Oficina na escola: uma conversa sobre escrita e jornalismo

oficinanaescolaPor que escrever? Como colocar as ideias no papel? Quais as características da escrita no jornalismo e na literatura? Estivemos no dia 22 de maio na escola Luciane do Espírito Santo, na zona leste de São Paulo, para conversar com os alunos do terceiro ano do Ensino Médio sobre questões como essas.

Chegamos até lá por meio da iniciativa Quero na Escola, que conecta alunos da escola pública à comunidade externa. Os estudantes divulgam suas demandas – por palestras, oficinas, atividades – e voluntários se apresentam para atendê-las.

Começamos a conversa abordando nossas motivações para escrever: organizar ideias, memorizar e enxergar melhor as coisas do mundo e a nós mesmos. O escritor Hélio Pellegrino afirma que escrever é nascer – ou seja, dar-se conta da própria humanidade e, com ela, da própria finitude.

As boas histórias não estão apenas nos acontecimentos grandiosos, mas também nas situações do dia a dia, nas repetições, nos lugares simples. Escrever é colocar uma lupa sobre os detalhes da vida e, com isso, expandir nossa compreensão sobre o mundo e nosso universo interior.

Exercício de atenção
Vivemos tantos de nossos dias no automático: acordar, cumprir nossas rotinas da mesma forma, transitar pelos mesmos lugares sem prestar muita atenção à nossa volta. Se você olhar bem, fará descobertas mesmo naqueles locais por onde passa há anos.

Uma forma de sairmos desse “modo automático”, mesmo que apenas por alguns instantes, é realizar atividades simples de maneira mais lenta e com foco no momento – a chamada atenção plena.

Tente passear pelas ruas do seu bairro observando as casas, os comércios, as pessoas, os sons que se sobrepõem – procurando colocar sua atenção em uma coisa por vez. Ou tomar um copo de água em dez ou quinze minutos: observe bem a sensação de segurar o copo, a temperatura da água, os sabores sutis.

Nossa proposta aos alunos foi comer um biscoito de maneira lenta: qual a textura? Qual o cheiro? Que lembranças ele evoca? Há sabores em camadas? E será que o biscoito é mesmo tão bom quanto imaginávamos ou como vendia a embalagem? Por fim, que textos poderiam nascer dessa experiência?

Jornalismo
Os estudantes compartilharam seus hábitos de escrita – poemas, diários, recados, lembretes – e quiseram saber mais sobre o curso de jornalismo e o dia a dia profissional.

Conversamos sobre como a profissão mudou muito (e muito rápido) nos últimos anos: muitos veículos impressos deixaram de existir, redações foram reduzidas, ainda não existem fórmulas seguras para “fazer dinheiro” com jornalismo na internet. Muitas vezes falamos em “crise” na profissão, mas o ideal talvez seja chamarmos de transição: quem está na área ou pretende entrar nela deve estar disposto a pensar em novas alternativas e formatos inéditos. Há muito a ser construído.

Além disso, em meio à atual profusão de notícias falsas, temos muito a ganhar com a difusão dos princípios éticos e do senso crítico que sempre acompanharam o (bom) jornalismo.

De novo, é preciso sublinhar a necessidade de atenção: resista por um momento à tentação do botão “compartilhe”, reflita um pouco e questione as informações que você vê nas redes sociais – ou mesmo nos veículos de mídia profissionais. O que está sendo dito e não dito? De onde vêm os dados e as conclusões apresentadas? Qual é a fonte e qual sua credibilidade? Existe um autor que se responsabiliza por aquela informação? Que interesses estão em jogo?

Agradecemos aos professores e alunos da Escola Estadual Luciane do Espírito Santo e à iniciativa Quero na Escola pela oportunidade de trocar tantas ideias e aprendizados. A construção de um mundo mais justo, aberto e livre começa pela educação.


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[BLOG] Georgina: a voz no livro

“Minha avó materna, a Georgina, tem 90 anos. Eu tenho 32. Nesse tempo todo que a gente convive, ela já tinha me contado vários episódios da vida dela. Mas era muito difícil juntar tudo e lembrar dos detalhes.

Aí, a Flávia Siqueira e a Marina Almeida foram conversar com a minha vó. E buscaram fotografias antigas que ficavam guardadas láááá no fundo do armário. E fizeram um livro de 92 páginas com uma narrativa que me levou pra região de Morungaba e Bragança Paulista, no interior de São Paulo dos anos 1920, 1930, 1940… Muito antes de eu querer nascer. Muito antes de a minha mãe nascer. Antes de vários fatos históricos do século 20.

Por motivos óbvios, foi um dos livros mais interessantes que eu já li. Quem tem um exemplar, vai guardar com muito cuidado, porque a edição é limitada. Não tem na Livraria Cultura, nem na Saraiva, nem na Amazon.” (Renato, neto)

Daria um livro
No começo, Dona Geórgia achava que não teria muita coisa a contar. Perguntávamos sobre a infância, ela falava um pouco, depois parava e dizia “não alembro”. Pensava por alguns instantes em silêncio e, de repente, começava a puxar pela memória um lugar ou acontecimento. Assim, as lembranças iam se encaixando e compondo suas histórias de vida — uma vida que daria não apenas um, mas vários livros.

“Dona Georgina é minha mãe e mora comigo. Quando ficou sabendo que sua história seria contada em livro, ficou toda faceira e não se cansava de dizer, admirada: ‘Já pensou quantas pessoas vão ficar sabendo da minha história?’ Todas as vezes que iria ser entrevistada, ficava ansiosa esperando pela visita das autoras do livro. Ela fica horas olhando a obra da sua vida. Parabéns, Flavia e Marina! Vocês não imaginam o bem que fizeram à minha mãe! Um trabalho como este não tem preço, enriquece os laços familiares e diviniza a alma do homenageado.” (Lucinda, filha)

A voz de Georgina
A fala de Dona Geórgia traz o modo de se expressar de certas regiões do interior paulista: “nós” é pronunciado como nói; o diminutivo aparece com muita frequência e musicalidade, como em banhinhinha. Não podíamos deixar esses detalhes de fora: decidimos manter muitos trechos da fala de Dona Geórgia exatamente como os ouvimos — a ideia é que, ao lermos suas frases, seja possível imaginá-la falando. E assim foi se construindo a obra: uma dança entre a voz de Dona Geórgia e nossa descrição de lugares e acontecimentos.

Leia alguns trechos do livro Georgina – Costurando histórias.

Leia os capítulos 3 e 7 do livro (formato PDF).

[BLOG] Reorganizando fotos e histórias

— Nossa… Se eu sentasse e escrevesse tudo pelo que já passei… Foi tanta coisa!

Não era a primeira vez que eu ouvia minha avó dizer isso. E, agora, era a hora perfeita para colocar tudo no papel. Já havia trabalhado alguns anos como jornalista e estava começando a organizar, com a Marina Almeida, a ideia de abrir uma empresa de produção de livros personalizados.

— Vó, quer que a gente faça um livro com suas fotos e histórias?

— Ah, eu quero!

Como ela tinha acumulado muitas fotos (algumas do início do século 20), pensei em criar um livro organizado a partir delas. Quais fotos eram as mais significativas para ela? O que ela notava primeiro? Qual era a história daquela fotografia? Que lugar era aquele? Que ano era? Que roupa era aquela?

Mas é claro que havia muito mais além das fotos. Histórias que não tinham sido registradas em imagens: sustos com os filhos pequenos, brincadeiras de infância, o cansaço sem fim da vida de comerciante, o sumiço da cachorrinha Mel e sua volta para casa…

O resultado foi um livro que mescla textos longos sobre memórias (páginas de fundo branco) e observações sobre fotografias relacionadas aos períodos que coincidem com essas lembranças (páginas de fundo preto).

Para mim, foi uma incrível volta às histórias que minha vó contava, aos lugares de que ela falava, às fotos que eu costumava tirar dos armários para fuçar sempre que, quando criança, ia passar meu período de férias escolares na casa dela. Olhava aquelas fotos em preto e branco, perguntava quem eram aquelas pessoas e ela me explicava — só para eu esquecer e voltar, nas férias seguintes, a olhar as mesmas imagens e fazer as mesmas perguntas.

Gravar entrevistas com minha vó e depois transcrevê-las, digitalizar imagens, anotar informações sobre quem eram aquelas pessoas… Todo o processo me ajudou a organizar coisas que eu ouvia desde criança, mas que estavam bagunçadas na minha cabeça.

Então, o Barreirão — esse lugar de que ela tanto falava — foi onde ela passou os primeiros anos de infância… A adolescência foi em Osvaldo Cruz… Os nomes dos avós paternos eram Domingas e João, ambos portugueses. Os avós maternos eram Henrique e Carolina — ela, mineira; ele, também português. Domingas e João vieram de Funchal; Henrique, de Trás-os-Montes…

Na primeira entrevista, os nomes e lugares de origem ainda me confundiam. Montei uma árvore genealógica para não me perder e parar de repetir perguntas. Deu certo.

A maior parte das fotografias estava bem conservada. Gosto de pensar que devo agradecer, em parte, à súbita vontade que tive um dia, quando criança, de colar nos álbuns as fotos que antes estavam soltas. Isso provavelmente ajudou a evitar que elas se desbotassem. Claro que em meu trabalho/diversão de infância não havia organização nenhuma — de repente, em meio a fotos da década de 1980, aparecia uma imagem dos anos 30.

Eis que, agora, o livro existe! Antes de receber os exemplares impressos, cheguei a sonhar que tudo tinha dado errado. Que havia erros na capa, que a impressão estava ruim, que faltavam páginas… Mas nada disso aconteceu. A impressão está ótima, as cores estão vivas, nenhuma página falta.

Agora, o livro existe (leia trechos)! Olha… Ainda me impressiono com isso. (risos)

[FLÁVIA SIQUEIRA]

 

BLOG | A história de um livro (e o início de outros)

Escrever um livro contando as memórias de um casal prestes a completar 60 anos juntos? Ouvir suas histórias e transformá-las em texto? O convite era muito interessante, e também desafiador. Minha empolgação foi crescendo conforme eu conversava com o filho do casal, que os presentearia com o livro. A história deles trazia um pouco da história do nosso país: a imigração para o Brasil da família italiana de dona Dalva, a vida no campo, com seus desafios e trabalho duro,a cultura e os causos da roça, a mudança para São Paulo e a adaptação ao trabalho das fábricas e ao modo de vida da cidade grande… E a vida comum e os grandes momentos da história também se encontravam, como quando seu Domingos presenciou os soldados da revolução de 1932 ou as lembranças de como a Segunda Guerra Mundial afetou a vida dos dois no interior do país.

Antes da primeira entrevista descobri que eles estavam um pouco nervosos para falar com uma jornalista e que tinham dúvidas se suas histórias de vida, tão simples, seriam interessantes o suficiente para serem transformadas em livro. Mas a primeira conversa logo foi ficando mais descontraída e a satisfação pela história construída tomou o lugar da apreensão inicial. Eles riam das dificuldades por que passaram e me convidavam a ver, também, com bons olhos a vida. O trabalho duro, no campo ou na fábrica, era lembrado com orgulho. Já a festa de casamento da roça, simples e animada, foi motivo de risadas – sem luxos, eles tinham o necessário e não precisavam de mais.

As histórias de dona Dalva e seu Domingos são contadas não só com palavras, mas também com gestos, modos, olhares e vozes. Para o texto escrito, além de organizar e hierarquizar o grande volume de informações, era preciso valer-se de recursos literários para garantir a leveza, a vivacidade e a força do que estava sendo contado. Isso, claro, sem perder a fidelidade aos fatos vivenciados por eles.

Após a redação de todo o livro, que tem quase 200 páginas (leia alguns trechos aqui), o material ainda passou por algumas etapas complementares e de finalização: revisão da família – para garantir que nenhuma informação errada fosse publicada –, revisão gramatical, criação de ilustrações para algumas passagens, seleção de fotos e documentos a serem reproduzidos na obra, diagramação das páginas, elaboração da capa e, finalmente, a impressão. Ao final, ver os livros impressos foi muito gratificante para todos nós. Foi também neste momento que eu comecei a pensar em como gostaria de continuar este trabalho de ouvir com atenção as histórias e ajudar as pessoas a escrevê-las, registrando sua vida e seu legado. Foi a partir daí que a ideia do Daria um livro nasceu.

[MARINA ALMEIDA]

Transformamos sua história em livro

“Era apenas uma visita à casa da família de sua amiga. Enquanto esperava o café ser servido, parou para olhar as fotos dos irmãos, cuidadosamente dispostas num nicho ao lado da entrada. E lá estava ele. Os olhos verdes como os da irmã, o sorriso tímido e a expressão serena. Ela não tinha mais dúvidas.

– Quem é este?

– É meu irmão, Antônio, que está no Brasil.

Antônio, como seu santo de devoção. Não faltava mais nenhum sinal.

– E quando ele vem visitar vocês?

– Só ano que vem.

Não tinha problema. Para passar o resto da vida juntos, valia a pena esperar um pouco.”

A memória é feita de fios que vão e vêm. Às vezes embaraçando as histórias, outras vezes trazendo surpresas na ponta das linhas entrelaçadas. Tecer os fios da nossa história ajuda-nos a reconstituir o sentido da própria vida, construída e reconstruída todos os dias por nós.

Acreditamos que as histórias de todas as pessoas são únicas e valem a pena ser contadas, tanto os pequenos casos de cada dia quanto os grandes acontecimentos da História. Sua trajetória e a da sua família, os momentos por trás das fotos daquele antigo álbum, os causos dos seus avós, a descoberta de um grande amor, o nascimento dos filhos ou os principais momentos de uma grande viagem… Toda história daria um livro e nós podemos ajudar a escrever o seu.

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