Tô vendo a banda passar…

Na janela, olhando a rua, cumprimentando os vizinhos ou admirando sua quaresmeira rosa em flor, minha vó cantarola uma música lá de quando ainda era nova. E conta histórias:

Eu tava à toa na vida, o meu amor me chamou para ver a banda passar cantando coisas de amor…

Isso era lá em Cambuquira, passava aquelas bandas na rua e a gente ficava na janela vendo.

Mas o povo é maldoso, tinha uma moça que não era muito bonita e ficava olhando também, logo falaram dela… Que a moça feia achou que a banda tocava pra ela.

Às vezes eu fico olhando a rua, passa alguém e pergunta o que estou fazendo, eu respondo que tô vendo a banda passar. Mas eles não conhece essa música, é que é lá de Minas…”

Conheça a música (composição de Chico Buarque):

Anúncios

Leia trechos de ‘Do outro lado do Atlântico’

IMG_9052.JPG IMG_9055

Entre trincheiras

No escuro das frias trincheiras dos alpes italianos, após um dia de combates, numa noite quem sabe de que medos e dores feita, imagino meu pai, um jovem soldado pensando na família e na mulher cuidando de tudo sozinha desde que ele fora convocado para servir o exército italiano. Ele devia se afligir sem saber o que se passava conosco, se teríamos escapado aos bombardeios, se estaríamos passando quais necessidades…

IMG_9051

Na Segunda Guerra Mundial (1940-1945), escapar da morte é a tarefa de dia e noite. Mas, quando cai a luz do sol e os combates diminuem, é a hora da saudade de casa e da incerteza da guerra. Lavinio, meu pai, trabalhava memórias e saudades com as mãos. Esculpia sonhos e mensagens em sua mente, imaginando um dia registrá-las. Como? Onde? Na gaveta de alumínio onde era servida sua comida. Eu, Franco, seu filho primogênito, ainda era um bebê – nasci seis meses antes do início da guerra –, e o pai não sabia se voltaria para me ver crescer. (…)

Um tesouro que guardo com muito cuidado. As mensagens se combinam com ilustrações de traço fino e perspectiva perfeita. Contra a dureza da guerra, a leveza e a precisão das mãos de artista. Não era só à noite que era preciso ocupar a cabeça. Às vezes o trabalho podia ser também durante o dia. Quando os bombardeios eram muitos e todos precisavam se esconder enquanto o mundo explodia acima de suas cabeças, entalhar a vida e a saudade era a sua forma de não enlouquecer. Quem sabe pelo que passava quando fez cada um desses desenhos, inscreveu os nomes da família, suas dedicatórias e pensamentos.

***

 

Quando a guerra acaba…

IMG_9038.JPG

Finda a guerra, era hora de reconstruir cidades e famílias. Os escombros podiam ser reerguidos, mas e as pessoas que ficaram pelo caminho? O pai voltou para casa, mas seu cunhado, Enzo, que também tinha sido convocado, não. Ele foi dado como morto, embora seu corpo nunca tivesse sido encontrado.

Dois anos já haviam se passado quando, um dia, chegaram da rua gritando pela avó:

— Albina, Albina!

— Calma, o que foi?

— O Enzo! O Enzo! Não sei se é… está muito magro! Está vindo aí!

Ela correu o máximo que aguentava em seu vestido negro de luto até os pés, avental branco por cima. Ao se aproximar do homem que chegava, ela perdeu o fôlego e diminuiu o passo, embora tivesse os olhos sempre fixos nele. Ele foi chegando mais e mais perto…

— Enzo!

A voz embarga e os olhos se enchem de lágrimas – os da nonna Albina e os meus, ao relembrar a história. Ele estava um esqueleto ambulante, mas ali só uma coisa importava: ele estava vivo! O filho perdido na guerra voltara para casa.

Tio Enzo havia sido enviado para combater no front russo, mas a chegada do inverno deixou os soldados italianos totalmente desguarnecidos. Ele foi preso pelo exército inimigo e quase morreu fuzilado.

Estava prestes a ser morto por um soldado quando um oficial russo se colocou entre eles com seu cavalo.

— Deixa o rapaz ir embora! Acaba com essa história…

Enzo deu o nome daquele oficial russo, Ivan, a um de seus filhos, como homenagem àquele que salvara sua vida. Havia homens de boa índole também do lado de lá das trincheiras…

***

 

Rumo ao Brasil

Para nós, crianças, a viagem de navio era uma aventura com destino a um mundo desconhecido. Tentava imaginar como seria o Brasil, principalmente as pessoas que habitavam aquele país recente: feições diferentes, outras tonalidades de pele, outros cheiros e cores. Antes de deixar a Itália, o navio fez uma parada em Nápoles, para o embarque de mais passageiros e carga e, através de Gibraltar, passamos do Mediterrâneo ao Oceano Atlântico. Nenhum dragão, nem monstros marinhos. Sol, bom oceano, com ondas mais alongadas e tranquilas. (…)

Dias antes de nos aproximarmos do Equador, a tripulação do navio começou a preparar uma festa em comemoração à passagem pela fronteira entre os hemisférios norte e sul. As mentes infantis imaginavam como seria aquele momento especial de travessia. Como faz? Passa por baixo? Haveria um risco no céu? O oceano mudaria de cor? A festa no navio era simples, mas divertida e com boa comida. Houve um concurso para premiar aquele que fosse capaz de comer a maior quantidade de macarrão à bolonhesa em menor tempo. Gritos e palmas acompanhavam os grandes comedores em sua luta, sem talheres, com a massa e o molho. Entre homens grandes e gordos, um genovês alto e magro – magro como uma caneta! – começou a chamar atenção: sugava com rapidez e barulho porções imensas de espaguete.

Terminou a montanha do primeiro prato e pediu logo o segundo, enquanto seus adversários desistiam um a um:

— Bota outro aí! — ele gritou mais de uma vez, com os braços para cima e feliz da vida.

E logo fez a comida do segundo prato desaparecer. O navio inteiro ficou alucinado com o feito do genovês esguio! A música e a dança seguiram noite adentro, em meio a risos e homenagens.

Eu tinha apenas 12 anos, mas já conhecia bem a guerra para imaginar que aquele homem provavelmente sofrera muito com a fome durante os anos de escassez. Mesmo com o balançar do oceano e da dança, o genovês não passou mal com o estômago tão cheio.

Aquelas porções imensas de comida e o baile que veio depois talvez festejassem, na verdade, a promessa de fartura em terras distantes.

***

 

Música para viver

IMG_9048.JPG

Meados da década de 1940. Na cozinha de uma casa simples de Padova, uma família se reúne para o jantar. Nos pratos, pouca comida, mas o suficiente para resistir aos tempos difíceis e esperar pelo retorno daqueles que travam as batalhas da Segunda Guerra Mundial. Quando todos terminam de comer, tio Gastone – ainda muito jovem para o front – quebra o silêncio com os primeiros versos de La Montanara. Aos poucos, todos se unem e cantam juntos aquela canção sobre amor no alto das montanhas.

A montanara é a jovem das montanhas e também o cântico dos que se esforçam nas subidas em terreno íngreme e gelado. A música marcava o ritmo de caminhada dos povos dos Alpes, soando como um espetacular coral de anjos. Hoje, se não podemos ouvi-los, nos resta imaginar. Gastone aprendeu a cantar La Montanara com o pai, que tivera como companhia aquela música durante seus anos de combate na Primeira Guerra Mundial. Os soldados entoavam aquela canção para se aquecer e ganhar forças. A emoção de cantar em grupo ajudava a encarar o medo da morte e aceitar que sacrifícios seriam necessários em nome de suas famílias. Cantava-se para viver e para sobreviver, por dentro e por fora.

Tio Gastone cantava para mim na hora de dormir, mas eu muitas vezes preferia cantar junto em vez de me entregar ao sono. O treino informal de quase todos os dias deu afinação ao timbre de criança e fez com que eu me tornasse a segunda voz de um dueto que muitas vezes seguia por mais quatro ou cinco músicas antes de o sono vencer.

IMG_9041.JPG

Conheça outros livros nossos

A alma literária das nossas correspondências eletrônicas

Reencontros, novas e velhas amizades, namoros, pedidos de ajuda, desculpas… Quase todas as experiências que temos hoje produzem registros escritos em formato digital. Pense em seus e-mails, em seus posts de Facebook, nas longas conversas de WhatsApp.

Existe literatura nessas trocas de mensagens? A resposta pode ser controversa, mas é certo que esse tipo de material documenta com riqueza nossas vivências. Ele tem uma alma, composta por emoções, silêncios, medos, surpresas e alegrias.

A publicação americana The California Sunday Magazine abordou o tema em uma reportagem publicada no dia 04 de abril:

Boa parte da nossa comunicação acontece por meio da escrita, dos pequenos e grandes textos que escrevemos uns para os outros. Hoje, com as inúmeras ferramentas que nos permitem exteriorizar pensamentos em tempo real, cada um de nós se torna seu próprio biógrafo, produzindo registros íntimos do que se vive ao mesmo tempo em que as experiências acontecem.

Algumas pessoas abriram esses registros à publicação. Entre elas, dois estranhos que descobriram ser irmãos. Traduzimos, a seguir, o resumo da história e a troca de mensagens:

:: Dois estranhos que descobriram ser irmão e irmã ::

Yadira Izaguirre tinha 17 anos quando deu à luz seu primeiro filho – uma menina – em São Francisco (EUA), em 1965. Na época, ela morava com uma tia, que não permitiu que a jovem ficasse com o bebê. A criança foi entregue para adoção.

Mais tarde, Yadira se casou e teve mais três filhos – Marcos, Daniel e Raquel -, para quem ela falava abertamente sobre a filha mais velha. Em 2018, décadas após a morte de Yadira, Daniel se inscreveu em um serviço de testes genéticos e foi conectado a outra cliente – com quem, segundo o serviço, ele estava relacionado.

Daniel recebeu uma mensagem de Bianca Seed:

“Olá, a mãe da minha mãe tem exatamente a mesma história que a sua. Sua mãe veio para São Francisco quando chegou nos Estados Unidos?”

Ele ficou encarando a mensagem, atordoado, antes de responder:

Sim, minha mãe deixou a Nicarágua e foi criada por uma tia em São Francisco. Bianca, sua mãe pode ser minha irmã.”

Bianca colocou sua mãe em contato com ele.

28 de maio de 2018

LUCIANNA SEED:
Olá, Daniel.
Nasci em San Francisco em 8 de janeiro de 1965. O nome da minha mãe é Yadira Izaguirre. Eu fui colocada para adoção. Minha mãe tinha 17 anos. Estou muito curiosa para saber se temos a mesma mãe!!!

DANIEL RIVERA:
Oi, Lucianna.
O nome da minha mãe também é Yadira Izaguirre e ela foi criada pela tia Josephina. Meus irmãos e eu sempre soubemos que nossa mãe teve que desistir de seu primeiro filho e dá-lo para adoção. Parece que você é nossa irmã mais velha.

LUCIANNA SEED:
Meu Deus!!!! Estou maravilhada. Eu tenho um irmão!!! Você tem outros irmãos e irmãs?

DANIEL RIVERA:
Luci,
Você tem outro irmão, Marcos, e uma irmã, Raquel. Ambos moram em Ohio. Eu também tenho outras três meias-irmãs com quem cresci. Raquel e Marcos estão me mandando mensagens e querem se conectar com você também.

LUCIANNA SEED:
Estou sem palavras!!

A conversa migra para um grupo formado pelos irmãos.

29 de maio de 2018

LUCIANNA:
Olá, Daniel. Olá, Marcos! Olá, Raquel! Isso é tão surreal. Ainda estou em choque. Sou Lucianna (Luci). Não posso acreditar que este dia se tornou realidade. Eu tenho 2 irmãos e uma irmã !!!

RAQUEL:
Eu mal consigo me expressar em palavras. Você é uma conexão com a mamãe, e só por isso já é gratificante.

DANIEL:
Ficou difícil me concentrar no trabalho. Eu amo tanto todos vocês.

RAQUEL:
Não posso acreditar que isso está acontecendo.

MARCOS:
Eu não sou mais o irmão mais velho, hahaha. Falando sério, eu sempre pensava sobre onde minha irmã poderia estar. E aqui estamos.

Traduzido e adaptado de Re: re: re: re: A glimpse inside the lives of asylum-seekers, new couples, prisoners, and pen pals through their letters, texts, WhatsApp messages, and Facebook posts (The California Sunday Magazine).

Leia também:
Como transformar posts de redes sociais em livro


Você já pensou em transformar suas histórias ou correspondências em livro? Conheça o trabalho da Daria um Livro.

Carl Sagan: livros quebram os grilhões do tempo

Uma das mais belas falas sobre o poder dos livros é de Carl Sagan (1934-1996). Em um dos episódios da série Cosmos, o cientista descreve de forma poética como um livro consegue quebrar a barreira do tempo:

“What an astonishing thing a book is. It’s a flat object made from a tree with flexible parts on which are imprinted lots of funny dark squiggles. But one glance at it and you’re inside the mind of another person, maybe somebody dead for thousands of years. Across the millennia, an author is speaking clearly and silently inside your head, directly to you. Writing is perhaps the greatest of human inventions, binding together people who never knew each other, citizens of distant epochs. Books break the shackles of time. A book is proof that humans are capable of working magic.”

Tradução:

“Que coisa extraordinária é um livro. Um objeto plano, produzido a partir de uma árvore, com camadas flexíveis nas quais são impressos vários traços e rabiscos. Mas basta um olhar e você se vê dentro da mente de outra pessoa, talvez alguém que tenha morrido há milhares de anos. Atravessando os milênios, aquele autor fala clara e silenciosamente dentro da sua cabeça, diretamente para você. A escrita é talvez a maior das invenções humanas, capaz de unir pessoas que nunca se conheceram, cidadãos de épocas distantes. Livros quebram os grilhões do tempo. Um livro é uma prova de que os humanos são capazes de fazer mágica. “

 


 

Transformamos sua história em livro. Saiba mais.

O tempo das mudanças

Sobre os planos de mudanças e o tempo que nem sempre segue a nossa vontade, Domingos Pellegrini nos diz tudo que precisamos ouvir:

“O tempo pôs a mão na tua cabeça e ensinou três coisas.

Primeiro: você pode crer em mudanças quando duvida de tudo, quando procura a luz dentro das pilhas, o caroço nas pedras, a causa das coisas, seu sangue bruto.

Segundo: você não pode mudar o mundo conforme o coração. Tua pressa não apressa a História. Melhor que teu heroísmo, tua disciplina na multidão.

Terceiro: é preciso trabalhar todo dia, toda madrugada para mudar um pedaço de horta, uma paisagem, um homem. Mas mudam, essa é a verdade.”

Feliz ano novo a todos!

26114568_10156066178432417_2475367664358705706_o      Liniers

Objetos de memória

Quando minha avó chegou ao Brasil com minha mãe, trouxe, no navio, um baú de ferro e madeira. Quando eu era criança, fazia de conta que aquele era o baú de um tesouro pirata.

Eu gostava de abrir a caixa pesada e ficar remexendo nas coisas que estavam dentro dela. Brincava que eram meus tesouros, embora nada ali se parecesse com as moedas de ouro e as joias que eu via nos filmes de pirata.

A verdade é que só hoje eu consigo perceber que aquele baú realmente guardava – e guarda – alguns dos tesouros da minha família.

Nosso baú está cheio de tecidos: toalhas, colchas, panos bordados, retalhos diversos. Minha avó costurava, e cada pedaço de pano ali tem uma história. Entre eles, uma toalhinha feita do linho que minha própria bisavó plantou, colheu, lavou, fiou, teceu e costurou. Tudo feito em casa por mãos que nunca cheguei a conhecer, mas que se comunicam comigo não só pelo desenho de minhas digitais, mas pelo toque de seu trabalho manual.

No baú também está uma colcha de frio feita com a lã dos carneiros que minha família criava em Portugal.  E alguns dos retalhos de pano comprados por minha avó na feira, já aqui no Brasil – tecidos que, com muita criatividade, foram transformados em peças de roupa para toda a família, e sem nenhum remendo visível, como até hoje todos se orgulham de lembrar.

Também estão lá os bordados da minha mãe, a renda fina da Ilha da Madeira dada pela vizinha em troca de um empréstimo num momento de necessidade…

Alguns objetos podem guardar parte da nossa história. Os trabalhos manuais são recordações que nos permitem tocar as mãos de outras gerações. E não precisam ser coisas grandiosas ou caras – importa apenas que nos ajudem a contar, sentir e ver um pouco da história que fez nossa vida ser o que é. Ainda quero aprender a tecer algo com as mãos, para dar minha contribuição ao nosso baú.

E você? Que objetos contam sua história?

E já pensou em transformar a história de sua família em livro? Conheça nosso trabalho.

[Marina Almeida]

Ferrante, frantumaglia e léxico familiar

Li quase tudo o que há para ler de Elena Ferrante e sinto que em breve precisarei voltar a seus livros: há muitas camadas em suas histórias, e várias delas ainda não consegui acessar. Hoje, me debruço sobre o livro Frantumaglia (Intrínseca, 413 págs.), coletânea de correspondências, artigos e entrevistas nos quais a escritora fala sobre seu trabalho.

Ferrante é italiana e tem obras publicadas desde o começo da década de 1990. Tornou-se um fenômeno global nos últimos anos, com o sucesso de sua Série Napolitana, traduzida e publicada no Brasil pelo selo Biblioteca Azul.

Elena Ferrante é ao mesmo tempo autora e personagem, ficção e realidade. Isso porque não sabemos quem é a pessoa física que escreve suas obras. Não há ninguém para tietar, pedir um autógrafo ou enquadrar numa selfie. Justificativas não faltam para essa decisão: segundo a autora, o que importa são os livros e o que seus leitores fazem deles; trazer à tona uma suposta “autoria real”, sob formato de celebridade, não faz sentido nenhum em seu universo.

Além disso, é impossível não colocar muito de si e das pessoas próximas na literatura que se produz. E a escrita de Ferrante é visceral, dolorosamente íntima e reveladora. Ficção e realidade não são opostos – e, no caso de Elena, é a ficção de si que permite a exposição de realidades tão cruas em suas obras.

É claro que, mesmo “ausente”, Elena Ferrante pode ter adquirido status de celebridade –  que, aliás, vende seu produto falando justamente de seu distanciamento. Mas essa é uma discussão que vai longe e tira o foco do que é mais interessante: o que Ferrante e seus personagens têm a dizer sobre a condição e as relações humanas.

Léxico familiar
Frantumaglia é daqueles títulos que atraem. Palavra longa e cortante. Com a obra em mãos, fui direto para o capítulo 16, no qual ela explica o termo:

“Minha mãe me deixou um vocábulo do seu dialeto [napolitano] que ela usava para dizer como se sentia quando era puxada para um lado e para o outro por impressões contraditórias que a dilaceravam. Dizia que tinha dentro de si uma frantumaglia. A frantumaglia (ela pronunciava frantumalha) a deprimia. Às vezes, causava-lhe tonteira, um gosto de ferro na boca. Era a palavra para um mal-estar que não podia ser definido de outra maneira, remetia a um monte de coisas heterogêneas na cabeça, detritos em uma água lamacenta do cérebro. A frantumaglia era misteriosa, causava atos misteriosos, estava na raiz de todos os sofrimentos que não podiam ser atribuídos a uma razão única e evidente. (…) essa palavra ficou na minha mente desde a infância para definir, sobretudo, os choros imprevistos e sem um motivo consciente: lágrimas de frantumaglia.

(…) O que de fato era a frantumaglia, eu não sabia e não sei. Hoje, no entanto, tenho em mente um catálogo de imagens que tem mais a ver com os meus problemas do que com os dela. (…) A frantumaglia é o efeito da noção de perda, quando temos certeza de que tudo o que nos parece estável, duradouro, uma ancoragem para a nossa vida, logo se unirá àquela paisagem de detritos que temos a impressão de enxergar. (…)”

É impossível definir com exatidão a frantumaglia. As palavras se aproximam, contornam o significado, mas nunca chegam a ele de fato. Como são, aliás, as leituras que nos absorvem e que levamos para a vida: o que as torna tão fascinantes é enxergarmos nelas esse algo a mais tão grandioso e inacessível, do qual nos aproximamos sem nunca tocar.

Frantumaglia é também sobre herança familiar imaterial. Ferrante toma a palavra da mãe e a reorganiza para si, emprestando-a a cada uma de suas personagens. Uma amostra de como somos ao mesmo tempo semelhantes aos adultos de nossa infância e diferentes deles, de como o que veio antes de nós permanece conosco, ainda que reelaborado.

[FLÁVIA SIQUEIRA]

Você já pensou em transformar em livro sua história, a de sua família ou a de uma pessoa querida? Conheça o trabalho da Daria um Livro.

> Mais sobre a frantumaglia de Ferrante:
Elena Ferrante: autora ou personagem? (Revista Cult)

Documentos de família revelam história secreta

O remanescente (Cia. das Letras) é uma história de perda e de reinvenção de si. É também a história de um neto que, ao vasculhar as gavetas dos avós, descobre fotografias, cartas e documentos que revelam a trajetória de sua família. O mergulho na vida de seus antepassados, dessas pessoas com quem conviveu, mas que até então não tinha sido capaz de compreender, deu origem ao livro em que Rafael Cardoso conta suas descobertas.

Seus avós, um alemão e uma judia, chegaram ao Brasil fugindo do holocausto e da perseguição nazista. O país, no auge do Estado Novo, ainda flertava com os alemães, e por isso seus avós se protegeram sob uma nova identidade. O autor lembra que os avós nunca falavam sobre assuntos de guerra e exílio: “talvez porque não quisessem repassar os traumas para os netos. Talvez porque nunca os tivessem superado”. Foi só aos 16 anos que Rafael descobriu que tinha ascendência alemã e judia, e só muitos anos depois ele resolveu pesquisar essa história a fundo.

Nesse mergulho, o autor chegou à história de seu bisavô, Hugo Simon, que foi banqueiro e ministro de Finanças da Prússia, socialista, mecenas e colecionador de arte. Pacifista, junto com seu amigo Albert Einstein, ele fundou um movimento que deu origem à liga alemã pelos direitos humanos. Uma história só recuperada agora, quase 80 anos depois.

Você conhece as histórias de sua família? Quais os segredos guardados pela trajetória de seus pais e avós que podem estar se perdendo com o tempo? Registrar essas histórias em livros pode revelar muitas surpresas e garantir que esse legado chegue às futuras gerações. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando a preservar suas memórias.

[Marina Almeida]

Resoluções de Ano Novo, mas nem tanto

Nosso modo de vida muitas vezes nos obriga a pensar apenas no amanhã, e quase sempre em termos de falta: o que ainda não tenho, o que ainda não consegui, o que ainda não consertei em mim. Não é de se estranhar que as resoluções de Ano Novo sigam esse padrão: no ano que vem quero perder os quilos que não perdi, quero ganhar o dinheiro que não ganhei, conseguir o cargo que não consegui. É claro que ter objetivos é algo importante, mas precisamos prestar atenção se eles não estão nos angustiando em vez de nos ajudar a caminhar.

Se uma resolução se repete todo ano (e todo ano não se cumpre), pode ser que não seja algo que você queira de verdade. Ou pode ser algo que você queira, sim, mas que dependa muito mais de fatores externos do que do seu esforço. Ou talvez tenha mais a ver com as expectativas dos outros ou a expectativa que você imagina que os outros tenham de você. E, nesse caso, colocá-la para o ano que vem pode ser apenas uma maneira de adiar algo que você considera desagradável.

Neste ponto, a saída mais fácil seria falar sobre o tal autoconhecimento. Um conceito que está em alta em tempos de mídias sociais: preciso saber quem eu sou, o que mostro de mim, o que curto e o que não curto (aqui, uma entrevista bem bacana sobre o tema). Mas esse discurso também tem servido mais para angustiar do que para ajudar: dúvidas, indecisões e mudanças de ideia passam a ser vistas como obstáculos para uma certa noção de sucesso.

Mas o fato é que mudamos com o passar do tempo. Deixamos de querer algumas coisas para querer outras, conseguimos coisas que queríamos e então descobrimos que na verdade não gostamos tanto delas assim, descobrimos que é possível querer coisas que antes achávamos que não eram para nós…

Antes de pensar em resoluções para o ano que vem, um exercício interessante é examinar o ano que acaba: o que você aprendeu? O que mudou em você? Conheceu lugares novos? Fez amigos? Mudou de ideia em algum momento? E o fato de muitas dessas coisas não terem sido planejadas não mostra falta de controle, e sim que a vida acontece para muito além das listas de metas.

Seu Chico: histórias para não esquecer

srchicopb3.png

— Você que tá aí tem férias, não tem? Tem sua folga… E de premero não tinha férias e descanso nem de 5 minutos. Eu mesmo não tive. Sabe como era o descanso? Era capinando no meio do mato. De premero não tinha tempo de conversar um com o outro assim como eu tô conversando c’ocê. Hoje em dia tá bom demais.

Na rua quase sem movimento de meio de tarde em Milho Verde (MG), Seu Chico, que finalmente tem um pouco de tempo, puxa assunto com os passantes seja gente conhecida ou a se conhecer. Sentado de cócoras na frente de sua casa, olhos apertados para a rua quarada pelo sol do cerrado e sorriso de poucos dentes, ele acolhe quem passa com simpatia e muitos casos.

— No tempo de eu menino, comecei a trabalhar eu tava com 4 anos e meio, que era a idade que começava… Pegava serviço era cedo, bebia café, pegava uma pazinha redonda e ia pra roça ainda tava meio escuro. Ia carregar lenha na cabeça. Comia banana pra aguentar até as sete horas da noite, das 7 às 7. Agora hoje em dia tem descanso de almoço, uma hora, de premeiro não. Tinha dia que ia comer era só arroz. Você é menina nova, mas eu tô com 83, já vou completar 84 anos e ainda tô querendo trabalhar!

— O senhor está bem forte!

— Mas de premero o povo vivia mais. Meu avô viveu 120 ano. 120 ano! E meu pai chegou aos 130. Hoje não vive assim, não. Porque comia melhor. Comia sopa… o caldo de mocotó com a gordura, né? De osso gordo. Hoje fica tirando a gordura da carne. De premero, não. Era mocotó, gordura, osso gordo…

Mas ele logo lembra que a gordura às vezes ainda era muito pouca:

— Nego só comia angu, às vez arroz branco, feijão, macarrão, carne, costela… Um dia um nego disse assim: “vou comer com o sinhô, quer ver?”. Falou que tinha diamante, aí foi convidado pra comer com o sinhô. Sujou tudo porque não sabia comer na mesa, né, comeu carne e tudo, tava satisfeito. Muito bem, no final, o sinhô perguntou do diamante, o nego falou: “eu disse que tem diamante, não que eu tinha um”.

Nós rimos da esperteza e do esforço que se faz por uma boa refeição.

— Isso é do tempo que minha vó era menina. Ela conta esses casos. Era muito sofrimento pros negros. Gosto de contar essas histórias pros mais novo, pra não esquecer, saber o que foi.

Tradições
Seu Chico sabe casos e cantos. Lembra orgulhoso que foi chamado para ensiná-los às crianças na escola:

— Os véio que sabe a cantiga do tempo da escravidão levaram na escola a modo de a professora poder seguir pra frente, senão acaba, né?

E canta para mim. A primeira música fala do nego que caiu no sono enquanto vigiava a plantação de arroz. Acordou com o Assum preto comendo tudo e foi logo correndo e tocando:

— “Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô passarinho, que o arroz é de Deus…”

Seu Chico fala das festas, da Marujada, da procissão, da festa de São Benedito, cada uma com suas tradições e suas músicas.

— “Meu São Benedito, vossa casa cheia, cheira cravo e rosa, flor de laranjeira…” Você que tá aqui, ocê já viu festa aqui?

— Aqui não.

— Vem que ocê vê essas cantigas que eu tô cantando e ainda tem mais um monte. Canta no meio da rua, na porta de casa, o povo vai lá pro terreiro.

Ele lembra de mais uma:

— “Papagaio come milho, periquito levou fama. Papagaio come milho, periquito levou fama…” É muito interessante. Nós somos periquito, o papagaio tá rasgando espiga de milho, lá no pé, nós tamo debaixo catando, tamo na rua trabalhando…

Ele vai explicando as músicas, o significado das histórias… Por trás do seu jeito simples, ele sabe da importância do que conta:

— Sei mais de cem música sem olhar papel. Muita cantiga do tempo da escravidão. Eu gosto de contar pros novos. Porque muitos véio às vez sabe cantar, mas não é capaz de explicar o que vem a ser a cantiga, né? Fica embasbatado. Eu gosto de contar…

Seu Chico não mora sozinho e logo dona Maria da Luz aparece na janela. A senhora negra, de cabelos curtos, emana força, apesar do corpo magro e da idade avançada. É curandeira, descubro depois. E ciumenta – não gosta de seu Chico cheio de conversa na porta de casa. Ela empilha uns sacos de urucum na janela enquanto pergunta meu nome, depois diz para ele:

— Passa para dentro – e volta para o interior da casa.

— A mulher viu que eu tava falando perto d’ôce, entrou pra dentro, não gosta, não – ele explica, mas continua a conversa sem pressa.

— Eu tô com problema no olho, mas ainda vejo ó…

Seu Chico pega um punhadinho da terra arenosa do cerrado na mão. Elas formam pequenas pedrinhas que ele separa com os dedos enquanto conta:

— Um, dois, três, quatro, cinco… Tá veno? Eu ainda vejo!

A casa
Agora ele me convida para entrar. Hesito, mas ele insiste.

— Entra pra lá!

Na sala de paredes já gastas e manchadas pelo tempo, muitas imagens de santos, uma foto de criança, algumas fotos de seu Chico, alguns recortes de revistas enquadrados. Na mesa, sobre uma toalha de plástico, um pequeno altar com muitas imagens, flores de plástico, um filtro de barro com um paninho bordado e já amarelado por cima, duas garrafas de água, um prato para velas.

Seu Chico me aponta para uma foto sua na parede, roupa colorida, boné e penacho vermelho e amarelo na cabeça, sorriso aberto.

— É na festa da procissão, né?

Ele confirma:

— Na festa é dança, a gente vai pra entrada da rua com um monte de canto. E eu só vivo alegre porque ó…

E me conta feliz sobre como ainda está ativo:

— Eu tô velho, mas ainda tô trabalhando. Ainda faço vassoura… – entra no quarto para pegar alguma coisa e volta com um saco cheio de vassouras de palha.

— Olha como ainda trabalho! Ainda gosto de trabalhar!

Pergunto se posso contar sua história no meu blog, tento explicar, ele parece não entender muito, mas repete:

— Gosto de contar pros mais novo, é bom pra poder ficar sabendo pra frente, senão acaba, né, senão acaba…

Entendi a resposta como um sim.

Eu finalmente me despeço de seu Chico, não quero irritar dona Maria da Luz.

— Vai com Deus. Depois ocê passa pra nós contar mais caso – ele diz, enquanto acena.

IMG_0389MarinaAlmeida.JPG
Seu Chico mostrando as vassouras de palha que faz

IMG_0383c

Fui conhecer um pouco mais do pequeno distrito de Milho Verde, em Minas Gerais. Mais tarde encontrei-o novamente. Estava sentado aos pés da pequena igreja do Rosário contemplando o final da tarde. Ao seu lado, um cachorro se esparramava pelo gramado. Já faz algum tempo que estive lá, mas demorei para escrever essa história. Pesquisando agora sobre a região, descobri que seu Chico morreu em agosto deste ano. Foi enterrado ao lado da igrejinha onde ele gostava de ver a noite chegar.

Vai com Deus, seu Chico. Você já contou muito caso e cantiga para nós, agora nós é que contamos as suas por aí. Pros mais novos saberem o que foi e não esquecerem.

IMG_0395malmeida.JPG

[Fotos e texto: Marina Almeida]