Uma visita à casa (e à obra) de Guimarães Rosa

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Cordisburgo (MG) é uma cidadezinha de menos de 10 mil habitantes e a terra natal do escritor Guimarães Rosa. Na casa-museu do autor, que viveu ali até os 9 anos de idade, podemos conhecer um pouco mais sobre sua vida, sua obra, suas inspirações e a origem de seus personagens tão singulares…

A casa mantém a decoração de uma moradia do interior no início do século 20. O quarto da família tem terços, oratório e colcha bordada; a cozinha, fogão a lenha, panelas de ferro, pilão e cristaleira; além de um poço e um carro de boi no quintal dos fundos.

O pai de Guimarães Rosa tinha uma venda e conta-se que o primeiro contato do autor com as falas e as histórias sertanejas vem do que ele ouvia ali enquanto seu pai trabalhava. Na venda encontramos os produtos que serviam à vida daqueles tempos: os artigos de couro e de palha, os vasos de barro, o berrante, ­os brinquedinhos da época, os chapéus e as violas, as espingardas, as selas, os esteios, entre outros.

Descobertas sobre Rosa

O museu também possui um grande acervo sobre Guimarães Rosa. A máquina de escrever do autor, objetos de seu escritório pessoal, cartas, originais de suas obras e as correções feitas por ele. Podemos ver ali o longo processo por trás de cada um de seus trabalhos: ele relembrava, com a ajuda de cartas ao pai, as histórias da região, pesquisava sobre as plantas e o vestuário das pessoas, fazia viagens… Claro que seu trabalho ia muito além de recolher essas histórias, transformando-as em grandes obras literárias, mas é interessante ver que mesmo um grande autor precisa estudar e pesquisar. Não se cria no vazio, é preciso perguntar, ver e ouvir de peito aberto a natureza e o povo do sertão para escrever sobre ele. Viver para contar.

Portal do sertão

A cidade ainda abriga o Portal do Sertão, uma homenagem ao escritor e a alguns de seus personagens mais famosos: sete estátuas em bronze, que representam parte do bando de jagunços de Riobaldo – do livro Grande Sertão: Veredas. Atrás deles, de óculos, papel e caneta na mão, o próprio autor nos sorri e parece cumprimentar quem se aproxima de sua criação.

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Leia mais sobre o passeio a Cordisburgo (MG)

[Marina Almeida]

8 escritoras para conhecer em 2018

Ana Paula Tavares
ana2bpaula2btavares3A poeta angolana Ana Paula Tavares é uma das principais vozes da poesia africana de língua portuguesa. Em seus versos, a cultura e as tradições africanas aparecem não apenas como opção temática, mas num processo de reconstituição da identidade nacional e de afirmação da ótica do colonizado sobre a terra e o mundo em que vive. Ela também é uma das primeiras poetas angolanas a reivindicar para a mulher o papel de sujeito de sua vida, de seu corpo e seus desejos. O erotismo do ponto de vista feminino também está presente em muitas de suas poesias, assim como uma visão africana de valorização do prazer corporal e isenta da noção de pecado. Conheça algumas de suas obras: http://www.elfikurten.com.br/2015/06/ana-paula-tavares.html, http://www.lusofoniapoetica.com/artigos/angola/ana-paula-tavares.html  e http://www.jornaldepoesia.jor.br/anap05.html

Teolinda Gersão
teolinda-gersao2Teolinda Gersão usa a arte para falar da vida e do mundo em que vivemos. Não apenas a arte de sua escrita, lírica e sensível, mas também a música, a dança, a pintura… Nascida em Portugal, ela viveu também na Alemanha, em São Paulo (reflexos dessa estada surgem em alguns textos de Os Guarda-Chuvas Cintilantes, 1984) e Moçambique, onde se passa A árvore das palavras (1997). Nesse romance, os elementos da natureza se fundem com a dança – a africana e o balé – na vida da protagonista Gita, ou talvez da África. Em Os teclados (1999) é a música, e às vezes o silêncio, que nos faz pensar no sentido da vida, da arte e da literatura. Entre outras premiações, ela ganhou duas vezes o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Saiba mais: https://teolindagersao.com/

Graça Graúna
grauna02“É difícil viver entre dois mundos, mas a gente se acostuma”, ouvi Graça Graúna falando em uma palestra em São Paulo. A escritora, poeta, crítica e professora de literatura é indígena, do povo potiguara, e traz esse universo para sua obra (assim como para seu trabalho acadêmico). A aparente simplicidade de suas palavras acaba por revelar ao leitor uma profundidade de sentidos e saberes ancestrais. Conheça mais: http://ggrauna.blogspot.com.br/ e http://www.elfikurten.com.br/2016/02/graca-grauna.html

Lídia Jorge
lidiajorgeUnindo o fantástico à realidade, com uma imaginação que alcança também o nível lexical e morfológico, Lídia Jorge é uma das mais reconhecidas escritoras portuguesas contemporâneas. Professora, ela lecionou alguns anos em Angola e Moçambique, em pleno período da guerra colonial – que será retratada em A Costa dos Murmúrios (1988). Seu primeiro romance, O dia dos prodígios (1980), é uma alegoria sobre o impacto da revolução dos cravos portuguesa na vida de uma pequena aldeia no interior do país. Entre livros de contos e romances, como o ótimo A manta do soldado (2003), que trata do emaranhado entre memória e imaginação, suas obras já foram traduzidas para mais de 20 línguas. Veja mais: http://www.lidiajorge.com/

Amélie Nothomb
anothomb_600x600-400x400A escritora belga passou sua infância e adolescência na Ásia, que tem grande influência em sua obra. O Japão, onde seu pai foi embaixador, é um dos países que mais a marcaram e que aparece em diversos de seus livros, como no alegórico A metafísica dos tubos (2000). Com uma escrita crua e de humor cortante, seus romances e contos recorrem ao realismo mágico para dar vida a personagens excêntricos e diálogos muito vivos. Sucesso de vendas e traduzida para muitas línguas, suas obras já foram adaptadas para o cinema e o teatro. Em 1999, recebeu o Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa.

Carmen Laforet
10945049_111582445700A espanhola Carmen Laforet Díaz (1921 – 2004) desenvolveu a maior parte de seu trabalho durante o regime franquista, de caráter ditatorial. Publicou em 1945, aos 24 anos, aquela que se tornaria sua obra mais conhecida: o romance Nada, sucesso entre críticos e leitores. O livro conta a história de uma jovem estudante que chega a Barcelona logo após o fim da Guerra Civil Espanhola. A narrativa, considerada existencialista, constrói um ambiente asfixiante, marcado pela violência, pela fome e pela opressão. Um tema constante em suas obras é o embate entre o idealismo juvenil e um entorno marcado pela mediocridade e pela desilusão.

Elena Ferrante
A escritora italiana já é bem conhecida entre leitores e críticos no mundo tudo. O sucesso mais estrondoso veio com sua Série Napolitana, sequência de quatro romances que contam a história de duas amigas, Elena Greco e Lila Cerullo. A narrativa de Ferrante se constrói em camadas: a mais superficial é composta por uma escrita simples, fácil de acompanhar e que consegue prender o leitor. Mas, para além dessa “simplicidade”, surgem camadas mais profundas, que retratam de forma crua as complexidades das relações sociais, da busca por ascensão, da desigualdade de gênero e dos relacionamentos. O estilo e a obsessão pela sinceridade estão em todas as obras publicadas pela autora, com destaque para Dias de Abandono (2002). Infelizmente, o fato de Elena Ferrante ser um pseudônimo e os rumores em torno de quem seria a “pessoa real” por trás das obras muitas vezes tomam o primeiro plano em discussões sobre a obra da escritora. Leia mais no post Ferrante, frantumaglia e léxico familiar.

Margaret Atwood
margaret-atwoodMais um nome bem conhecido no meio literário, mas a produção da escritora canadense vai muito além de O Conto da Aia (1985), que recentemente deu origem a uma série de TV de sucesso. Atwood tem uma produção extensa, de estudos literários a contos e poesias, passando por livros infantis. Uma constante em suas obras são as personagens femininas que se distanciam de qualquer postura passiva ou romântica.

E mais:

É claro que há muito mais escritoras a se conhecer, e muitas delas publicam suas obras de forma independente. Existem perfis nas redes sociais que divulgam diariamente o trabalho dessas autoras – conheça alguns deles:

Leia Mulheres – https://www.facebook.com/leiamulheres

Leia Mulheres Negras – https://www.facebook.com/intelectuaisnegras/

Mulheres que escrevem – https://www.facebook.com/mulheresqueescrevem/

Clube da escrita para mulheres – https://www.facebook.com/clubedaescritaparamulheres/

 

E leia também:

8 escritoras que você deveria conhecer | Guia do Estudante

Mulheres escritoras | Huffpost Brasil

40 escritoras para ler antes de morrer | Revista Fórum

14 livros de escritoras brasileiras contemporâneas que você deve ler | Galileu

 

[Marina Almeida e Flávia Siqueira]

Natal em letras

Que o humor de Drummond, a comoção de Rubem Alves, a gula (recheada de ironia) de Mário de Andrade, o abraço terno e nostálgico de Vinicius e o lirismo fraterno de Pessoa façam parte do seu natal. É o que nós desejamos a todos vocês!

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Este Natal

“— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava-os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.”

O humor e a ironia de Drummond nos ajudam a superar os perigos dessa época do ano. Leia aqui: http://www.releituras.com/drummond_estenatal.asp

 

O presépio

crib-1807861_1920-e1512527285302.jpgOs pinheiros eram bonitos, mas não me comoviam como o presépio: uma estrela no céu, uma cabaninha na terra coberta de sapé, Maria, José, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados com reis e anjos numa mansa tranqüilidade, os campos iluminados com a glória de Deus, milhares de vaga-lumes acendendo e apagando suas luzes, tudo por causa de uma criancinha. A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança.

Leia Rubem Alves contando sobre seu natal de menino em Minas Gerais: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2312200804.htm

 

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Peru de Natal

“Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas…”

Leia o conto completo de Mário Andrade sobre gulas natalinas e relações familiares complicadas: http://www.releituras.com/marioandrade_natal.asp

 

Poema de Natal

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Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Conheça mais da obra de Vinicius de Moraes: http://www.viniciusdemoraes.com.br

 

O guardador de rebanhos (canto VIII)

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Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

(…)
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
……………………………………………
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
……………………………………………
Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Pessoa, sob o heterônimo de Alberto Caeiro, nos apresenta um encontro do poeta com Jesus, feito outra vez menino, criança a brincar e correr pelos campos. Leia aqui o poema completo: http://www.releituras.com/fpessoa_guardador.asp

Ou ouça a interpretação de Abujamra: https://www.youtube.com/watch?v=zoZ3q7ON5wA

 

 

BLOG | Nó de tijolos e concreto

(Dona Cida é paulista e tem 76 anos. Como muitas pessoas da sua geração, sua história começa no interior e chega à grande metrópole no começo da vida adulta. Da cidade de Oswaldo Cruz para uma casa alugada em Santo André, para outra em São Mateus, bairro da zona leste de São Paulo. Do aluguel para uma construção improvisada em terreno próprio, feita aos poucos. Como é a história de tantas casas nesta cidade.)

***

Tudo foi construído aos poucos. Começando pelo salão comercial, na época em que as ruas dos bairro ainda eram de terra. Ali, abriram um bar. Decidiram morar no porão do comércio enquanto não faziam dinheiro para erguer uma casa.

O dinheiro foi entrando aos poucos, e a construção seguiu no mesmo ritmo. Primeiro, uma cozinha anexa ao porão. Depois, uma casa de três cômodos para o filho mais velho, com casamento marcado. Depois, sobre o salão do bar, a casa para o filho mais novo, que também se casaria. Duas garagens. Escadas, espaços sob escadas, portões. Uma escada ao lado da primeira casa para chegar até o comércio sem precisar dar a volta pela calçada. Dois cômodos extras para a casa do filho mais velho.

Tudo acabou interligado. Janelas do porão — que virou depósito do comércio — davam para o quintal da casa do filho mais velho e para a garagem do filho mais novo. O quintal do filho mais novo ficava sobre o quarto do filho mais velho.

Décadas se passaram. A família cresceu. Todos começavam a pensar no que fazer com aquela construção nos próximos anos. Seria possível vender as casas separadamente? Só com muitas reformas e muito dinheiro gasto.

Melhor esquecer a ideia. Ou alugariam — se é que alguém aceitaria dividir espaço daquela forma —, ou ficariam por ali mesmo (como tem sido).

A construção havia dado um nó em todos. E ela conseguiu o que queria: ficar ali, do jeito que escolheu crescer, com as mesmas pessoas.

[Flávia Siqueira]

BLOG | Um conto sobre ser criança em outros tempos

(Estamos escrevendo o livro de Dona Geórgia, senhora de 90 anos que mora em São Paulo. O conto a seguir foi escrito a partir de relatos dela sobre a infância no interior do Estado na década de 1930. Trata-se, assim, de ficção baseada em acontecimentos reais: um exercício de imaginação sobre ser criança em outros tempos e lugares.)

***

Barrigas que crescem

 

A barriga da mãe havia crescido muito nos últimos meses. A menina mais nova não tinha prestado muita atenção naquilo. A menina mais velha já tinha visto aquilo acontecer antes. A barriga da mãe acabou murchando um tempo depois de a menina mais nova ter chegado. Essa era, talvez, a lembrança mais antiga dela. Uma coisa tinha a ver com a outra? A menina mais velha tinha quase certeza que sim. Na fazenda, aquilo sempre acontecia: barrigas que crescem, crescem, ficam bem redondas e que murcham algum tempo depois de um bebê aparecer.

Naquele dia, uma velhinha chegou em casa logo pela manhã. Usava um xale cinza, um vestido vermelho com flores brancas e um sapatinho preto, sem salto. O cabelo vinha preso num coque bem feito, de um cinza brilhante.

Quando ela chegou, as duas meninas tinham acabado de acordar. Foi o pai quem deu o café da manhã: um pedaço de pão com manteiga e um copo de leite para cada uma.

— Cadê a mãe? — perguntou a menina mais velha ao pai.

— Tá descansando. Daqui a pouco ela levanta.

Assim que a velhinha de xale apareceu na porta da cozinha, o pai a levou pelo corredor, até o quarto onde a mãe descansava. A menina mais velha fez menção de ir atrás, mas o pai logo mandou:

— Cêis fiquem aí!

Elas obedeceram e terminaram o café da manhã. Um som que não era nem um grito nem um gemido veio pelo corredor. Não demorou muito e o pai voltou:

— Agora cêis vão brincar lá no quintal.

— A mãe tá boa? — quis saber a menina mais velha.

— Tá boa, sim. Mas agora cêis vão pro quintal e fiquem lá até eu chamar. Vão brincar.

E lá se foram as meninas. Resolveram começar brincando de boneca. A menina mais velha chamava aquilo de “brincar de comadre”: a irmã seria madrinha da boneca. A menina mais velha corria até a biquinha de água, enchia uma vasilha meio amassada e pedia para a menina mais nova jogar na cabeça da boneca. Ela adorava: fazia a água escorrer devagar da vasilha pela cabeça careca e lisa da boneca.

Depois, foram ver os porquinhos que tinham nascido naquela semana. Emendaram um esconde-esconde e mais um batismo de faz-de-conta.

As duas meninas estavam tão mergulhadas naquele mundo imaginário que não perceberam quando o pai chamou pela primeira vez, da porta da cozinha.

— Fia! Já chamei. Vem logo. Nasceu sua irmãzinha.

— Irmãzinha?

As meninas deixaram as bonecas no pé de uma árvore e correram pelo corredor da casa. Quando entraram no quarto da mãe e do pai, lá estava a velhinha numa cadeira ao lado da cama. O coque ainda brilhava. A mãe, meio deitada e meio sentada na cama, tinha no colo um bebê muito pequenininho enrolado em panos brancos.

As meninas ficaram em pé, ao lado da cama.

— Ói o que ela trouxe pra mim debaixo do xale dela! — disse a mãe, sorridente.

As irmãs se aproximaram para ver o bebê mais de perto. Ele fazia uns barulhinhos, que lembravam choro. A menina mais nova — que agora era a do meio — ficou contente, soltou uma gargalhada e levou as mãos à boca.

A menina mais velha ficou olhando séria para a irmãzinha, concluindo que existia mesmo alguma relação entre barrigas que crescem e bebês que aparecem. E era sempre com as mulheres. As barrigas dos homens nunca murchavam. Será que um dia isso iria acontecer com ela também? A barriga crescer até uma velhinha chegar em casa e lhe entregar um bebezinho pra cuidar?

[Flávia Siqueira]