A alma literária das nossas correspondências eletrônicas

Reencontros, novas e velhas amizades, namoros, pedidos de ajuda, desculpas… Quase todas as experiências que temos hoje produzem registros escritos em formato digital. Pense em seus e-mails, em seus posts de Facebook, nas longas conversas de WhatsApp.

Existe literatura nessas trocas de mensagens? A resposta pode ser controversa, mas é certo que esse tipo de material documenta com riqueza nossas vivências. Ele tem uma alma, composta por emoções, silêncios, medos, surpresas e alegrias.

A publicação americana The California Sunday Magazine abordou o tema em uma reportagem publicada no dia 04 de abril:

Boa parte da nossa comunicação acontece por meio da escrita, dos pequenos e grandes textos que escrevemos uns para os outros. Hoje, com as inúmeras ferramentas que nos permitem exteriorizar pensamentos em tempo real, cada um de nós se torna seu próprio biógrafo, produzindo registros íntimos do que se vive ao mesmo tempo em que as experiências acontecem.

Algumas pessoas abriram esses registros à publicação. Entre elas, dois estranhos que descobriram ser irmãos. Traduzimos, a seguir, o resumo da história e a troca de mensagens:

:: Dois estranhos que descobriram ser irmão e irmã ::

Yadira Izaguirre tinha 17 anos quando deu à luz seu primeiro filho – uma menina – em São Francisco (EUA), em 1965. Na época, ela morava com uma tia, que não permitiu que a jovem ficasse com o bebê. A criança foi entregue para adoção.

Mais tarde, Yadira se casou e teve mais três filhos – Marcos, Daniel e Raquel -, para quem ela falava abertamente sobre a filha mais velha. Em 2018, décadas após a morte de Yadira, Daniel se inscreveu em um serviço de testes genéticos e foi conectado a outra cliente – com quem, segundo o serviço, ele estava relacionado.

Daniel recebeu uma mensagem de Bianca Seed:

“Olá, a mãe da minha mãe tem exatamente a mesma história que a sua. Sua mãe veio para São Francisco quando chegou nos Estados Unidos?”

Ele ficou encarando a mensagem, atordoado, antes de responder:

Sim, minha mãe deixou a Nicarágua e foi criada por uma tia em São Francisco. Bianca, sua mãe pode ser minha irmã.”

Bianca colocou sua mãe em contato com ele.

28 de maio de 2018

LUCIANNA SEED:
Olá, Daniel.
Nasci em San Francisco em 8 de janeiro de 1965. O nome da minha mãe é Yadira Izaguirre. Eu fui colocada para adoção. Minha mãe tinha 17 anos. Estou muito curiosa para saber se temos a mesma mãe!!!

DANIEL RIVERA:
Oi, Lucianna.
O nome da minha mãe também é Yadira Izaguirre e ela foi criada pela tia Josephina. Meus irmãos e eu sempre soubemos que nossa mãe teve que desistir de seu primeiro filho e dá-lo para adoção. Parece que você é nossa irmã mais velha.

LUCIANNA SEED:
Meu Deus!!!! Estou maravilhada. Eu tenho um irmão!!! Você tem outros irmãos e irmãs?

DANIEL RIVERA:
Luci,
Você tem outro irmão, Marcos, e uma irmã, Raquel. Ambos moram em Ohio. Eu também tenho outras três meias-irmãs com quem cresci. Raquel e Marcos estão me mandando mensagens e querem se conectar com você também.

LUCIANNA SEED:
Estou sem palavras!!

A conversa migra para um grupo formado pelos irmãos.

29 de maio de 2018

LUCIANNA:
Olá, Daniel. Olá, Marcos! Olá, Raquel! Isso é tão surreal. Ainda estou em choque. Sou Lucianna (Luci). Não posso acreditar que este dia se tornou realidade. Eu tenho 2 irmãos e uma irmã !!!

RAQUEL:
Eu mal consigo me expressar em palavras. Você é uma conexão com a mamãe, e só por isso já é gratificante.

DANIEL:
Ficou difícil me concentrar no trabalho. Eu amo tanto todos vocês.

RAQUEL:
Não posso acreditar que isso está acontecendo.

MARCOS:
Eu não sou mais o irmão mais velho, hahaha. Falando sério, eu sempre pensava sobre onde minha irmã poderia estar. E aqui estamos.

Traduzido e adaptado de Re: re: re: re: A glimpse inside the lives of asylum-seekers, new couples, prisoners, and pen pals through their letters, texts, WhatsApp messages, and Facebook posts (The California Sunday Magazine).

Leia também:
Como transformar posts de redes sociais em livro


Você já pensou em transformar suas histórias ou correspondências em livro? Conheça o trabalho da Daria um Livro.

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Reaprendendo a caminhar: a história de Pedro Alves

Conheci Pedro no Caminho do Sertão. Enquanto caminhávamos por dezenas de quilômetros – eu calejando os pés, e ele calejando também as mãos, do aperto firme nas muletas –, ele me ensinava a ter tranquilidade para enfrentar os desafios da estrada e da vida. Esta é sua história:

 

Pedro por Patrícia Pacheco
Pedro Alves e seus recomeços. Foto: Patrícia Pacheco

Aos 32 anos, Pedro Alves estava casado, tinha filhos e trabalhava como vigia noturno numa empresa. Naquela altura, ele já tinha superado a dureza do trabalho infantil no campo – onde ajudava os pais no plantio de milho, mamona e feijão desde os 7 anos de idade, muitas vezes trocando a escola, a 5 km de caminhada, pela enxada sob o sol quente de Irecê (BA). Mas no dia 20 de maio de 2011, durante seu expediente, um disparo atravessou o caminho, e também sua perna esquerda. Calibre 12. “Eram cerca de 22h30 e eu vi a morte na minha frente”.

Pedro estava perdendo muito sangue, e com ele os sentidos, mas conseguiu se arrastar até o telefone para pedir socorro. Ele ainda se lembra do foco de luz da viatura da polícia que chegava, como uma esperança a se agarrar.

A noite foi longa. O hospital local não tinha as condições necessárias para atendê-lo e foi preciso fazer sua transferência para uma unidade maior. Quando chegou ao hospital de Campina Grande, a 450 km de São Bento (PB), onde vivia, já passava das 5h da manhã. Apesar de suas condições, as lembranças de Pedro ainda são nítidas: “pedi ao médico que colocasse minha perna no lugar. Não acreditei quando acordei da cirurgia e vi que ela não estava mais lá”.

 

Recomeços

Três dias depois, ele estava de volta à sua cidade, mas recomeçar foi difícil. Ele tinha perdido uma perna, o emprego e o rumo. “Minha esposa tinha vergonha de ser vista comigo, andando com uma perna só. Meu casamento acabou e muitas pessoas, ao me verem sozinho, acharam que seria meu fim.”

Pedro chegou a conseguir um novo emprego, de garçom, em uma churrascaria. “Mesmo com uma perna só eu atendia os clientes, mas ainda não estava bem. Foi quando resolvi sair pelo mundo à procura de novos horizontes.” Ele tinha uma irmã morando em Uauá, no norte da Bahia, e foi visitá-la por alguns dias.

Andando pela nova cidade, na região de Canudos e Monte Santo, parou para ouvir um artista local que se apresentava na rua. Foi quando algo inesperado aconteceu: “soltei as muletas e fui dançar no meio da praça – coisa que, quando eu tinha as duas pernas, eu não fazia! As pessoas foram se aproximando para ver… O músico parou de cantar para observar enquanto eu dançava, depois disse que aquilo era um exemplo de vida.”

Ali Pedro percebeu, pela primeira vez, que poderia recomeçar sua vida em Uauá. Alugou uma casa e começou a trabalhar na rádio comunitária Luz do Sertão, como locutor de um programa romântico e também como repórter cidadão pelas ruas da cidade.

É onde vive até hoje, apesar dos desafios que continua a enfrentar. “Amo o que faço, mas não ganho quase nada com isso. Do INSS são R$ 480, mas às vezes cortam o benefício e demora até conseguir restabelecê-lo, e só de aluguel são R$ 250. É difícil.”

Lutando a batalha de todo dia para viver num país como o Brasil e com uma deficiência física, Pedro buscava um sentido para sua trajetória. Ele conta que um dia estava na rádio quando ouviu sobre a Caminhada dos Umbuzeiros, um trajeto de 55 km a serem percorridos em três dias pelo sertão baiano. “Senti que era uma oportunidade para eu me redescobrir, liguei e me inscrevi. Queria ver até onde eu podia ir, qual era meu limite físico. Eu queria desafiar a mim mesmo, saber para que fiquei vivo depois de perder minha perna.”

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Nas caminhadas, Pedro supera limites e descobre novos horizontes para sua vida. Foto: Patrícia Pacheco

No dia da caminhada todos se surpreenderam ao conhecer Pedro pessoalmente e descobrir que ele usava muletas e não tinha uma perna. “Alguns caminhantes disseram que eu iria dar trabalho para eles durante o percurso. O maior desafio foi eu acreditar em mim mesmo e passar essa crença para as pessoas que estavam comigo. Tive medo, não vou dizer que não tive. Tive medo de desapontar a mim mesmo.” Mas Pedro conseguiu. E ali algo começou a mudar.

“Conseguir chegar foi um sonho realizado, o melhor presente da minha vida foi ter completado o percurso da Caminhada dos Umbuzeiros. Ali eu percebi que poderia ir muito mais além. Meu maior desafio não era nem a caminhada em si, era eu ter uma vida… normal.”

 

Atleta

Empolgado com a experiência, Pedro se inscreveu depois no Caminho do Sertão. O percurso – 180 km pelo noroeste mineiro – assustou-o, mas mesmo assim resolveu tentar e conseguiu completar a maior parte do trajeto.

Animado com as conquistas, ele participou de uma mini-maratona de 10 km e depois foi até São Paulo para a São Silvestre de 2017. “Tinha 18 pessoas na categoria deficiente por amputação da perna e eu cheguei em sexto lugar. Foi uma felicidade sem tamanho”.

Em 2018, aos 39 anos, ele voltou ao Caminho do Sertão para completar o trajeto incluindo o que faltava: o Morro do Fogo, com 3,5km de subida e depois descida, e o Vão dos Buracos, uma trilha estreita e íngreme que pede a subida em 4 apoios em alguns trechos.

“Tive medo, mas a vontade de vencer foi maior que o meu medo”.

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Com força e persistência, Pedro atravessa o sertão. Foto: Patrícia Pacheco

Foi nessa caminhada que conheci Pedro. Enquanto caminhávamos – eu calejando os pés, e ele calejando também as mãos, do aperto firme nas muletas –, ele me deu conselhos sobre ter tranquilidade para enfrentar os desafios.

Pedro pretendia voltar à São Silvestre em 2018, mas não conseguiu os recursos para a viagem – ele não tem nenhum apoio institucional, apesar de ter a resistência de um atleta. Em 2019, ele vai tentar novamente.

“Tudo isto tem servido para eu ser grato a Deus. Podemos pensar que estamos entregues, mas ainda conseguimos enxergar um novo horizonte. Esta é minha história”.

***

Mais sobre o Caminho do Sertão

E meu relato pessoal sobre a caminhada: Pelos caminhos do Grande Sertão: Veredas

[Por Marina Almeida]

Entre Abismos – Aventura no Carstensz

mockupAtravessar o mundo para enfrentar dias de caminhada em meio a selva e lama. Com o corpo dolorido, após noites mal dormidas, ainda encarar uma escalada de quase 800 metros e andar sobre uma crista de montanha escorregadia, com abismos despencando pelos dois lados. O médico brasileiro Rafael Scanavacca relata essas experiências no livro Entre Abismos – Aventura no Carstensz, publicado pela Editora Extremos.

Fizemos o trabalho de revisão e preparação de texto para o livro, o segundo publicado por Rafael. A seguir, o depoimento do autor sobre nosso trabalho:

“Fiquei muito satisfeito. Os ajustes e sugestões não descaracterizaram minha linguagem original. O trabalho foi realizado de maneira tranquila, dentro do prazo combinado e sempre aberta a conversas – me senti muito à vontade para apontar os caminhos que preferia seguir. Eu certamente indicaria a Daria um Livro para trabalhos de revisão e preparação de texto.” (Rafael Scanavacca)

O livro amarra experiências vividas por Rafael no Nepal – onde ele presenciou o trágico terremoto de 2015 – e na Papua, província da Indonésia onde está localizada a Pirâmide Cartensz, montanha mais alta da Oceania e parte do projeto Sete Cumes.

Rafael Scanavacca conquistou o cume do Cartensz ao lado de montanhistas como Eduardo Sator Filho, Carlos Santalena e Thais Pegoraro –  ela, aliás, bateu naquele momento o recorde brasileiro de escalada dos Sete Cumes e assina o prefácio da obra.

Leia alguns trechos do livro Entre Abismos:

O terremoto de 2015 no Nepal

“Eu estava sentado na calçada de uma viela estreita quando senti um impacto que me empurrou para cima e me deixou em pé. Os prédios balançavam e tremiam, o chão se movia instável sob meus pés, como se eu tentasse me equilibrar numa placa de madeira sobre um rio. Por vezes tudo balançava de um lado para o outro, como se eu estivesse no convés de um navio atravessando um mar em tormenta. Pedaços de tijolos se desprendiam dos prédios e caíam à minha volta enquanto eu tentava me reequilibrar. Fiquei em pé e novamente fui jogado ao chão, vendo o asfalto da pequena rua se partir ao meio – uma rachadura foi se formando e percorrendo toda a sua extensão. Pessoas corriam desesperadas de um lado para o outro, tropeçando e se desequilibrando. Outro tijolo caiu muito perto de mim e se espatifou no chão, desfazendo-se em pó e pedaços. Era um aviso de que eu não podia ficar ali parado. Novamente fiz um esforço para me equilibrar, fiquei em pé e entrei numa pequena loja com a porta aberta para a rua. Uma mulher desesperada abraçava uma criança de cerca de cinco anos de idade, que berrava enquanto os pequenos suvenires empilhados nas prateleiras balançavam e vinham ao chão, mostrando que aquele também não era um lugar seguro. Voltei para o lado de fora e reencontrei ali meu amigo Gustavo Villa. Olhamos apavorados um para o outro e, com o pingo de racionalidade que nos restava, nos perguntamos: ‘o que a gente faz?’. Fomos nos arrastando em meio ao tremor pelo chão de asfalto, que mais parecia uma maré, e nos sentamos no meio da rua, tentando ficar o mais longe possível dos humildes e pequenos prédios de Katmandu e seus tijolos à mostra – e quem sabe minimizar o risco de algo cair sobre nossas cabeças. No fim da rua, um prédio cedeu e levantou uma grande nuvem de pó, como em uma implosão.  Ao me sentar, parei de brigar com o tremor, fiquei apenas observando e pensei: ‘meu Deus, estamos no meio de um terremoto’.”

A escalada da Pirâmide Carstensz

“Às 3h30 da manhã comecei a ouvir sons de pessoas se revirando dentro das barracas, pegando equipamentos e acendendo lanternas. Estava cansado, não tinha conseguido pregar o olho um minuto, na expectativa de como seria a escalada. Enquanto isso, meu companheiro de barraca, Carlos Mussoi, dormia o sono dos justos e roncava, com sua missão já concluída. Eu sabia que estava a um dia de concretizar um sonho e finalizar uma jornada que tinha relevância no mundo da escalada. Quantos escaladores mais experientes e dedicados do que eu não sonham em ter a oportunidade de escalar o Carstensz? E eu estava ali, deitado aos seus pés, a um dia de seu cume. A expectativa de como seria a escalada me deixava eletrizado, e o perigo que a cercava parecia tornar tudo mais real: a textura da rocha, a arquitetura da montanha, o perfil das nuvens. Tentava não imaginar o momento de chegada ao cume, para não dar azar. Sabia que seria uma subida difícil, que era um novato tentando acompanhar montanhistas experientes. Sabia que, apesar dos equipamentos de segurança, há sempre um perigo real.

(…)

Eu tinha dormido – ou, melhor, descansado – praticamente pronto, com casacos, luvas e equipamentos. Não queria perder tempo. Juntei-me ao grupo e vesti minha cadeirinha, conferindo as outras ferramentas de escalada: ascensor, freios e mosquetões. Em pouco tempo estávamos todos prontos. Havia silêncio, tensão e seriedade no ar. Ainda era noite e, sob a luz de nossas headlamps, fizemos um círculo e uma breve oração em respeito à montanha. Que ela nos deixasse escalar e nos permitisse voltar a salvo no fim do dia. Fizemos alguns minutos de silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos e motivações.

Saímos rumo ao Carstensz.

(…)

Logo começou a amanhecer e a crescente claridade foi revelando a imensa parede de pedra escura e vulcânica, sob o céu nublado e chuvoso da Papua. Caía uma fina garoa. Ao redor, eu podia ver os picos sem nome que se erguiam e pareciam maiores e mais ameaçadores do que antes. Ao lado, uma construção colossal, muito maior do que uma cidade e com aspecto feio e industrial. Também via um enorme buraco perfurado no chão em meio a camadas e camadas de terra e pedras reviradas, e um rio cor de lama esbranquiçada. Era a mina de ouro, uma presença incômoda e que destoava da paisagem.

A escalada foi se tornando cada vez mais íngreme e exposta e às vezes fazia minha cabeça rodopiar. Sob meus pés, a parede despencava por 400 metros; para cima, elevava-se com autoridade por 370 metros em direção à crista.”

Ocupação Antonio Candido: pensar a literatura, pensar a vida

O que perdemos ao abrir mão da literatura em nosso dia a dia? Ao encarar Machado de Assis, Clarice Lispector e outros grandes nomes apenas como tópicos enfadonhos de um currículo escolar burocrático?

ant-candido.jpgPara o crítico literário e professor universitário Antonio Candido (1918 – 2017), “negar a fruição da literatura é mutilar nossa humanidade”. Afinal, os livros organizam sentimentos e visões de mundo, ajudando seus leitores a encontrar uma saída para o caos externo e interno. Colocar a literatura num pedestal de acesso restrito contribui apenas para manter os privilégios de poucos.

Facetas várias e entrelaçadas

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Na obra e na vida de Antonio Candido, a produção acadêmica, a docência e a busca por justiça social andam juntas. É o que mostra a Ocupação Antonio Candido, em cartaz no Itaú Cultural, em São Paulo.

Painéis, vídeos, fotografias, recortes e objetos apresentam a variedade dos trabalhos de Candido. Em cópias de seus manuscritos, o processo de (re)escrita vem à tona: trechos riscados, a busca pela palavra mais precisa, ideias sendo reorganizadas… Afinal, não existe reflexão verdadeira sem autocrítica.

Num documento da época em que Candido era estudante (e já leitor voraz de grandes obras), descobrimos uma nota 7 em Português. Não seria uma prova de que a literatura e a reflexão são muito maiores do que um boletim escolar?

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O boletim de Candido quando estudante
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Dedicatória de Guimarães Rosa a Antonio Candido

Ocupação Antonio Candido
Até 12 de agosto.
De terça a sexta, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h.
Itaú Cultural (Av. Paulista, 149. São Paulo, SP).
Entrada gratuita.
Saiba mais em http://www.itaucultural.org.br/ocupacao/antonio-candido/



Leia também:

Literatura como direito humano: arte, educação e justiça social se entrelaçam na Ocupação Antonio Candido | Escrevendo o futuro

[Por Flávia Siqueira]

 

 

 

Oficina na escola: uma conversa sobre escrita e jornalismo

oficinanaescolaPor que escrever? Como colocar as ideias no papel? Quais as características da escrita no jornalismo e na literatura? Estivemos no dia 22 de maio na escola Luciane do Espírito Santo, na zona leste de São Paulo, para conversar com os alunos do terceiro ano do Ensino Médio sobre questões como essas.

Chegamos até lá por meio da iniciativa Quero na Escola, que conecta alunos da escola pública à comunidade externa. Os estudantes divulgam suas demandas – por palestras, oficinas, atividades – e voluntários se apresentam para atendê-las.

Começamos a conversa abordando nossas motivações para escrever: organizar ideias, memorizar e enxergar melhor as coisas do mundo e a nós mesmos. O escritor Hélio Pellegrino afirma que escrever é nascer – ou seja, dar-se conta da própria humanidade e, com ela, da própria finitude.

As boas histórias não estão apenas nos acontecimentos grandiosos, mas também nas situações do dia a dia, nas repetições, nos lugares simples. Escrever é colocar uma lupa sobre os detalhes da vida e, com isso, expandir nossa compreensão sobre o mundo e nosso universo interior.

Exercício de atenção
Vivemos tantos de nossos dias no automático: acordar, cumprir nossas rotinas da mesma forma, transitar pelos mesmos lugares sem prestar muita atenção à nossa volta. Se você olhar bem, fará descobertas mesmo naqueles locais por onde passa há anos.

Uma forma de sairmos desse “modo automático”, mesmo que apenas por alguns instantes, é realizar atividades simples de maneira mais lenta e com foco no momento – a chamada atenção plena.

Tente passear pelas ruas do seu bairro observando as casas, os comércios, as pessoas, os sons que se sobrepõem – procurando colocar sua atenção em uma coisa por vez. Ou tomar um copo de água em dez ou quinze minutos: observe bem a sensação de segurar o copo, a temperatura da água, os sabores sutis.

Nossa proposta aos alunos foi comer um biscoito de maneira lenta: qual a textura? Qual o cheiro? Que lembranças ele evoca? Há sabores em camadas? E será que o biscoito é mesmo tão bom quanto imaginávamos ou como vendia a embalagem? Por fim, que textos poderiam nascer dessa experiência?

Jornalismo
Os estudantes compartilharam seus hábitos de escrita – poemas, diários, recados, lembretes – e quiseram saber mais sobre o curso de jornalismo e o dia a dia profissional.

Conversamos sobre como a profissão mudou muito (e muito rápido) nos últimos anos: muitos veículos impressos deixaram de existir, redações foram reduzidas, ainda não existem fórmulas seguras para “fazer dinheiro” com jornalismo na internet. Muitas vezes falamos em “crise” na profissão, mas o ideal talvez seja chamarmos de transição: quem está na área ou pretende entrar nela deve estar disposto a pensar em novas alternativas e formatos inéditos. Há muito a ser construído.

Além disso, em meio à atual profusão de notícias falsas, temos muito a ganhar com a difusão dos princípios éticos e do senso crítico que sempre acompanharam o (bom) jornalismo.

De novo, é preciso sublinhar a necessidade de atenção: resista por um momento à tentação do botão “compartilhe”, reflita um pouco e questione as informações que você vê nas redes sociais – ou mesmo nos veículos de mídia profissionais. O que está sendo dito e não dito? De onde vêm os dados e as conclusões apresentadas? Qual é a fonte e qual sua credibilidade? Existe um autor que se responsabiliza por aquela informação? Que interesses estão em jogo?

Agradecemos aos professores e alunos da Escola Estadual Luciane do Espírito Santo e à iniciativa Quero na Escola pela oportunidade de trocar tantas ideias e aprendizados. A construção de um mundo mais justo, aberto e livre começa pela educação.


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Como transformar posts de redes sociais em livro

Tenho uma amiga que publica com frequência pequenas crônicas de seu cotidiano nas redes sociais – texto bem escrito, olhar apurado e bem-humorado para as pequenas aventuras do dia a dia. Ela, que é também uma grande leitora, nunca havia levado a sério minhas sugestões de que guardasse seus textos também fora das redes sociais de algoritmos desconhecidos e regras que sempre mudam sem nosso prévio conhecimento. Foi quando tive a ideia de reunir seus textos num pequeno livro. Quando entreguei o presente ela ficou muito surpresa: disse que não imaginava que já tinha escrito tanto e que nem se lembrava mais de algumas histórias registradas.

Grande parte do trabalho foi encontrar seus textos entre as fotos, notícias e outras publicações que postamos diariamente em nossas redes. Daí que minha primeira sugestão para todos que gostam de escrever e postar nas redes sociais – sejam crônicas, pequenas histórias cotidianas, frases engraçadas dos filhos ou comentários políticos, econômicos ou sociais mais elaborados – é: guardem também num arquivo pessoal seus textos, pois muitos podem se perder nesse processo. Como eu disse a ela, queria um livro que fosse inspiração e também espelho, em que ela pudesse se reconhecer, para incentivá-la a continuar escrevendo e, quem sabe, um dia publicar suas histórias para mais pessoas. Acredito ter conseguido alcançar meu objetivo.

Reunidos os textos, meu próximo passo foi organizá-los, fazer o sumário e o prefácio (onde escrevi minha dedicatória). Em seguida, cuidei da diagramação dos textos, design da capa, impressão, encadernação… Pronto: tinha um livro de 60 páginas, inédito e muito pessoal para presenteá-la.

E vocês, já olharam para as publicações de seus blogs e redes sociais e pensaram neles como o início de algo maior, mais perene? Ou procuram um presente especial para um familiar ou amigo que gosta de escrever? Ou talvez de desenhar, pintar… São muitas as possibilidades de fazer lindos presentes e ainda incentivar um merecido talento. E nós podemos ajudar com todo o processo de revisão, edição, design e impressão do livro, é só entrar em contato conosco! 🙂

[Marina Almeida]

Palestra na escola: olhar crítico para as notícias

Num momento de grande disseminação de notícias falsas pelo Brasil e pelo mundo –manchando reputações, influenciando o eleitorado e colocando vidas em risco –, ficamos muito felizes com o convite para uma palestra sobre fake news para os alunos da Escola Estadual Murtinho Nobre Doutor, na zona sul de São Paulo.

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A partir de nossa experiência em redações impressas e digitais e de nossa formação em jornalismo, elaboramos um guia sobre como descobrir se uma notícia é falsa e os riscos de se compartilhar publicações mentirosas.

Começamos a apresentação relembrando o caso do linchamento de Fabiane Maria de Jesus, no Guarujá (SP). O crime aconteceu após uma página de Facebook ter disseminado a falsa notícia de que haveria uma mulher sequestrando crianças no bairro de Morrinhos.

Como mostramos aos alunos do ensino médio da escola, notícias com tom muito alarmista, apelo a emoções fortes (como raiva e indignação) e referências a teorias conspiratórias devem ligar os primeiros sinais de alerta de que aquela informação talvez não seja verdadeira. Frases como “ABSURDO!” e “COMPARTILHE ANTES QUE APAGUEM”, escritas geralmente em letras garrafais, são algumas das expressões mais usadas por essas publicações.

Mesmo nos casos em que a publicação mentirosa busca imitar uma notícia de verdade, dificilmente a informação resiste a um olhar mais crítico e a uma apuração básica de informações – que pode ser feita a partir de ferramentas simples, como uma busca na web pelos principais termos citados no texto. Sites como E-farsas e Boatos.org desmascaram há anos mentiras compartilhadas em correntes de e-mail, redes sociais e – mais recentemente – grupos de Whatsapp.

Também sugerimos o acompanhamento de veículos de checagem e aprofundamento, como o projeto Truco (Agência Pública), a Agência Lupa, o Nexo Jornal, o site Me explica? e editorias de verificação de portais como o UOL e o G1.

Também conversamos um pouco sobre como ler de forma mais crítica os veículos tradicionais de informação: é preciso conhecer seus principais anunciantes e a linha editorial de cada um deles. Na chamada “grande mídia”, embora existam esforços para não publicar informações mentirosas, o direcionamento e a parcialidade se constróem em torno de elementos mais sutis: na definição das pautas, na inclusão de certos entrevistados e na exclusão de outros, na escolha de palavras.

Foi muito gratificante falar sobre o assunto com os jovens e ficamos honradas com o convite e a confiança dos professores da escola. Acreditamos que o desenvolvimento de uma leitura mais crítica e a discussão sobre a forma como nos informamos são fundamentais para a construção de uma sociedade melhor.

[Flávia Siqueira e Marina Almeida]

 

Vingança e injustiça: de quantas dores é feito um rio?

capaNo reino das palavras, os poemas esperam calmamente o momento em que serão escritos, dizia Drummond. Acredito em algo parecido quanto aos romances, que algumas tramas já existem e aguardam que alguém as desenlace com as palavras certas para que possam finalmente ganhar vida. Ao ler O rio de todas as nossas dores (2017) essa ideia me veio novamente à mente. A obra fala sobre uma vingança que se alimenta de uma das muitas injustiças sociais surgidas no período militar brasileiro. Se ainda estamos longe de acertar nossas contas com esse passado ao contrário, continuamos produzindo esse tipo de ação violenta , desta vez, ao menos, essa história foi finalmente escrita. Um passo importante para nos fazer lembrar dessas histórias e suas implicações futuras.

O livro fala ainda de histórias que não costumam ser contadas, lugares geralmente esquecidos, dos trabalhadores em suas lutas diárias, da vida que se leva do jeito que dá enquanto tudo acontece. E se às tensões do cotidiano soma-se o suspense da trama, outros momentos de grande lirismo nos lembram que, apesar de tudo, nunca se atravessa duas vezes o mesmo rio: são outras as águas, outras as dores.

A obra traz uma narrativa não convencional, em que os tempos se mesclam e pensamento e ação misturam-se, sem, no entanto, comprometer a fluência da narrativa. Já as situações inusitadas, o clima de suspense que permeia todo o livro, e ainda algumas doses de humor, garantem uma leitura fácil e envolvente.

O livro é uma publicação independente do jornalista João Caetano do Nascimento, que atua nos movimentos culturais e sociais na Zona Leste de São Paulo desde a década de 1970 e ficou entre os finalistas do Prêmio SESC de Literatura de 2011 com seu primeiro romance, não publicado.

O rio de todas as nossas dores pode ser adquirido diretamente com o autor ou pelo site da editora Expressão Popular: https://expressaopopular.com.br/loja/produto/o-rio-de-todas-as-nossas-dores/

O  rio de todas as nossas dores
Romance, 2017: 230 páginas; R$ 30,00
Edição do autor – João Caetano do Nascimento
Ilustração de capa – Rodrigo Martins

[Marina Almeida]

Documentos de família revelam história secreta

O remanescente (Cia. das Letras) é uma história de perda e de reinvenção de si. É também a história de um neto que, ao vasculhar as gavetas dos avós, descobre fotografias, cartas e documentos que revelam a trajetória de sua família. O mergulho na vida de seus antepassados, dessas pessoas com quem conviveu, mas que até então não tinha sido capaz de compreender, deu origem ao livro em que Rafael Cardoso conta suas descobertas.

Seus avós, um alemão e uma judia, chegaram ao Brasil fugindo do holocausto e da perseguição nazista. O país, no auge do Estado Novo, ainda flertava com os alemães, e por isso seus avós se protegeram sob uma nova identidade. O autor lembra que os avós nunca falavam sobre assuntos de guerra e exílio: “talvez porque não quisessem repassar os traumas para os netos. Talvez porque nunca os tivessem superado”. Foi só aos 16 anos que Rafael descobriu que tinha ascendência alemã e judia, e só muitos anos depois ele resolveu pesquisar essa história a fundo.

Nesse mergulho, o autor chegou à história de seu bisavô, Hugo Simon, que foi banqueiro e ministro de Finanças da Prússia, socialista, mecenas e colecionador de arte. Pacifista, junto com seu amigo Albert Einstein, ele fundou um movimento que deu origem à liga alemã pelos direitos humanos. Uma história só recuperada agora, quase 80 anos depois.

Você conhece as histórias de sua família? Quais os segredos guardados pela trajetória de seus pais e avós que podem estar se perdendo com o tempo? Registrar essas histórias em livros pode revelar muitas surpresas e garantir que esse legado chegue às futuras gerações. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando a preservar suas memórias.

[Marina Almeida]

Mente mais velha, mente mais cheia

brain-2750453_1280A ideia de que nossas capacidades cerebrais se deterioram com o envelhecimento é uma das mais cristalizadas na medicina e no senso comum. De fato, pessoas mais jovens costumam se sair melhor em testes de memória e velocidade de raciocínio aplicados por pesquisadores. Mas será que isso é suficiente para associar aos mais velhos a ideia de menor capacidade cerebral? As coisas podem ser bem mais complexas do que isso – e elas geralmente são.

Um artigo científico publicado por linguistas da Universidade de Tübingen, na Alemanha, aponta que a “mente mais velha” na verdade é uma “mente mais cheia” – cheia de memórias, vocabulário e conhecimento. E procurar algo específico dentro dessa mente é (naturalmente) mais demorado do que dentro de um cérebro mais jovem, com menos “conteúdo”.

Outro ponto importante é o formato dos testes de capacidade de raciocínio mais tradicionais. Pessoas mais velhas costumam ter menos motivação diante de jogos de memorização e atividades estressantes – o que está relacionado com a tendência que temos de, com o passar dos anos, produzir e aprender mais facilmente com estímulos positivos do que negativos.

“Como a maior parte das pesquisas solicitam que os participantes se relacionem com estímulos neutros ou negativos, esse paradigma tradicional pode colocar os mais velhos em desvantagem”, explica um dos autores do artigo.

Então, diante da dificuldade para se lembrar de uma palavra, olhe pelo lado positivo e diga a si mesmo: “não é que estou ficando mais devagar, é que eu sei demais!”.

[Traduzido e adaptado de The Older Mind May Just Be a Fuller Mind – New York Times]

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