8 escritoras para conhecer em 2018

Ana Paula Tavares
ana2bpaula2btavares3A poeta angolana Ana Paula Tavares é uma das principais vozes da poesia africana de língua portuguesa. Em seus versos, a cultura e as tradições africanas aparecem não apenas como opção temática, mas num processo de reconstituição da identidade nacional e de afirmação da ótica do colonizado sobre a terra e o mundo em que vive. Ela também é uma das primeiras poetas angolanas a reivindicar para a mulher o papel de sujeito de sua vida, de seu corpo e seus desejos. O erotismo do ponto de vista feminino também está presente em muitas de suas poesias, assim como uma visão africana de valorização do prazer corporal e isenta da noção de pecado. Conheça algumas de suas obras: http://www.elfikurten.com.br/2015/06/ana-paula-tavares.html, http://www.lusofoniapoetica.com/artigos/angola/ana-paula-tavares.html  e http://www.jornaldepoesia.jor.br/anap05.html

Teolinda Gersão
teolinda-gersao2Teolinda Gersão usa a arte para falar da vida e do mundo em que vivemos. Não apenas a arte de sua escrita, lírica e sensível, mas também a música, a dança, a pintura… Nascida em Portugal, ela viveu também na Alemanha, em São Paulo (reflexos dessa estada surgem em alguns textos de Os Guarda-Chuvas Cintilantes, 1984) e Moçambique, onde se passa A árvore das palavras (1997). Nesse romance, os elementos da natureza se fundem com a dança – a africana e o balé – na vida da protagonista Gita, ou talvez da África. Em Os teclados (1999) é a música, e às vezes o silêncio, que nos faz pensar no sentido da vida, da arte e da literatura. Entre outras premiações, ela ganhou duas vezes o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Saiba mais: https://teolindagersao.com/

Graça Graúna
grauna02“É difícil viver entre dois mundos, mas a gente se acostuma”, ouvi Graça Graúna falando em uma palestra em São Paulo. A escritora, poeta, crítica e professora de literatura é indígena, do povo potiguara, e traz esse universo para sua obra (assim como para seu trabalho acadêmico). A aparente simplicidade de suas palavras acaba por revelar ao leitor uma profundidade de sentidos e saberes ancestrais. Conheça mais: http://ggrauna.blogspot.com.br/ e http://www.elfikurten.com.br/2016/02/graca-grauna.html

Lídia Jorge
lidiajorgeUnindo o fantástico à realidade, com uma imaginação que alcança também o nível lexical e morfológico, Lídia Jorge é uma das mais reconhecidas escritoras portuguesas contemporâneas. Professora, ela lecionou alguns anos em Angola e Moçambique, em pleno período da guerra colonial – que será retratada em A Costa dos Murmúrios (1988). Seu primeiro romance, O dia dos prodígios (1980), é uma alegoria sobre o impacto da revolução dos cravos portuguesa na vida de uma pequena aldeia no interior do país. Entre livros de contos e romances, como o ótimo A manta do soldado (2003), que trata do emaranhado entre memória e imaginação, suas obras já foram traduzidas para mais de 20 línguas. Veja mais: http://www.lidiajorge.com/

Amélie Nothomb
anothomb_600x600-400x400A escritora belga passou sua infância e adolescência na Ásia, que tem grande influência em sua obra. O Japão, onde seu pai foi embaixador, é um dos países que mais a marcaram e que aparece em diversos de seus livros, como no alegórico A metafísica dos tubos (2000). Com uma escrita crua e de humor cortante, seus romances e contos recorrem ao realismo mágico para dar vida a personagens excêntricos e diálogos muito vivos. Sucesso de vendas e traduzida para muitas línguas, suas obras já foram adaptadas para o cinema e o teatro. Em 1999, recebeu o Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa.

Carmen Laforet
10945049_111582445700A espanhola Carmen Laforet Díaz (1921 – 2004) desenvolveu a maior parte de seu trabalho durante o regime franquista, de caráter ditatorial. Publicou em 1945, aos 24 anos, aquela que se tornaria sua obra mais conhecida: o romance Nada, sucesso entre críticos e leitores. O livro conta a história de uma jovem estudante que chega a Barcelona logo após o fim da Guerra Civil Espanhola. A narrativa, considerada existencialista, constrói um ambiente asfixiante, marcado pela violência, pela fome e pela opressão. Um tema constante em suas obras é o embate entre o idealismo juvenil e um entorno marcado pela mediocridade e pela desilusão.

Elena Ferrante
A escritora italiana já é bem conhecida entre leitores e críticos no mundo tudo. O sucesso mais estrondoso veio com sua Série Napolitana, sequência de quatro romances que contam a história de duas amigas, Elena Greco e Lila Cerullo. A narrativa de Ferrante se constrói em camadas: a mais superficial é composta por uma escrita simples, fácil de acompanhar e que consegue prender o leitor. Mas, para além dessa “simplicidade”, surgem camadas mais profundas, que retratam de forma crua as complexidades das relações sociais, da busca por ascensão, da desigualdade de gênero e dos relacionamentos. O estilo e a obsessão pela sinceridade estão em todas as obras publicadas pela autora, com destaque para Dias de Abandono (2002). Infelizmente, o fato de Elena Ferrante ser um pseudônimo e os rumores em torno de quem seria a “pessoa real” por trás das obras muitas vezes tomam o primeiro plano em discussões sobre a obra da escritora. Leia mais no post Ferrante, frantumaglia e léxico familiar.

Margaret Atwood
margaret-atwoodMais um nome bem conhecido no meio literário, mas a produção da escritora canadense vai muito além de O Conto da Aia (1985), que recentemente deu origem a uma série de TV de sucesso. Atwood tem uma produção extensa, de estudos literários a contos e poesias, passando por livros infantis. Uma constante em suas obras são as personagens femininas que se distanciam de qualquer postura passiva ou romântica.

E mais:

É claro que há muito mais escritoras a se conhecer, e muitas delas publicam suas obras de forma independente. Existem perfis nas redes sociais que divulgam diariamente o trabalho dessas autoras – conheça alguns deles:

Leia Mulheres – https://www.facebook.com/leiamulheres

Leia Mulheres Negras – https://www.facebook.com/intelectuaisnegras/

Mulheres que escrevem – https://www.facebook.com/mulheresqueescrevem/

Clube da escrita para mulheres – https://www.facebook.com/clubedaescritaparamulheres/

 

E leia também:

8 escritoras que você deveria conhecer | Guia do Estudante

Mulheres escritoras | Huffpost Brasil

40 escritoras para ler antes de morrer | Revista Fórum

14 livros de escritoras brasileiras contemporâneas que você deve ler | Galileu

 

[Marina Almeida e Flávia Siqueira]
Anúncios

Natal em letras

Que o humor de Drummond, a comoção de Rubem Alves, a gula (recheada de ironia) de Mário de Andrade, o abraço terno e nostálgico de Vinicius e o lirismo fraterno de Pessoa façam parte do seu natal. É o que nós desejamos a todos vocês!

xmas-2928142.jpg

 

Este Natal

“— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava-os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.”

O humor e a ironia de Drummond nos ajudam a superar os perigos dessa época do ano. Leia aqui: http://www.releituras.com/drummond_estenatal.asp

 

O presépio

crib-1807861_1920-e1512527285302.jpgOs pinheiros eram bonitos, mas não me comoviam como o presépio: uma estrela no céu, uma cabaninha na terra coberta de sapé, Maria, José, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados com reis e anjos numa mansa tranqüilidade, os campos iluminados com a glória de Deus, milhares de vaga-lumes acendendo e apagando suas luzes, tudo por causa de uma criancinha. A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança.

Leia Rubem Alves contando sobre seu natal de menino em Minas Gerais: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2312200804.htm

 

945a0a_christmas-dinner-table-2716x1810-wines-to-enjoy-with-your-christmas-dinner-lifestyle-club-together-urumix.com

Peru de Natal

“Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas…”

Leia o conto completo de Mário Andrade sobre gulas natalinas e relações familiares complicadas: http://www.releituras.com/marioandrade_natal.asp

 

Poema de Natal

drawing-2729989_1920.jpg

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Conheça mais da obra de Vinicius de Moraes: http://www.viniciusdemoraes.com.br

 

O guardador de rebanhos (canto VIII)

feet-619399_1920

Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

(…)
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
……………………………………………
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
……………………………………………
Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Pessoa, sob o heterônimo de Alberto Caeiro, nos apresenta um encontro do poeta com Jesus, feito outra vez menino, criança a brincar e correr pelos campos. Leia aqui o poema completo: http://www.releituras.com/fpessoa_guardador.asp

Ou ouça a interpretação de Abujamra: https://www.youtube.com/watch?v=zoZ3q7ON5wA

 

 

Seu Chico: histórias para não esquecer

srchicopb3.png

— Você que tá aí tem férias, não tem? Tem sua folga… E de premero não tinha férias e descanso nem de 5 minutos. Eu mesmo não tive. Sabe como era o descanso? Era capinando no meio do mato. De premero não tinha tempo de conversar um com o outro assim como eu tô conversando c’ocê. Hoje em dia tá bom demais.

Na rua quase sem movimento de meio de tarde em Milho Verde (MG), Seu Chico, que finalmente tem um pouco de tempo, puxa assunto com os passantes seja gente conhecida ou a se conhecer. Sentado de cócoras na frente de sua casa, olhos apertados para a rua quarada pelo sol do cerrado e sorriso de poucos dentes, ele acolhe quem passa com simpatia e muitos casos.

— No tempo de eu menino, comecei a trabalhar eu tava com 4 anos e meio, que era a idade que começava… Pegava serviço era cedo, bebia café, pegava uma pazinha redonda e ia pra roça ainda tava meio escuro. Ia carregar lenha na cabeça. Comia banana pra aguentar até as sete horas da noite, das 7 às 7. Agora hoje em dia tem descanso de almoço, uma hora, de premeiro não. Tinha dia que ia comer era só arroz. Você é menina nova, mas eu tô com 83, já vou completar 84 anos e ainda tô querendo trabalhar!

— O senhor está bem forte!

— Mas de premero o povo vivia mais. Meu avô viveu 120 ano. 120 ano! E meu pai chegou aos 130. Hoje não vive assim, não. Porque comia melhor. Comia sopa… o caldo de mocotó com a gordura, né? De osso gordo. Hoje fica tirando a gordura da carne. De premero, não. Era mocotó, gordura, osso gordo…

Mas ele logo lembra que a gordura às vezes ainda era muito pouca:

— Nego só comia angu, às vez arroz branco, feijão, macarrão, carne, costela… Um dia um nego disse assim: “vou comer com o sinhô, quer ver?”. Falou que tinha diamante, aí foi convidado pra comer com o sinhô. Sujou tudo porque não sabia comer na mesa, né, comeu carne e tudo, tava satisfeito. Muito bem, no final, o sinhô perguntou do diamante, o nego falou: “eu disse que tem diamante, não que eu tinha um”.

Nós rimos da esperteza e do esforço que se faz por uma boa refeição.

— Isso é do tempo que minha vó era menina. Ela conta esses casos. Era muito sofrimento pros negros. Gosto de contar essas histórias pros mais novo, pra não esquecer, saber o que foi.

Tradições
Seu Chico sabe casos e cantos. Lembra orgulhoso que foi chamado para ensiná-los às crianças na escola:

— Os véio que sabe a cantiga do tempo da escravidão levaram na escola a modo de a professora poder seguir pra frente, senão acaba, né?

E canta para mim. A primeira música fala do nego que caiu no sono enquanto vigiava a plantação de arroz. Acordou com o Assum preto comendo tudo e foi logo correndo e tocando:

— “Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô passarinho, que o arroz é de Deus…”

Seu Chico fala das festas, da Marujada, da procissão, da festa de São Benedito, cada uma com suas tradições e suas músicas.

— “Meu São Benedito, vossa casa cheia, cheira cravo e rosa, flor de laranjeira…” Você que tá aqui, ocê já viu festa aqui?

— Aqui não.

— Vem que ocê vê essas cantigas que eu tô cantando e ainda tem mais um monte. Canta no meio da rua, na porta de casa, o povo vai lá pro terreiro.

Ele lembra de mais uma:

— “Papagaio come milho, periquito levou fama. Papagaio come milho, periquito levou fama…” É muito interessante. Nós somos periquito, o papagaio tá rasgando espiga de milho, lá no pé, nós tamo debaixo catando, tamo na rua trabalhando…

Ele vai explicando as músicas, o significado das histórias… Por trás do seu jeito simples, ele sabe da importância do que conta:

— Sei mais de cem música sem olhar papel. Muita cantiga do tempo da escravidão. Eu gosto de contar pros novos. Porque muitos véio às vez sabe cantar, mas não é capaz de explicar o que vem a ser a cantiga, né? Fica embasbatado. Eu gosto de contar…

Seu Chico não mora sozinho e logo dona Maria da Luz aparece na janela. A senhora negra, de cabelos curtos, emana força, apesar do corpo magro e da idade avançada. É curandeira, descubro depois. E ciumenta – não gosta de seu Chico cheio de conversa na porta de casa. Ela empilha uns sacos de urucum na janela enquanto pergunta meu nome, depois diz para ele:

— Passa para dentro – e volta para o interior da casa.

— A mulher viu que eu tava falando perto d’ôce, entrou pra dentro, não gosta, não – ele explica, mas continua a conversa sem pressa.

— Eu tô com problema no olho, mas ainda vejo ó…

Seu Chico pega um punhadinho da terra arenosa do cerrado na mão. Elas formam pequenas pedrinhas que ele separa com os dedos enquanto conta:

— Um, dois, três, quatro, cinco… Tá veno? Eu ainda vejo!

A casa
Agora ele me convida para entrar. Hesito, mas ele insiste.

— Entra pra lá!

Na sala de paredes já gastas e manchadas pelo tempo, muitas imagens de santos, uma foto de criança, algumas fotos de seu Chico, alguns recortes de revistas enquadrados. Na mesa, sobre uma toalha de plástico, um pequeno altar com muitas imagens, flores de plástico, um filtro de barro com um paninho bordado e já amarelado por cima, duas garrafas de água, um prato para velas.

Seu Chico me aponta para uma foto sua na parede, roupa colorida, boné e penacho vermelho e amarelo na cabeça, sorriso aberto.

— É na festa da procissão, né?

Ele confirma:

— Na festa é dança, a gente vai pra entrada da rua com um monte de canto. E eu só vivo alegre porque ó…

E me conta feliz sobre como ainda está ativo:

— Eu tô velho, mas ainda tô trabalhando. Ainda faço vassoura… – entra no quarto para pegar alguma coisa e volta com um saco cheio de vassouras de palha.

— Olha como ainda trabalho! Ainda gosto de trabalhar!

Pergunto se posso contar sua história no meu blog, tento explicar, ele parece não entender muito, mas repete:

— Gosto de contar pros mais novo, é bom pra poder ficar sabendo pra frente, senão acaba, né, senão acaba…

Entendi a resposta como um sim.

Eu finalmente me despeço de seu Chico, não quero irritar dona Maria da Luz.

— Vai com Deus. Depois ocê passa pra nós contar mais caso – ele diz, enquanto acena.

IMG_0389MarinaAlmeida.JPG
Seu Chico mostrando as vassouras de palha que faz

IMG_0383c

Fui conhecer um pouco mais do pequeno distrito de Milho Verde, em Minas Gerais. Mais tarde encontrei-o novamente. Estava sentado aos pés da pequena igreja do Rosário contemplando o final da tarde. Ao seu lado, um cachorro se esparramava pelo gramado. Já faz algum tempo que estive lá, mas demorei para escrever essa história. Pesquisando agora sobre a região, descobri que seu Chico morreu em agosto deste ano. Foi enterrado ao lado da igrejinha onde ele gostava de ver a noite chegar.

Vai com Deus, seu Chico. Você já contou muito caso e cantiga para nós, agora nós é que contamos as suas por aí. Pros mais novos saberem o que foi e não esquecerem.

IMG_0395malmeida.JPG

[Fotos e texto: Marina Almeida]

A praia quando criança

Não há um dia sequer em que eu coloque os pés numa praia e não me lembre do deslumbramento que o mar e a areia me causavam quando eu era criança.

Eu conheci o mar na Praia Grande, quando tinha uns quatro anos de idade. Me lembro de estar no carro a caminho desse lugar chamado “praia”, imaginando uma espécie de laguinho com uma multidão de pessoas em volta.

Mas, não. Era algo muito diferente. Era enorme. Era cheio de ondas barulhentas. Tinha aquela areia molhada que, escorrendo do meu baldinho vermelho, formava bolinhas. E as bolinhas podiam ser empilhadas. E aquilo era muito, muito legal. E dava pra correr no mar e encher o baldinho de água. E a água era salgada. Um dia peguei um peixinho preto no baldinho. Cheguei a carregá-lo comigo por aí, até que alguém me convenceu a devolver o pobre coitado ao mar.

Mas nada superava o mar em si. Entrar na água. Estar no mar, levar pancadas das ondas, sair rolando, me ralar na areia, levantar e voltar correndo para a água, esperando a próxima onda. Ficava no raso, e mesmo assim engolia muita água – mas muita mesmo.

E então eu pegava uma virose em praticamente toda e qualquer ida à praia. Me esbaldava o quanto podia no mar e depois passava uns dois dias vomitando. Mas, tudo bem. Não conseguia ainda examinar e entender as causas do mal-estar. Só lamentava não poder mais entrar na água naquela semana.

Ir embora, de volta à grande cidade sem praias, era um momento de profundo luto.

[Flávia Siqueira]

Já pensou em transformar suas memórias em livro? Conheça nosso trabalho.