[BLOG] Fotografar ajuda ou prejudica nossa memória?

Nunca tivemos nossas experiências tão mediadas por telas como nos dias de hoje. Em locais turísticos, shows, museus, diante de um prato de comida visivelmente apetitoso… Lá está a câmera do celular apontando para as coisas do mundo. Será que, na ansiedade de registrar o momento em bits e pixels, estamos esquecendo de viver? Perdemos contato com a realidade? Estamos deixando nossos cérebros preguiçosos e transferindo o papel de memorizar para os arquivos digitais?

Embora tirar momentos para se “desintoxicar” da vida digital e enxergar as coisas apenas com os próprios olhos possa ser mesmo uma boa ideia, talvez nossa situação não seja assim tão desesperadora. A fotografia, afinal, não é uma vilã: pesquisas recentes apontam que o ato de fotografar nos ajuda a recordar com mais eficiência dos aspectos visuais de um determinado momento — mesmo que nunca mais olhemos de novo para a foto.

Muitas dessas pesquisas são feitas em museus, buscando comparar as recordações mentais de dois grupos: pessoas orientadas a fotografar os objetos e pessoas orientadas a não tirar fotos. Nos estudos mais recentes, aquelas que fotografaram — sobretudo se tivessem usado o recurso de zoom para capturar detalhes — conseguiram reconhecer mais objetos do que o outro grupo. Por outro lado, aqueles que fotografaram também tiveram desempenho pior ao tentar recordar as explicações em áudio sobre as obras.

Efeito back-up?
Pesquisas realizadas nos anos 1960 apontavam para um fenômeno chamado “cognitive offloading” (“descarga cognitiva”), uma espécie de esquecimento intencional: como nosso cérebro sabe que pode contar com outros dispositivos para se lembrar de objetos e afazeres, ele economizaria esforços e deixaria de memorizar essas coisas. Faz sentido, principalmente se pensarmos em recursos como listas de compras e receitas.

A hipótese atual, contudo, é que o comportamento do cérebro dependeria, na verdade, da nossa intenção ao realizar determinado registro num suporte externo (papel, galeria do celular etc.). Se escrevemos um aviso no papel simplesmente para tirá-lo da nossa cabeça e reduzirmos nossa preocupação, o cérebro “relaxa” e abre mão daquela memória. Mas, se o que queremos é guardar o registro de algo que foi significativo para nós, essa motivação pode nos ajudar a olhar com mais atenção para os detalhes ao fotografar — e, consequentemente, produzir recordações mentais mais ricas.

(Adaptado de How Taking Photos Affects Your Memory of the Moment Later On – Nymag.com)

Você tem fotografias que são muito importantes para você? Guarda imagens antigas da família, registros de viagem, fotos dos filhos quando pequenos? A Daria um Livro pode ajudar você a reunir todas essas imagens num livro, acompanhadas de textos produzidos com muito cuidado. Conheça nosso trabalho e entre em contato conosco.

[FLÁVIA SIQUEIRA]

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[BLOG] Por que nos esquecemos?

Tendemos a achar que ter uma boa memória é se lembrar de tudo — ou quase tudo. Mas será que carregar em nossa mente tanta informação sobre coisas do passado seria mesmo algo desejável? De acordo com um artigo publicado por dois neurocientistas na revista Neuron, o esquecimento exerce, sim, um papel importante em nosso cérebro.

Segundo eles, a memória não tem a função de gravar tudo o que vemos e ouvimos, mas de registrar informações e regras que sejam úteis para tomarmos decisões. Ela deve ser seletiva, portanto. Por isso, faz todo o sentido que o cérebro se livre de informações irrelevantes e desatualizadas — coisas que, se não caíssem no esquecimento, poderiam até nos causar problemas no dia a dia.

E esquecer não sai “de graça” para o cérebro: na verdade, ele gasta energia para desfazer antigas conexões entre os neurônios e substituí-las por novas. Se evoluímos ao longo de milênios para operar dessa maneira, é porque deve valer a pena.

Esquecer nos deixa mais eficientes. Imagine, por exemplo, que você memorize o nome errado de uma pessoa — se você não conseguir esquecê-lo e substituí-lo pelo nome correto, acabará sempre se confundindo. Outro aspecto útil do esquecimento é impedir que a mente gaste energia se apegando a inúmeros detalhes e consiga, em vez disso, formar “quadros gerais” para definir objetos e situações.

De qualquer maneira, não existe uma fórmula que defina o que vamos esquecer e do que vamos nos lembrar. Esquecer-se logo em seguida ou lembrar-se de algo por anos (ou talvez pela vida inteira) são caminhos que dependem de muitos fatores: a novidade da situação, o grau da nossa atenção naquele momento, o nível de adrenalina no organismo. Memórias de eventos traumáticos, por exemplo, continuam conosco porque o cérebro as entende como informações importantes para nossa sobrevivência.

Portanto, esquecer-se é uma função do cérebro, e não um defeito.

(Traduzido e adaptado de Are you forgetful? That’s just your brain erasing useless memories | The Verge)

Mas é claro que há maneiras de driblar nossa tendência ao esquecimento. Há muita coisa que merece ser lembrada! Você costuma registrar os bons momentos? Guarda com você as boas histórias vividas ao lado de amigos e familiares? Criar um livro com essas histórias (e lições) pode ser uma forma de autoconhecimento, além de um belo registro para as gerações futuras. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias.

[Flávia Siqueira]

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Memórias que atravessam gerações (por meio de seus genes!)

hand-619733.jpgJá pensou se seu comportamento pudesse ser influenciado pela experiência de seus antepassados, mesmo que você não tenha convivido com eles? É o que aponta um estudo publicado na Nature Neuroscience.

A pesquisa treinou ratos para evitar o cheiro de flor de cerejeira e eles passaram sua aversão para seus filhos e netos, que se mostraram extremamente sensíveis ao aroma mesmo que nunca o tivessem experimentado. Segundo os pesquisadores, o evento traumático afetou o DNA no esperma dos animais e alterou os cérebros e o comportamento das gerações seguintes.

“As experiências de um pai, mesmo antes de conceber, influenciam marcadamente a estrutura e a função no sistema nervoso das gerações subsequentes”, concluiu o relatório.

Para os especialistas, os resultados são importantes para a pesquisa de fobia e ansiedade e fornecem “provas convincentes” de que uma forma de memória poderia ser passada entre as gerações. Eles apontam que essa abordagem multigeracional também pode ajudar a entender o aumento de distúrbios neuropsiquiátricos e de problemas como obesidade, diabetes e perturbações metabólicas em geral.

Fiquei pensando no quanto a história da minha família influencia meu modo de viver… E você? Sente isso de maneira forte também?

Registrar suas histórias e as de seus familiares pode ser uma forma de autoconhecimento, além de um belo registro de um legado que fica para as gerações futuras. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando você a preservar memórias.

A matéria completa sobre o estudo, publicada na BBC (em inglês), pode ser lida aqui: http://www.bbc.com/news/health-25156510

Foto: Pixabay.com

[Marina Almeida]

[BLOG] Do que é feita a memória?

As lembranças costumam ter formas, cores, sons, às vezes cheiros — informações que obtemos do mundo por meio dos nossos sentidos. Algumas ficam conosco apenas por alguns minutos, outras se enfraquecem com o passar dos dias, outras permanecem vivas e fortes por anos e anos. Mas como essas memórias ficam armazenadas no cérebro? Pensando no rosto de uma pessoa, por exemplo: como você consegue acessar em sua mente uma imagem tão complexa ?

Na computação, as informações podem ser resumidas em gigantescas sequências de bits – cada bit pode assumir apenas dois valores, ligado (1) ou desligado (0). No cérebro aconteceria algo parecido? Existe uma unidade fundamental? Alguma proteína ou molécula que estaria na base de tudo?

Cientistas e médicos classificam a memória em alguns tipos e subtipos: de curto prazo e longo prazo, anterógrada e retrógrada, recente e remota, semântica… Aqui, há uma explicação rápida sobre cada uma delas.

Quanto às bases moleculares do armazenamento da memória (expressão que aprendi na Wikipedia), as explicações ainda não são muito claras. Sabe-se que várias áreas do cérebro estão envolvidas no armazenamento e processamento de lembranças. Mas como os detalhes são guardados? É um mecanismo ainda em grande parte desconhecido, embora existam algumas hipóteses. Uma delas envolve o conceito de potencial de longa duração (em inglês, Long-term potential, sigla LTP). Aqui, as coisas se complicam:

“Em neurociência, potenciação de longa duração (Long Term Potentiation ou LTP, em inglês) é uma melhoria duradoura na transmissão do sinal entre dois neurônios que resulta de estimulá-los de forma síncrona. É um dos vários fenômenos que contribuem para a plasticidade sináptica, a capacidade das sinapses químicas de mudar sua potência. Acredita-se que a memória é codificada por modificação da força sináptica, por isso a LTP é amplamente considerada como um dos principais mecanismos celulares que está na base da aprendizagem e memória.”

E esse é apenas o primeiro parágrafo do tópico sobre a LTP na Wikipedia, que aborda conceitos como síntese de proteínas, associatividade, reflexo condicionado, neurotransmissão sináptica…

A explicação mais compreensível para leigos talvez esteja no site do médico Drauzio Varella. O texto destaca três dos modelos propostos sobre a forma como o cérebro armazena informações e sensações: (1) atividades elétricas seriam a base para todo o processo; (2) substâncias químicas sintetizadas pelos neurônios carregariam os “códigos” das informações; (3) nosso cérebro criaria, para cada memória, conexões específicas entre os neurônios – conexões que poderiam ser reforçadas ou enfraquecidas com o tempo e o uso (e aqui entraria a LTP).

É um campo de estudos muito complexo. São muitas células e moléculas envolvidas em relações que, pelo jeito, levaremos muitos e muitos anos para mapear.

Por enquanto, o que nos resta é contemplar o desconhecido. Aos cientistas que trabalham montando esse gigantesco quebra-cabeças, meus votos de boa sorte e paciência.

FLÁVIA SIQUEIRA

(Imagem: cena do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças)


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Como funciona a memória humana (site How stuff works)
O primeiro choro de seu filho, o gosto dos biscoitos de polvilho da sua avó, o cheiro da brisa do oceano. São esse tipos de memórias que formam a experiência contínua de sua vida – elas oferecem uma percepção de personalidade. São elas que fazem você se sentir confortável com pessoas e lugares familiares, conectam seu passado com seu presente e oferecem uma estrutura para o futuro. De certa maneira, é nosso conjunto de memórias coletivas – nossa “memória” como um todo – que nos torna quem somos. (leia mais)

O fascínio da memória (revista Scientific American Brasil)
A memória humana é uma faculdade maravilhosa e enganosa. Embora muitos a considerem um arquivo imutável de experiências e recordações, o que ela guarda não está esculpido em pedra. De fato, as lembranças tendem a desbotar com o tempo, deformando-se e indo ao encontro, mesmo em condições normais, de uma lenta decadência, de um esquecimento fisiológico. E não é raro que gerem em nós perturbadoras sensações de estranheza, fragmentação, não pertencimento e até mesmo recombinações ilusórias de imagens e informações que ocupam nossa mente como um caleidoscópio. (leia mais)

How does memory work? (revista Vital Record, da Universidade do Texas)
We tend to think our memory works like a filing cabinet. We experience an event, generate a memory and then file it away for later use. However, according to medical research, the basic mechanisms behind memory are much more dynamic. In fact, making memories is similar to plugging your laptop into an Ethernet cable—the strength of the network determines how the event is translated within your brain. (leia mais)