Tô vendo a banda passar…

Na janela, olhando a rua, cumprimentando os vizinhos ou admirando sua quaresmeira rosa em flor, minha vó cantarola uma música lá de quando ainda era nova. E conta histórias:

Eu tava à toa na vida, o meu amor me chamou para ver a banda passar cantando coisas de amor…

Isso era lá em Cambuquira, passava aquelas bandas na rua e a gente ficava na janela vendo.

Mas o povo é maldoso, tinha uma moça que não era muito bonita e ficava olhando também, logo falaram dela… Que a moça feia achou que a banda tocava pra ela.

Às vezes eu fico olhando a rua, passa alguém e pergunta o que estou fazendo, eu respondo que tô vendo a banda passar. Mas eles não conhece essa música, é que é lá de Minas…”

Conheça a música (composição de Chico Buarque):

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Leia trechos de ‘Do outro lado do Atlântico’

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Entre trincheiras

No escuro das frias trincheiras dos alpes italianos, após um dia de combates, numa noite quem sabe de que medos e dores feita, imagino meu pai, um jovem soldado pensando na família e na mulher cuidando de tudo sozinha desde que ele fora convocado para servir o exército italiano. Ele devia se afligir sem saber o que se passava conosco, se teríamos escapado aos bombardeios, se estaríamos passando quais necessidades…

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Na Segunda Guerra Mundial (1940-1945), escapar da morte é a tarefa de dia e noite. Mas, quando cai a luz do sol e os combates diminuem, é a hora da saudade de casa e da incerteza da guerra. Lavinio, meu pai, trabalhava memórias e saudades com as mãos. Esculpia sonhos e mensagens em sua mente, imaginando um dia registrá-las. Como? Onde? Na gaveta de alumínio onde era servida sua comida. Eu, Franco, seu filho primogênito, ainda era um bebê – nasci seis meses antes do início da guerra –, e o pai não sabia se voltaria para me ver crescer. (…)

Um tesouro que guardo com muito cuidado. As mensagens se combinam com ilustrações de traço fino e perspectiva perfeita. Contra a dureza da guerra, a leveza e a precisão das mãos de artista. Não era só à noite que era preciso ocupar a cabeça. Às vezes o trabalho podia ser também durante o dia. Quando os bombardeios eram muitos e todos precisavam se esconder enquanto o mundo explodia acima de suas cabeças, entalhar a vida e a saudade era a sua forma de não enlouquecer. Quem sabe pelo que passava quando fez cada um desses desenhos, inscreveu os nomes da família, suas dedicatórias e pensamentos.

***

 

Quando a guerra acaba…

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Finda a guerra, era hora de reconstruir cidades e famílias. Os escombros podiam ser reerguidos, mas e as pessoas que ficaram pelo caminho? O pai voltou para casa, mas seu cunhado, Enzo, que também tinha sido convocado, não. Ele foi dado como morto, embora seu corpo nunca tivesse sido encontrado.

Dois anos já haviam se passado quando, um dia, chegaram da rua gritando pela avó:

— Albina, Albina!

— Calma, o que foi?

— O Enzo! O Enzo! Não sei se é… está muito magro! Está vindo aí!

Ela correu o máximo que aguentava em seu vestido negro de luto até os pés, avental branco por cima. Ao se aproximar do homem que chegava, ela perdeu o fôlego e diminuiu o passo, embora tivesse os olhos sempre fixos nele. Ele foi chegando mais e mais perto…

— Enzo!

A voz embarga e os olhos se enchem de lágrimas – os da nonna Albina e os meus, ao relembrar a história. Ele estava um esqueleto ambulante, mas ali só uma coisa importava: ele estava vivo! O filho perdido na guerra voltara para casa.

Tio Enzo havia sido enviado para combater no front russo, mas a chegada do inverno deixou os soldados italianos totalmente desguarnecidos. Ele foi preso pelo exército inimigo e quase morreu fuzilado.

Estava prestes a ser morto por um soldado quando um oficial russo se colocou entre eles com seu cavalo.

— Deixa o rapaz ir embora! Acaba com essa história…

Enzo deu o nome daquele oficial russo, Ivan, a um de seus filhos, como homenagem àquele que salvara sua vida. Havia homens de boa índole também do lado de lá das trincheiras…

***

 

Rumo ao Brasil

Para nós, crianças, a viagem de navio era uma aventura com destino a um mundo desconhecido. Tentava imaginar como seria o Brasil, principalmente as pessoas que habitavam aquele país recente: feições diferentes, outras tonalidades de pele, outros cheiros e cores. Antes de deixar a Itália, o navio fez uma parada em Nápoles, para o embarque de mais passageiros e carga e, através de Gibraltar, passamos do Mediterrâneo ao Oceano Atlântico. Nenhum dragão, nem monstros marinhos. Sol, bom oceano, com ondas mais alongadas e tranquilas. (…)

Dias antes de nos aproximarmos do Equador, a tripulação do navio começou a preparar uma festa em comemoração à passagem pela fronteira entre os hemisférios norte e sul. As mentes infantis imaginavam como seria aquele momento especial de travessia. Como faz? Passa por baixo? Haveria um risco no céu? O oceano mudaria de cor? A festa no navio era simples, mas divertida e com boa comida. Houve um concurso para premiar aquele que fosse capaz de comer a maior quantidade de macarrão à bolonhesa em menor tempo. Gritos e palmas acompanhavam os grandes comedores em sua luta, sem talheres, com a massa e o molho. Entre homens grandes e gordos, um genovês alto e magro – magro como uma caneta! – começou a chamar atenção: sugava com rapidez e barulho porções imensas de espaguete.

Terminou a montanha do primeiro prato e pediu logo o segundo, enquanto seus adversários desistiam um a um:

— Bota outro aí! — ele gritou mais de uma vez, com os braços para cima e feliz da vida.

E logo fez a comida do segundo prato desaparecer. O navio inteiro ficou alucinado com o feito do genovês esguio! A música e a dança seguiram noite adentro, em meio a risos e homenagens.

Eu tinha apenas 12 anos, mas já conhecia bem a guerra para imaginar que aquele homem provavelmente sofrera muito com a fome durante os anos de escassez. Mesmo com o balançar do oceano e da dança, o genovês não passou mal com o estômago tão cheio.

Aquelas porções imensas de comida e o baile que veio depois talvez festejassem, na verdade, a promessa de fartura em terras distantes.

***

 

Música para viver

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Meados da década de 1940. Na cozinha de uma casa simples de Padova, uma família se reúne para o jantar. Nos pratos, pouca comida, mas o suficiente para resistir aos tempos difíceis e esperar pelo retorno daqueles que travam as batalhas da Segunda Guerra Mundial. Quando todos terminam de comer, tio Gastone – ainda muito jovem para o front – quebra o silêncio com os primeiros versos de La Montanara. Aos poucos, todos se unem e cantam juntos aquela canção sobre amor no alto das montanhas.

A montanara é a jovem das montanhas e também o cântico dos que se esforçam nas subidas em terreno íngreme e gelado. A música marcava o ritmo de caminhada dos povos dos Alpes, soando como um espetacular coral de anjos. Hoje, se não podemos ouvi-los, nos resta imaginar. Gastone aprendeu a cantar La Montanara com o pai, que tivera como companhia aquela música durante seus anos de combate na Primeira Guerra Mundial. Os soldados entoavam aquela canção para se aquecer e ganhar forças. A emoção de cantar em grupo ajudava a encarar o medo da morte e aceitar que sacrifícios seriam necessários em nome de suas famílias. Cantava-se para viver e para sobreviver, por dentro e por fora.

Tio Gastone cantava para mim na hora de dormir, mas eu muitas vezes preferia cantar junto em vez de me entregar ao sono. O treino informal de quase todos os dias deu afinação ao timbre de criança e fez com que eu me tornasse a segunda voz de um dueto que muitas vezes seguia por mais quatro ou cinco músicas antes de o sono vencer.

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Conheça outros livros nossos

Agenda: oficina sobre Jornalismo, fake news e educação

É com muito orgulho que a Daria um Livro anuncia sua participação na Semana de Formação em Direitos Humanos e Educação Popular, promovida pela Ação Educativa, em São Paulo.

O evento deste ano, com o tema Nós contamos histórias: memórias, imaginação e reinvenção, busca contar e reafirmar histórias, falar de memória e narrativas.

Diante de um contexto em que falsas narrativas estão sendo criadas e disseminadas, a proposta é revisitar as construções e as lutas por direitos estabelecidas ao longo das décadas em nosso país, como forma de orientar novas estratégias políticas e compartilhar as narrativas invisíveis, mas fundamentais para a compreensão do país em que vivemos e de todas as suas desigualdades. 

Serão mais de 50 atividades entre os dias 16 e 20 de julho. No dia 18, às 10h, nossa apresentação falará sobre Jornalismo, fake news e educação (veja abaixo). Para participar, é necessário pagar uma taxa única (R$75,00), que permite a inscrição em todas as atividades. 

Jornalismo na escola: direito à informação e combate às fake news

O problema das notícias falsas – popularizado na expressão “fake news” – assumiu papel central nos últimos anos. Trata-se de um tema que envolve questões e problemáticas diversas: propaganda política, disputas de poder, o uso e a dinâmica de mídias digitais, o contexto da produção de conteúdo por veículos de mídia tradicionais, formação e reforço
de identidades, credibilidade de instituições científicas e educacionais, entre outras.

Em discussões envolvendo especialistas na área, é praticamente unanimidade a ideia de que enfrentar esse problema passa necessariamente por sua discussão em todos os níveis escolares.

Na oficina, iremos abordar o problema das notícias falsas e sua disseminação, o modo de produção de veículos jornalísticos, ética e direito à informação, o conceito de checagem e as possibilidades de abordar o tema no ambiente escolar.

  • Carga horária: 3 horas
  • Data: 18 de julho, quinta-feira
  • Horário: das 10h às 13h

A quem se destina

Professores/as de todos os níveis e disciplinas da Educação Básica.

Educadora

Flávia Siqueira

Foto_FlaviaSiqueira (2) (1)Formada em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Passou por redações de veículos impressos e on-line. Foi subeditora das revistas Educação e Ensino Superior, da Editora Segmento. Trabalhou por seis anos como redatora do portal de notícias UOL, onde produziu e editou conteúdo para home pages, aplicativos e redes sociais. Também atuou como repórter para publicações especializadas em Construção Civil, Ciência e Cinema. Entre outras atividades, faz graduação em Letras (licenciatura), participou de encontros do Núcleo de Estudos em História Oral (Neho) da USP e fez cursos sobre produção editorial e preparação de texto. Tem pós-graduação em Gerenciamento de Projetos pela Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec- SP). Cursou disciplinas de pós-graduação na ECA-USP nas áreas de Análise de Discurso e Ambientes Digitais.

Veja a programação completa aqui.

INSCRIÇÕES: www.centrodeformacao.acaoeducativa.org.br 

* Aqueles que se inscreverem até sexta-feira, dia 05/07, podem utilizar um cupom de desconto de 20% do Centro de Formação: Educação Popular, Cultura e Direitos Humanos. Na página de pagamento, é só inserir SEMANA2019 no campo “Cupom”.

4ª edição da Semana de Formação em Direitos Humanos e Educação Popular
Data: entre os dias 16 e 20 de julho
Taxa de inscrição: R$75,00 (pagamento via site – débito, crédito ou boleto)
Inscrições: www.centrodeformacao.acaoeducativa.org.br
Mais informações: (11) 3151-2333, ramal 177 | semanadeformacao@acaoeducativa.org.br

Reaprendendo a caminhar: a história de Pedro Alves

Conheci Pedro no Caminho do Sertão. Enquanto caminhávamos por dezenas de quilômetros – eu calejando os pés, e ele calejando também as mãos, do aperto firme nas muletas –, ele me ensinava a ter tranquilidade para enfrentar os desafios da estrada e da vida. Esta é sua história:

 

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Pedro Alves e seus recomeços. Foto: Patrícia Pacheco

Aos 32 anos, Pedro Alves estava casado, tinha filhos e trabalhava como vigia noturno numa empresa. Naquela altura, ele já tinha superado a dureza do trabalho infantil no campo – onde ajudava os pais no plantio de milho, mamona e feijão desde os 7 anos de idade, muitas vezes trocando a escola, a 5 km de caminhada, pela enxada sob o sol quente de Irecê (BA). Mas no dia 20 de maio de 2011, durante seu expediente, um disparo atravessou o caminho, e também sua perna esquerda. Calibre 12. “Eram cerca de 22h30 e eu vi a morte na minha frente”.

Pedro estava perdendo muito sangue, e com ele os sentidos, mas conseguiu se arrastar até o telefone para pedir socorro. Ele ainda se lembra do foco de luz da viatura da polícia que chegava, como uma esperança a se agarrar.

A noite foi longa. O hospital local não tinha as condições necessárias para atendê-lo e foi preciso fazer sua transferência para uma unidade maior. Quando chegou ao hospital de Campina Grande, a 450 km de São Bento (PB), onde vivia, já passava das 5h da manhã. Apesar de suas condições, as lembranças de Pedro ainda são nítidas: “pedi ao médico que colocasse minha perna no lugar. Não acreditei quando acordei da cirurgia e vi que ela não estava mais lá”.

 

Recomeços

Três dias depois, ele estava de volta à sua cidade, mas recomeçar foi difícil. Ele tinha perdido uma perna, o emprego e o rumo. “Minha esposa tinha vergonha de ser vista comigo, andando com uma perna só. Meu casamento acabou e muitas pessoas, ao me verem sozinho, acharam que seria meu fim.”

Pedro chegou a conseguir um novo emprego, de garçom, em uma churrascaria. “Mesmo com uma perna só eu atendia os clientes, mas ainda não estava bem. Foi quando resolvi sair pelo mundo à procura de novos horizontes.” Ele tinha uma irmã morando em Uauá, no norte da Bahia, e foi visitá-la por alguns dias.

Andando pela nova cidade, na região de Canudos e Monte Santo, parou para ouvir um artista local que se apresentava na rua. Foi quando algo inesperado aconteceu: “soltei as muletas e fui dançar no meio da praça – coisa que, quando eu tinha as duas pernas, eu não fazia! As pessoas foram se aproximando para ver… O músico parou de cantar para observar enquanto eu dançava, depois disse que aquilo era um exemplo de vida.”

Ali Pedro percebeu, pela primeira vez, que poderia recomeçar sua vida em Uauá. Alugou uma casa e começou a trabalhar na rádio comunitária Luz do Sertão, como locutor de um programa romântico e também como repórter cidadão pelas ruas da cidade.

É onde vive até hoje, apesar dos desafios que continua a enfrentar. “Amo o que faço, mas não ganho quase nada com isso. Do INSS são R$ 480, mas às vezes cortam o benefício e demora até conseguir restabelecê-lo, e só de aluguel são R$ 250. É difícil.”

Lutando a batalha de todo dia para viver num país como o Brasil e com uma deficiência física, Pedro buscava um sentido para sua trajetória. Ele conta que um dia estava na rádio quando ouviu sobre a Caminhada dos Umbuzeiros, um trajeto de 55 km a serem percorridos em três dias pelo sertão baiano. “Senti que era uma oportunidade para eu me redescobrir, liguei e me inscrevi. Queria ver até onde eu podia ir, qual era meu limite físico. Eu queria desafiar a mim mesmo, saber para que fiquei vivo depois de perder minha perna.”

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Nas caminhadas, Pedro supera limites e descobre novos horizontes para sua vida. Foto: Patrícia Pacheco

No dia da caminhada todos se surpreenderam ao conhecer Pedro pessoalmente e descobrir que ele usava muletas e não tinha uma perna. “Alguns caminhantes disseram que eu iria dar trabalho para eles durante o percurso. O maior desafio foi eu acreditar em mim mesmo e passar essa crença para as pessoas que estavam comigo. Tive medo, não vou dizer que não tive. Tive medo de desapontar a mim mesmo.” Mas Pedro conseguiu. E ali algo começou a mudar.

“Conseguir chegar foi um sonho realizado, o melhor presente da minha vida foi ter completado o percurso da Caminhada dos Umbuzeiros. Ali eu percebi que poderia ir muito mais além. Meu maior desafio não era nem a caminhada em si, era eu ter uma vida… normal.”

 

Atleta

Empolgado com a experiência, Pedro se inscreveu depois no Caminho do Sertão. O percurso – 180 km pelo noroeste mineiro – assustou-o, mas mesmo assim resolveu tentar e conseguiu completar a maior parte do trajeto.

Animado com as conquistas, ele participou de uma mini-maratona de 10 km e depois foi até São Paulo para a São Silvestre de 2017. “Tinha 18 pessoas na categoria deficiente por amputação da perna e eu cheguei em sexto lugar. Foi uma felicidade sem tamanho”.

Em 2018, aos 39 anos, ele voltou ao Caminho do Sertão para completar o trajeto incluindo o que faltava: o Morro do Fogo, com 3,5km de subida e depois descida, e o Vão dos Buracos, uma trilha estreita e íngreme que pede a subida em 4 apoios em alguns trechos.

“Tive medo, mas a vontade de vencer foi maior que o meu medo”.

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Com força e persistência, Pedro atravessa o sertão. Foto: Patrícia Pacheco

Foi nessa caminhada que conheci Pedro. Enquanto caminhávamos – eu calejando os pés, e ele calejando também as mãos, do aperto firme nas muletas –, ele me deu conselhos sobre ter tranquilidade para enfrentar os desafios.

Pedro pretendia voltar à São Silvestre em 2018, mas não conseguiu os recursos para a viagem – ele não tem nenhum apoio institucional, apesar de ter a resistência de um atleta. Em 2019, ele vai tentar novamente.

“Tudo isto tem servido para eu ser grato a Deus. Podemos pensar que estamos entregues, mas ainda conseguimos enxergar um novo horizonte. Esta é minha história”.

***

Mais sobre o Caminho do Sertão

E meu relato pessoal sobre a caminhada: Pelos caminhos do Grande Sertão: Veredas

[Por Marina Almeida]

A voz, e a letra, de mulheres escritoras

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No livro Um teto todo seu (Editora Tordesilhas, 2014), Vírginia Woolf fala sobre o que seria necessário para que uma mulher escreva ficção: um lugar sossegado para trabalhar, certa independência financeira e alguma validação social. Parece pouco, mas, como a autora nos mostra, a vida das mulheres foi por muito tempo condicionada aos cuidados do lar, dos filhos e do marido, e suas capacidades intelectuais questionadas. A luta das mulheres vem trazendo importantes mudanças para esse cenário, mas os desafios ainda são muitos.

Por isso, neste 8 de março queremos relembrar o trabalho de grandes escritoras brasileiras e estrangeiras que superam as mais diversas dificuldades para colocar sua voz no mundo.

Ana Cristina Cesar: a Ana C., como era conhecida, foi uma escritora, poeta e tradutora brasileira que participou do movimento Literatura Marginal, na década de 1970. Sua obra, em tom confessional e íntimo, é também irreverente e muitas vezes enigmática. Conheça mais sobre ela

Ecléa Bosi: foi uma estudiosa das relações entre memória e velhice. Em seu livro Memória e sociedade – Lembranças de velhos (Companhia das Letras, 1994), ela faz um resgate não apenas das informações sobre o passado de famílias imigrantes na cidade de São Paulo, mas da arte e do trabalho de viver, lembrar, narrar e registrar. Leia alguns trechos selecionados

Elena Ferrante: a italiana tem obras publicadas desde o começo da década de 1990, mas tornou-se um fenômeno global nos últimos anos, com o sucesso de sua Série Napolitana. A escritora é ao mesmo tempo autora e personagem, ficção e realidade. Isso porque não sabemos quem é a pessoa física que escreve suas obras. A autora fala sobre seu processo de escrita, construção de linguagem e relações familiares na obra Frantumaglia.

Alice Munro: a canadense é a primeira autora de contos a conquistar o Nobel de Literatura – prêmio recebido por ela em 2013. Leia mais sobre seu livro O amor de uma boa mulher.

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Outros nomes – entre tantos – que merecem ser conhecidos:

Ana Paula Tavares, poeta angolana; Teolinda Gersão, escritora portuguesa que une diversas artes em suas obras líricas e sensíveis; Graça Graúna, poeta indígena potiguara e professora de literatura; Lídia Jorge, que une realidade e fantasia em sua narrativa e também na linguagem; Amélie Nothomb, autora belga de humor ácido e personagens excêntricos; Carmen Laforet, com sua narrativa existencialista num mundo marcado pela violência; e Margaret Artwood, com suas personagens femininas fortes e cenários distópicos. Falamos mais sobre  todas elas neste post.

O tempo das mudanças

Sobre os planos de mudanças e o tempo que nem sempre segue a nossa vontade, Domingos Pellegrini nos diz tudo que precisamos ouvir:

“O tempo pôs a mão na tua cabeça e ensinou três coisas.

Primeiro: você pode crer em mudanças quando duvida de tudo, quando procura a luz dentro das pilhas, o caroço nas pedras, a causa das coisas, seu sangue bruto.

Segundo: você não pode mudar o mundo conforme o coração. Tua pressa não apressa a História. Melhor que teu heroísmo, tua disciplina na multidão.

Terceiro: é preciso trabalhar todo dia, toda madrugada para mudar um pedaço de horta, uma paisagem, um homem. Mas mudam, essa é a verdade.”

Feliz ano novo a todos!

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Geraldinho: a alegria e os causos do interior do Brasil

geraldinhoGeraldinho Nogueira era um contador de causos, um homem que falava a língua da roça, do interior do Brasil e fazia todos rirem com suas histórias e suas habilidades cênicas para a narração. Conta-se que Geraldinho não perdia uma oportunidade de contar (e alegrar com) suas histórias. Toda hora era hora: na roça, nas festas, no boteco, nas folias, quermesses e – acreditem – até nos velórios!

Natural de Bela Vista de Goiás (GO), Geraldinho não tinha estudos e dizia “minha caneta é a enxada na saroba”. Ainda assim, seus causos chamaram a atenção tanto pela originalidade quanto por sua linguagem única. Seu talento foi revelado por Hamilton Carneiro e José Batista em 1984. Eles levaram os causos de Geraldinho para o programa Frutos da Terra, da TV Anhanguera, o que trouxe reconhecimento nacional para o contador.

Além das características próprias da linguagem regional e oral, as histórias de Geraldinho utilizam-de de variações estilísticas para criar seu efeito cômico e original. Como bom contador de causos, Geraldinho usava expressões muito criativas: “subaquim da perna” (atrás do joelho), “recursim de minguar a toada” (freio), “esgotamento do mês” (menstruação), “molas do jueio” e “ferramenta de mijá” são algumas das expressões que se tornaram sua marca.

Antes de se apresentar para o grande público na TV, o linguajar do contador de causo sofreu algumas alterações. Orientado pelo apresentador e empresário, adequou sua linguagem aos meios de comunicação, removeu algumas palavras e expressões que conteriam “excessos de regionalismo”. Mas a originalidade de Geraldinho está justamente em sua habilidade com a linguagem e em sua espontaneidade.

Geraldinho Nogueira é um dos grandes contadores de causos do Brasil. Apesar de bastante esquecido após sua morte, seu trabalho merece ser preservado pela maestria com que trabalhava a linguagem dos contos e a originalidade de suas histórias.

Conheça o “Causo da Bicicleta”, uma de suas histórias mais famosas:

 

Você ou seus familiares também têm muitos causos para contar? Já pensou em registrar essas histórias como forma de preservá-las? Nós, da Daria um livro, podemos ajudá-lo nesse trabalho, com muito respeito às suas histórias e valorizando a linguagem original do contador. Entre em contato conosco!

 

Uma visita à casa (e à obra) de Guimarães Rosa

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Cordisburgo (MG) é uma cidadezinha de menos de 10 mil habitantes e a terra natal do escritor Guimarães Rosa. Na casa-museu do autor, que viveu ali até os 9 anos de idade, podemos conhecer um pouco mais sobre sua vida, sua obra, suas inspirações e a origem de seus personagens tão singulares…

A casa mantém a decoração de uma moradia do interior no início do século 20. O quarto da família tem terços, oratório e colcha bordada; a cozinha, fogão a lenha, panelas de ferro, pilão e cristaleira; além de um poço e um carro de boi no quintal dos fundos.

O pai de Guimarães Rosa tinha uma venda e conta-se que o primeiro contato do autor com as falas e as histórias sertanejas vem do que ele ouvia ali enquanto seu pai trabalhava. Na venda encontramos os produtos que serviam à vida daqueles tempos: os artigos de couro e de palha, os vasos de barro, o berrante, ­os brinquedinhos da época, os chapéus e as violas, as espingardas, as selas, os esteios, entre outros.

Descobertas sobre Rosa

O museu também possui um grande acervo sobre Guimarães Rosa. A máquina de escrever do autor, objetos de seu escritório pessoal, cartas, originais de suas obras e as correções feitas por ele. Podemos ver ali o longo processo por trás de cada um de seus trabalhos: ele relembrava, com a ajuda de cartas ao pai, as histórias da região, pesquisava sobre as plantas e o vestuário das pessoas, fazia viagens… Claro que seu trabalho ia muito além de recolher essas histórias, transformando-as em grandes obras literárias, mas é interessante ver que mesmo um grande autor precisa estudar e pesquisar. Não se cria no vazio, é preciso perguntar, ver e ouvir de peito aberto a natureza e o povo do sertão para escrever sobre ele. Viver para contar.

Portal do sertão

A cidade ainda abriga o Portal do Sertão, uma homenagem ao escritor e a alguns de seus personagens mais famosos: sete estátuas em bronze, que representam parte do bando de jagunços de Riobaldo – do livro Grande Sertão: Veredas. Atrás deles, de óculos, papel e caneta na mão, o próprio autor nos sorri e parece cumprimentar quem se aproxima de sua criação.

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Leia mais sobre o passeio a Cordisburgo (MG)

[Marina Almeida]

Objetos de memória

Quando minha avó chegou ao Brasil com minha mãe, trouxe, no navio, um baú de ferro e madeira. Quando eu era criança, fazia de conta que aquele era o baú de um tesouro pirata.

Eu gostava de abrir a caixa pesada e ficar remexendo nas coisas que estavam dentro dela. Brincava que eram meus tesouros, embora nada ali se parecesse com as moedas de ouro e as joias que eu via nos filmes de pirata.

A verdade é que só hoje eu consigo perceber que aquele baú realmente guardava – e guarda – alguns dos tesouros da minha família.

Nosso baú está cheio de tecidos: toalhas, colchas, panos bordados, retalhos diversos. Minha avó costurava, e cada pedaço de pano ali tem uma história. Entre eles, uma toalhinha feita do linho que minha própria bisavó plantou, colheu, lavou, fiou, teceu e costurou. Tudo feito em casa por mãos que nunca cheguei a conhecer, mas que se comunicam comigo não só pelo desenho de minhas digitais, mas pelo toque de seu trabalho manual.

No baú também está uma colcha de frio feita com a lã dos carneiros que minha família criava em Portugal.  E alguns dos retalhos de pano comprados por minha avó na feira, já aqui no Brasil – tecidos que, com muita criatividade, foram transformados em peças de roupa para toda a família, e sem nenhum remendo visível, como até hoje todos se orgulham de lembrar.

Também estão lá os bordados da minha mãe, a renda fina da Ilha da Madeira dada pela vizinha em troca de um empréstimo num momento de necessidade…

Alguns objetos podem guardar parte da nossa história. Os trabalhos manuais são recordações que nos permitem tocar as mãos de outras gerações. E não precisam ser coisas grandiosas ou caras – importa apenas que nos ajudem a contar, sentir e ver um pouco da história que fez nossa vida ser o que é. Ainda quero aprender a tecer algo com as mãos, para dar minha contribuição ao nosso baú.

E você? Que objetos contam sua história?

E já pensou em transformar a história de sua família em livro? Conheça nosso trabalho.

[Marina Almeida]

Dica de leitura: Alice Munro

alicemunro_livroDica de leitura: você conhece Alice Munro? A canadense é a primeira autora de contos a conquistar o Nobel de Literatura – prêmio recebido por ela em 2013.

No livro O amor de uma boa mulher (Companhia das Letras, 2013), viajamos com a escritora para pequenas cidades do interior do Canadá e conhecemos os detalhes de seu cotidiano e da vida de mulheres dali, em histórias que se passam entre os anos 1950 e os dias atuais.

As personagens, muitas aspirantes a artistas, buscam seu espaço em um mundo que as relega a posições marginais, de caminhos estreitos e limitados, ora subvertendo-os, ora dobrando-se para se encaixar neles.

A riqueza das descrições e o olhar intimista para o interior das personagens, aliados a um texto de linguagem clara, garantem um mergulho profundo em cada uma de suas histórias.

Recomendamos! 🙂