anos e ainda tô querendo trabalhar!

— O senhor está bem forte!

— Mas de premero o povo vivia mais. Meu avô viveu 120 ano. 120 ano! E meu pai chegou aos 130. Hoje não vive assim, não. Porque comia melhor. Comia sopa… o caldo de mocotó com a gordura, né? De osso gordo. Hoje fica tirando a gordura da carne. De premero, não. Era mocotó, gordura, osso gordo…

Mas ele logo lembra que a gordura às vezes ainda era muito pouca:

— Nego só comia angu, às vez arroz branco, feijão, macarrão, carne, costela… Um dia um nego disse assim: “vou comer com o sinhô, quer ver?”. Falou que tinha diamante, aí foi convidado pra comer com o sinhô. Sujou tudo porque não sabia comer na mesa, né, comeu carne e tudo, tava satisfeito. Muito bem, no final, o sinhô perguntou do diamante, o nego falou: “eu disse que tem diamante, não que eu tinha um”.

Nós rimos da esperteza e do esforço que se faz por uma boa refeição.

— Isso é do tempo que minha vó era menina. Ela conta esses casos. Era muito sofrimento pros negros. Gosto de contar essas histórias pros mais novo, pra não esquecer, saber o que foi.

Tradições
Seu Chico sabe casos e cantos. Lembra orgulhoso que foi chamado para ensiná-los às crianças na escola:

— Os véio que sabe a cantiga do tempo da escravidão levaram na escola a modo de a professora poder seguir pra frente, senão acaba, né?

E canta para mim. A primeira música fala do nego que caiu no sono enquanto vigiava a plantação de arroz. Acordou com o Assum preto comendo tudo e foi logo correndo e tocando:

— “Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô passarinho, que o arroz é de Deus…”

Seu Chico fala das festas, da Marujada, da procissão, da festa de São Benedito, cada uma com suas tradições e suas músicas.

— “Meu São Benedito, vossa casa cheia, cheira cravo e rosa, flor de laranjeira…” Você que tá aqui, ocê já viu festa aqui?

— Aqui não.

— Vem que ocê vê essas cantigas que eu tô cantando e ainda tem mais um monte. Canta no meio da rua, na porta de casa, o povo vai lá pro terreiro.

Ele lembra de mais uma:

— “Papagaio come milho, periquito levou fama. Papagaio come milho, periquito levou fama…” É muito interessante. Nós somos periquito, o papagaio tá rasgando espiga de milho, lá no pé, nós tamo debaixo catando, tamo na rua trabalhando…

Ele vai explicando as músicas, o significado das histórias… Por trás do seu jeito simples, ele sabe da importância do que conta:

— Sei mais de cem música sem olhar papel. Muita cantiga do tempo da escravidão. Eu gosto de contar pros novos. Porque muitos véio às vez sabe cantar, mas não é capaz de explicar o que vem a ser a cantiga, né? Fica embasbatado. Eu gosto de contar…

Seu Chico não mora sozinho e logo dona Maria da Luz aparece na janela. A senhora negra, de cabelos curtos, emana força, apesar do corpo magro e da idade avançada. É curandeira, descubro depois. E ciumenta – não gosta de seu Chico cheio de conversa na porta de casa. Ela empilha uns sacos de urucum na janela enquanto pergunta meu nome, depois diz para ele:

— Passa para dentro – e volta para o interior da casa.

— A mulher viu que eu tava falando perto d’ôce, entrou pra dentro, não gosta, não – ele explica, mas continua a conversa sem pressa.

— Eu tô com problema no olho, mas ainda vejo ó…

Seu Chico pega um punhadinho da terra arenosa do cerrado na mão. Elas formam pequenas pedrinhas que ele separa com os dedos enquanto conta:

— Um, dois, três, quatro, cinco… Tá veno? Eu ainda vejo!

A casa
Agora ele me convida para entrar. Hesito, mas ele insiste.

— Entra pra lá!

Na sala de paredes já gastas e manchadas pelo tempo, muitas imagens de santos, uma foto de criança, algumas fotos de seu Chico, alguns recortes de revistas enquadrados. Na mesa, sobre uma toalha de plástico, um pequeno altar com muitas imagens, flores de plástico, um filtro de barro com um paninho bordado e já amarelado por cima, duas garrafas de água, um prato para velas.

Seu Chico me aponta para uma foto sua na parede, roupa colorida, boné e penacho vermelho e amarelo na cabeça, sorriso aberto.

— É na festa da procissão, né?

Ele confirma:

— Na festa é dança, a gente vai pra entrada da rua com um monte de canto. E eu só vivo alegre porque ó…

E me conta feliz sobre como ainda está ativo:

— Eu tô velho, mas ainda tô trabalhando. Ainda faço vassoura… – entra no quarto para pegar alguma coisa e volta com um saco cheio de vassouras de palha.

— Olha como ainda trabalho! Ainda gosto de trabalhar!

Pergunto se posso contar sua história no meu blog, tento explicar, ele parece não entender muito, mas repete:

— Gosto de contar pros mais novo, é bom pra poder ficar sabendo pra frente, senão acaba, né, senão acaba…

Entendi a resposta como um sim.

Eu finalmente me despeço de seu Chico, não quero irritar dona Maria da Luz.

— Vai com Deus. Depois ocê passa pra nós contar mais caso – ele diz, enquanto acena.

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Seu Chico mostrando as vassouras de palha que faz

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Fui conhecer um pouco mais do pequeno distrito de Milho Verde, em Minas Gerais. Mais tarde encontrei-o novamente. Estava sentado aos pés da pequena igreja do Rosário contemplando o final da tarde. Ao seu lado, um cachorro se esparramava pelo gramado. Já faz algum tempo que estive lá, mas demorei para escrever essa história. Pesquisando agora sobre a região, descobri que seu Chico morreu em agosto deste ano. Foi enterrado ao lado da igrejinha onde ele gostava de ver a noite chegar.

Vai com Deus, seu Chico. Você já contou muito caso e cantiga para nós, agora nós é que contamos as suas por aí. Pros mais novos saberem o que foi e não esquecerem.

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[Fotos e texto: Marina Almeida]

No tempo da zagaia de gancho

— Acho que eu tô tão atrasada que eu sou do tempo da zagaia de gancho.

— O que é zagaia de gancho, dona Elza?

— Ó, eu ouvia os caipiras lá da roça falando quando achava que era muito véio, que não ia com as coisas de hoje, mas eu mesmo não sei.

Meu pai pega o celular e descobre imagens da tal zagaia de gancho. Mostra para dona Elza, minha avó, que não esconde a surpresa:

— Agora que eu fiquei sabendo. A gente fala as coisas e não sabe, se fosse um palavrão feio…

E ela explica, para mim, o que viu:

— É feito um naviinho, daquele que… na água, mas não aqueles grandão, aqueles pequenininho, quadradinho, amarradinho, é feito uns esgueio. Acho que toca, na água, não sei. Chama zagaia de gancho.

Entendeu? Em outras palavras, e menos estilo, a Wikipedia explica que é uma lança curta e delgada usada como arma de arremesso para a caça ou pesca. Os registros sobre o uso da expressão que encontrei eram poucos, mas ao que tudo indica, a zagaia (ou azagaia) de gancho era uma ferramenta muito utilizada pelos indígenas brasileiros e também por outras pessoas desde o período colonial. Provavelmente daí vem sua associação ao que é antigo, de outros tempos.

Mas as explicações difundidas pela internet vão ainda mais longe. Na Serra da Canastra, em Minas Gerais, contam que havia um pouso de tropeiros em que o dono escondia uma zagaia no quarto e lançava-a no meio da noite contra os hóspedes que dormiam. Em seguida roubava suas posses. Mas contam também que as maldades tiveram fim com um destino trágico para o dono da pousada (conheça a história completa aqui).

Outra versão dizia que zagaia era uma corruptela de “H’s” e a expressão se referiria, assim, ao tempo em que as palavras eram escritas com ph (como pharmacia).

A expressão era tão conhecida que na música Couro de boi, composta por Palmeira e Teddy Vieira e gravada por diversos cantores caipiras, encontramos a referência a um ditado “do tempo do zagais”. Seria uma referência ao tempo dos Hs? Da zagaia de gancho? Ou ao destino trágico dos hóspedes da fazenda na Canastra?

Novos tempos

— Internet, celular… acha tudo, não, Marina? Nossa, como evoluiu as coisas. No meu tempo, quando apareceu o avião o povo tinha medo, falava que era assombração. Eu não achava nada, mas alembro. As coisas evoluiu totalmente.

— E o que a senhora acha disso?

— Uai, é bom! Que era muito atrasado. A gente falava de estudar, meu padrasto falava: “bobagem, para que estudar? Mulher não precisa aprender a ler”. Já pensou que ignorância!

Pensando bem, do alto dos seus 93 anos, dona Elza não é do tempo da zagaia de gancho, não.

Império Kalunga: cortejo de tradição e fé

Papel colorido e flores pra enfeitar a praça em frente à capela da Vila de São Jorge. A mesa de bolos já está pronta e os músicos se aquecem enquanto o povo vai chegando. O Império, do povo Kalunga, vai começar no Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros. É uma festa tradicional da comunidade quilombola de Vão de Almas, no Sítio Histórico Kalunga (GO), em honra ao Divino Espírito Santo.

Os Kalungas todos já aguardam. Vêm arrumados para a festa, que dia de santo é dia de tirar a gravata do armário, a melhor camisa. Chapéu de palha para arrematar, mas a turma mais nova só quer é saber de boné. Faz mal não, o importante é proteger a cabeça, fazer a homenagem e não atrasar o compasso do pandeiro. Também saem de casa os brincos e as pulseiras. E os laços de fita amarrando as tranças dos cachos.

No cantinho, enquanto não começa o cortejo, dá tempo de chupar uma laranja, mas come com pressa, não pode perder a saída. Os músicos aceleram, viola, sanfona, pandeiro, triângulo e atabaque. Um pé que bate daqui, outro dali… Os turistas estão chegando, vai começar.

Bandeira e espada se apresentam. Cada uma na sua vez e com sua dança – esgrima no ar, movimentos e giros e voltas. “É uma comparação, mostrando a tradição. Ele me mostra a dele, e eu mostro a minha. Isso é de muito tempo que eles fazem”, me explica no final da festa o seu Santana dos Santos Rosa, nome de nascido no dia da mãe de Nossa Senhora. Sua apresentação da espada é tradição antiga. “Eu via os mais velhos e disse: uai, vou aprender a fazer isso. Tinha um velho que fazia e peguei entendimento de fazer. Prestando atenção faz bem, né? Igual ele, aprendeu com os criador dele, né, Antero?”, e o colega da dança da bandeira concorda.

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Pelas ruas

O cortejo sai. Protegido por um quadro feito de varas coloridas, lá vai seu Santana com a espada, seu Antero com a bandeira do Divino. Vão também o rei e os anjos. E mais a avó para segurar as asas, “que o anjo é pequeno e não vá deixar cair as asas”. Anda muito compenetrado em sua função e só aperta com força de susto os olhos quando soltam fogos – às vezes os anjos também dão de ter medo. Já a anjinha no colo mal ainda sabe andar, mas de nada se assusta, vai toda grande de olhos, curiosidade.

O rei vai firme em sua coroa de flores, não abaixa a cabeça, não tropeça, não perde o passo. Óculos escuros para não franzir o rosto com o sol que já quer se pôr. Coisas de realeza. Na tradição Kalunga, a cada ano um rei é escolhido e seu trabalho é organizar toda a festa. Sorriso mesmo só em quem segura o bastão, que às vezes é difícil segurar o orgulho num momento assim.

Segue o povo, não para a música e quando a rua é de aperto, eles fazem do quadro losango, que esse é povo de adaptação. Seu Santana fala o porquê da separação: “Vamos ali dentro do quadro, que se não for é muita gente e separa os cabeceiras. Ali só o líder, o rei, os anjos…”. Na volta para a praça tem mais apresentação de espada e de bandeira. Os tocadores param e a voz das mulheres assume na capela. Agudas, tremendo pedidos ao Divino e ao nosso Senhor. Mas não se enganem, que o trabalho delas começou bem antes, nas flores, nos enfeites de papel, da coroa do rei e dos anjos. “Antes era flor do campo porque nem tinha papel lá, pelos anos 60, agora nós faz assim. Comecei a fazer essas flores com uns nove pra dez anos, era mais destacada e começaram a sempre me chamar para ajudar. Fui professora e agora todos já sabem fazer”, fala dona Dainda, que desde a véspera ajudava as mulheres a preparar todos os enfeites.

Na capela

Dona Procópia já não tem pernas para o cortejo, mas é o povo chegar que ela sai se apoiando na bengala para alcançar a capela. Logo já está bem na frente, lenço colorido enrolado na cabeça puxando o canto. A voz é fininha, mas, ai, que a fé é das largas. Olhos fixos no pequeno altar, tem sempre outra música pra não parar tão cedo as rezas. Só não peçam pra benzer. “Quando que eu sei benzer? Reza de rezar no altar pra defender todo mundo, pode me chamar que eu tô pronta. Mas benzimento? Isso não é comigo, não, uai”.

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Texto escrito originalmente para o Encontro de culturas

Fotos: Ana Caroline de Lima (Antropologia visual)

[Marina Almeida]