Objetos de memória

Quando minha avó chegou ao Brasil com minha mãe, trouxe, no navio, um baú de ferro e madeira. Quando eu era criança, fazia de conta que aquele era o baú de um tesouro pirata.

Eu gostava de abrir a caixa pesada e ficar remexendo nas coisas que estavam dentro dela. Brincava que eram meus tesouros, embora nada ali se parecesse com as moedas de ouro e as joias que eu via nos filmes de pirata.

A verdade é que só hoje eu consigo perceber que aquele baú realmente guardava – e guarda – alguns dos tesouros da minha família.

Nosso baú está cheio de tecidos: toalhas, colchas, panos bordados, retalhos diversos. Minha avó costurava, e cada pedaço de pano ali tem uma história. Entre eles, uma toalhinha feita do linho que minha própria bisavó plantou, colheu, lavou, fiou, teceu e costurou. Tudo feito em casa por mãos que nunca cheguei a conhecer, mas que se comunicam comigo não só pelo desenho de minhas digitais, mas pelo toque de seu trabalho manual.

No baú também está uma colcha de frio feita com a lã dos carneiros que minha família criava em Portugal.  E alguns dos retalhos de pano comprados por minha avó na feira, já aqui no Brasil – tecidos que, com muita criatividade, foram transformados em peças de roupa para toda a família, e sem nenhum remendo visível, como até hoje todos se orgulham de lembrar.

Também estão lá os bordados da minha mãe, a renda fina da Ilha da Madeira dada pela vizinha em troca de um empréstimo num momento de necessidade…

Alguns objetos podem guardar parte da nossa história. Os trabalhos manuais são recordações que nos permitem tocar as mãos de outras gerações. E não precisam ser coisas grandiosas ou caras – importa apenas que nos ajudem a contar, sentir e ver um pouco da história que fez nossa vida ser o que é. Ainda quero aprender a tecer algo com as mãos, para dar minha contribuição ao nosso baú.

E você? Que objetos contam sua história?

E já pensou em transformar a história de sua família em livro? Conheça nosso trabalho.

[Marina Almeida]

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Dica de leitura: Alice Munro

alicemunro_livroDica de leitura: você conhece Alice Munro? A canadense é a primeira autora de contos a conquistar o Nobel de Literatura – prêmio recebido por ela em 2013.

No livro O amor de uma boa mulher (Companhia das Letras, 2013), viajamos com a escritora para pequenas cidades do interior do Canadá e conhecemos os detalhes de seu cotidiano e da vida de mulheres dali, em histórias que se passam entre os anos 1950 e os dias atuais.

As personagens, muitas aspirantes a artistas, buscam seu espaço em um mundo que as relega a posições marginais, de caminhos estreitos e limitados, ora subvertendo-os, ora dobrando-se para se encaixar neles.

A riqueza das descrições e o olhar intimista para o interior das personagens, aliados a um texto de linguagem clara, garantem um mergulho profundo em cada uma de suas histórias.

Recomendamos! 🙂

CPTM ou Aconteceu no trem

O rapaz, de no máximo 25 anos, entra pela porta que divide os vagões do trem:

— Olá, pessoal, tô aqui pedindo uma ajuda de vocês pra comprar uma mercadoria nova pra vender, porque o segurança levou a que eu tinha lá na primeira estação… É sério, pessoal, não tô querendo enganar vocês, não. Eu perdi toda a minha mercadoria. Tenho três filhos em casa que precisam comer. Uma ajuda pra comprar mercadoria nova… Uma ajuda… Qualquer dez centavos…

Ele vai até o fim do vagão e volta, agitando nas mãos algumas moedinhas. Desiste — deste vagão vazio não vai sair muita coisa — e senta-se em um dos bancos, de frente para dois meninos que já estão ali há algum tempo. O menor deve ter uns sete anos; o maior, dez.

O garoto menor olha para o rapaz e sorri:

— E aê?

— E aê, menor! — o rapaz responde. — Que que cê tá fazendo aqui?

— O mesmo que você! — o menino alarga o sorriso, orgulhoso.

— Vendendo?

— É.

— Faz isso não! Cês têm é que ir pra escola, estudar, pra depois ganhar bastante dinheiro, ficar rico…

— É que a gente tá de férias…

— E cês passaram de ano?

— Aham…

— Mas passou empurrado, né?

— Não foi empurrado, não! – diz o menino mais velho. – Tô no quinto ano agora.

— Quinto ano! Não para, não, hein. Vai estudando… Tem que estudar pra ganhar dinheiro! Porque isso aqui não é vida, não. Um dia cê ganha e no outro cê perde… Olha eu aqui! Tomaram minha mercadoria… E cadê o pai e a mãe de vocês? Cês tão sozinhos?

Eles fazem que sim com a cabeça.

— Fica esperto, menor! Fica esperto! Que se os hómi pegam vocês, levam pro juizado… Fica esperto! Vai pra casa! — ele olha para os pés do menino menor. — E por que cê tá descalço? Não tem sapato, não?

— Não. E esse tênis aí? Vou comprar um igual…

— Isso aqui é falsificado — o rapaz se levanta. — Não cai nessa vida, não, menor!

Ele desce na estação seguinte, enquanto os meninos se escondem, rindo, debaixo de um banco. Na plataforma lá fora, homens de uniforme marrom e boina passam rentes à janela.

As portas se fecham, o trem sai. A pequena dupla se levanta e comemora, pulando e se pendurando nas barras de metal:

— Vixe! Quase que pegam a gente!

O garoto de dez anos corre até a porta e encosta a bochecha no metal. Assopra e vê um pedaço do vidro se embaçar.

— Já é a próxima que a gente desce, né?

— É. Mas eu não quero ir pra casa, não.

[FLÁVIA SIQUEIRA]


 

Transformamos suas histórias de vida em livro. Conheça nosso trabalho aqui na Daria um Livro.

Microcontos de Ano Novo

A cor da roupa

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Acabava o ano, começavam a correria, os amigos secretos e happy hours e festas de firma e embarques em navio e malas sendo feitas e telefonemas e brigas familiares de última hora.

Onde vai passar a virada?

Com que roupa?

Branco é paz, amarelo é dinheiro, verde é esperança, vermelho é amor… Já tentara todas aquelas cores, mas, sinceramente, nunca notava muita diferença nos meses que se seguiam. Por isso, neste ano iria passar de blusa preta de banda, calça roxa, calcinha laranja, meia xadrez e um treco brilhante na cabeça. Quem sabe assim atrairia o diferente de fato, a revolução, a ousadia, a epifania.

Na véspera do Réveillon, teve a mala extraviada na rodoviária. Alguma confusão de malas trocadas por causa de um passageiro que tinha subido no ônibus errado e que precisou descer de última hora para esperar o ônibus das 11h46, e não das 11h38. O homem acabou ficando com a mala preta dela – muito parecida com a dele.

Então, passou a virada de ano com um vestido cinza da prima – a única coisa do guarda-roupa dela que lhe servira.

E assim começava o melhor ano de sua vida.

Fogos ao longe

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Crescera num bairro ao lado de um pólo petroquímico. Gigantesco, praticamente uma cidade em si, com seus próprios dormitórios, hospitais e tragédias. Um mar de torres prateadas durante o dia e douradas durante a noite. Douradas por causa das luzes que subiam e criavam uma aura imensa e amarela, assustadora e bonita, às vezes fumacenta, às vezes tão clara a ponto de deixar perceptível a textura do metal.

O bairro era pobre e não havia ali fogos de artifício como os que se via na televisão. O que havia eram rojões e bombinhas tão barulhentas que estremeciam a janela. Para os ouvidos de uma criança, era um tormento, reduzido de leve por chumaços de algodão que a avó lhe colocava nas orelhas.

À meia-noite, a família se reunia diante da janela do quarto, que oferecia a melhor visão das torres da petroquímica. Atrás delas, na direção do centro da cidade, subiam fogos por uns 15 minutos. Pequeninos, mas muito coloridos. Gostava de como eles se misturavam ao dourado da petroquímica – aquele mundo enorme e misterioso.

Não queria estar em outro lugar.

O melhor Ano Novo da vida

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Os fogos estouravam sobre o mar. Chuvas de cores que se espalhavam e se desfaziam e que logo se cobriam umas às outras e, mal você se admirava com a cor azul brilhante, logo já estavam lá também o vermelho, o amarelo, o laranja, o verde, o azul de novo, e o barulho dos estouros e gente falando e gritando e rindo e chorando e bebendo e se abraçando e se beijando, e deixou que tudo aquilo se tornasse um transe, uma viagem mental colorida e anestésica.

O turbilhão foi diminuindo.

As pessoas se acalmando.

Os fogos acabando.

Passou. Ficaram alguns gritos isolados e uma leve fumaça branca. Era 1º de janeiro e tudo parecia já ter voltado ao normal. O ano começava. Tão rápido.

Os fogos foram bonitos, sim. Muito agradável a experiência de ficar praticamente bêbada com as cores dos fogos…

Mas não havia sido suficiente para assumir o lugar de melhor virada de ano da vida.

O título continuava com o ano novo de 15 anos atrás, passado em casa, ouvindo música, comendo pizza congelada, tomando vinho e ao lado de seu cachorro, o Zeca. Um momento cheio de tranquilidade, em que percebeu que gostava da própria companhia. Os gritos que vinham da rua e dos apartamentos vizinhos eram suficientes para lhe dar a certeza de que não estava sozinha.

Na época, quando contava para os amigos como havia sido sua virada de ano, logo via nascer em seus rostos uma expressão de pena. “Por que você não veio passar com a gente aqui em casa?”. Ela explicava que estava tudo certo, que tinha sido ótimo. Ninguém se convencia.

Tudo bem – bastava que aquela verdade ficasse apenas entre ela e a vida.

Seu Chico: histórias para não esquecer

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— Você que tá aí tem férias, não tem? Tem sua folga… E de premero não tinha férias e descanso nem de 5 minutos. Eu mesmo não tive. Sabe como era o descanso? Era capinando no meio do mato. De premero não tinha tempo de conversar um com o outro assim como eu tô conversando c’ocê. Hoje em dia tá bom demais.

Na rua quase sem movimento de meio de tarde em Milho Verde (MG), Seu Chico, que finalmente tem um pouco de tempo, puxa assunto com os passantes seja gente conhecida ou a se conhecer. Sentado de cócoras na frente de sua casa, olhos apertados para a rua quarada pelo sol do cerrado e sorriso de poucos dentes, ele acolhe quem passa com simpatia e muitos casos.

— No tempo de eu menino, comecei a trabalhar eu tava com 4 anos e meio, que era a idade que começava… Pegava serviço era cedo, bebia café, pegava uma pazinha redonda e ia pra roça ainda tava meio escuro. Ia carregar lenha na cabeça. Comia banana pra aguentar até as sete horas da noite, das 7 às 7. Agora hoje em dia tem descanso de almoço, uma hora, de premeiro não. Tinha dia que ia comer era só arroz. Você é menina nova, mas eu tô com 83, já vou completar 84 anos e ainda tô querendo trabalhar!

— O senhor está bem forte!

— Mas de premero o povo vivia mais. Meu avô viveu 120 ano. 120 ano! E meu pai chegou aos 130. Hoje não vive assim, não. Porque comia melhor. Comia sopa… o caldo de mocotó com a gordura, né? De osso gordo. Hoje fica tirando a gordura da carne. De premero, não. Era mocotó, gordura, osso gordo…

Mas ele logo lembra que a gordura às vezes ainda era muito pouca:

— Nego só comia angu, às vez arroz branco, feijão, macarrão, carne, costela… Um dia um nego disse assim: “vou comer com o sinhô, quer ver?”. Falou que tinha diamante, aí foi convidado pra comer com o sinhô. Sujou tudo porque não sabia comer na mesa, né, comeu carne e tudo, tava satisfeito. Muito bem, no final, o sinhô perguntou do diamante, o nego falou: “eu disse que tem diamante, não que eu tinha um”.

Nós rimos da esperteza e do esforço que se faz por uma boa refeição.

— Isso é do tempo que minha vó era menina. Ela conta esses casos. Era muito sofrimento pros negros. Gosto de contar essas histórias pros mais novo, pra não esquecer, saber o que foi.

Tradições
Seu Chico sabe casos e cantos. Lembra orgulhoso que foi chamado para ensiná-los às crianças na escola:

— Os véio que sabe a cantiga do tempo da escravidão levaram na escola a modo de a professora poder seguir pra frente, senão acaba, né?

E canta para mim. A primeira música fala do nego que caiu no sono enquanto vigiava a plantação de arroz. Acordou com o Assum preto comendo tudo e foi logo correndo e tocando:

— “Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô galinhão ê, xoxô galinhão ê… Xoxô passarinho, que o arroz é de Deus…”

Seu Chico fala das festas, da Marujada, da procissão, da festa de São Benedito, cada uma com suas tradições e suas músicas.

— “Meu São Benedito, vossa casa cheia, cheira cravo e rosa, flor de laranjeira…” Você que tá aqui, ocê já viu festa aqui?

— Aqui não.

— Vem que ocê vê essas cantigas que eu tô cantando e ainda tem mais um monte. Canta no meio da rua, na porta de casa, o povo vai lá pro terreiro.

Ele lembra de mais uma:

— “Papagaio come milho, periquito levou fama. Papagaio come milho, periquito levou fama…” É muito interessante. Nós somos periquito, o papagaio tá rasgando espiga de milho, lá no pé, nós tamo debaixo catando, tamo na rua trabalhando…

Ele vai explicando as músicas, o significado das histórias… Por trás do seu jeito simples, ele sabe da importância do que conta:

— Sei mais de cem música sem olhar papel. Muita cantiga do tempo da escravidão. Eu gosto de contar pros novos. Porque muitos véio às vez sabe cantar, mas não é capaz de explicar o que vem a ser a cantiga, né? Fica embasbatado. Eu gosto de contar…

Seu Chico não mora sozinho e logo dona Maria da Luz aparece na janela. A senhora negra, de cabelos curtos, emana força, apesar do corpo magro e da idade avançada. É curandeira, descubro depois. E ciumenta – não gosta de seu Chico cheio de conversa na porta de casa. Ela empilha uns sacos de urucum na janela enquanto pergunta meu nome, depois diz para ele:

— Passa para dentro – e volta para o interior da casa.

— A mulher viu que eu tava falando perto d’ôce, entrou pra dentro, não gosta, não – ele explica, mas continua a conversa sem pressa.

— Eu tô com problema no olho, mas ainda vejo ó…

Seu Chico pega um punhadinho da terra arenosa do cerrado na mão. Elas formam pequenas pedrinhas que ele separa com os dedos enquanto conta:

— Um, dois, três, quatro, cinco… Tá veno? Eu ainda vejo!

A casa
Agora ele me convida para entrar. Hesito, mas ele insiste.

— Entra pra lá!

Na sala de paredes já gastas e manchadas pelo tempo, muitas imagens de santos, uma foto de criança, algumas fotos de seu Chico, alguns recortes de revistas enquadrados. Na mesa, sobre uma toalha de plástico, um pequeno altar com muitas imagens, flores de plástico, um filtro de barro com um paninho bordado e já amarelado por cima, duas garrafas de água, um prato para velas.

Seu Chico me aponta para uma foto sua na parede, roupa colorida, boné e penacho vermelho e amarelo na cabeça, sorriso aberto.

— É na festa da procissão, né?

Ele confirma:

— Na festa é dança, a gente vai pra entrada da rua com um monte de canto. E eu só vivo alegre porque ó…

E me conta feliz sobre como ainda está ativo:

— Eu tô velho, mas ainda tô trabalhando. Ainda faço vassoura… – entra no quarto para pegar alguma coisa e volta com um saco cheio de vassouras de palha.

— Olha como ainda trabalho! Ainda gosto de trabalhar!

Pergunto se posso contar sua história no meu blog, tento explicar, ele parece não entender muito, mas repete:

— Gosto de contar pros mais novo, é bom pra poder ficar sabendo pra frente, senão acaba, né, senão acaba…

Entendi a resposta como um sim.

Eu finalmente me despeço de seu Chico, não quero irritar dona Maria da Luz.

— Vai com Deus. Depois ocê passa pra nós contar mais caso – ele diz, enquanto acena.

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Seu Chico mostrando as vassouras de palha que faz

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Fui conhecer um pouco mais do pequeno distrito de Milho Verde, em Minas Gerais. Mais tarde encontrei-o novamente. Estava sentado aos pés da pequena igreja do Rosário contemplando o final da tarde. Ao seu lado, um cachorro se esparramava pelo gramado. Já faz algum tempo que estive lá, mas demorei para escrever essa história. Pesquisando agora sobre a região, descobri que seu Chico morreu em agosto deste ano. Foi enterrado ao lado da igrejinha onde ele gostava de ver a noite chegar.

Vai com Deus, seu Chico. Você já contou muito caso e cantiga para nós, agora nós é que contamos as suas por aí. Pros mais novos saberem o que foi e não esquecerem.

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[Fotos e texto: Marina Almeida]

A praia quando criança

Não há um dia sequer em que eu coloque os pés numa praia e não me lembre do deslumbramento que o mar e a areia me causavam quando eu era criança.

Eu conheci o mar na Praia Grande, quando tinha uns quatro anos de idade. Me lembro de estar no carro a caminho desse lugar chamado “praia”, imaginando uma espécie de laguinho com uma multidão de pessoas em volta.

Mas, não. Era algo muito diferente. Era enorme. Era cheio de ondas barulhentas. Tinha aquela areia molhada que, escorrendo do meu baldinho vermelho, formava bolinhas. E as bolinhas podiam ser empilhadas. E aquilo era muito, muito legal. E dava pra correr no mar e encher o baldinho de água. E a água era salgada. Um dia peguei um peixinho preto no baldinho. Cheguei a carregá-lo comigo por aí, até que alguém me convenceu a devolver o pobre coitado ao mar.

Mas nada superava o mar em si. Entrar na água. Estar no mar, levar pancadas das ondas, sair rolando, me ralar na areia, levantar e voltar correndo para a água, esperando a próxima onda. Ficava no raso, e mesmo assim engolia muita água – mas muita mesmo.

E então eu pegava uma virose em praticamente toda e qualquer ida à praia. Me esbaldava o quanto podia no mar e depois passava uns dois dias vomitando. Mas, tudo bem. Não conseguia ainda examinar e entender as causas do mal-estar. Só lamentava não poder mais entrar na água naquela semana.

Ir embora, de volta à grande cidade sem praias, era um momento de profundo luto.

[Flávia Siqueira]

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No tempo da zagaia de gancho

— Acho que eu tô tão atrasada que eu sou do tempo da zagaia de gancho.

— O que é zagaia de gancho, dona Elza?

— Ó, eu ouvia os caipiras lá da roça falando quando achava que era muito véio, que não ia com as coisas de hoje, mas eu mesmo não sei.

Meu pai pega o celular e descobre imagens da tal zagaia de gancho. Mostra para dona Elza, minha avó, que não esconde a surpresa:

— Agora que eu fiquei sabendo. A gente fala as coisas e não sabe, se fosse um palavrão feio…

E ela explica, para mim, o que viu:

— É feito um naviinho, daquele que… na água, mas não aqueles grandão, aqueles pequenininho, quadradinho, amarradinho, é feito uns esgueio. Acho que toca, na água, não sei. Chama zagaia de gancho.

Entendeu? Em outras palavras, e menos estilo, a Wikipedia explica que é uma lança curta e delgada usada como arma de arremesso para a caça ou pesca. Os registros sobre o uso da expressão que encontrei eram poucos, mas ao que tudo indica, a zagaia (ou azagaia) de gancho era uma ferramenta muito utilizada pelos indígenas brasileiros e também por outras pessoas desde o período colonial. Provavelmente daí vem sua associação ao que é antigo, de outros tempos.

Mas as explicações difundidas pela internet vão ainda mais longe. Na Serra da Canastra, em Minas Gerais, contam que havia um pouso de tropeiros em que o dono escondia uma zagaia no quarto e lançava-a no meio da noite contra os hóspedes que dormiam. Em seguida roubava suas posses. Mas contam também que as maldades tiveram fim com um destino trágico para o dono da pousada (conheça a história completa aqui).

Outra versão dizia que zagaia era uma corruptela de “H’s” e a expressão se referiria, assim, ao tempo em que as palavras eram escritas com ph (como pharmacia).

A expressão era tão conhecida que na música Couro de boi, composta por Palmeira e Teddy Vieira e gravada por diversos cantores caipiras, encontramos a referência a um ditado “do tempo do zagais”. Seria uma referência ao tempo dos Hs? Da zagaia de gancho? Ou ao destino trágico dos hóspedes da fazenda na Canastra?

Novos tempos

— Internet, celular… acha tudo, não, Marina? Nossa, como evoluiu as coisas. No meu tempo, quando apareceu o avião o povo tinha medo, falava que era assombração. Eu não achava nada, mas alembro. As coisas evoluiu totalmente.

— E o que a senhora acha disso?

— Uai, é bom! Que era muito atrasado. A gente falava de estudar, meu padrasto falava: “bobagem, para que estudar? Mulher não precisa aprender a ler”. Já pensou que ignorância!

Pensando bem, do alto dos seus 93 anos, dona Elza não é do tempo da zagaia de gancho, não.

Causos de onça, jacaré e outros animais

Em volta da fogueira, cercados pela floresta que começava a revelar seus sons noturnos, conversávamos antes de ir para as nossas redes. Foi quando Isaquias, mateiro e caboclo que não fala inglês, mas conta um causo como o que, disparou a lembrar suas histórias. E era engraçado, mas também era uma viagem àquela realidade de ribeirinhos crescidos entre cheias e vazantes, entre a floresta amazônica e as águas dos rios.

Tinham ido pescar, ele, o pai e o irmão. Mas não era que nem aqui, não. Era um paranazão assim. Pegaram um tracajá e fizeram uma fogueira que nem aquela nossa. Depois de comer, resolveram queimar o casco ali no fogo e foram dormir. Nem era em rede, era no chão mesmo, tudo junto. Acordaram com o barulho dos animais.

Estavam todos indo para lá. Jacaré, capivara, paca, macaco… tudo os bichos. Eles saíram correndo pro bote e os jacarés atrás deles. Foram para o meio do rio, e os bichos atrás. Pegaram a rede de pesca e colocaram em volta do barco, para não deixar eles chegarem mais perto. A noite foi toda assim, nem dormiram mais direito. Os jacarés ali: só via o olhão deles para fora da água cercando o bote. Ouviram até barulho de onça na beira do rio. Nunca mais queima nada, Deus o livre, que o cheiro atrai mais de longe os bichos.

**

Lucivado também tem suas histórias de onça. Seu pai, conta, matava para vender a pele. Ele se lembra de pequeno estar na canoa com o pai quando ouviram um rugido. Fizeram silêncio. O barulho vinha cada vez mais alto, a onça cada vez mais perto. E não parava. Parecia que estava falando com outra. A água do rio toda tremia e a onça pulsava dentro dele. Coração disparado, compassado pelos rugidos que chegam mais fortes. Seu pai já se preparava para ir atrás: uma onça assim, ou duas, não queria perder. Arma no colo, remo nas mãos. Mas o menino não segura o choro. Um tanto de medo, de dó também quem sabe.

Os rugidos se afastam. Já não ressoam mais no oco de seu peito. São novamente dois corações: um humano e pequeno que segue pelo rio, e um animal, grande e felino, que corre solto e livre, farejando o fresco do ar pelas florestas enquanto tiver sorte.

**

Você e sua família também são cheios de histórias? Causos de animais, coragem e medo, da vida na roça, de longas viagens de barco desses e de outros tempos? Já pensou em registrar essas histórias no papel? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando você a preservar memórias.

Leia os causos completos aqui: Causos ribeirinhos (uma noite na floresta amazônica) IMG_0239trat.JPG

[Marina Almeida]

BLOG | Nó de tijolos e concreto

(Dona Cida é paulista e tem 76 anos. Como muitas pessoas da sua geração, sua história começa no interior e chega à grande metrópole no começo da vida adulta. Da cidade de Oswaldo Cruz para uma casa alugada em Santo André, para outra em São Mateus, bairro da zona leste de São Paulo. Do aluguel para uma construção improvisada em terreno próprio, feita aos poucos. Como é a história de tantas casas nesta cidade.)

***

Tudo foi construído aos poucos. Começando pelo salão comercial, na época em que as ruas dos bairro ainda eram de terra. Ali, abriram um bar. Decidiram morar no porão do comércio enquanto não faziam dinheiro para erguer uma casa.

O dinheiro foi entrando aos poucos, e a construção seguiu no mesmo ritmo. Primeiro, uma cozinha anexa ao porão. Depois, uma casa de três cômodos para o filho mais velho, com casamento marcado. Depois, sobre o salão do bar, a casa para o filho mais novo, que também se casaria. Duas garagens. Escadas, espaços sob escadas, portões. Uma escada ao lado da primeira casa para chegar até o comércio sem precisar dar a volta pela calçada. Dois cômodos extras para a casa do filho mais velho.

Tudo acabou interligado. Janelas do porão — que virou depósito do comércio — davam para o quintal da casa do filho mais velho e para a garagem do filho mais novo. O quintal do filho mais novo ficava sobre o quarto do filho mais velho.

Décadas se passaram. A família cresceu. Todos começavam a pensar no que fazer com aquela construção nos próximos anos. Seria possível vender as casas separadamente? Só com muitas reformas e muito dinheiro gasto.

Melhor esquecer a ideia. Ou alugariam — se é que alguém aceitaria dividir espaço daquela forma —, ou ficariam por ali mesmo (como tem sido).

A construção havia dado um nó em todos. E ela conseguiu o que queria: ficar ali, do jeito que escolheu crescer, com as mesmas pessoas.

[Flávia Siqueira]

BLOG | Um conto sobre ser criança em outros tempos

(Estamos escrevendo o livro de Dona Geórgia, senhora de 90 anos que mora em São Paulo. O conto a seguir foi escrito a partir de relatos dela sobre a infância no interior do Estado na década de 1930. Trata-se, assim, de ficção baseada em acontecimentos reais: um exercício de imaginação sobre ser criança em outros tempos e lugares.)

***

Barrigas que crescem

 

A barriga da mãe havia crescido muito nos últimos meses. A menina mais nova não tinha prestado muita atenção naquilo. A menina mais velha já tinha visto aquilo acontecer antes. A barriga da mãe acabou murchando um tempo depois de a menina mais nova ter chegado. Essa era, talvez, a lembrança mais antiga dela. Uma coisa tinha a ver com a outra? A menina mais velha tinha quase certeza que sim. Na fazenda, aquilo sempre acontecia: barrigas que crescem, crescem, ficam bem redondas e que murcham algum tempo depois de um bebê aparecer.

Naquele dia, uma velhinha chegou em casa logo pela manhã. Usava um xale cinza, um vestido vermelho com flores brancas e um sapatinho preto, sem salto. O cabelo vinha preso num coque bem feito, de um cinza brilhante.

Quando ela chegou, as duas meninas tinham acabado de acordar. Foi o pai quem deu o café da manhã: um pedaço de pão com manteiga e um copo de leite para cada uma.

— Cadê a mãe? — perguntou a menina mais velha ao pai.

— Tá descansando. Daqui a pouco ela levanta.

Assim que a velhinha de xale apareceu na porta da cozinha, o pai a levou pelo corredor, até o quarto onde a mãe descansava. A menina mais velha fez menção de ir atrás, mas o pai logo mandou:

— Cêis fiquem aí!

Elas obedeceram e terminaram o café da manhã. Um som que não era nem um grito nem um gemido veio pelo corredor. Não demorou muito e o pai voltou:

— Agora cêis vão brincar lá no quintal.

— A mãe tá boa? — quis saber a menina mais velha.

— Tá boa, sim. Mas agora cêis vão pro quintal e fiquem lá até eu chamar. Vão brincar.

E lá se foram as meninas. Resolveram começar brincando de boneca. A menina mais velha chamava aquilo de “brincar de comadre”: a irmã seria madrinha da boneca. A menina mais velha corria até a biquinha de água, enchia uma vasilha meio amassada e pedia para a menina mais nova jogar na cabeça da boneca. Ela adorava: fazia a água escorrer devagar da vasilha pela cabeça careca e lisa da boneca.

Depois, foram ver os porquinhos que tinham nascido naquela semana. Emendaram um esconde-esconde e mais um batismo de faz-de-conta.

As duas meninas estavam tão mergulhadas naquele mundo imaginário que não perceberam quando o pai chamou pela primeira vez, da porta da cozinha.

— Fia! Já chamei. Vem logo. Nasceu sua irmãzinha.

— Irmãzinha?

As meninas deixaram as bonecas no pé de uma árvore e correram pelo corredor da casa. Quando entraram no quarto da mãe e do pai, lá estava a velhinha numa cadeira ao lado da cama. O coque ainda brilhava. A mãe, meio deitada e meio sentada na cama, tinha no colo um bebê muito pequenininho enrolado em panos brancos.

As meninas ficaram em pé, ao lado da cama.

— Ói o que ela trouxe pra mim debaixo do xale dela! — disse a mãe, sorridente.

As irmãs se aproximaram para ver o bebê mais de perto. Ele fazia uns barulhinhos, que lembravam choro. A menina mais nova — que agora era a do meio — ficou contente, soltou uma gargalhada e levou as mãos à boca.

A menina mais velha ficou olhando séria para a irmãzinha, concluindo que existia mesmo alguma relação entre barrigas que crescem e bebês que aparecem. E era sempre com as mulheres. As barrigas dos homens nunca murchavam. Será que um dia isso iria acontecer com ela também? A barriga crescer até uma velhinha chegar em casa e lhe entregar um bebezinho pra cuidar?

[Flávia Siqueira]