Quarentena: como ajudar quem mais precisa

Todos os dias agora penso no mundo que está parando, em todos os planos que foram cancelados e estão suspensos e em como a vida acontece de um jeito que a gente é incapaz de imaginar e de prever.

Penso na tristeza que dá e que a gente tenta não pensar para continuar, e em como os gestos de solidariedade têm me emocionado tanto esses dias…

Tem gente que liberou seu livro de graça, seu filme, seu curso, gente que está doando dinheiro, atenção, preocupação, psicólogos atendendo de graça quem precisa, gente preocupada, divulgando informação, distribuindo carinho, afeto, abrindo a janela, o telefone até pra um estranho, ligando pros amigos, pra família… Mais que as notícias de dor, isso é o que me tem comovido às lágrimas.

E eu tenho pensado quase todo dia se eu fiz o meu melhor, se eu divulguei um serviço legal, um projeto, ou uma denúncia. Se assinei aquele abaixo-assinado – que parece tão pouco, mas se formos muitos… quem sabe –, se doei um pouco para quem precisa tanto, se liguei para a amiga, se mandei mensagem para aquela outra que vive sozinha, se cuidei bem dos meus aqui em casa…

Tem vezes também que só ficar bem para mim mesma, superando o medo, a ansiedade e fazendo o que precisa ser feito é trabalho para o dia todo, e tento respeitar isso. Mas tem dia em que eu faço mais, e que bom.

Isso era só um pequeno desabafo, mas resolvi listar abaixo algumas atitudes que todos podemos tomar – muitas de dentro de nossas casas – para fazer um pouco mais pelo outro, esse jeito diferente de fazer algo também por nós mesmos.

Como diz a famosa frase da cantora Joan Baez: “o melhor antídoto contra o desespero é a ação”. Vamos agir? Aqui estão 9 formas de ajudar:

1. Fazer uma doação

Várias campanhas tem surgido com o objetivo de oferecer alguma assistência aos mais vulneráveis, que ficaram ainda mais expostos à doença e à fome. As campanhas são muitas, mas separei aqui algumas que me tocaram e que são reconhecidos pela seriedade:

Mutirão do bem viver

Este projeto, que une o campo e a cidade, prevê a distribuição de alimentos agroecológicos para a população em situação de rua e para moradores de periferias e de territórios vulneráveis no campo e nas florestas, além da criação de hortas e cozinhas comunitárias. Conheça mais e participe neste endereço: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/mutirao-do-bem-viver-em-resposta-a-pandemia.

Moradores de rua

O padre Júlio Lancellotti recebe doações de material de higiene e limpeza, alimentos e roupas, presencialmente na rua Taquari, 1100, Mooca, São Paulo. Doações em dinheiro podem ser feitas para Mitra Arquidiocesana de São Paulo CNPJ 63.089.825/0001-44, Banco Bradesco, Agência 0124, Conta Corrente 0053148-0.

Povos indígenas

Epidemias têm um impacto ainda maior nos povos indígenas, e muitos deles vivem em regiões afastadas e sem acesso fácil a hospitais e postos de saúde. Com o isolamento, algumas aldeias também podem sofrer com a falta de alimentos e com o fim de recursos vindos de eventos e venda de artesanato. Para apoiá-los, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) organiza uma vaquinha: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/apoie-os-povos-indigenas.

MTST

O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto criou um fundo solidário para ajudar na compra de alimentos e itens de higiene para distribuir para a população de pessoas sem-teto. Para doar, acesse https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajude-os-sem-teto-a-enfrentar-o-coronavirus.

Periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo

O dinheiro arrecadado será usado na distribuição de alimentos e kits de higiene em diversas comunidades: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/campanha-de-solidariedade-em-tempos-de-coronavirus

Equipamentos de saúde

Para ajudar o Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo a adquirir equipamentos de proteção individual usados no atendimento aos pacientes, foi criada esta campanha: https://www.charidy.com/vempraguerra.

2. Manter contato virtual com amigos e familiares

Vale lembrar também daquela pessoa com quem você não tem contato faz tempo e dos colegas que sofrem com ansiedade ou depressão e que podem estar precisando ainda mais de uma conversa nessa hora.

Difícil dizer se você vai mais ajudar ou ser ajudado dessa forma, mas é uma ótima maneira de passar a quarentena.

3. Fazer compras para seu vizinho idoso ou com algum problema de saúde

E também podem ser de grande ajuda: uma ligação, uma mensagem, ou mesmo um bilhetinho deixado no elevador para falar com o vizinho com quem você não tem muito contato, mas que pode estar precisando de um apoio nessa hora.

4. Doar sangue

A recomendação é não sair de casa se não for necessário, mas, se você mora perto de um local de coleta de sangue, pode aproveitar uma saída e fazer uma doação. Por conta da crise, as reservas de bolsas de sangue estão operando com baixa capacidade.

Para reduzir os riscos de contágio, muitos lugares também estão trabalhando com agendamento individual de horário para a doação, além de reforços na higienização do ambiente. Em São Paulo, você pode saber mais no site da Pró-Sangue: www.prosangue.sp.gov.br.

5. Pagar a empregada doméstica e dispensá-la do trabalho

Isso reduzirá a exposição dela (e a sua, por tabela) ao novo coronavírus. Manter a remuneração é uma forma de proteger a pessoa que trabalha em sua casa da vulnerabilidade econômica num momento tão complicado. Se você tem condições de pagar uma doméstica no dia a dia, provavelmente também tem como manter a remuneração dela neste período.

6. Fazer máscaras de pano…

… e distribuí-las para familiares, vizinhos e profissionais que precisam circular pelas ruas.

Veja como fazer aqui e lembre-se da importância de retirá-las corretamente após o uso e de higienizá-las antes de reutilizar: lave com água e sabão, deixe secar ao sol e passe com ferro quente. Leia mais sobre os cuidados nesta matéria.

7. Usar seu computador para processar pesquisas sobre o coronavírus

Com um simples cadastro neste site, sua máquina pode ajudar pesquisadores a processar dados sobre o vírus nos períodos em que ela estaria ociosa. Participando da iniciativa, você receberá informações periódicas sobre a pesquisa que está sendo processada em seu computador. Mais informações no site (em inglês) https://foldingathome.org/.

8. Assinar um abaixo-assinado

Algumas campanhas online podem ter efeito se conseguirem um grande número de assinaturas neste momento. Destaco aqui este apelo por um cessar fogo mundial, para que os países deixem conflitos de lado e se concentrem em salvar mais vidas neste momento, e este pelo perdão da dívida dos países mais pobres, permitindo que esse dinheiro seja usado para salvar vidas.

9. Fortalecer o pequeno empreendedor

Comprar no comércio local, divulgar os produtos e serviços das pequenas empresas e ajudar a divulgar seu trabalho são formas de fortalecer esses negócios e ajudá-los a não quebrar neste momento de difícil competição com os grandes grupos.

[Marina Almeida]

Jornalismo, educação e combate às ‘fake news’

Em oficina apresentada na Ação Educativa, Flávia Siqueira falou sobre os desafios e a importância na escola no combate à desinformação

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“Não basta um grande jornal publicar uma lista de ‘X itens para identificar uma notícia falsa’, pois a credibilidade desses  veículos tem sido posta em xeque. Sem o protagonismo da educação, é impossível enfrentar o problema das fake news de forma efetiva”. Com base nessa premissa, Flávia Siqueira, jornalista e escritora da Daria um Livro, realizou uma oficina sobre jornalismo na escola e combate às notícias falsas. Voltado para estudantes e profissionais da educação, o evento foi promovido pela Ação Educativa, como parte da 4ª Semana de Formação em Direitos Humanos e Educação Popular.

Flávia ressalta que é preocupante observar o impacto que as “fake news” ou “notícias falsas” passaram a ter na nossa realidade política e social e que são necessárias novas abordagens para lidar com o problema. “Em paralelo à disseminação de informações deturpadas, ao longo dos últimos anos, a mídia tradicional e o jornalismo profissional passaram a ser questionados também. Jornais, sites e emissoras de TV têm sido acusados de ter uma agenda ideológica. De um lado, é positivo que a suposta imparcialidade da mídia profissional seja questionada – lembrando que imparcialidade total ou neutralidade não existem em contexto nenhum. De outro, é preciso que as pessoas tenham, então, embasamento para realizarem uma leitura crítica das informações e do mundo por si mesmas – de modo que elas consigam decidir, com alguma clareza, em quais fontes de informação confiar. O único caminho para isso é a educação. E é um caminho longo e complexo.”

Ela explica que o problema da desinformação envolve muitos fatores: posicionamentos políticos, situação econômica, nossa relação com as novas tecnologias, nossa tendência de acreditar apenas no que confirma nossas crenças já estabelecidas, nossa vontade de que problemas complexos e históricos sejam resolvidos imediatamente, e muitas outras coisas. “Não se enfrenta um problema assim apenas com listas ou vídeos rápidos sobre como identificar uma notícia falsa. Nem se colocando na posição de autoridade e dizendo para as pessoas simplesmente pararem de compartilhar o que recebem no WhatsApp ou nas redes sociais”, aponta.

Papel da escola

Para ela, a única solução efetiva é dar às pessoas ferramentas para que possam lidar com a informação num mundo complexo e tecnológico. “Para que elas saibam que existem intenções por trás dos conteúdos e dos formatos das mensagens, que todos nós temos pontos fracos que são explorados por empresas e sites que querem ganhar dinheiro com cliques em links e publicidade, que os dispositivos digitais criam artificialmente uma sensação de urgência, que o discurso do marketing político tenta manipular emoções. Isso só é possível no longo prazo e por meio da educação”.

Para poder fazer essa análise das informações recebidas, o papel da escola é fundamental. Flávia defende, por exemplo, a importância de aprender como funciona o trabalho jornalístico em sala de aula. “Esse olhar crítico exige que as pessoas entendam como se faz bom jornalismo. Essa noção pode ser desenvolvida se elas experimentarem os métodos de apuração na escola, se entenderem por si mesmas o que funciona e o que não funciona, o que é ético e o que não é (e o porquê), se fizerem exercícios de leitura crítica de reportagens”.

Para os participantes da oficina, a escola passa por um momento de angústia: não há dúvidas sobre a importância da educação no combate à desinformação, mas ainda não existem respostas prontas sobre os caminhos a seguir. “É algo que precisamos construir. Pensar, por exemplo, como trabalhar com os pais nessa caminhada, entender que o aprendizado não ocorre de uma hora para a outra, que é preciso tempo para que todos da comunidade escolar discutam, pensem sobre o assunto e formulem suas visões e leituras. Algum sentimento de frustração é inevitável ao longo do processo, e precisamos aprender a lidar com ele”, acredita a jornalista.

Fotos: @acaoeducativa

Leia trechos de ‘Do outro lado do Atlântico’

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Entre trincheiras

No escuro das frias trincheiras dos alpes italianos, após um dia de combates, numa noite quem sabe de que medos e dores feita, imagino meu pai, um jovem soldado pensando na família e na mulher cuidando de tudo sozinha desde que ele fora convocado para servir o exército italiano. Ele devia se afligir sem saber o que se passava conosco, se teríamos escapado aos bombardeios, se estaríamos passando quais necessidades…

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Na Segunda Guerra Mundial (1940-1945), escapar da morte é a tarefa de dia e noite. Mas, quando cai a luz do sol e os combates diminuem, é a hora da saudade de casa e da incerteza da guerra. Lavinio, meu pai, trabalhava memórias e saudades com as mãos. Esculpia sonhos e mensagens em sua mente, imaginando um dia registrá-las. Como? Onde? Na gaveta de alumínio onde era servida sua comida. Eu, Franco, seu filho primogênito, ainda era um bebê – nasci seis meses antes do início da guerra –, e o pai não sabia se voltaria para me ver crescer. (…)

Um tesouro que guardo com muito cuidado. As mensagens se combinam com ilustrações de traço fino e perspectiva perfeita. Contra a dureza da guerra, a leveza e a precisão das mãos de artista. Não era só à noite que era preciso ocupar a cabeça. Às vezes o trabalho podia ser também durante o dia. Quando os bombardeios eram muitos e todos precisavam se esconder enquanto o mundo explodia acima de suas cabeças, entalhar a vida e a saudade era a sua forma de não enlouquecer. Quem sabe pelo que passava quando fez cada um desses desenhos, inscreveu os nomes da família, suas dedicatórias e pensamentos.

***

 

Quando a guerra acaba…

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Finda a guerra, era hora de reconstruir cidades e famílias. Os escombros podiam ser reerguidos, mas e as pessoas que ficaram pelo caminho? O pai voltou para casa, mas seu cunhado, Enzo, que também tinha sido convocado, não. Ele foi dado como morto, embora seu corpo nunca tivesse sido encontrado.

Dois anos já haviam se passado quando, um dia, chegaram da rua gritando pela avó:

— Albina, Albina!

— Calma, o que foi?

— O Enzo! O Enzo! Não sei se é… está muito magro! Está vindo aí!

Ela correu o máximo que aguentava em seu vestido negro de luto até os pés, avental branco por cima. Ao se aproximar do homem que chegava, ela perdeu o fôlego e diminuiu o passo, embora tivesse os olhos sempre fixos nele. Ele foi chegando mais e mais perto…

— Enzo!

A voz embarga e os olhos se enchem de lágrimas – os da nonna Albina e os meus, ao relembrar a história. Ele estava um esqueleto ambulante, mas ali só uma coisa importava: ele estava vivo! O filho perdido na guerra voltara para casa.

Tio Enzo havia sido enviado para combater no front russo, mas a chegada do inverno deixou os soldados italianos totalmente desguarnecidos. Ele foi preso pelo exército inimigo e quase morreu fuzilado.

Estava prestes a ser morto por um soldado quando um oficial russo se colocou entre eles com seu cavalo.

— Deixa o rapaz ir embora! Acaba com essa história…

Enzo deu o nome daquele oficial russo, Ivan, a um de seus filhos, como homenagem àquele que salvara sua vida. Havia homens de boa índole também do lado de lá das trincheiras…

***

 

Rumo ao Brasil

Para nós, crianças, a viagem de navio era uma aventura com destino a um mundo desconhecido. Tentava imaginar como seria o Brasil, principalmente as pessoas que habitavam aquele país recente: feições diferentes, outras tonalidades de pele, outros cheiros e cores. Antes de deixar a Itália, o navio fez uma parada em Nápoles, para o embarque de mais passageiros e carga e, através de Gibraltar, passamos do Mediterrâneo ao Oceano Atlântico. Nenhum dragão, nem monstros marinhos. Sol, bom oceano, com ondas mais alongadas e tranquilas. (…)

Dias antes de nos aproximarmos do Equador, a tripulação do navio começou a preparar uma festa em comemoração à passagem pela fronteira entre os hemisférios norte e sul. As mentes infantis imaginavam como seria aquele momento especial de travessia. Como faz? Passa por baixo? Haveria um risco no céu? O oceano mudaria de cor? A festa no navio era simples, mas divertida e com boa comida. Houve um concurso para premiar aquele que fosse capaz de comer a maior quantidade de macarrão à bolonhesa em menor tempo. Gritos e palmas acompanhavam os grandes comedores em sua luta, sem talheres, com a massa e o molho. Entre homens grandes e gordos, um genovês alto e magro – magro como uma caneta! – começou a chamar atenção: sugava com rapidez e barulho porções imensas de espaguete.

Terminou a montanha do primeiro prato e pediu logo o segundo, enquanto seus adversários desistiam um a um:

— Bota outro aí! — ele gritou mais de uma vez, com os braços para cima e feliz da vida.

E logo fez a comida do segundo prato desaparecer. O navio inteiro ficou alucinado com o feito do genovês esguio! A música e a dança seguiram noite adentro, em meio a risos e homenagens.

Eu tinha apenas 12 anos, mas já conhecia bem a guerra para imaginar que aquele homem provavelmente sofrera muito com a fome durante os anos de escassez. Mesmo com o balançar do oceano e da dança, o genovês não passou mal com o estômago tão cheio.

Aquelas porções imensas de comida e o baile que veio depois talvez festejassem, na verdade, a promessa de fartura em terras distantes.

***

 

Música para viver

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Meados da década de 1940. Na cozinha de uma casa simples de Padova, uma família se reúne para o jantar. Nos pratos, pouca comida, mas o suficiente para resistir aos tempos difíceis e esperar pelo retorno daqueles que travam as batalhas da Segunda Guerra Mundial. Quando todos terminam de comer, tio Gastone – ainda muito jovem para o front – quebra o silêncio com os primeiros versos de La Montanara. Aos poucos, todos se unem e cantam juntos aquela canção sobre amor no alto das montanhas.

A montanara é a jovem das montanhas e também o cântico dos que se esforçam nas subidas em terreno íngreme e gelado. A música marcava o ritmo de caminhada dos povos dos Alpes, soando como um espetacular coral de anjos. Hoje, se não podemos ouvi-los, nos resta imaginar. Gastone aprendeu a cantar La Montanara com o pai, que tivera como companhia aquela música durante seus anos de combate na Primeira Guerra Mundial. Os soldados entoavam aquela canção para se aquecer e ganhar forças. A emoção de cantar em grupo ajudava a encarar o medo da morte e aceitar que sacrifícios seriam necessários em nome de suas famílias. Cantava-se para viver e para sobreviver, por dentro e por fora.

Tio Gastone cantava para mim na hora de dormir, mas eu muitas vezes preferia cantar junto em vez de me entregar ao sono. O treino informal de quase todos os dias deu afinação ao timbre de criança e fez com que eu me tornasse a segunda voz de um dueto que muitas vezes seguia por mais quatro ou cinco músicas antes de o sono vencer.

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Conheça outros livros nossos

Agenda: oficina sobre Jornalismo, fake news e educação

É com muito orgulho que a Daria um Livro anuncia sua participação na Semana de Formação em Direitos Humanos e Educação Popular, promovida pela Ação Educativa, em São Paulo.

O evento deste ano, com o tema Nós contamos histórias: memórias, imaginação e reinvenção, busca contar e reafirmar histórias, falar de memória e narrativas.

Diante de um contexto em que falsas narrativas estão sendo criadas e disseminadas, a proposta é revisitar as construções e as lutas por direitos estabelecidas ao longo das décadas em nosso país, como forma de orientar novas estratégias políticas e compartilhar as narrativas invisíveis, mas fundamentais para a compreensão do país em que vivemos e de todas as suas desigualdades. 

Serão mais de 50 atividades entre os dias 16 e 20 de julho. No dia 18, às 10h, nossa apresentação falará sobre Jornalismo, fake news e educação (veja abaixo). Para participar, é necessário pagar uma taxa única (R$75,00), que permite a inscrição em todas as atividades. 

Jornalismo na escola: direito à informação e combate às fake news

O problema das notícias falsas – popularizado na expressão “fake news” – assumiu papel central nos últimos anos. Trata-se de um tema que envolve questões e problemáticas diversas: propaganda política, disputas de poder, o uso e a dinâmica de mídias digitais, o contexto da produção de conteúdo por veículos de mídia tradicionais, formação e reforço
de identidades, credibilidade de instituições científicas e educacionais, entre outras.

Em discussões envolvendo especialistas na área, é praticamente unanimidade a ideia de que enfrentar esse problema passa necessariamente por sua discussão em todos os níveis escolares.

Na oficina, iremos abordar o problema das notícias falsas e sua disseminação, o modo de produção de veículos jornalísticos, ética e direito à informação, o conceito de checagem e as possibilidades de abordar o tema no ambiente escolar.

  • Carga horária: 3 horas
  • Data: 18 de julho, quinta-feira
  • Horário: das 10h às 13h

A quem se destina

Professores/as de todos os níveis e disciplinas da Educação Básica.

Educadora

Flávia Siqueira

Foto_FlaviaSiqueira (2) (1)Formada em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Passou por redações de veículos impressos e on-line. Foi subeditora das revistas Educação e Ensino Superior, da Editora Segmento. Trabalhou por seis anos como redatora do portal de notícias UOL, onde produziu e editou conteúdo para home pages, aplicativos e redes sociais. Também atuou como repórter para publicações especializadas em Construção Civil, Ciência e Cinema. Entre outras atividades, faz graduação em Letras (licenciatura), participou de encontros do Núcleo de Estudos em História Oral (Neho) da USP e fez cursos sobre produção editorial e preparação de texto. Tem pós-graduação em Gerenciamento de Projetos pela Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec- SP). Cursou disciplinas de pós-graduação na ECA-USP nas áreas de Análise de Discurso e Ambientes Digitais.

Veja a programação completa aqui.

INSCRIÇÕES: www.centrodeformacao.acaoeducativa.org.br 

* Aqueles que se inscreverem até sexta-feira, dia 05/07, podem utilizar um cupom de desconto de 20% do Centro de Formação: Educação Popular, Cultura e Direitos Humanos. Na página de pagamento, é só inserir SEMANA2019 no campo “Cupom”.

4ª edição da Semana de Formação em Direitos Humanos e Educação Popular
Data: entre os dias 16 e 20 de julho
Taxa de inscrição: R$75,00 (pagamento via site – débito, crédito ou boleto)
Inscrições: www.centrodeformacao.acaoeducativa.org.br
Mais informações: (11) 3151-2333, ramal 177 | semanadeformacao@acaoeducativa.org.br

A alma literária das nossas correspondências eletrônicas

Reencontros, novas e velhas amizades, namoros, pedidos de ajuda, desculpas… Quase todas as experiências que temos hoje produzem registros escritos em formato digital. Pense em seus e-mails, em seus posts de Facebook, nas longas conversas de WhatsApp.

Existe literatura nessas trocas de mensagens? A resposta pode ser controversa, mas é certo que esse tipo de material documenta com riqueza nossas vivências. Ele tem uma alma, composta por emoções, silêncios, medos, surpresas e alegrias.

A publicação americana The California Sunday Magazine abordou o tema em uma reportagem publicada no dia 04 de abril:

Boa parte da nossa comunicação acontece por meio da escrita, dos pequenos e grandes textos que escrevemos uns para os outros. Hoje, com as inúmeras ferramentas que nos permitem exteriorizar pensamentos em tempo real, cada um de nós se torna seu próprio biógrafo, produzindo registros íntimos do que se vive ao mesmo tempo em que as experiências acontecem.

Algumas pessoas abriram esses registros à publicação. Entre elas, dois estranhos que descobriram ser irmãos. Traduzimos, a seguir, o resumo da história e a troca de mensagens:

:: Dois estranhos que descobriram ser irmão e irmã ::

Yadira Izaguirre tinha 17 anos quando deu à luz seu primeiro filho – uma menina – em São Francisco (EUA), em 1965. Na época, ela morava com uma tia, que não permitiu que a jovem ficasse com o bebê. A criança foi entregue para adoção.

Mais tarde, Yadira se casou e teve mais três filhos – Marcos, Daniel e Raquel -, para quem ela falava abertamente sobre a filha mais velha. Em 2018, décadas após a morte de Yadira, Daniel se inscreveu em um serviço de testes genéticos e foi conectado a outra cliente – com quem, segundo o serviço, ele estava relacionado.

Daniel recebeu uma mensagem de Bianca Seed:

“Olá, a mãe da minha mãe tem exatamente a mesma história que a sua. Sua mãe veio para São Francisco quando chegou nos Estados Unidos?”

Ele ficou encarando a mensagem, atordoado, antes de responder:

Sim, minha mãe deixou a Nicarágua e foi criada por uma tia em São Francisco. Bianca, sua mãe pode ser minha irmã.”

Bianca colocou sua mãe em contato com ele.

28 de maio de 2018

LUCIANNA SEED:
Olá, Daniel.
Nasci em San Francisco em 8 de janeiro de 1965. O nome da minha mãe é Yadira Izaguirre. Eu fui colocada para adoção. Minha mãe tinha 17 anos. Estou muito curiosa para saber se temos a mesma mãe!!!

DANIEL RIVERA:
Oi, Lucianna.
O nome da minha mãe também é Yadira Izaguirre e ela foi criada pela tia Josephina. Meus irmãos e eu sempre soubemos que nossa mãe teve que desistir de seu primeiro filho e dá-lo para adoção. Parece que você é nossa irmã mais velha.

LUCIANNA SEED:
Meu Deus!!!! Estou maravilhada. Eu tenho um irmão!!! Você tem outros irmãos e irmãs?

DANIEL RIVERA:
Luci,
Você tem outro irmão, Marcos, e uma irmã, Raquel. Ambos moram em Ohio. Eu também tenho outras três meias-irmãs com quem cresci. Raquel e Marcos estão me mandando mensagens e querem se conectar com você também.

LUCIANNA SEED:
Estou sem palavras!!

A conversa migra para um grupo formado pelos irmãos.

29 de maio de 2018

LUCIANNA:
Olá, Daniel. Olá, Marcos! Olá, Raquel! Isso é tão surreal. Ainda estou em choque. Sou Lucianna (Luci). Não posso acreditar que este dia se tornou realidade. Eu tenho 2 irmãos e uma irmã !!!

RAQUEL:
Eu mal consigo me expressar em palavras. Você é uma conexão com a mamãe, e só por isso já é gratificante.

DANIEL:
Ficou difícil me concentrar no trabalho. Eu amo tanto todos vocês.

RAQUEL:
Não posso acreditar que isso está acontecendo.

MARCOS:
Eu não sou mais o irmão mais velho, hahaha. Falando sério, eu sempre pensava sobre onde minha irmã poderia estar. E aqui estamos.

Traduzido e adaptado de Re: re: re: re: A glimpse inside the lives of asylum-seekers, new couples, prisoners, and pen pals through their letters, texts, WhatsApp messages, and Facebook posts (The California Sunday Magazine).

Leia também:
Como transformar posts de redes sociais em livro


Você já pensou em transformar suas histórias ou correspondências em livro? Conheça o trabalho da Daria um Livro.

Reaprendendo a caminhar: a história de Pedro Alves

Conheci Pedro no Caminho do Sertão. Enquanto caminhávamos por dezenas de quilômetros – eu calejando os pés, e ele calejando também as mãos, do aperto firme nas muletas –, ele me ensinava a ter tranquilidade para enfrentar os desafios da estrada e da vida. Esta é sua história:

 

Pedro por Patrícia Pacheco
Pedro Alves e seus recomeços. Foto: Patrícia Pacheco

Aos 32 anos, Pedro Alves estava casado, tinha filhos e trabalhava como vigia noturno numa empresa. Naquela altura, ele já tinha superado a dureza do trabalho infantil no campo – onde ajudava os pais no plantio de milho, mamona e feijão desde os 7 anos de idade, muitas vezes trocando a escola, a 5 km de caminhada, pela enxada sob o sol quente de Irecê (BA). Mas no dia 20 de maio de 2011, durante seu expediente, um disparo atravessou o caminho, e também sua perna esquerda. Calibre 12. “Eram cerca de 22h30 e eu vi a morte na minha frente”.

Pedro estava perdendo muito sangue, e com ele os sentidos, mas conseguiu se arrastar até o telefone para pedir socorro. Ele ainda se lembra do foco de luz da viatura da polícia que chegava, como uma esperança a se agarrar.

A noite foi longa. O hospital local não tinha as condições necessárias para atendê-lo e foi preciso fazer sua transferência para uma unidade maior. Quando chegou ao hospital de Campina Grande, a 450 km de São Bento (PB), onde vivia, já passava das 5h da manhã. Apesar de suas condições, as lembranças de Pedro ainda são nítidas: “pedi ao médico que colocasse minha perna no lugar. Não acreditei quando acordei da cirurgia e vi que ela não estava mais lá”.

 

Recomeços

Três dias depois, ele estava de volta à sua cidade, mas recomeçar foi difícil. Ele tinha perdido uma perna, o emprego e o rumo. “Minha esposa tinha vergonha de ser vista comigo, andando com uma perna só. Meu casamento acabou e muitas pessoas, ao me verem sozinho, acharam que seria meu fim.”

Pedro chegou a conseguir um novo emprego, de garçom, em uma churrascaria. “Mesmo com uma perna só eu atendia os clientes, mas ainda não estava bem. Foi quando resolvi sair pelo mundo à procura de novos horizontes.” Ele tinha uma irmã morando em Uauá, no norte da Bahia, e foi visitá-la por alguns dias.

Andando pela nova cidade, na região de Canudos e Monte Santo, parou para ouvir um artista local que se apresentava na rua. Foi quando algo inesperado aconteceu: “soltei as muletas e fui dançar no meio da praça – coisa que, quando eu tinha as duas pernas, eu não fazia! As pessoas foram se aproximando para ver… O músico parou de cantar para observar enquanto eu dançava, depois disse que aquilo era um exemplo de vida.”

Ali Pedro percebeu, pela primeira vez, que poderia recomeçar sua vida em Uauá. Alugou uma casa e começou a trabalhar na rádio comunitária Luz do Sertão, como locutor de um programa romântico e também como repórter cidadão pelas ruas da cidade.

É onde vive até hoje, apesar dos desafios que continua a enfrentar. “Amo o que faço, mas não ganho quase nada com isso. Do INSS são R$ 480, mas às vezes cortam o benefício e demora até conseguir restabelecê-lo, e só de aluguel são R$ 250. É difícil.”

Lutando a batalha de todo dia para viver num país como o Brasil e com uma deficiência física, Pedro buscava um sentido para sua trajetória. Ele conta que um dia estava na rádio quando ouviu sobre a Caminhada dos Umbuzeiros, um trajeto de 55 km a serem percorridos em três dias pelo sertão baiano. “Senti que era uma oportunidade para eu me redescobrir, liguei e me inscrevi. Queria ver até onde eu podia ir, qual era meu limite físico. Eu queria desafiar a mim mesmo, saber para que fiquei vivo depois de perder minha perna.”

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Nas caminhadas, Pedro supera limites e descobre novos horizontes para sua vida. Foto: Patrícia Pacheco

No dia da caminhada todos se surpreenderam ao conhecer Pedro pessoalmente e descobrir que ele usava muletas e não tinha uma perna. “Alguns caminhantes disseram que eu iria dar trabalho para eles durante o percurso. O maior desafio foi eu acreditar em mim mesmo e passar essa crença para as pessoas que estavam comigo. Tive medo, não vou dizer que não tive. Tive medo de desapontar a mim mesmo.” Mas Pedro conseguiu. E ali algo começou a mudar.

“Conseguir chegar foi um sonho realizado, o melhor presente da minha vida foi ter completado o percurso da Caminhada dos Umbuzeiros. Ali eu percebi que poderia ir muito mais além. Meu maior desafio não era nem a caminhada em si, era eu ter uma vida… normal.”

 

Atleta

Empolgado com a experiência, Pedro se inscreveu depois no Caminho do Sertão. O percurso – 180 km pelo noroeste mineiro – assustou-o, mas mesmo assim resolveu tentar e conseguiu completar a maior parte do trajeto.

Animado com as conquistas, ele participou de uma mini-maratona de 10 km e depois foi até São Paulo para a São Silvestre de 2017. “Tinha 18 pessoas na categoria deficiente por amputação da perna e eu cheguei em sexto lugar. Foi uma felicidade sem tamanho”.

Em 2018, aos 39 anos, ele voltou ao Caminho do Sertão para completar o trajeto incluindo o que faltava: o Morro do Fogo, com 3,5km de subida e depois descida, e o Vão dos Buracos, uma trilha estreita e íngreme que pede a subida em 4 apoios em alguns trechos.

“Tive medo, mas a vontade de vencer foi maior que o meu medo”.

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Com força e persistência, Pedro atravessa o sertão. Foto: Patrícia Pacheco

Foi nessa caminhada que conheci Pedro. Enquanto caminhávamos – eu calejando os pés, e ele calejando também as mãos, do aperto firme nas muletas –, ele me deu conselhos sobre ter tranquilidade para enfrentar os desafios.

Pedro pretendia voltar à São Silvestre em 2018, mas não conseguiu os recursos para a viagem – ele não tem nenhum apoio institucional, apesar de ter a resistência de um atleta. Em 2019, ele vai tentar novamente.

“Tudo isto tem servido para eu ser grato a Deus. Podemos pensar que estamos entregues, mas ainda conseguimos enxergar um novo horizonte. Esta é minha história”.

***

Mais sobre o Caminho do Sertão

E meu relato pessoal sobre a caminhada: Pelos caminhos do Grande Sertão: Veredas

[Por Marina Almeida]

Entre Abismos – Aventura no Carstensz

mockupAtravessar o mundo para enfrentar dias de caminhada em meio a selva e lama. Com o corpo dolorido, após noites mal dormidas, ainda encarar uma escalada de quase 800 metros e andar sobre uma crista de montanha escorregadia, com abismos despencando pelos dois lados. O médico brasileiro Rafael Scanavacca relata essas experiências no livro Entre Abismos – Aventura no Carstensz, publicado pela Editora Extremos.

Fizemos o trabalho de revisão e preparação de texto para o livro, o segundo publicado por Rafael. A seguir, o depoimento do autor sobre nosso trabalho:

“Fiquei muito satisfeito. Os ajustes e sugestões não descaracterizaram minha linguagem original. O trabalho foi realizado de maneira tranquila, dentro do prazo combinado e sempre aberta a conversas – me senti muito à vontade para apontar os caminhos que preferia seguir. Eu certamente indicaria a Daria um Livro para trabalhos de revisão e preparação de texto.” (Rafael Scanavacca)

O livro amarra experiências vividas por Rafael no Nepal – onde ele presenciou o trágico terremoto de 2015 – e na Papua, província da Indonésia onde está localizada a Pirâmide Cartensz, montanha mais alta da Oceania e parte do projeto Sete Cumes.

Rafael Scanavacca conquistou o cume do Cartensz ao lado de montanhistas como Eduardo Sator Filho, Carlos Santalena e Thais Pegoraro –  ela, aliás, bateu naquele momento o recorde brasileiro de escalada dos Sete Cumes e assina o prefácio da obra.

Leia alguns trechos do livro Entre Abismos:

O terremoto de 2015 no Nepal

“Eu estava sentado na calçada de uma viela estreita quando senti um impacto que me empurrou para cima e me deixou em pé. Os prédios balançavam e tremiam, o chão se movia instável sob meus pés, como se eu tentasse me equilibrar numa placa de madeira sobre um rio. Por vezes tudo balançava de um lado para o outro, como se eu estivesse no convés de um navio atravessando um mar em tormenta. Pedaços de tijolos se desprendiam dos prédios e caíam à minha volta enquanto eu tentava me reequilibrar. Fiquei em pé e novamente fui jogado ao chão, vendo o asfalto da pequena rua se partir ao meio – uma rachadura foi se formando e percorrendo toda a sua extensão. Pessoas corriam desesperadas de um lado para o outro, tropeçando e se desequilibrando. Outro tijolo caiu muito perto de mim e se espatifou no chão, desfazendo-se em pó e pedaços. Era um aviso de que eu não podia ficar ali parado. Novamente fiz um esforço para me equilibrar, fiquei em pé e entrei numa pequena loja com a porta aberta para a rua. Uma mulher desesperada abraçava uma criança de cerca de cinco anos de idade, que berrava enquanto os pequenos suvenires empilhados nas prateleiras balançavam e vinham ao chão, mostrando que aquele também não era um lugar seguro. Voltei para o lado de fora e reencontrei ali meu amigo Gustavo Villa. Olhamos apavorados um para o outro e, com o pingo de racionalidade que nos restava, nos perguntamos: ‘o que a gente faz?’. Fomos nos arrastando em meio ao tremor pelo chão de asfalto, que mais parecia uma maré, e nos sentamos no meio da rua, tentando ficar o mais longe possível dos humildes e pequenos prédios de Katmandu e seus tijolos à mostra – e quem sabe minimizar o risco de algo cair sobre nossas cabeças. No fim da rua, um prédio cedeu e levantou uma grande nuvem de pó, como em uma implosão.  Ao me sentar, parei de brigar com o tremor, fiquei apenas observando e pensei: ‘meu Deus, estamos no meio de um terremoto’.”

A escalada da Pirâmide Carstensz

“Às 3h30 da manhã comecei a ouvir sons de pessoas se revirando dentro das barracas, pegando equipamentos e acendendo lanternas. Estava cansado, não tinha conseguido pregar o olho um minuto, na expectativa de como seria a escalada. Enquanto isso, meu companheiro de barraca, Carlos Mussoi, dormia o sono dos justos e roncava, com sua missão já concluída. Eu sabia que estava a um dia de concretizar um sonho e finalizar uma jornada que tinha relevância no mundo da escalada. Quantos escaladores mais experientes e dedicados do que eu não sonham em ter a oportunidade de escalar o Carstensz? E eu estava ali, deitado aos seus pés, a um dia de seu cume. A expectativa de como seria a escalada me deixava eletrizado, e o perigo que a cercava parecia tornar tudo mais real: a textura da rocha, a arquitetura da montanha, o perfil das nuvens. Tentava não imaginar o momento de chegada ao cume, para não dar azar. Sabia que seria uma subida difícil, que era um novato tentando acompanhar montanhistas experientes. Sabia que, apesar dos equipamentos de segurança, há sempre um perigo real.

(…)

Eu tinha dormido – ou, melhor, descansado – praticamente pronto, com casacos, luvas e equipamentos. Não queria perder tempo. Juntei-me ao grupo e vesti minha cadeirinha, conferindo as outras ferramentas de escalada: ascensor, freios e mosquetões. Em pouco tempo estávamos todos prontos. Havia silêncio, tensão e seriedade no ar. Ainda era noite e, sob a luz de nossas headlamps, fizemos um círculo e uma breve oração em respeito à montanha. Que ela nos deixasse escalar e nos permitisse voltar a salvo no fim do dia. Fizemos alguns minutos de silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos e motivações.

Saímos rumo ao Carstensz.

(…)

Logo começou a amanhecer e a crescente claridade foi revelando a imensa parede de pedra escura e vulcânica, sob o céu nublado e chuvoso da Papua. Caía uma fina garoa. Ao redor, eu podia ver os picos sem nome que se erguiam e pareciam maiores e mais ameaçadores do que antes. Ao lado, uma construção colossal, muito maior do que uma cidade e com aspecto feio e industrial. Também via um enorme buraco perfurado no chão em meio a camadas e camadas de terra e pedras reviradas, e um rio cor de lama esbranquiçada. Era a mina de ouro, uma presença incômoda e que destoava da paisagem.

A escalada foi se tornando cada vez mais íngreme e exposta e às vezes fazia minha cabeça rodopiar. Sob meus pés, a parede despencava por 400 metros; para cima, elevava-se com autoridade por 370 metros em direção à crista.”

Ocupação Antonio Candido: pensar a literatura, pensar a vida

O que perdemos ao abrir mão da literatura em nosso dia a dia? Ao encarar Machado de Assis, Clarice Lispector e outros grandes nomes apenas como tópicos enfadonhos de um currículo escolar burocrático?

ant-candido.jpgPara o crítico literário e professor universitário Antonio Candido (1918 – 2017), “negar a fruição da literatura é mutilar nossa humanidade”. Afinal, os livros organizam sentimentos e visões de mundo, ajudando seus leitores a encontrar uma saída para o caos externo e interno. Colocar a literatura num pedestal de acesso restrito contribui apenas para manter os privilégios de poucos.

Facetas várias e entrelaçadas

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Na obra e na vida de Antonio Candido, a produção acadêmica, a docência e a busca por justiça social andam juntas. É o que mostra a Ocupação Antonio Candido, em cartaz no Itaú Cultural, em São Paulo.

Painéis, vídeos, fotografias, recortes e objetos apresentam a variedade dos trabalhos de Candido. Em cópias de seus manuscritos, o processo de (re)escrita vem à tona: trechos riscados, a busca pela palavra mais precisa, ideias sendo reorganizadas… Afinal, não existe reflexão verdadeira sem autocrítica.

Num documento da época em que Candido era estudante (e já leitor voraz de grandes obras), descobrimos uma nota 7 em Português. Não seria uma prova de que a literatura e a reflexão são muito maiores do que um boletim escolar?

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O boletim de Candido quando estudante
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Dedicatória de Guimarães Rosa a Antonio Candido

Ocupação Antonio Candido
Até 12 de agosto.
De terça a sexta, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h.
Itaú Cultural (Av. Paulista, 149. São Paulo, SP).
Entrada gratuita.
Saiba mais em http://www.itaucultural.org.br/ocupacao/antonio-candido/



Leia também:

Literatura como direito humano: arte, educação e justiça social se entrelaçam na Ocupação Antonio Candido | Escrevendo o futuro

[Por Flávia Siqueira]

 

 

 

Oficina na escola: uma conversa sobre escrita e jornalismo

oficinanaescolaPor que escrever? Como colocar as ideias no papel? Quais as características da escrita no jornalismo e na literatura? Estivemos no dia 22 de maio na escola Luciane do Espírito Santo, na zona leste de São Paulo, para conversar com os alunos do terceiro ano do Ensino Médio sobre questões como essas.

Chegamos até lá por meio da iniciativa Quero na Escola, que conecta alunos da escola pública à comunidade externa. Os estudantes divulgam suas demandas – por palestras, oficinas, atividades – e voluntários se apresentam para atendê-las.

Começamos a conversa abordando nossas motivações para escrever: organizar ideias, memorizar e enxergar melhor as coisas do mundo e a nós mesmos. O escritor Hélio Pellegrino afirma que escrever é nascer – ou seja, dar-se conta da própria humanidade e, com ela, da própria finitude.

As boas histórias não estão apenas nos acontecimentos grandiosos, mas também nas situações do dia a dia, nas repetições, nos lugares simples. Escrever é colocar uma lupa sobre os detalhes da vida e, com isso, expandir nossa compreensão sobre o mundo e nosso universo interior.

Exercício de atenção
Vivemos tantos de nossos dias no automático: acordar, cumprir nossas rotinas da mesma forma, transitar pelos mesmos lugares sem prestar muita atenção à nossa volta. Se você olhar bem, fará descobertas mesmo naqueles locais por onde passa há anos.

Uma forma de sairmos desse “modo automático”, mesmo que apenas por alguns instantes, é realizar atividades simples de maneira mais lenta e com foco no momento – a chamada atenção plena.

Tente passear pelas ruas do seu bairro observando as casas, os comércios, as pessoas, os sons que se sobrepõem – procurando colocar sua atenção em uma coisa por vez. Ou tomar um copo de água em dez ou quinze minutos: observe bem a sensação de segurar o copo, a temperatura da água, os sabores sutis.

Nossa proposta aos alunos foi comer um biscoito de maneira lenta: qual a textura? Qual o cheiro? Que lembranças ele evoca? Há sabores em camadas? E será que o biscoito é mesmo tão bom quanto imaginávamos ou como vendia a embalagem? Por fim, que textos poderiam nascer dessa experiência?

Jornalismo
Os estudantes compartilharam seus hábitos de escrita – poemas, diários, recados, lembretes – e quiseram saber mais sobre o curso de jornalismo e o dia a dia profissional.

Conversamos sobre como a profissão mudou muito (e muito rápido) nos últimos anos: muitos veículos impressos deixaram de existir, redações foram reduzidas, ainda não existem fórmulas seguras para “fazer dinheiro” com jornalismo na internet. Muitas vezes falamos em “crise” na profissão, mas o ideal talvez seja chamarmos de transição: quem está na área ou pretende entrar nela deve estar disposto a pensar em novas alternativas e formatos inéditos. Há muito a ser construído.

Além disso, em meio à atual profusão de notícias falsas, temos muito a ganhar com a difusão dos princípios éticos e do senso crítico que sempre acompanharam o (bom) jornalismo.

De novo, é preciso sublinhar a necessidade de atenção: resista por um momento à tentação do botão “compartilhe”, reflita um pouco e questione as informações que você vê nas redes sociais – ou mesmo nos veículos de mídia profissionais. O que está sendo dito e não dito? De onde vêm os dados e as conclusões apresentadas? Qual é a fonte e qual sua credibilidade? Existe um autor que se responsabiliza por aquela informação? Que interesses estão em jogo?

Agradecemos aos professores e alunos da Escola Estadual Luciane do Espírito Santo e à iniciativa Quero na Escola pela oportunidade de trocar tantas ideias e aprendizados. A construção de um mundo mais justo, aberto e livre começa pela educação.


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Dia do escritor: por que escrever?

Como transformar posts de redes sociais em livro

Tenho uma amiga que publica com frequência pequenas crônicas de seu cotidiano nas redes sociais – texto bem escrito, olhar apurado e bem-humorado para as pequenas aventuras do dia a dia. Ela, que é também uma grande leitora, nunca havia levado a sério minhas sugestões de que guardasse seus textos também fora das redes sociais de algoritmos desconhecidos e regras que sempre mudam sem nosso prévio conhecimento. Foi quando tive a ideia de reunir seus textos num pequeno livro. Quando entreguei o presente ela ficou muito surpresa: disse que não imaginava que já tinha escrito tanto e que nem se lembrava mais de algumas histórias registradas.

Grande parte do trabalho foi encontrar seus textos entre as fotos, notícias e outras publicações que postamos diariamente em nossas redes. Daí que minha primeira sugestão para todos que gostam de escrever e postar nas redes sociais – sejam crônicas, pequenas histórias cotidianas, frases engraçadas dos filhos ou comentários políticos, econômicos ou sociais mais elaborados – é: guardem também num arquivo pessoal seus textos, pois muitos podem se perder nesse processo. Como eu disse a ela, queria um livro que fosse inspiração e também espelho, em que ela pudesse se reconhecer, para incentivá-la a continuar escrevendo e, quem sabe, um dia publicar suas histórias para mais pessoas. Acredito ter conseguido alcançar meu objetivo.

Reunidos os textos, meu próximo passo foi organizá-los, fazer o sumário e o prefácio (onde escrevi minha dedicatória). Em seguida, cuidei da diagramação dos textos, design da capa, impressão, encadernação… Pronto: tinha um livro de 60 páginas, inédito e muito pessoal para presenteá-la.

E vocês, já olharam para as publicações de seus blogs e redes sociais e pensaram neles como o início de algo maior, mais perene? Ou procuram um presente especial para um familiar ou amigo que gosta de escrever? Ou talvez de desenhar, pintar… São muitas as possibilidades de fazer lindos presentes e ainda incentivar um merecido talento. E nós podemos ajudar com todo o processo de revisão, edição, design e impressão do livro, é só entrar em contato conosco! 🙂

[Marina Almeida]