Apparecida – Entre idas e vindas

Sim, Apparecida, com dois pês.

— Por que com dois pês?

— Pior que eu não sei! E só fui descobrir que tinha esses dois pês quando precisei levar uns documentos pra tirar o título de eleitor. Adulta, já! Na escola, aprendi com um pê só. Sempre escrevi com um só. Acredita? — conta Cida (como todos a conhecem hoje), antes de rir da situação.

Quem lhe deu o nome foi sua avó paterna, Domingas. A primeira promessa entre várias que marcariam sua vida.

Apparecida nasceu no dia 8 de junho de 1940, em um sítio no município paulista de Oriente. Tudo aconteceu rápido e antes da hora: a menina, primeira filha do casal Antônia e Israel, não deveria chegar ao mundo antes do dia 23. Mas chegou.

O bebê nasceu em silêncio, sem chorar. A situação deixou o médico assustado. Se o bebê não chorava, provavelmente não respirava direito. O médico pensou em dar um choque térmico na recém-nascida: colocá-la em uma bacia com água quente e depois em uma com água fria.

— Minha vó que não deixou! Aí, dizia que o médico assoprou no nariz, na boca… Até que, enfim, eu chorei.

— Mas por que nasceu antes da hora? Tinha acontecido alguma coisa?

— Me contaram a história de que uma pombinha tinha pousado em cima da casa. Não sei direito… Meu pai queria matar. Minha mãe não queria, não queria, ficou brava. Agora, não tenho certeza se meu pai matou ou não. Aí, à noite, minha mãe já teve as dores.

— Ela ficou estressada, será?

— Acho que sim.

(…)

No começo da infância, quando o mundo ainda era recente, o sítio era sobretudo um lugar de brincadeiras. Havia uma paineira, e suas folhas que caíam. Havia terra e galhos para construir pequenas cidades. E galinhas, com pintinhos que cresciam e outros que morriam ainda muito cedo.

As crianças resolviam, então, enterrar os pintinhos mortos. Brincavam com eles enquanto ainda estavam “quentinhos”, como relata Cida. Depois, faziam o enterro. Mexiam na terra, davam adeus, colocavam flores por cima. Ficavam em silêncio, tristes. Tristes de verdade. Era um brincar de sofrer.

Os adultos não interferiam na brincadeira. A mãe de Cida por vezes estranhava todas aquelas crianças tristes, de repente quietas. Antônia se perguntava se elas não estariam, na verdade, captando alguma mensagem do Além — talvez antecipando, naquele velório de brincadeira, algo ruim que viria a acontecer.

— Minha mãe falava assim: “será que essas crianças estão agourando alguma coisa?”.

(…)

Um milagre por Mel
Foi em Marília que Cida conheceu aquela que seria sua companhia de todas as horas: a cachorrinha Mel, uma poodle branca que Cida adotou ainda filhote.

Mel nasceu em 23 de setembro de 2007 — Cida guarda muito bem a data na memória. Os pais eram dois cães de Cézar, um dos sobrinhos de Paulo.

— Ele disse que ia me dar um dos filhotes. Aí, fui lá ver. Escolhi a maiorzinha, mais fofinha. Ela nasceu bem gordinha! Aí, com 45 dias já peguei ela, dei vacina.

Nas semanas seguintes, a alegria de ter uma nova moradora na casa se transformaria rapidamente em tristeza. Mel sumiu no dia em que uma visita havia deixado o portão aberto. Provavelmente fora levada por alguém que passava pela calçada.

— Eu fiquei… Nossa! Chorava! E o Paulo chorava também. Tínhamos um casamento pra ir no dia, mas nem fomos mais. Aí, eu fui procurar.

Nos dias seguintes, Cida levantava cedo e saía pelas ruas do bairro em busca de Mel. Andava, olhava com atenção para dentro das casas. Nem sinal da cachorrinha.

— Todo dia eu saía e andava lá pro lado de trás da casa. Achava que ela estava por ali, que não tinha atravessado a minha rua. E nada! Acho que eu andei aquela parte todinha lá.

No quinto dia após o sumiço, Cida acordou cedo, levantou-se e decidiu fazer uma oração para Santo Antônio, pedindo ajuda para encontrar Mel. Em seguida, ela foi preparar o café da manhã. Havia apenas um pão francês do dia anterior. Cida decidiu ir até a padaria da esquina comprar mais pãezinhos.

— Cheguei lá e vi um homem, de olho azul, comprando cigarro.

Cida sentiu que precisava falar com ele. Abordou o homem e perguntou se ele tinha visto alguém com uma cachorrinha poodle branca. “Ah, eu vi, sim!”, respondeu o homem. “Na minha rua, vi umas meninas com um cachorrinho desse tipo. E elas não tinham.” Ele ensinou Cida a chegar ao local; soube informar o nome da rua e o número da casa.

— Não foi Deus que me ajudou? Só pode ser! — exclama Cida. — A moça da padaria ainda falou assim pra mim: “ele compra o cigarro e logo já vai embora”. Mas nesse dia ele ficou lá, conversando.

Cida chamou uma sobrinha, Fátima, para ir com ela até o endereço. Ao chegarem ao local, nenhuma delas conseguia tocar a campainha — o botão ficava do lado de dentro do quintal, e elas não o alcançavam pela grade do portão. Cida decidiu tentar a casa vizinha. Bateu palmas, esperou e viu saírem dali duas mulheres. Uma delas era a dona da casa ao lado.

— Ela veio, com uns queijos na mão. Falei que estava procurando uma cachorrinha poodle que tinha desaparecido. A mulher perguntou se era pretinha. Eu disse “não, é branquinha”. Aí, eu falei: “é que meu marido não enxerga e ele tá tão mal, tão mal, que só chora! Não quer nem comer”.

O relato emocionou a mulher.

— Ela falou assim: “nossa, me arrepiei tudo! A cachorrinha tá na minha casa”.

A mulher levou Cida até a casa dela. Mel estava em um dos quartos, deitada na cama junto com duas meninas. Ao ver a dona, Mel se entusiasmou.

— Fez uma festa! Uma alegria! Aí, já atarraquei ela, peguei no colo. As menininhas começaram a chorar. Falei: “ah, não chora, não”. Tinham dado o nome de Belinha pra ela. Dei 50 reais e falei pra elas comprarem outro cachorrinho.

Cida levou Mel para casa e redobrou os cuidados com ela. O sofrimento de perder a cachorrinha era como o de perder uma pessoa da família.

Hoje, Cida tem certeza de que o homem que ela encontrou na padaria era um anjo da guarda. Ela não sabe seu nome, nunca o tinha visto e não tornou a vê-lo.

Anúncios