Dalva e Domingos – Histórias de vida

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— Quando eu era pequenininha, achava o rio muito grande. Um riozão. Quando voltei lá, que nada! É um riozinho de nada, um córrego.

Era ali que os homens pescavam e que as mulheres lavavam roupa, buscavam água para o banho e para a comida. E era ali que as crianças brincavam nos dias quentes, que eram muitos, enquanto acompanhavam os adultos nesses afazeres.

Giovani pescava de tarrafa no rio:

— Pegava cada peixão desse tamanho assim! Depois, para nós, a brincadeira era estourar a bexiguinha do peixe.

Mas não eram só as crianças que se divertiam naquelas ocasiões. Numa dessas tardes quentes, Dalva brincava na beira do córrego com Mercedes, enquanto as mulheres lavavam roupa. O sol refletia nas bolhas de sabão dos lençóis e a algazarra de todos afastava os peixes da margem. Sua amiga, Mercedes, esfregava o pé com força na água, para limpá-lo bem, à semelhança do que as mulheres faziam com as roupas. Mas por ali passava a tia Araci, vizinha das famílias, e resolveu brincar com a menina vaidosa.“Nossa, você não vai andar mais. Seu pé vai quebrar de tanto tempo que você está esfregando nessa água, não vai agüentar.” Ela acreditou.

— A Mercedinha não queria mais andar, tinha medo do pé cair! Nós achamos graça! – relata Dalva rindo de sua inocência. A menina saiu do rio mancando, com medo de pôr o pé no chão.

Mudanças

(…)

Ali, a ajuda dos filhos era mais necessária que nunca, pois havia muito a ser feito e poucos braços para todo aquele trabalho. O nono ia abrir mato sozinho. Dalva e a irmã Dila iam para o meio da plantação, trabalhar na roça do milho. Assustadas com a altura das espigas, que tapavam a visão, e sem costume de fazer aquelas tarefas, elas saíam correndo quando ouviam algum barulho estranho. Tinham medo dos animais que podiam aparecer: cobra, macaco, queixada, tamanduá…

— Cobra? Tinha, credo! Matava.

Tite não tinha costume de ir para a roça e a primeira experiência foi traumática:

— Ela arrancou a unha do dedão do pé, machucou com a enxada.

A casa desses primeiros tempos era um rancho, feito de lascas de coqueiro. Para cobrir os buracos que se formavam na parede, usavam panos entre as tábuas, evitando, assim, que entrasse vento e pequenos animais. Mas pelas frestas, Dalva e as irmãs ainda viam o céu e os olhos dos bichos a brilhar na noite:

— A madeira foi murchando e ficava cada buracão… Enxergava a lua, o céu, as estrelas e os bichos pelos buracos.

(…)

Causos para rir e assombrar

Seu Domingos é um contador de causos. Dos bons. Quando criança, em Minas Gerais, costumava ouvir os mais velhos contarem histórias. Ao anoitecer, em frente ao fogo da cozinha, todos se reuniam para conversar e escutar os acontecidos daquele e de outros tempos, verdadeiros ou nem tanto. As crianças acompanhavam tudo com grandes olhos de ouvir, espantadas e alegres. Causos de deixar a boca aberta, rapidamente preenchida pela pipoca, os biscoitos de polvilho e os bolos preparados, ali mesmo. Enquanto o cheiro do café “forte que só vendo” se espalhava pela casa e a madeira crepitava, o silêncio da noite cedia lugar às histórias, contadas com palavras, mas também com pausas, olhares, gestos, sotaques dali e de longe.

— Ficava ali escutando até 10, 11 horas da noite. Quando via, já estava contando histórias para as outras crianças também. Aqui a gente não tem história para contar, dorme cedo.

(…)

Receita para economizar sapato
Como moravam longe da cidade, os moradores do interior desenvolveram uma estratégia interessante para atravessar o longo caminho de terra e chegar limpos e com os sapatos bem cuidados ao centro: ir descalços até lá. Quando chegavam, lavavam o pé em algum córrego e, aí sim, colocavam o sapato, que carregavam limpo e bem guardado nas mãos. Ainda economizavam a sola do calçado. Mas a criatividade não tem limites e havia soluções mais engenhosas.

— Eu contei bastante, mas ainda não falei a verdade, não. Em Minas tinha um outro truque. Em Campo Gerais, para ir para a cidade, o pessoal era muito esperto. Lá todo mundo andava descalço, mas para ir à cidade tinha uns que queriam ser meio grã finos. Num pé, calçavam o sapato e no outro amarravam um pano com um pinguinho de tinta vermelha, para dizer que estava machucado e, por isso, não podiam usar calçado naquele pé.

Assim não gastavam a sola dos dois pés do sapato de uma vez.

— Da outra vez, trocavam o pé que ia descalço. Na igreja até faziam que estavam mancando. Depois compravam alguma coisinha, chupavam um picolé… Na saída da cidade já tiravam o calçado e vinham pra casa. Um sapato deles durava uns vinte anos!

Casamento na roça

(…)

Em vez de arroz nos recém-casados, a brincadeira era jogar poeira da estrada. Não bastasse o vento, o táxi ia na frente para jogar o pó vermelho da terra nos convidados que vinham no caminhão. Os noivos não escaparam da brincadeira:

— O Oliveira e o João Rochinha também foram de carro e falavam para o motorista fazer poeira para nós – conta seu Domingos.

Mas os mais prejudicados foram mesmo os que vinham ao ar livre no pau-de-arara:
Os convidados do caminhão chegaram todos sujos! – conta seu Domingos. Eles lembram com saudade, mas também com muito bom humor desse dia de festa caipira.
E valeu a pena enfrentar a poeira da estrada?

— Ô, teve uma festa danada, lá!

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