Geraldinho: a alegria e os causos do interior do Brasil

geraldinhoGeraldinho Nogueira era um contador de causos, um homem que falava a língua da roça, do interior do Brasil e fazia todos rirem com suas histórias e suas habilidades cênicas para a narração. Conta-se que Geraldinho não perdia uma oportunidade de contar (e alegrar com) suas histórias. Toda hora era hora: na roça, nas festas, no boteco, nas folias, quermesses e – acreditem – até nos velórios!

Natural de Bela Vista de Goiás (GO), Geraldinho não tinha estudos e dizia “minha caneta é a enxada na saroba”. Ainda assim, seus causos chamaram a atenção tanto pela originalidade quanto por sua linguagem única. Seu talento foi revelado por Hamilton Carneiro e José Batista em 1984. Eles levaram os causos de Geraldinho para o programa Frutos da Terra, da TV Anhanguera, o que trouxe reconhecimento nacional para o contador.

Além das características próprias da linguagem regional e oral, as histórias de Geraldinho utilizam-de de variações estilísticas para criar seu efeito cômico e original. Como bom contador de causos, Geraldinho usava expressões muito criativas: “subaquim da perna” (atrás do joelho), “recursim de minguar a toada” (freio), “esgotamento do mês” (menstruação), “molas do jueio” e “ferramenta de mijá” são algumas das expressões que se tornaram sua marca.

Antes de se apresentar para o grande público na TV, o linguajar do contador de causo sofreu algumas alterações. Orientado pelo apresentador e empresário, adequou sua linguagem aos meios de comunicação, removeu algumas palavras e expressões que conteriam “excessos de regionalismo”. Mas a originalidade de Geraldinho está justamente em sua habilidade com a linguagem e em sua espontaneidade.

Geraldinho Nogueira é um dos grandes contadores de causos do Brasil. Apesar de bastante esquecido após sua morte, seu trabalho merece ser preservado pela maestria com que trabalhava a linguagem dos contos e a originalidade de suas histórias.

Conheça o “Causo da Bicicleta”, uma de suas histórias mais famosas:

 

Você ou seus familiares também têm muitos causos para contar? Já pensou em registrar essas histórias como forma de preservá-las? Nós, da Daria um livro, podemos ajudá-lo nesse trabalho, com muito respeito às suas histórias e valorizando a linguagem original do contador. Entre em contato conosco!

 

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Sabedoria indígena: uma língua não é feita só de palavras

“Às vezes fico pensando por que Deus fez nós índios falar cada um uma língua diferente. Mas acho que é porque nós falamos a língua da terra, das matas, dos bichos. Os animais da caatinga não são os mesmos da floresta, como é que a nossa língua ia ser a mesma? A língua dos Fulni ôs é a língua do sertão, da seca, daquelas pedras, daquelas plantas, dos calangos… não podia ser a mesma língua de quem vive na Amazônia, onde chove todo dia. E por isso que é importante que cada um de nós preserve a nossa língua, porque é a língua que conhece as plantas da nossa região, os animais, que conhece a vida na seca…”

Parece poesia, mas foi só uma conversa com a jornalista Amazonir, que pertence à etnia Fulni ô – povo de cantos fortes e alegria transbordante que vive no interior de Pernambuco, lutando contra a seca e pelo direito à terra.

Lembro dos Fulni ô cantando à noite em volta da fogueira, vozes potentes de timbres que se completam preenchendo espaços e corações. Era contagiante e eles sabiam: nos convidavam a acompanhá-los. Algumas frases em português para facilitar intercaladas com outras em Iatê, sua língua. Nada mais justo. “ Agora é homens contra mulheres para ver quem canta mais”. E a brincadeira seguia.

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Foto de André Rodrigo Pacheco para o Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros

A Amazonir escreve um blog sobre questões indígenas:  http://amazonirfulnio.blogspot.com.br/

Leia mais posts como este no blog: Notícias de toda sorte

[Marina Almeida]

10 tradições de Natal pelo mundo

1. Itália

Na Itália, quem distribui presentes para as crianças no Natal é a Befana, uma velhinha que anda montada numa vassoura carregando um saco com caramelos, chocolates e brinquedos. A personagem tem origem pagã, mas a tradição popular conta que os Reis Magos a caminho de Belém pararam para pedir informações para uma velha. Ela recebeu os visitantes em sua casa e foi convidada a acompanhá-los na visita ao menino Jesus, mas recusou. Mais tarde, arrependida, ela tentou reencontrá-los, mas não conseguiu. Desde então, para em todas as casas pelo caminho e distribui doces às crianças, na esperança de que uma delas seja o Menino Jesus.

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2. Portugal

Em Portugal, nas festas natalinas é tradição comer o Bolo-rei: um bolo em forma de coroa, coberto e recheado com passas, castanhas, e frutas secas e cristalizadas. Tradicionalmente também é colocada uma fava seca e um brinde na massa: quem receber o pedaço com a fava terá de pagar o bolo do próximo ano e quem achar o brinde terá muita sorte. Em 1910, quando foi proclamada a república em Portugal, o bolo chegou a receber outros nomes, até mesmo de bolo-presidente, mas com o tempo ele voltou a ser chamado pelo nome original (aprenda a fazer aqui. Não gosta de frutas cristalizadas? Experimente o Bolo Rainha).

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 3. Islândia

Na Islândia, 13 duendes visitam as crianças nos 13 dias que antecedem o Natal para brincar e fazer traquinagens. Nessas noites, as crianças colocam seus sapatos nas janelas e os duendes deixam presentes para as que se comportaram bem e batatas podres para as que se comportaram mal. Além de levar presentes, os duendes gostam de aprontar travessuras nas casas que visitam e seus nomes – “o “espiador de janelas”, o “ladrão de salsichas” e o “lambedor de colheres”, entre outros – já mostram o tipo de coisa que eles fazem.

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O Espiador de Janelas e o Batedor de portas

4. Filipinas

Em San Fernando, a “capital do Natal nas Filipinas” acontece o Festival das Lanternas Gigantes, uma competição entre vilarejos para ver quem cria as lanternas mais elaboradas. Hoje, algumas lanternas chegam a medir mais de seis metros, formando desenhos num caleidoscópio de luz.

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5. Alemanha

Em pleno inverno, não faltam bebidas fortes no Natal alemão. As mais tradicionais são o Glühwein, parecido com o nosso vinho quente (aprenda a fazer), e o Jägertee, o Chá dos caçadores, uma bebida quente e de alto teor alcoólico, feita a partir da mistura de diversas ervas. Já a estrela da ceia é o ganso, mas ainda há espaço para o pato ou para o salsichão.

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6. Áustria

Na Áustria, na região dos Alpes, o Natal é a época dos Krampus, criaturas de aparência demoníaca, com chifres e pele de ovelha pelo corpo. Enquanto São Nicolau presenteia as crianças boas, os Kraus assustam as más com chicotes e correntes. Nos anos 1930, a tradição chegou a ser proibida no país, mas ressurgiu no final do século e perdura até hoje, com desfiles onde pessoas fantasiadas assustam os espectadores (leia mais).

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7. Rússia

Sabia que na Rússia o Natal é comemorado dia 7 de janeiro? A Igreja Ortodoxa Russa festeja o Natal de acordo com o calendário juliano, “atrasado” em 13 dias em relação ao nosso calendário, o gregoriano, por isso essa diferença. E o Papai Noel russo se chama Ded Moroz, ou Vovô do Frio, que visita as crianças acompanhado de sua neta, a nevezinha.

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8. Austrália

Saem os bonecos de neve e entram os bonecos de areia. E que tal um Papai Noel surfista? Na Austrália, assim como no Brasil, o Natal acontece em pleno verão, por isso a tradição lá é comemorar a data na praia, com muitos peixes e frutos do mar.

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9. Colômbia

O Día de las Velitas (dia das velinhas) marca o início das festas natalinas no país. A tradição começou com velas e lanternas deixadas nas janelas e varandas das casas em homenagem a imaculada concepção de Maria. Hoje decorações muito elaboradas iluminam cidades inteiras.

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10. Japão

No Japão, de tradição budista, o Natal não é uma data muito importante e muitas vezes acaba sendo entendido como uma antecipação do dia dos namorados. Nos últimos anos, porém, surgiu uma ‘tradição’ diferente: comer frango frito de uma grande rede de fast-food americana neste dia. A procura é tanta, que é preciso reservar com antecedência!

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***

E você, como comemora o Natal? Tem muitas histórias dessa época? Quais as tradições da sua família? Sabe de onde elas vêm? Já pensou em registrá-las para as próximas gerações? Se precisar de nossa ajuda, é só entrar em contato!

Seu Chico: histórias para não esquecer

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— Você que tá aí tem férias, não tem? Tem sua folga… E de premero não tinha férias e descanso nem de 5 minutos. Eu mesmo não tive. Sabe como era o descanso? Era capinando no meio do mato. De premero não tinha tempo de conversar um com o outro assim como eu tô conversando c’ocê. Hoje em dia tá bom demais.

Na rua quase sem movimento de meio de tarde em Milho Verde (MG), Seu Chico, que finalmente tem um pouco de tempo, puxa assunto com os passantes seja gente conhecida ou a se conhecer. Sentado de cócoras na frente de sua casa, olhos apertados para a rua quarada pelo sol do cerrado e sorriso de poucos dentes, ele acolhe quem passa com simpatia e muitos casos.

— No tempo de eu menino, comecei a trabalhar eu tava com 4 anos e meio, que era a idade que começava… Pegava serviço era cedo, bebia café, pegava uma pazinha redonda e ia pra roça ainda tava meio escuro. Ia carregar lenha na cabeça. Comia banana pra aguentar até as sete horas da noite, das 7 às 7. Agora hoje em dia tem descanso de almoço, uma hora, de premeiro não. Tinha dia que ia comer era só arroz. Você é menina nova, mas eu tô com 83, já vou completar 84 anos e ainda tô querendo trabalhar!

— O senhor está bem forte!

— Mas de premero o povo vivia mais. Meu avô viveu 120 ano. 120 ano! E meu pai chegou aos 130. Hoje não vive assim, não. Porque comia melhor. Comia sopa… o caldo de mocotó com a gordura, né? De osso gordo. Hoje fica tirando a gordura da carne. De premero, não. Era mocotó, gordura, osso gordo…

Mas ele logo lembra que a gordura às vezes ainda era muito pouca:

— Nego só comia angu, às vez arroz branco, feijão, macarrão, carne, costela… Um dia um nego disse assim: “vou comer com o sinhô, quer ver?”. Falou que tinha diamante, aí foi convidado pra comer com o sinhô. Sujou tudo porque não sabia comer na mesa, né, comeu carne e tudo, tava satisfeito. Muito bem, no final, o sinhô perguntou do diamante, o nego falou: “eu disse que tem diamante, não que eu tinha um”.

Nós rimos da esperteza e do esforço que se faz por uma boa refeição.

— Isso é do tempo que minha vó era menina. Ela conta esses casos. Era muito sofrimento pros negros. Gosto de contar essas histórias pros mais novo, pra não esquecer, saber o que foi.

Tradições
Seu Chico sabe casos e cantos. Lembra orgulhoso que foi chamado para ensiná-los às crianças na escola:

— Os véio que sabe a cantiga do tempo da escravidão levaram na escola a modo de a professora poder seguir pra frente, senão acaba, né?

E canta para mim. A primeira música fala do nego que caiu no sono enquanto vigiava a plantação de arroz. Acordou com o Assum preto comendo tudo e foi logo correndo e tocando:

— “Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô passarinho, que o arroz é de Deus…”

Seu Chico fala das festas, da Marujada, da procissão, da festa de São Benedito, cada uma com suas tradições e suas músicas.

— “Meu São Benedito, vossa casa cheia, cheira cravo e rosa, flor de laranjeira…” Você que tá aqui, ocê já viu festa aqui?

— Aqui não.

— Vem que ocê vê essas cantigas que eu tô cantando e ainda tem mais um monte. Canta no meio da rua, na porta de casa, o povo vai lá pro terreiro.

Ele lembra de mais uma:

— “Papagaio come milho, periquito levou fama. Papagaio come milho, periquito levou fama…” É muito interessante. Nós somos periquito, o papagaio tá rasgando espiga de milho, lá no pé, nós tamo debaixo catando, tamo na rua trabalhando…

Ele vai explicando as músicas, o significado das histórias… Por trás do seu jeito simples, ele sabe da importância do que conta:

— Sei mais de cem música sem olhar papel. Muita cantiga do tempo da escravidão. Eu gosto de contar pros novos. Porque muitos véio às vez sabe cantar, mas não é capaz de explicar o que vem a ser a cantiga, né? Fica embasbatado. Eu gosto de contar…

Seu Chico não mora sozinho e logo dona Maria da Luz aparece na janela. A senhora negra, de cabelos curtos, emana força, apesar do corpo magro e da idade avançada. É curandeira, descubro depois. E ciumenta – não gosta de seu Chico cheio de conversa na porta de casa. Ela empilha uns sacos de urucum na janela enquanto pergunta meu nome, depois diz para ele:

— Passa para dentro – e volta para o interior da casa.

— A mulher viu que eu tava falando perto d’ôce, entrou pra dentro, não gosta, não – ele explica, mas continua a conversa sem pressa.

— Eu tô com problema no olho, mas ainda vejo ó…

Seu Chico pega um punhadinho da terra arenosa do cerrado na mão. Elas formam pequenas pedrinhas que ele separa com os dedos enquanto conta:

— Um, dois, três, quatro, cinco… Tá veno? Eu ainda vejo!

A casa
Agora ele me convida para entrar. Hesito, mas ele insiste.

— Entra pra lá!

Na sala de paredes já gastas e manchadas pelo tempo, muitas imagens de santos, uma foto de criança, algumas fotos de seu Chico, alguns recortes de revistas enquadrados. Na mesa, sobre uma toalha de plástico, um pequeno altar com muitas imagens, flores de plástico, um filtro de barro com um paninho bordado e já amarelado por cima, duas garrafas de água, um prato para velas.

Seu Chico me aponta para uma foto sua na parede, roupa colorida, boné e penacho vermelho e amarelo na cabeça, sorriso aberto.

— É na festa da procissão, né?

Ele confirma:

— Na festa é dança, a gente vai pra entrada da rua com um monte de canto. E eu só vivo alegre porque ó…

E me conta feliz sobre como ainda está ativo:

— Eu tô velho, mas ainda tô trabalhando. Ainda faço vassoura… – entra no quarto para pegar alguma coisa e volta com um saco cheio de vassouras de palha.

— Olha como ainda trabalho! Ainda gosto de trabalhar!

Pergunto se posso contar sua história no meu blog, tento explicar, ele parece não entender muito, mas repete:

— Gosto de contar pros mais novo, é bom pra poder ficar sabendo pra frente, senão acaba, né, senão acaba…

Entendi a resposta como um sim.

Eu finalmente me despeço de seu Chico, não quero irritar dona Maria da Luz.

— Vai com Deus. Depois ocê passa pra nós contar mais caso – ele diz, enquanto acena.

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Seu Chico mostrando as vassouras de palha que faz

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Fui conhecer um pouco mais do pequeno distrito de Milho Verde, em Minas Gerais. Mais tarde encontrei-o novamente. Estava sentado aos pés da pequena igreja do Rosário contemplando o final da tarde. Ao seu lado, um cachorro se esparramava pelo gramado. Já faz algum tempo que estive lá, mas demorei para escrever essa história. Pesquisando agora sobre a região, descobri que seu Chico morreu em agosto deste ano. Foi enterrado ao lado da igrejinha onde ele gostava de ver a noite chegar.

Vai com Deus, seu Chico. Você já contou muito caso e cantiga para nós, agora nós é que contamos as suas por aí. Pros mais novos saberem o que foi e não esquecerem.

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[Fotos e texto: Marina Almeida]

No tempo da zagaia de gancho

— Acho que eu tô tão atrasada que eu sou do tempo da zagaia de gancho.

— O que é zagaia de gancho, dona Elza?

— Ó, eu ouvia os caipiras lá da roça falando quando achava que era muito véio, que não ia com as coisas de hoje, mas eu mesmo não sei.

Meu pai pega o celular e descobre imagens da tal zagaia de gancho. Mostra para dona Elza, minha avó, que não esconde a surpresa:

— Agora que eu fiquei sabendo. A gente fala as coisas e não sabe, se fosse um palavrão feio…

E ela explica, para mim, o que viu:

— É feito um naviinho, daquele que… na água, mas não aqueles grandão, aqueles pequenininho, quadradinho, amarradinho, é feito uns esgueio. Acho que toca, na água, não sei. Chama zagaia de gancho.

Entendeu? Em outras palavras, e menos estilo, a Wikipedia explica que é uma lança curta e delgada usada como arma de arremesso para a caça ou pesca. Os registros sobre o uso da expressão que encontrei eram poucos, mas ao que tudo indica, a zagaia (ou azagaia) de gancho era uma ferramenta muito utilizada pelos indígenas brasileiros e também por outras pessoas desde o período colonial. Provavelmente daí vem sua associação ao que é antigo, de outros tempos.

Mas as explicações difundidas pela internet vão ainda mais longe. Na Serra da Canastra, em Minas Gerais, contam que havia um pouso de tropeiros em que o dono escondia uma zagaia no quarto e lançava-a no meio da noite contra os hóspedes que dormiam. Em seguida roubava suas posses. Mas contam também que as maldades tiveram fim com um destino trágico para o dono da pousada (conheça a história completa aqui).

Outra versão dizia que zagaia era uma corruptela de “H’s” e a expressão se referiria, assim, ao tempo em que as palavras eram escritas com ph (como pharmacia).

A expressão era tão conhecida que na música Couro de boi, composta por Palmeira e Teddy Vieira e gravada por diversos cantores caipiras, encontramos a referência a um ditado “do tempo do zagais”. Seria uma referência ao tempo dos Hs? Da zagaia de gancho? Ou ao destino trágico dos hóspedes da fazenda na Canastra?

Novos tempos

— Internet, celular… acha tudo, não, Marina? Nossa, como evoluiu as coisas. No meu tempo, quando apareceu o avião o povo tinha medo, falava que era assombração. Eu não achava nada, mas alembro. As coisas evoluiu totalmente.

— E o que a senhora acha disso?

— Uai, é bom! Que era muito atrasado. A gente falava de estudar, meu padrasto falava: “bobagem, para que estudar? Mulher não precisa aprender a ler”. Já pensou que ignorância!

Pensando bem, do alto dos seus 93 anos, dona Elza não é do tempo da zagaia de gancho, não.

O que aprendi (sobre mim) na aldeia com os indígenas

Na aldeia, em aprendizados sem hora para acontecer, o tempo parece largo de tanto que cabe, mas os indígenas tinham menos pressa e o tempo obedecia correndo suave. Grande e calmo, o tempo era rio cortando a paisagem. A cada pôr do sol, o dourado banhava danças e cantos com sua luz. Música sagrada de povos de resistência. Já noite, eram muitas vozes em torno do fogo. De manhã, o dia começava mais cedo com seus cantos espantando a madrugada. O tempo de cada tempo.

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Cantos da manhã. Foto: Marcelo Santos Braga/Encontro de Culturas

Fui voluntária de comunicação na Aldeia Multiénica e no Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros, mas ainda estou com dificuldades para expressar tudo que vi e senti ali.  Cheguei sem saber bem o que esperar e foi bom, porque a surpresa foi maior, sem as ansiedades que gente branca costuma criar. Logo descobri que eu sabia menos do que imaginei: culturas, histórias, etnias que eu nunca tinha ouvido falar. E tão distintas entre si, as línguas e as músicas, os traços, os rezos e as crenças. As casas diferentes de cada uma delas. Em comum, sua força, e o arrebatamento que seus cantos provocavam em todos nós.

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Mulheres das diferentes etnias indígenas. Foto: Ana Caroline de Lima (Antropologia Visual)/Encontro de Culturas

Olhar para o outro primeiro é o desconhecido: corpos pintados, penas coloridas, palavras nunca ouvidas em muitas línguas novas. É diferente, mas também é bonito. Estranhamento que tentamos registrar em imagens e textos. Depois passa a ser também reflexo. As risadas de um início de amizade, o alimento partilhado, o gosto pela música e pelo banho de rio. As crianças que choram para fugir da água fria e a mãe que insiste. Somos todos o mesmo. Chega ainda a hora em que as dores são compartilhadas, e essas também são muitas: a falta de assistência médica, o preconceito, a luta pela terra, o luto.

 

 

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Cores, música e dança. Foto: André Rodrigo Pacheco/Encontro de Culturas

Mas quando você olha pro outro, também pode se enxergar melhor. E conviver um pouco mais de perto com os indígenas foi muito revelador de mim. Já tinha ouvido comentários de quem, no contato com eles, percebeu seu apego às coisas e aos bens materiais. Nunca fui muito consumista, então não era algo que me tocava especialmente. Desta vez não foi assim. Comecei a notar que eles tinham uma outra relação com as coisas, sim, mas não só com elas, também com o tempo, o momento presente, a noção de futuro. Entendi que eles têm uma relação diferente com o capitalismo e que isso afeta o viver em muitas outras esferas. E aí pude ver melhor como sou e como somos todos, em geral, tão moldados por um modelo econômico baseado na exploração, como estamos tão adaptados a ele, mesmo quando nos consideramos seus questionadores.

 

Nós

Nosso tempo é o futuro (e curiosamente somos nós também que o destruímos devastando o ambiente em que vivemos). E enchemos nosso futuro de metas e objetivos e muitos planos. Nossa força é a da privação para o trabalho, e o trabalho não só nos define como pessoas e como corpo físico, se impõe também nas horas de lazer e descanso.

Olhando para o futuro planejamos, e nos prendemos aos planos, mesmo que a vontade seja outra, que o corpo esteja cansado, que o dia não favoreça. E assim vamos perdendo a naturalidade, a vontade, o fluir das coisas e do tempo presente. Como conseguimos? Com muito controle. O controle da forma, do corpo, das regras muito estritas, do tempo, dos números. Mas com isso matamos também, quase sempre, o tempo e o espaço do que na vida pode acontecer de real, de sincero, espontâneo: este é o nosso preço.

Levamos a lógica do lucro para todas as esferas da vida: tudo tem de valer a pena, compensar o tempo gasto ali (mas como saber antes?), precisamos ser produtivos, fazer o dia render. E escolhemos atividades que tragam algo além do prazer do momento (talvez um diploma, ou contatos, ou algum status de pessoa culta ou esportista ou aventureira, a gosto). Nas férias, vamos viajar, mas já com tudo planejado, porque não podemos perder nosso tempo valioso, e cada atração visitada tem de valer o tempo investido nela, não podemos nos dispersar da obrigação de nos divertir intensamente nesse período. Nas nossas horas vagas, idem. E eu entendo, porque sei bem como é duro ter tão poucos dias contados de férias e de tempo livre.

No relacionamento com os amigos é quase a mesma coisa. Nos amorosos também. E as sensações, a sabedoria do corpo e das emoções vão sendo sufocadas, presas, moldadas para se encaixar num certo padrão pré-determinado do que valerá o investimento de vida. Por que não nos deixamos sentir – sentidos e sentimentos – e responder ao momento?

E quantas vezes não transformamos nossa vida numa linha de montagem? Alguém que passeie com nosso cachorro, alguém que organize nossa casa e alguém que cozinhe, enquanto nós trabalhamos. Para poder trabalhar mais, porque acreditamos que seremos melhores se formos máquinas de uma só função e que seremos capazes de fazer a mesma coisa por horas e horas (eu sei, também não nos dão muita opção).

No nosso tempo livre, vamos ouvir um cantor ou assistir a um espetáculo ou ler um livro. Mas nós mesmos sabemos muito pouco de cantar ou dançar ou contar histórias. Quem faz isso é um especialista no assunto. É ótimo que existam pessoas que se dediquem às habilidades humanas, mas quando nos retiramos da vivência desse processo, nossa vida fica mais pobre. E com ela todo o mundo. Já falei como os indígenas cantam bem? Mas nós só sabemos fazer o nosso trabalho.

 

Uma casa sem preço

Estava conversando com Beptuk Metuktire, Kaiapó Mebêngôkre, neto do cacique Raoni (leia a entrevista com os dois aqui), e ele dizia que a vida na cidade era mais difícil, porque para tudo era preciso dinheiro. “Na aldeia não, você vive tranquilo. Você faz sua casa sem ter de pagar a madeira, você pode caçar, pescar…” [E eles fazem tudo isso sem danificar o meio ambiente…]

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Casa em construção. Foto: Melito/Encontro de Culturas

Continuei pensando nisso que ele me falou por vários dias. Morar é uma das nossas necessidades básicas, mas ter uma casa é muitas vezes a conquista de toda uma vida para nós. É caro. Tem gente que mora em barracos sem nenhuma segurança, tem os que vivem nas ruas, os que pagam aluguel e temem pelo dia que não possam mais pagar e os que trabalham muito para conseguir pagar sua casa. E se quiser morar perto do serviço para ter tempo para fazer algo mais além de trabalhar, tem de pagar muito mais… Tem a questão da falta de espaço nas cidades, mas não é só isso (os prédios vazios do centro estão aí para provar que não).

É feito para não ter opção. Para você não poder escolher uma vida mais simples e com menos horas de trabalho. Para não ter a opção de sair do emprego degradante, das exigências absurdas, da pressão, das metas impossíveis, da carga horária desumana. E assim, presos à manutenção das nossas necessidades básicas, paramos de cantar (para trabalhar), paramos de dançar (para trabalhar), de nos encontrar (para trabalhar).

Mas será que só dá pra ser assim? Acredito na luta pela mudança (preciso acreditar), mas também nas pequenas batalhas. Que sejamos guerrilheiros do tempo. Guerrilheiros da espontaneidade dos pequenos momentos. Não parece muito, mas acho que pode abrir espaço para todo um mundo novo de experiências e trocas, se nos dermos mais a isso, de entendimentos e também tranquilidades. Espaço para a vida. Às vezes ela até parece fazer algum sentido quando deixamos que ela aconteça.

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Menina xinguana. Foto: André Rodrigo Pacheco/Encontro de Culturas

Eles

Ainda pretendo escrever mais sobre esses dias na aldeia, mas depois de falar tanto sobre o que somos, preciso falar um pouco sobre eles. Deve ser muito difícil ser indígena! Para além da luta pela terra, contra o preconceito, pelo direito de existir e viver à sua maneira, como se fosse pouco, eles precisam estar sempre afirmando sua identidade indígena. Porque o direito às suas terras por direito, e portanto ao seu meio de sustento, depende do reconhecimento dessa identidade pelo branco. Eu posso me dar ao luxo de nem pensar a respeito do assunto, de hoje me identificar mais com o lado português da família e amanhã com o brasileiro, ou resolver que é a cultura japonesa que me encanta, posso ir morar na Europa e depois voltar sem que ninguém diga que não sou mais brasileira. Eles não. Se precisam sair da aldeia, são sempre questionados que então não são mais índios (e não sendo indígenas, não deveriam mais ter direito à terra, subentende-se). E precisam estar sempre provando que são, sim, que não é uma camiseta ou chinelo que vai apagar tudo que são. Nem um celular.

Aliás, com um celular eles podem se articular com outros indígenas, registrar suas tradições, filmar e denunciar os abusos… Pensando bem, até dá para entender a implicância de alguns, sim.

E por que as tradições deles têm de ser puras, sem nenhum traço do contato com o branco? Não faz parte também da história deles hoje? O prato mais tradicional da Itália é feito com molho de tomate, que veio da América. A batata, presente na culinária de metade dos europeus, também veio daqui. Nesses casos, 500 anos são mais que suficiente para estabelecer uma tradição. Por que para os indígenas não? É importante que preservem e defendam suas tradições, claro, mas que eles nos digam como vão fazer isso.

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Rikbaktsa, tradição guerreira. Foto: Ana Caroline de Lima (Antropologia Visual)/Encontro de Culturas

 

Perigo indígena

Saí de lá pensando como podemos saber – e falar e ouvir – tão pouco sobre os povos indígenas do nosso próprio país. Verdade que não foi por acaso, são cinco séculos de apagamento intencional de sua cultura. E, infelizmente a luta pela terra continua, cada dia mais acirrada com nossos desgovernos, mas ainda assim… Talvez os indígenas representem mesmo um grande perigo para o Brasil: ao nos mostrar uma parte de quem somos, ao nos fazer questionar nosso modo de vida e ao nos mostrar que existem outros jeitos de se viver. Para evitar tantos riscos, o melhor caminho deve ser mesmo a ignorância. Além disso, conhecer um pouquinho mais sobre eles pode nos transformar todos em grandes apaixonados por esses povos, e aí será impossível não apoiar sua causa.

Antes que me questionem, não quero dizer que as sociedades indígenas sejam perfeitas, mas sim que elas têm muito a nos ensinar. Mais do que imaginamos.

Cheguei na aldeia na lua nova: pequenas e muitas luzes – rastro de claridade –atravessando o céu. Voltei da Chapada já era a cheia, quando parece que há um só astro no firmamento. Mas agora eu sabia que todas as outras luzes estavam também lá, iluminando cada pedacinho do céu ao seu redor, mesmo que eu já não pudesse vê-las. Penso que cada etnia, cada cântico, cada dança e cada reza dos tantos povos indígenas que lutam para sobreviver são como essas estrelas do céu da Chapada: trazem um pouco mais de luz para o nosso mundo, mesmo que não possamos sempre vê-los, mesmo que nem saibamos às vezes que eles estão lá.

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Noite na aldeia. Foto: Marcelo Santos Braga/Encontro de Culturas

 

Império Kalunga: cortejo de tradição e fé

Papel colorido e flores pra enfeitar a praça em frente à capela da Vila de São Jorge. A mesa de bolos já está pronta e os músicos se aquecem enquanto o povo vai chegando. O Império, do povo Kalunga, vai começar no Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros. É uma festa tradicional da comunidade quilombola de Vão de Almas, no Sítio Histórico Kalunga (GO), em honra ao Divino Espírito Santo.

Os Kalungas todos já aguardam. Vêm arrumados para a festa, que dia de santo é dia de tirar a gravata do armário, a melhor camisa. Chapéu de palha para arrematar, mas a turma mais nova só quer é saber de boné. Faz mal não, o importante é proteger a cabeça, fazer a homenagem e não atrasar o compasso do pandeiro. Também saem de casa os brincos e as pulseiras. E os laços de fita amarrando as tranças dos cachos.

No cantinho, enquanto não começa o cortejo, dá tempo de chupar uma laranja, mas come com pressa, não pode perder a saída. Os músicos aceleram, viola, sanfona, pandeiro, triângulo e atabaque. Um pé que bate daqui, outro dali… Os turistas estão chegando, vai começar.

Bandeira e espada se apresentam. Cada uma na sua vez e com sua dança – esgrima no ar, movimentos e giros e voltas. “É uma comparação, mostrando a tradição. Ele me mostra a dele, e eu mostro a minha. Isso é de muito tempo que eles fazem”, me explica no final da festa o seu Santana dos Santos Rosa, nome de nascido no dia da mãe de Nossa Senhora. Sua apresentação da espada é tradição antiga. “Eu via os mais velhos e disse: uai, vou aprender a fazer isso. Tinha um velho que fazia e peguei entendimento de fazer. Prestando atenção faz bem, né? Igual ele, aprendeu com os criador dele, né, Antero?”, e o colega da dança da bandeira concorda.

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Pelas ruas

O cortejo sai. Protegido por um quadro feito de varas coloridas, lá vai seu Santana com a espada, seu Antero com a bandeira do Divino. Vão também o rei e os anjos. E mais a avó para segurar as asas, “que o anjo é pequeno e não vá deixar cair as asas”. Anda muito compenetrado em sua função e só aperta com força de susto os olhos quando soltam fogos – às vezes os anjos também dão de ter medo. Já a anjinha no colo mal ainda sabe andar, mas de nada se assusta, vai toda grande de olhos, curiosidade.

O rei vai firme em sua coroa de flores, não abaixa a cabeça, não tropeça, não perde o passo. Óculos escuros para não franzir o rosto com o sol que já quer se pôr. Coisas de realeza. Na tradição Kalunga, a cada ano um rei é escolhido e seu trabalho é organizar toda a festa. Sorriso mesmo só em quem segura o bastão, que às vezes é difícil segurar o orgulho num momento assim.

Segue o povo, não para a música e quando a rua é de aperto, eles fazem do quadro losango, que esse é povo de adaptação. Seu Santana fala o porquê da separação: “Vamos ali dentro do quadro, que se não for é muita gente e separa os cabeceiras. Ali só o líder, o rei, os anjos…”. Na volta para a praça tem mais apresentação de espada e de bandeira. Os tocadores param e a voz das mulheres assume na capela. Agudas, tremendo pedidos ao Divino e ao nosso Senhor. Mas não se enganem, que o trabalho delas começou bem antes, nas flores, nos enfeites de papel, da coroa do rei e dos anjos. “Antes era flor do campo porque nem tinha papel lá, pelos anos 60, agora nós faz assim. Comecei a fazer essas flores com uns nove pra dez anos, era mais destacada e começaram a sempre me chamar para ajudar. Fui professora e agora todos já sabem fazer”, fala dona Dainda, que desde a véspera ajudava as mulheres a preparar todos os enfeites.

Na capela

Dona Procópia já não tem pernas para o cortejo, mas é o povo chegar que ela sai se apoiando na bengala para alcançar a capela. Logo já está bem na frente, lenço colorido enrolado na cabeça puxando o canto. A voz é fininha, mas, ai, que a fé é das largas. Olhos fixos no pequeno altar, tem sempre outra música pra não parar tão cedo as rezas. Só não peçam pra benzer. “Quando que eu sei benzer? Reza de rezar no altar pra defender todo mundo, pode me chamar que eu tô pronta. Mas benzimento? Isso não é comigo, não, uai”.

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Texto escrito originalmente para o Encontro de culturas

Fotos: Ana Caroline de Lima (Antropologia visual)

[Marina Almeida]

[BLOG] Belo Monte: registrar memórias para superar o trauma

“A gente vai construir uma canoa bem grande… para morar todo mundo no meio do rio”.

Disse um índio Araweté pensando em como poderia sobreviver à construção da hidrelétrica de Belo Monte, quando provavelmente já não via saídas, mas precisava de algo a que se agarrar.

A instalação da usina no rio Xingu, na Amazônia paraense, expulsou dali famílias que viviam nas ilhas ou na beira do rio. Pessoas que tinham aquelas águas como fonte de alimento e que desenvolveram sua cultura, suas relações familiares e afetivas a partir das configurações daquele espaço. Não bastasse, todo o processo também foi marcado por uma série de violações aos direitos dessas populações. O Ministério Público Federal moveu mais de 20 ações denunciando inconstitucionalidades e violências, entre elas uma ação por etnocídio indígena.

 

Lembrar para poder esquecer

A desorganização de todo o espaço, hábitos e modos de vida dessas pessoas afeta também a constituição de sua própria identidade: eles têm dificuldades para se reconhecer na nova vida que lhes foi imposta. Também traz problemas psíquicos, como depressão, e mesmo doenças físicas foram desenvolvidas após o trauma. Para ajudar essas pessoas a retomarem suas vidas, o projeto Refugiados de Belo Monte levou uma equipe de psicólogos e terapeutas para atendê-los.

Outro braço do projeto faz um trabalho de documentação de relatos e testemunhos. Para que a história não seja esquecida, e quem sabe assim não se repita. Já para os atingidos, na esfera privada, eles acreditam que lembrar seja o primeiro passo para que essas pessoas possam esquecer o trauma e assim começar a construir novas experiências. Uma dor que primeiro precisa ser contada, lembrada, registrada (e não escondida, como muitas vezes tendemos a fazer) e a partir daí superada. Lembrar para poder esquecer.

Como explicam os organizadores, “os diversos relatos e testemunhos colhidos durante a realização do projeto serão transformados em documento público. Combinados com os registros e memórias materiais já produzidos pelos atingidos por Belo Monte (fotos e vídeos pessoais, poesias, músicas etc), serão devolvidos às fontes testemunhais, para colaborar com a preservação pública da memória coletiva. Esta parte será realizada sob a supervisão do núcleo de jornalismo do projeto.

“O objetivo é, por um lado, garantir a permanência, no tempo histórico, da multiplicidade de experiências vividas ao longo da construção da hidrelétrica de Belo Monte, assim como a diversidade de nomeações e de sentidos dados a essas vivências. Por outro lado, a documentação e a elaboração do vivido cumprem o papel de colaborar com a reconstituição da vida de cada um, assim como do tecido comunitário.”

 

Entenda o caso

Além de não terem sido consultados sobre Belo Monte, a implantação da hidrelétrica violou uma série de direitos dessas populações. No processo de pagamento de indenizações, por exemplo, analfabetos assinaram com o dedo papéis que não eram capazes de ler e muitos ribeirinhos ainda lutam para provar que viviam da pesca na região, apesar de não terem sido incluídos na listagem (leia mais).

A usina, com custo estimado em cerca de R$ 30 bilhões, foi construída por um conjunto de empreiteiras e financiada em grande parte por dinheiro público, via BNDES. Atualmente, a obra é investigada pela Operação Lava Jato e a Licença de Operação de Belo Monte foi concedida pelo IBAMA sem que a totalidade das condicionantes exigidas tivesse sido cumprida.

 

Belo Sun e os indígenas

Hoje, a situação é ainda mais grave. O governo do Pará concedeu, em 2 de fevereiro, a licença de instalação de outro enorme projeto: a extração de ouro pela empresa canadense Belo Sun na Volta Grande do Xingu, bem ao lado de Belo Monte. As conseqüências desses dois grandes empreendimentos na mesma região ainda não foram dimensionadas e, segundo a Funai, o estudo do licenciamento não considerou as comunidades indígenas mais próximas ao local da mineração.

Como aponta a jornalista Eliane Brum, “segundo o Instituto Socioambiental, o projeto da Belo Sun prevê montanhas de rejeito com aproximadamente duas vezes o volume do Pão de Açúcar e a construção de um reservatório de rejeitos tóxicos. Tudo isso numa região já fortemente impactada por Belo Monte, em plena floresta amazônica, no momento em que a humanidade enfrenta a mudança climática.”

*Crédito da foto: projeto Refugiados de Belo Monte

[Marina Almeida]