Georgina – Costurando histórias

 

Monstros

Lobisomem tinha também. E esse Georgina já viu, pode atestar. Lobisomem é quando nasce o primeiro homem depois de sete filhas – ou algo assim, que nessas horas a memória às vezes engana. Ele se conhece é pelo andar, que tem algo de bicho no passo. Mas é difícil saber. Durante o dia é homem normal, pode ser moço bonito, que ninguém desconfiaria. Mas em certas noites…

– Tinha um homem lá que era lobisomem. Mas a gente num… Depois que nói fiquemo sabendo que fulano era lobisomem, né?

A noite já começava a cair quando a família deixou a igreja e pegou o caminho de casa, a pé como sempre. Distraídos, talvez com a cabeça ainda nas rezas da tarde, levaram um susto quando viram… Era grande e peludo, escuro, parecia um animal, mas diferente de tudo que tinham visto. Tinha as patas da frente mais curtas e os pés maiores, como um homem que se põe a andar de quatro.

Segura a respiração. Engole o ar de medo e faz que tem coragem que nessas horas é só o que resta.

A criatura passou correndo. E se foi. Os monstros também têm medo às vezes.

– Nói vinha voltando, passou um cachorrão perto de nóis, assim… Mais baixo assim, na frente. Pra trás mais alto… Aquele acho que era lobisomem. Ai, mas a gente morria de medo!

(…)

Lições

Sua mãe costurava as roupas da família e, com o tempo, passou a ensinar as filhas. Ela cortava o pano e dava para Georgina. Mostrava como pôr a linha na agulha com cuidado para não furar os dedos. Nozinho firme para começar a costura e a linha ia desenhando blusas e saias e vestidos e camisas. O movimento trêmulo das pequenas mãos foi ganhando segurança, perdendo a força desnecessária e se tornando dança de braços e dedos em linhas e estampas.

– Minha mãe tinha muita paciência de ensinar — conta Dona Geórgia. — É difícil. Mas daí eu aprendi. Até hoje eu faço roupa pra mim.

Ela mostra com orgulho a caixinha em que, hoje, guarda suas agulhas e linhas. Trabalha com “costurinha”, como diz: pregar um botão, apertar uma blusa, refazer uma prega. Se os braços e as pernas doem, as mãos seguem trabalhando com precisão. Ela não precisa de ajuda nem para colocar a linha no buraco da agulha — põe os óculos, anda até a luminária, aperta o botão para acendê-la e com paciência conduz a ponta da linha pela minúscula passagem.

(…)

Costurando o presente

Esse é o universo de Dona Geórgia: o mundo das tarefas manuais, das coisas físicas, dos objetos úteis, da paciência. Não é o mundo da internet, dos aplicativos, dos botões virtuais, das imagens que passam rapidamente — praticamente em desespero — pela tela da televisão.

No micro-ondas do apartamento em que mora, dois adesivos pretos indicam para ela onde apertar se quiser esquentar um prato de comida. O método foi criado pela filha Lucinda, e deu certo.

Já o telefone sem fio… Dona Geórgia ainda prefere não atender.

— O outro telefone, eu usava. Agora, esse aí nem o Laerte conseguiu entender.

Antes, era só tirar o fone do gancho e falar. Para desligar, bastava colocá-lo de volta na base. O telefone novo tem botões demais, etapas demais. Dizem que a vantagem é a mobilidade: você pode falar ao telefone enquanto anda pela casa e faz outras coisas. Mas, no mundo de Dona Geórgia, uma coisa é feita de cada vez: falar ao telefone é algo que se faz sentado, prestando atenção.

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