Objetos de memória

Quando minha avó chegou ao Brasil com minha mãe, trouxe, no navio, um baú de ferro e madeira. Quando eu era criança, fazia de conta que aquele era o baú de um tesouro pirata.

Eu gostava de abrir a caixa pesada e ficar remexendo nas coisas que estavam dentro dela. Brincava que eram meus tesouros, embora nada ali se parecesse com as moedas de ouro e as joias que eu via nos filmes de pirata.

A verdade é que só hoje eu consigo perceber que aquele baú realmente guardava – e guarda – alguns dos tesouros da minha família.

Nosso baú está cheio de tecidos: toalhas, colchas, panos bordados, retalhos diversos. Minha avó costurava, e cada pedaço de pano ali tem uma história. Entre eles, uma toalhinha feita do linho que minha própria bisavó plantou, colheu, lavou, fiou, teceu e costurou. Tudo feito em casa por mãos que nunca cheguei a conhecer, mas que se comunicam comigo não só pelo desenho de minhas digitais, mas pelo toque de seu trabalho manual.

No baú também está uma colcha de frio feita com a lã dos carneiros que minha família criava em Portugal.  E alguns dos retalhos de pano comprados por minha avó na feira, já aqui no Brasil – tecidos que, com muita criatividade, foram transformados em peças de roupa para toda a família, e sem nenhum remendo visível, como até hoje todos se orgulham de lembrar.

Também estão lá os bordados da minha mãe, a renda fina da Ilha da Madeira dada pela vizinha em troca de um empréstimo num momento de necessidade…

Alguns objetos podem guardar parte da nossa história. Os trabalhos manuais são recordações que nos permitem tocar as mãos de outras gerações. E não precisam ser coisas grandiosas ou caras – importa apenas que nos ajudem a contar, sentir e ver um pouco da história que fez nossa vida ser o que é. Ainda quero aprender a tecer algo com as mãos, para dar minha contribuição ao nosso baú.

E você? Que objetos contam sua história?

E já pensou em transformar a história de sua família em livro? Conheça nosso trabalho.

[Marina Almeida]

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Ferrante, frantumaglia e léxico familiar

Li quase tudo o que há para ler de Elena Ferrante e sinto que em breve precisarei voltar a seus livros: há muitas camadas em suas histórias, e várias delas ainda não consegui acessar. Hoje, me debruço sobre o livro Frantumaglia (Intrínseca, 413 págs.), coletânea de correspondências, artigos e entrevistas nos quais a escritora fala sobre seu trabalho.

Ferrante é italiana e tem obras publicadas desde o começo da década de 1990. Tornou-se um fenômeno global nos últimos anos, com o sucesso de sua Série Napolitana, traduzida e publicada no Brasil pelo selo Biblioteca Azul.

Elena Ferrante é ao mesmo tempo autora e personagem, ficção e realidade. Isso porque não sabemos quem é a pessoa física que escreve suas obras. Não há ninguém para tietar, pedir um autógrafo ou enquadrar numa selfie. Justificativas não faltam para essa decisão: segundo a autora, o que importa são os livros e o que seus leitores fazem deles; trazer à tona uma suposta “autoria real”, sob formato de celebridade, não faz sentido nenhum em seu universo.

Além disso, é impossível não colocar muito de si e das pessoas próximas na literatura que se produz. E a escrita de Ferrante é visceral, dolorosamente íntima e reveladora. Ficção e realidade não são opostos – e, no caso de Elena, é a ficção de si que permite a exposição de realidades tão cruas em suas obras.

É claro que, mesmo “ausente”, Elena Ferrante pode ter adquirido status de celebridade –  que, aliás, vende seu produto falando justamente de seu distanciamento. Mas essa é uma discussão que vai longe e tira o foco do que é mais interessante: o que Ferrante e seus personagens têm a dizer sobre a condição e as relações humanas.

Léxico familiar
Frantumaglia é daqueles títulos que atraem. Palavra longa e cortante. Com a obra em mãos, fui direto para o capítulo 16, no qual ela explica o termo:

“Minha mãe me deixou um vocábulo do seu dialeto [napolitano] que ela usava para dizer como se sentia quando era puxada para um lado e para o outro por impressões contraditórias que a dilaceravam. Dizia que tinha dentro de si uma frantumaglia. A frantumaglia (ela pronunciava frantumalha) a deprimia. Às vezes, causava-lhe tonteira, um gosto de ferro na boca. Era a palavra para um mal-estar que não podia ser definido de outra maneira, remetia a um monte de coisas heterogêneas na cabeça, detritos em uma água lamacenta do cérebro. A frantumaglia era misteriosa, causava atos misteriosos, estava na raiz de todos os sofrimentos que não podiam ser atribuídos a uma razão única e evidente. (…) essa palavra ficou na minha mente desde a infância para definir, sobretudo, os choros imprevistos e sem um motivo consciente: lágrimas de frantumaglia.

(…) O que de fato era a frantumaglia, eu não sabia e não sei. Hoje, no entanto, tenho em mente um catálogo de imagens que tem mais a ver com os meus problemas do que com os dela. (…) A frantumaglia é o efeito da noção de perda, quando temos certeza de que tudo o que nos parece estável, duradouro, uma ancoragem para a nossa vida, logo se unirá àquela paisagem de detritos que temos a impressão de enxergar. (…)”

É impossível definir com exatidão a frantumaglia. As palavras se aproximam, contornam o significado, mas nunca chegam a ele de fato. Como são, aliás, as leituras que nos absorvem e que levamos para a vida: o que as torna tão fascinantes é enxergarmos nelas esse algo a mais tão grandioso e inacessível, do qual nos aproximamos sem nunca tocar.

Frantumaglia é também sobre herança familiar imaterial. Ferrante toma a palavra da mãe e a reorganiza para si, emprestando-a a cada uma de suas personagens. Uma amostra de como somos ao mesmo tempo semelhantes aos adultos de nossa infância e diferentes deles, de como o que veio antes de nós permanece conosco, ainda que reelaborado.

[FLÁVIA SIQUEIRA]

Você já pensou em transformar em livro sua história, a de sua família ou a de uma pessoa querida? Conheça o trabalho da Daria um Livro.

> Mais sobre a frantumaglia de Ferrante:
Elena Ferrante: autora ou personagem? (Revista Cult)

Documentos de família revelam história secreta

O remanescente (Cia. das Letras) é uma história de perda e de reinvenção de si. É também a história de um neto que, ao vasculhar as gavetas dos avós, descobre fotografias, cartas e documentos que revelam a trajetória de sua família. O mergulho na vida de seus antepassados, dessas pessoas com quem conviveu, mas que até então não tinha sido capaz de compreender, deu origem ao livro em que Rafael Cardoso conta suas descobertas.

Seus avós, um alemão e uma judia, chegaram ao Brasil fugindo do holocausto e da perseguição nazista. O país, no auge do Estado Novo, ainda flertava com os alemães, e por isso seus avós se protegeram sob uma nova identidade. O autor lembra que os avós nunca falavam sobre assuntos de guerra e exílio: “talvez porque não quisessem repassar os traumas para os netos. Talvez porque nunca os tivessem superado”. Foi só aos 16 anos que Rafael descobriu que tinha ascendência alemã e judia, e só muitos anos depois ele resolveu pesquisar essa história a fundo.

Nesse mergulho, o autor chegou à história de seu bisavô, Hugo Simon, que foi banqueiro e ministro de Finanças da Prússia, socialista, mecenas e colecionador de arte. Pacifista, junto com seu amigo Albert Einstein, ele fundou um movimento que deu origem à liga alemã pelos direitos humanos. Uma história só recuperada agora, quase 80 anos depois.

Você conhece as histórias de sua família? Quais os segredos guardados pela trajetória de seus pais e avós que podem estar se perdendo com o tempo? Registrar essas histórias em livros pode revelar muitas surpresas e garantir que esse legado chegue às futuras gerações. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando a preservar suas memórias.

[Marina Almeida]

Resoluções de Ano Novo, mas nem tanto

Nosso modo de vida muitas vezes nos obriga a pensar apenas no amanhã, e quase sempre em termos de falta: o que ainda não tenho, o que ainda não consegui, o que ainda não consertei em mim. Não é de se estranhar que as resoluções de Ano Novo sigam esse padrão: no ano que vem quero perder os quilos que não perdi, quero ganhar o dinheiro que não ganhei, conseguir o cargo que não consegui. É claro que ter objetivos é algo importante, mas precisamos prestar atenção se eles não estão nos angustiando em vez de nos ajudar a caminhar.

Se uma resolução se repete todo ano (e todo ano não se cumpre), pode ser que não seja algo que você queira de verdade. Ou pode ser algo que você queira, sim, mas que dependa muito mais de fatores externos do que do seu esforço. Ou talvez tenha mais a ver com as expectativas dos outros ou a expectativa que você imagina que os outros tenham de você. E, nesse caso, colocá-la para o ano que vem pode ser apenas uma maneira de adiar algo que você considera desagradável.

Neste ponto, a saída mais fácil seria falar sobre o tal autoconhecimento. Um conceito que está em alta em tempos de mídias sociais: preciso saber quem eu sou, o que mostro de mim, o que curto e o que não curto (aqui, uma entrevista bem bacana sobre o tema). Mas esse discurso também tem servido mais para angustiar do que para ajudar: dúvidas, indecisões e mudanças de ideia passam a ser vistas como obstáculos para uma certa noção de sucesso.

Mas o fato é que mudamos com o passar do tempo. Deixamos de querer algumas coisas para querer outras, conseguimos coisas que queríamos e então descobrimos que na verdade não gostamos tanto delas assim, descobrimos que é possível querer coisas que antes achávamos que não eram para nós…

Antes de pensar em resoluções para o ano que vem, um exercício interessante é examinar o ano que acaba: o que você aprendeu? O que mudou em você? Conheceu lugares novos? Fez amigos? Mudou de ideia em algum momento? E o fato de muitas dessas coisas não terem sido planejadas não mostra falta de controle, e sim que a vida acontece para muito além das listas de metas.

Seu Chico: histórias para não esquecer

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— Você que tá aí tem férias, não tem? Tem sua folga… E de premero não tinha férias e descanso nem de 5 minutos. Eu mesmo não tive. Sabe como era o descanso? Era capinando no meio do mato. De premero não tinha tempo de conversar um com o outro assim como eu tô conversando c’ocê. Hoje em dia tá bom demais.

Na rua quase sem movimento de meio de tarde em Milho Verde (MG), Seu Chico, que finalmente tem um pouco de tempo, puxa assunto com os passantes seja gente conhecida ou a se conhecer. Sentado de cócoras na frente de sua casa, olhos apertados para a rua quarada pelo sol do cerrado e sorriso de poucos dentes, ele acolhe quem passa com simpatia e muitos casos.

— No tempo de eu menino, comecei a trabalhar eu tava com 4 anos e meio, que era a idade que começava… Pegava serviço era cedo, bebia café, pegava uma pazinha redonda e ia pra roça ainda tava meio escuro. Ia carregar lenha na cabeça. Comia banana pra aguentar até as sete horas da noite, das 7 às 7. Agora hoje em dia tem descanso de almoço, uma hora, de premeiro não. Tinha dia que ia comer era só arroz. Você é menina nova, mas eu tô com 83, já vou completar 84 anos e ainda tô querendo trabalhar!

— O senhor está bem forte!

— Mas de premero o povo vivia mais. Meu avô viveu 120 ano. 120 ano! E meu pai chegou aos 130. Hoje não vive assim, não. Porque comia melhor. Comia sopa… o caldo de mocotó com a gordura, né? De osso gordo. Hoje fica tirando a gordura da carne. De premero, não. Era mocotó, gordura, osso gordo…

Mas ele logo lembra que a gordura às vezes ainda era muito pouca:

— Nego só comia angu, às vez arroz branco, feijão, macarrão, carne, costela… Um dia um nego disse assim: “vou comer com o sinhô, quer ver?”. Falou que tinha diamante, aí foi convidado pra comer com o sinhô. Sujou tudo porque não sabia comer na mesa, né, comeu carne e tudo, tava satisfeito. Muito bem, no final, o sinhô perguntou do diamante, o nego falou: “eu disse que tem diamante, não que eu tinha um”.

Nós rimos da esperteza e do esforço que se faz por uma boa refeição.

— Isso é do tempo que minha vó era menina. Ela conta esses casos. Era muito sofrimento pros negros. Gosto de contar essas histórias pros mais novo, pra não esquecer, saber o que foi.

Tradições
Seu Chico sabe casos e cantos. Lembra orgulhoso que foi chamado para ensiná-los às crianças na escola:

— Os véio que sabe a cantiga do tempo da escravidão levaram na escola a modo de a professora poder seguir pra frente, senão acaba, né?

E canta para mim. A primeira música fala do nego que caiu no sono enquanto vigiava a plantação de arroz. Acordou com o Assum preto comendo tudo e foi logo correndo e tocando:

— “Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô passarinho, que o arroz é de Deus…”

Seu Chico fala das festas, da Marujada, da procissão, da festa de São Benedito, cada uma com suas tradições e suas músicas.

— “Meu São Benedito, vossa casa cheia, cheira cravo e rosa, flor de laranjeira…” Você que tá aqui, ocê já viu festa aqui?

— Aqui não.

— Vem que ocê vê essas cantigas que eu tô cantando e ainda tem mais um monte. Canta no meio da rua, na porta de casa, o povo vai lá pro terreiro.

Ele lembra de mais uma:

— “Papagaio come milho, periquito levou fama. Papagaio come milho, periquito levou fama…” É muito interessante. Nós somos periquito, o papagaio tá rasgando espiga de milho, lá no pé, nós tamo debaixo catando, tamo na rua trabalhando…

Ele vai explicando as músicas, o significado das histórias… Por trás do seu jeito simples, ele sabe da importância do que conta:

— Sei mais de cem música sem olhar papel. Muita cantiga do tempo da escravidão. Eu gosto de contar pros novos. Porque muitos véio às vez sabe cantar, mas não é capaz de explicar o que vem a ser a cantiga, né? Fica embasbatado. Eu gosto de contar…

Seu Chico não mora sozinho e logo dona Maria da Luz aparece na janela. A senhora negra, de cabelos curtos, emana força, apesar do corpo magro e da idade avançada. É curandeira, descubro depois. E ciumenta – não gosta de seu Chico cheio de conversa na porta de casa. Ela empilha uns sacos de urucum na janela enquanto pergunta meu nome, depois diz para ele:

— Passa para dentro – e volta para o interior da casa.

— A mulher viu que eu tava falando perto d’ôce, entrou pra dentro, não gosta, não – ele explica, mas continua a conversa sem pressa.

— Eu tô com problema no olho, mas ainda vejo ó…

Seu Chico pega um punhadinho da terra arenosa do cerrado na mão. Elas formam pequenas pedrinhas que ele separa com os dedos enquanto conta:

— Um, dois, três, quatro, cinco… Tá veno? Eu ainda vejo!

A casa
Agora ele me convida para entrar. Hesito, mas ele insiste.

— Entra pra lá!

Na sala de paredes já gastas e manchadas pelo tempo, muitas imagens de santos, uma foto de criança, algumas fotos de seu Chico, alguns recortes de revistas enquadrados. Na mesa, sobre uma toalha de plástico, um pequeno altar com muitas imagens, flores de plástico, um filtro de barro com um paninho bordado e já amarelado por cima, duas garrafas de água, um prato para velas.

Seu Chico me aponta para uma foto sua na parede, roupa colorida, boné e penacho vermelho e amarelo na cabeça, sorriso aberto.

— É na festa da procissão, né?

Ele confirma:

— Na festa é dança, a gente vai pra entrada da rua com um monte de canto. E eu só vivo alegre porque ó…

E me conta feliz sobre como ainda está ativo:

— Eu tô velho, mas ainda tô trabalhando. Ainda faço vassoura… – entra no quarto para pegar alguma coisa e volta com um saco cheio de vassouras de palha.

— Olha como ainda trabalho! Ainda gosto de trabalhar!

Pergunto se posso contar sua história no meu blog, tento explicar, ele parece não entender muito, mas repete:

— Gosto de contar pros mais novo, é bom pra poder ficar sabendo pra frente, senão acaba, né, senão acaba…

Entendi a resposta como um sim.

Eu finalmente me despeço de seu Chico, não quero irritar dona Maria da Luz.

— Vai com Deus. Depois ocê passa pra nós contar mais caso – ele diz, enquanto acena.

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Seu Chico mostrando as vassouras de palha que faz

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Fui conhecer um pouco mais do pequeno distrito de Milho Verde, em Minas Gerais. Mais tarde encontrei-o novamente. Estava sentado aos pés da pequena igreja do Rosário contemplando o final da tarde. Ao seu lado, um cachorro se esparramava pelo gramado. Já faz algum tempo que estive lá, mas demorei para escrever essa história. Pesquisando agora sobre a região, descobri que seu Chico morreu em agosto deste ano. Foi enterrado ao lado da igrejinha onde ele gostava de ver a noite chegar.

Vai com Deus, seu Chico. Você já contou muito caso e cantiga para nós, agora nós é que contamos as suas por aí. Pros mais novos saberem o que foi e não esquecerem.

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[Fotos e texto: Marina Almeida]

O que aprendi (sobre mim) na aldeia com os indígenas

Na aldeia, em aprendizados sem hora para acontecer, o tempo parece largo de tanto que cabe, mas os indígenas tinham menos pressa e o tempo obedecia correndo suave. Grande e calmo, o tempo era rio cortando a paisagem. A cada pôr do sol, o dourado banhava danças e cantos com sua luz. Música sagrada de povos de resistência. Já noite, eram muitas vozes em torno do fogo. De manhã, o dia começava mais cedo com seus cantos espantando a madrugada. O tempo de cada tempo.

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Cantos da manhã. Foto: Marcelo Santos Braga/Encontro de Culturas

Fui voluntária de comunicação na Aldeia Multiénica e no Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros, mas ainda estou com dificuldades para expressar tudo que vi e senti ali.  Cheguei sem saber bem o que esperar e foi bom, porque a surpresa foi maior, sem as ansiedades que gente branca costuma criar. Logo descobri que eu sabia menos do que imaginei: culturas, histórias, etnias que eu nunca tinha ouvido falar. E tão distintas entre si, as línguas e as músicas, os traços, os rezos e as crenças. As casas diferentes de cada uma delas. Em comum, sua força, e o arrebatamento que seus cantos provocavam em todos nós.

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Mulheres das diferentes etnias indígenas. Foto: Ana Caroline de Lima (Antropologia Visual)/Encontro de Culturas

Olhar para o outro primeiro é o desconhecido: corpos pintados, penas coloridas, palavras nunca ouvidas em muitas línguas novas. É diferente, mas também é bonito. Estranhamento que tentamos registrar em imagens e textos. Depois passa a ser também reflexo. As risadas de um início de amizade, o alimento partilhado, o gosto pela música e pelo banho de rio. As crianças que choram para fugir da água fria e a mãe que insiste. Somos todos o mesmo. Chega ainda a hora em que as dores são compartilhadas, e essas também são muitas: a falta de assistência médica, o preconceito, a luta pela terra, o luto.

 

 

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Cores, música e dança. Foto: André Rodrigo Pacheco/Encontro de Culturas

Mas quando você olha pro outro, também pode se enxergar melhor. E conviver um pouco mais de perto com os indígenas foi muito revelador de mim. Já tinha ouvido comentários de quem, no contato com eles, percebeu seu apego às coisas e aos bens materiais. Nunca fui muito consumista, então não era algo que me tocava especialmente. Desta vez não foi assim. Comecei a notar que eles tinham uma outra relação com as coisas, sim, mas não só com elas, também com o tempo, o momento presente, a noção de futuro. Entendi que eles têm uma relação diferente com o capitalismo e que isso afeta o viver em muitas outras esferas. E aí pude ver melhor como sou e como somos todos, em geral, tão moldados por um modelo econômico baseado na exploração, como estamos tão adaptados a ele, mesmo quando nos consideramos seus questionadores.

 

Nós

Nosso tempo é o futuro (e curiosamente somos nós também que o destruímos devastando o ambiente em que vivemos). E enchemos nosso futuro de metas e objetivos e muitos planos. Nossa força é a da privação para o trabalho, e o trabalho não só nos define como pessoas e como corpo físico, se impõe também nas horas de lazer e descanso.

Olhando para o futuro planejamos, e nos prendemos aos planos, mesmo que a vontade seja outra, que o corpo esteja cansado, que o dia não favoreça. E assim vamos perdendo a naturalidade, a vontade, o fluir das coisas e do tempo presente. Como conseguimos? Com muito controle. O controle da forma, do corpo, das regras muito estritas, do tempo, dos números. Mas com isso matamos também, quase sempre, o tempo e o espaço do que na vida pode acontecer de real, de sincero, espontâneo: este é o nosso preço.

Levamos a lógica do lucro para todas as esferas da vida: tudo tem de valer a pena, compensar o tempo gasto ali (mas como saber antes?), precisamos ser produtivos, fazer o dia render. E escolhemos atividades que tragam algo além do prazer do momento (talvez um diploma, ou contatos, ou algum status de pessoa culta ou esportista ou aventureira, a gosto). Nas férias, vamos viajar, mas já com tudo planejado, porque não podemos perder nosso tempo valioso, e cada atração visitada tem de valer o tempo investido nela, não podemos nos dispersar da obrigação de nos divertir intensamente nesse período. Nas nossas horas vagas, idem. E eu entendo, porque sei bem como é duro ter tão poucos dias contados de férias e de tempo livre.

No relacionamento com os amigos é quase a mesma coisa. Nos amorosos também. E as sensações, a sabedoria do corpo e das emoções vão sendo sufocadas, presas, moldadas para se encaixar num certo padrão pré-determinado do que valerá o investimento de vida. Por que não nos deixamos sentir – sentidos e sentimentos – e responder ao momento?

E quantas vezes não transformamos nossa vida numa linha de montagem? Alguém que passeie com nosso cachorro, alguém que organize nossa casa e alguém que cozinhe, enquanto nós trabalhamos. Para poder trabalhar mais, porque acreditamos que seremos melhores se formos máquinas de uma só função e que seremos capazes de fazer a mesma coisa por horas e horas (eu sei, também não nos dão muita opção).

No nosso tempo livre, vamos ouvir um cantor ou assistir a um espetáculo ou ler um livro. Mas nós mesmos sabemos muito pouco de cantar ou dançar ou contar histórias. Quem faz isso é um especialista no assunto. É ótimo que existam pessoas que se dediquem às habilidades humanas, mas quando nos retiramos da vivência desse processo, nossa vida fica mais pobre. E com ela todo o mundo. Já falei como os indígenas cantam bem? Mas nós só sabemos fazer o nosso trabalho.

 

Uma casa sem preço

Estava conversando com Beptuk Metuktire, Kaiapó Mebêngôkre, neto do cacique Raoni (leia a entrevista com os dois aqui), e ele dizia que a vida na cidade era mais difícil, porque para tudo era preciso dinheiro. “Na aldeia não, você vive tranquilo. Você faz sua casa sem ter de pagar a madeira, você pode caçar, pescar…” [E eles fazem tudo isso sem danificar o meio ambiente…]

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Casa em construção. Foto: Melito/Encontro de Culturas

Continuei pensando nisso que ele me falou por vários dias. Morar é uma das nossas necessidades básicas, mas ter uma casa é muitas vezes a conquista de toda uma vida para nós. É caro. Tem gente que mora em barracos sem nenhuma segurança, tem os que vivem nas ruas, os que pagam aluguel e temem pelo dia que não possam mais pagar e os que trabalham muito para conseguir pagar sua casa. E se quiser morar perto do serviço para ter tempo para fazer algo mais além de trabalhar, tem de pagar muito mais… Tem a questão da falta de espaço nas cidades, mas não é só isso (os prédios vazios do centro estão aí para provar que não).

É feito para não ter opção. Para você não poder escolher uma vida mais simples e com menos horas de trabalho. Para não ter a opção de sair do emprego degradante, das exigências absurdas, da pressão, das metas impossíveis, da carga horária desumana. E assim, presos à manutenção das nossas necessidades básicas, paramos de cantar (para trabalhar), paramos de dançar (para trabalhar), de nos encontrar (para trabalhar).

Mas será que só dá pra ser assim? Acredito na luta pela mudança (preciso acreditar), mas também nas pequenas batalhas. Que sejamos guerrilheiros do tempo. Guerrilheiros da espontaneidade dos pequenos momentos. Não parece muito, mas acho que pode abrir espaço para todo um mundo novo de experiências e trocas, se nos dermos mais a isso, de entendimentos e também tranquilidades. Espaço para a vida. Às vezes ela até parece fazer algum sentido quando deixamos que ela aconteça.

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Menina xinguana. Foto: André Rodrigo Pacheco/Encontro de Culturas

Eles

Ainda pretendo escrever mais sobre esses dias na aldeia, mas depois de falar tanto sobre o que somos, preciso falar um pouco sobre eles. Deve ser muito difícil ser indígena! Para além da luta pela terra, contra o preconceito, pelo direito de existir e viver à sua maneira, como se fosse pouco, eles precisam estar sempre afirmando sua identidade indígena. Porque o direito às suas terras por direito, e portanto ao seu meio de sustento, depende do reconhecimento dessa identidade pelo branco. Eu posso me dar ao luxo de nem pensar a respeito do assunto, de hoje me identificar mais com o lado português da família e amanhã com o brasileiro, ou resolver que é a cultura japonesa que me encanta, posso ir morar na Europa e depois voltar sem que ninguém diga que não sou mais brasileira. Eles não. Se precisam sair da aldeia, são sempre questionados que então não são mais índios (e não sendo indígenas, não deveriam mais ter direito à terra, subentende-se). E precisam estar sempre provando que são, sim, que não é uma camiseta ou chinelo que vai apagar tudo que são. Nem um celular.

Aliás, com um celular eles podem se articular com outros indígenas, registrar suas tradições, filmar e denunciar os abusos… Pensando bem, até dá para entender a implicância de alguns, sim.

E por que as tradições deles têm de ser puras, sem nenhum traço do contato com o branco? Não faz parte também da história deles hoje? O prato mais tradicional da Itália é feito com molho de tomate, que veio da América. A batata, presente na culinária de metade dos europeus, também veio daqui. Nesses casos, 500 anos são mais que suficiente para estabelecer uma tradição. Por que para os indígenas não? É importante que preservem e defendam suas tradições, claro, mas que eles nos digam como vão fazer isso.

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Rikbaktsa, tradição guerreira. Foto: Ana Caroline de Lima (Antropologia Visual)/Encontro de Culturas

 

Perigo indígena

Saí de lá pensando como podemos saber – e falar e ouvir – tão pouco sobre os povos indígenas do nosso próprio país. Verdade que não foi por acaso, são cinco séculos de apagamento intencional de sua cultura. E, infelizmente a luta pela terra continua, cada dia mais acirrada com nossos desgovernos, mas ainda assim… Talvez os indígenas representem mesmo um grande perigo para o Brasil: ao nos mostrar uma parte de quem somos, ao nos fazer questionar nosso modo de vida e ao nos mostrar que existem outros jeitos de se viver. Para evitar tantos riscos, o melhor caminho deve ser mesmo a ignorância. Além disso, conhecer um pouquinho mais sobre eles pode nos transformar todos em grandes apaixonados por esses povos, e aí será impossível não apoiar sua causa.

Antes que me questionem, não quero dizer que as sociedades indígenas sejam perfeitas, mas sim que elas têm muito a nos ensinar. Mais do que imaginamos.

Cheguei na aldeia na lua nova: pequenas e muitas luzes – rastro de claridade –atravessando o céu. Voltei da Chapada já era a cheia, quando parece que há um só astro no firmamento. Mas agora eu sabia que todas as outras luzes estavam também lá, iluminando cada pedacinho do céu ao seu redor, mesmo que eu já não pudesse vê-las. Penso que cada etnia, cada cântico, cada dança e cada reza dos tantos povos indígenas que lutam para sobreviver são como essas estrelas do céu da Chapada: trazem um pouco mais de luz para o nosso mundo, mesmo que não possamos sempre vê-los, mesmo que nem saibamos às vezes que eles estão lá.

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Noite na aldeia. Foto: Marcelo Santos Braga/Encontro de Culturas

 

O que é o tempo e o ser velho hoje

O escritor indígena Daniel Munduruku conta que ser avô é motivo de grande orgulho entre seu povo, pois aos avós cabe a nobre tarefa de educar o espírito das crianças, enquanto os pais precisam cuidar do corpo e dos ensinamentos da vida prática. Ser velho, para eles, não é motivo de vergonha, pelo contrário.

Se os sentidos e significados que damos para a velhice são culturais, quando foi que o ser velho se tornou um estigma a ser combatido? Seja disfarçado entre tintas para cabelo e cirurgias plásticas, seja escondido dentro de casa, pois a vida cotidiana já não lhe diz mais respeito?

O modo como encaramos o tempo e a vida tem relação direta com nosso olhar para a velhice. E os mitos gregos sobre o tempo podem ajudar a entender como chegamos ao lugar em que estamos hoje.

Mitos gregos

Para os gregos, o tempo é representado por Cronos, um ancião casado com a terra, Rea. Mas Cronos tinha uma obsessão: devorar seus filhos recém-nascidos por medo de ser destronado por um deles. Cronos é o mito do tempo que destrói tudo e representa a impossibilidade da criação.

Já Prometeu é um jovem deus que roubou o fogo dos deuses e o ofereceu aos homens — que, graças ao presente, puderam dominar a natureza e vencer seu estado de penúria original. Como castigo pela traição aos outros deuses, Prometeu foi preso a uma pedra no alto de um penhasco. Todos os dias uma ave gigantesca vinha devorar seu fígado. À noite, o fígado crescia novamente para, no dia seguinte, a ave retornar e comê-lo outra vez.

Ao dar o fogo aos homens, Prometeu os libertou da luta mais básica pela sobrevivência e deu a eles a possibilidade de futuro, de criação. Mas sua punição repete o seu crime: o pior não é ter seu fígado comido, é saber que amanhã tudo acontecerá novamente, é essa consciência do futuro que traz ansiedade e maior angústia — para Prometeu e para os homens.

Tempo para o trabalho

Nossa sociedade valoriza a produção constante, a criação, e seu tempo por excelência é o tempo para o trabalho. Portanto, a força física e a juventude tornam-se valores muito caros para nós, pois representam o auge da força para a produção. Além disso, as revoluções tecnológica e da informática reforçaram ainda mais a valorização do novo e a ideia de que o que é velho torna-se logo obsoleto e, portanto, perde seu valor – uma lógica que pode funcionar para as máquinas, mas que precisa ser revista quando falamos de pessoas. Portanto, de certa forma vivemos ainda o tempo de Prometeu, voltado para a criação, que transforma o mundo numa experiência cada vez mais complexa e que tende a sair do controle, o que dá origem a nossa ansiedade e angústia pelo futuro.

O resultado, como aponta o historiador Nicolau Sevcenko no artigo O envelhecimento e o mistério da passagem do tempo, é a criação de uma sociedade profundamente desumana, injusta e opressiva, em que nós, pessoas portadoras dessa cultura, somos os responsáveis pela opressão de nós mesmos e de nossos semelhantes. Portanto, acreditamos que já passa da hora de incorporarmos novas referências ao sentido da passagem do tempo e da velhice. Culturas como a dos indígenas Munduruku podem ter muito a nos ensinar sobre como transformar nossa sociedade num lugar mais humano para todos – já que, com sorte, todos seremos velhos um dia – e que valorize todos os aprendizados que os idosos podem nos ensinar.

Uma forma de valorizar a cultura e os ensinamentos dos mais velhos é ouvindo-os com atenção. Registrar suas histórias e experiências também pode ser importante para transmiti-las às futuras gerações. Quer escrever as histórias de seus pais e avós e não sabe por onde começar? Entre em contato conosco.

[BLOG] Fotografar ajuda ou prejudica nossa memória?

Nunca tivemos nossas experiências tão mediadas por telas como nos dias de hoje. Em locais turísticos, shows, museus, diante de um prato de comida visivelmente apetitoso… Lá está a câmera do celular apontando para as coisas do mundo. Será que, na ansiedade de registrar o momento em bits e pixels, estamos esquecendo de viver? Perdemos contato com a realidade? Estamos deixando nossos cérebros preguiçosos e transferindo o papel de memorizar para os arquivos digitais?

Embora tirar momentos para se “desintoxicar” da vida digital e enxergar as coisas apenas com os próprios olhos possa ser mesmo uma boa ideia, talvez nossa situação não seja assim tão desesperadora. A fotografia, afinal, não é uma vilã: pesquisas recentes apontam que o ato de fotografar nos ajuda a recordar com mais eficiência dos aspectos visuais de um determinado momento — mesmo que nunca mais olhemos de novo para a foto.

Muitas dessas pesquisas são feitas em museus, buscando comparar as recordações mentais de dois grupos: pessoas orientadas a fotografar os objetos e pessoas orientadas a não tirar fotos. Nos estudos mais recentes, aquelas que fotografaram — sobretudo se tivessem usado o recurso de zoom para capturar detalhes — conseguiram reconhecer mais objetos do que o outro grupo. Por outro lado, aqueles que fotografaram também tiveram desempenho pior ao tentar recordar as explicações em áudio sobre as obras.

Efeito back-up?
Pesquisas realizadas nos anos 1960 apontavam para um fenômeno chamado “cognitive offloading” (“descarga cognitiva”), uma espécie de esquecimento intencional: como nosso cérebro sabe que pode contar com outros dispositivos para se lembrar de objetos e afazeres, ele economizaria esforços e deixaria de memorizar essas coisas. Faz sentido, principalmente se pensarmos em recursos como listas de compras e receitas.

A hipótese atual, contudo, é que o comportamento do cérebro dependeria, na verdade, da nossa intenção ao realizar determinado registro num suporte externo (papel, galeria do celular etc.). Se escrevemos um aviso no papel simplesmente para tirá-lo da nossa cabeça e reduzirmos nossa preocupação, o cérebro “relaxa” e abre mão daquela memória. Mas, se o que queremos é guardar o registro de algo que foi significativo para nós, essa motivação pode nos ajudar a olhar com mais atenção para os detalhes ao fotografar — e, consequentemente, produzir recordações mentais mais ricas.

(Adaptado de How Taking Photos Affects Your Memory of the Moment Later On – Nymag.com)

Você tem fotografias que são muito importantes para você? Guarda imagens antigas da família, registros de viagem, fotos dos filhos quando pequenos? A Daria um Livro pode ajudar você a reunir todas essas imagens num livro, acompanhadas de textos produzidos com muito cuidado. Conheça nosso trabalho e entre em contato conosco.

[FLÁVIA SIQUEIRA]

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[BLOG] Entrevistas em vídeo de Carlos Drummond de Andrade

Nesta quinta-feira (17) completam-se 30 anos desde a morte do poeta Carlos Drummond de Andrade. Trinta anos, uma data redonda, destas que — segundo se aprende entre jornalistas — pedem um lembrar-se especial: uma matéria grande e vistosa, uma sequência de entrevistas com grandes teóricos…

Sim, há algo de artificial nisso, mas onde não há? Os marcos da vida e da rotina são invenções nossas, de qualquer maneira. E nunca é demais falar de Drummond. Então, falemos.

O Drummond do papel é o gênio que todos que estudam literatura conhecem. Mas existem, por aí, entrevistas em vídeo que mostram de relance também o gênio humano de Drummond, que fala de maneira franca e meio tímida sobre a vida e sua poesia. Selecionamos alguns desses vídeos:

1) Nesta entrevista, o poeta fala sobre ser ao mesmo otimista e pessimista, a idade e seu método de trabalho. Seus “perrengues” como trabalhador da escrita o aproximam de nós todos: “Quando tô no ônibus, assim, vem uma ideia, mas eu não tenho lápis nem papel… Aquilo voa e não volta mais, né? Chato, mesmo…”

2) Aqui, Drummond fala um pouco sobre Itabira, sua cidade natal. Pacata, tranquila e entediante, é dela que o poeta fala em Cidadezinha qualquer:

3) No próximo vídeo, Drummond recita o poema No meio do caminho e fala sobre o espanto que ele causou na época, por sua simplicidade:

[BLOG] Por que nos esquecemos?

Tendemos a achar que ter uma boa memória é se lembrar de tudo — ou quase tudo. Mas será que carregar em nossa mente tanta informação sobre coisas do passado seria mesmo algo desejável? De acordo com um artigo publicado por dois neurocientistas na revista Neuron, o esquecimento exerce, sim, um papel importante em nosso cérebro.

Segundo eles, a memória não tem a função de gravar tudo o que vemos e ouvimos, mas de registrar informações e regras que sejam úteis para tomarmos decisões. Ela deve ser seletiva, portanto. Por isso, faz todo o sentido que o cérebro se livre de informações irrelevantes e desatualizadas — coisas que, se não caíssem no esquecimento, poderiam até nos causar problemas no dia a dia.

E esquecer não sai “de graça” para o cérebro: na verdade, ele gasta energia para desfazer antigas conexões entre os neurônios e substituí-las por novas. Se evoluímos ao longo de milênios para operar dessa maneira, é porque deve valer a pena.

Esquecer nos deixa mais eficientes. Imagine, por exemplo, que você memorize o nome errado de uma pessoa — se você não conseguir esquecê-lo e substituí-lo pelo nome correto, acabará sempre se confundindo. Outro aspecto útil do esquecimento é impedir que a mente gaste energia se apegando a inúmeros detalhes e consiga, em vez disso, formar “quadros gerais” para definir objetos e situações.

De qualquer maneira, não existe uma fórmula que defina o que vamos esquecer e do que vamos nos lembrar. Esquecer-se logo em seguida ou lembrar-se de algo por anos (ou talvez pela vida inteira) são caminhos que dependem de muitos fatores: a novidade da situação, o grau da nossa atenção naquele momento, o nível de adrenalina no organismo. Memórias de eventos traumáticos, por exemplo, continuam conosco porque o cérebro as entende como informações importantes para nossa sobrevivência.

Portanto, esquecer-se é uma função do cérebro, e não um defeito.

(Traduzido e adaptado de Are you forgetful? That’s just your brain erasing useless memories | The Verge)

Mas é claro que há maneiras de driblar nossa tendência ao esquecimento. Há muita coisa que merece ser lembrada! Você costuma registrar os bons momentos? Guarda com você as boas histórias vividas ao lado de amigos e familiares? Criar um livro com essas histórias (e lições) pode ser uma forma de autoconhecimento, além de um belo registro para as gerações futuras. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias.

[Flávia Siqueira]

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