Quarentena: como ajudar quem mais precisa

Todos os dias agora penso no mundo que está parando, em todos os planos que foram cancelados e estão suspensos e em como a vida acontece de um jeito que a gente é incapaz de imaginar e de prever.

Penso na tristeza que dá e que a gente tenta não pensar para continuar, e em como os gestos de solidariedade têm me emocionado tanto esses dias…

Tem gente que liberou seu livro de graça, seu filme, seu curso, gente que está doando dinheiro, atenção, preocupação, psicólogos atendendo de graça quem precisa, gente preocupada, divulgando informação, distribuindo carinho, afeto, abrindo a janela, o telefone até pra um estranho, ligando pros amigos, pra família… Mais que as notícias de dor, isso é o que me tem comovido às lágrimas.

E eu tenho pensado quase todo dia se eu fiz o meu melhor, se eu divulguei um serviço legal, um projeto, ou uma denúncia. Se assinei aquele abaixo-assinado – que parece tão pouco, mas se formos muitos… quem sabe –, se doei um pouco para quem precisa tanto, se liguei para a amiga, se mandei mensagem para aquela outra que vive sozinha, se cuidei bem dos meus aqui em casa…

Tem vezes também que só ficar bem para mim mesma, superando o medo, a ansiedade e fazendo o que precisa ser feito é trabalho para o dia todo, e tento respeitar isso. Mas tem dia em que eu faço mais, e que bom.

Isso era só um pequeno desabafo, mas resolvi listar abaixo algumas atitudes que todos podemos tomar – muitas de dentro de nossas casas – para fazer um pouco mais pelo outro, esse jeito diferente de fazer algo também por nós mesmos.

Como diz a famosa frase da cantora Joan Baez: “o melhor antídoto contra o desespero é a ação”. Vamos agir? Aqui estão 9 formas de ajudar:

1. Fazer uma doação

Várias campanhas tem surgido com o objetivo de oferecer alguma assistência aos mais vulneráveis, que ficaram ainda mais expostos à doença e à fome. As campanhas são muitas, mas separei aqui algumas que me tocaram e que são reconhecidos pela seriedade:

Mutirão do bem viver

Este projeto, que une o campo e a cidade, prevê a distribuição de alimentos agroecológicos para a população em situação de rua e para moradores de periferias e de territórios vulneráveis no campo e nas florestas, além da criação de hortas e cozinhas comunitárias. Conheça mais e participe neste endereço: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/mutirao-do-bem-viver-em-resposta-a-pandemia.

Moradores de rua

O padre Júlio Lancellotti recebe doações de material de higiene e limpeza, alimentos e roupas, presencialmente na rua Taquari, 1100, Mooca, São Paulo. Doações em dinheiro podem ser feitas para Mitra Arquidiocesana de São Paulo CNPJ 63.089.825/0001-44, Banco Bradesco, Agência 0124, Conta Corrente 0053148-0.

Povos indígenas

Epidemias têm um impacto ainda maior nos povos indígenas, e muitos deles vivem em regiões afastadas e sem acesso fácil a hospitais e postos de saúde. Com o isolamento, algumas aldeias também podem sofrer com a falta de alimentos e com o fim de recursos vindos de eventos e venda de artesanato. Para apoiá-los, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) organiza uma vaquinha: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/apoie-os-povos-indigenas.

MTST

O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto criou um fundo solidário para ajudar na compra de alimentos e itens de higiene para distribuir para a população de pessoas sem-teto. Para doar, acesse https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajude-os-sem-teto-a-enfrentar-o-coronavirus.

Periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo

O dinheiro arrecadado será usado na distribuição de alimentos e kits de higiene em diversas comunidades: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/campanha-de-solidariedade-em-tempos-de-coronavirus

Equipamentos de saúde

Para ajudar o Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo a adquirir equipamentos de proteção individual usados no atendimento aos pacientes, foi criada esta campanha: https://www.charidy.com/vempraguerra.

2. Manter contato virtual com amigos e familiares

Vale lembrar também daquela pessoa com quem você não tem contato faz tempo e dos colegas que sofrem com ansiedade ou depressão e que podem estar precisando ainda mais de uma conversa nessa hora.

Difícil dizer se você vai mais ajudar ou ser ajudado dessa forma, mas é uma ótima maneira de passar a quarentena.

3. Fazer compras para seu vizinho idoso ou com algum problema de saúde

E também podem ser de grande ajuda: uma ligação, uma mensagem, ou mesmo um bilhetinho deixado no elevador para falar com o vizinho com quem você não tem muito contato, mas que pode estar precisando de um apoio nessa hora.

4. Doar sangue

A recomendação é não sair de casa se não for necessário, mas, se você mora perto de um local de coleta de sangue, pode aproveitar uma saída e fazer uma doação. Por conta da crise, as reservas de bolsas de sangue estão operando com baixa capacidade.

Para reduzir os riscos de contágio, muitos lugares também estão trabalhando com agendamento individual de horário para a doação, além de reforços na higienização do ambiente. Em São Paulo, você pode saber mais no site da Pró-Sangue: www.prosangue.sp.gov.br.

5. Pagar a empregada doméstica e dispensá-la do trabalho

Isso reduzirá a exposição dela (e a sua, por tabela) ao novo coronavírus. Manter a remuneração é uma forma de proteger a pessoa que trabalha em sua casa da vulnerabilidade econômica num momento tão complicado. Se você tem condições de pagar uma doméstica no dia a dia, provavelmente também tem como manter a remuneração dela neste período.

6. Fazer máscaras de pano…

… e distribuí-las para familiares, vizinhos e profissionais que precisam circular pelas ruas.

Veja como fazer aqui e lembre-se da importância de retirá-las corretamente após o uso e de higienizá-las antes de reutilizar: lave com água e sabão, deixe secar ao sol e passe com ferro quente. Leia mais sobre os cuidados nesta matéria.

7. Usar seu computador para processar pesquisas sobre o coronavírus

Com um simples cadastro neste site, sua máquina pode ajudar pesquisadores a processar dados sobre o vírus nos períodos em que ela estaria ociosa. Participando da iniciativa, você receberá informações periódicas sobre a pesquisa que está sendo processada em seu computador. Mais informações no site (em inglês) https://foldingathome.org/.

8. Assinar um abaixo-assinado

Algumas campanhas online podem ter efeito se conseguirem um grande número de assinaturas neste momento. Destaco aqui este apelo por um cessar fogo mundial, para que os países deixem conflitos de lado e se concentrem em salvar mais vidas neste momento, e este pelo perdão da dívida dos países mais pobres, permitindo que esse dinheiro seja usado para salvar vidas.

9. Fortalecer o pequeno empreendedor

Comprar no comércio local, divulgar os produtos e serviços das pequenas empresas e ajudar a divulgar seu trabalho são formas de fortalecer esses negócios e ajudá-los a não quebrar neste momento de difícil competição com os grandes grupos.

[Marina Almeida]

Como ler mais em tempos de internet?

Uma das minhas metas para 2019 era ler mais. Chego ao final deste ano com mais de 30 livros lidos, mais alguns pela metade e a sensação de que com algum esforço e intenção, não é tão difícil recuperar os velhos hábitos.

Também ouvi de muitos amigos que sentem a concentração menor em tempos de redes sociais e cultura do imediatismo e que estão lendo menos. Eu entendo o sentimento e não tenho uma resposta única para a pergunta do título, mas pensei em compartilhar o que funcionou para mim neste último ano:

-Listar os títulos que interessam e mantê-los sempre à vista. Lembrar que quero ler aquele livro que parece muito legal funcionou melhor como incentivo do que uma autocobrança vazia de que eu deveria ler mais.

-Manter bons livros por perto. Eu baixei e-books que eu poderia acessar a qualquer momento do celular, deixei outros na minha mesinha de cabeceira e na estante… Quando tinha um tempinho, eles estavam ali ao lado, era só esticar o braço ou apertar um botão.

-Frequentar bibliotecas ❤. Poder escolher entre tantos livros ajuda a encontrar um que se encaixe no que você busca. Além disso, não custa nada nas bibliotecas municipais. Nem sempre tem uma por perto, é verdade, eu mesma não tenho, mas me organizo para passar na biblioteca entre uma atividade e outra do dia, no caminho para o trabalho ou passeio.

 

E o que ler?

Pensando nessa deia de ler porque os livros são bons, não porque “é preciso”, listei 5 livros que me marcaram especialmente neste ano, porque me inspiraram, emocionaram ou, simplesmente, me divertiram durante a leitura. Quem sabe você não se interessa por algum deles e inclui na sua listinha de leituras para 2020 🙂 .

 

 faxineiraManual da faxineira, Lucia Berlin: em sua vida, Lucia Berlin morou nos EUA, Alasca, Chile e México. Foi faxineira, enfermeira, secretária, professora de espanhol, professora universitária. Casou três vezes, teve 4 filhos, criou-os sozinha a maior parte do tempo, travou uma dura batalha contra o alcoolismo… Conto tudo isso porque seus contos têm grande inspiração autobiográfica. E porque a vida escorre de suas páginas com uma força e inteireza que nos fazem acreditar que tudo ali aconteceu, mesmo o que talvez seja ficção. Em sua escrita, as observações precisas sobre os mundos que conheceu vêm em doses de humor, poesia e sarcasmo.

No conto que dá nome ao livro, entre a narração de sua rotina, encontramos pequenas dicas sobre o trabalho:

“(Faxineira: Mostre a eles que você faz um serviço completo. No primeiro dia, ponha todos os móveis de volta no lugar errado… dez a vinte centímetros mais para um lado, ou virados em outra direção. Quando tirar o pó, inverta a posição dos gatos siameses. Ponha a cremeira à esquerda do açucareiro. Troque todas as escovas de dentes de lugar.)”

 

– Olhos d’água, Conceição Evaristo: em contos curtos e sensíveis, a autora – consagrada personalidade do ano pelo Prêmio Jabuti – traz para a literatura o cotidiano de trabalhadores, empregadas domésticas, crianças de rua, mendigos… Entre ruas de terra e barracos, as notícias policiais ganham cor, cheiros, sonhos e afetos enquanto a violência não interrompe seus contos e suas histórias antes da hora.

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“Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face. E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.”

  

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– Vozes, Ana Luisa Amaral: entre silêncios e vozes de tempos e espaços diversos, a poeta portuguesa reconta muitas histórias da tradição portuguesa e europeia sob outros pontos de vista, como o das mulheres e crianças. Em alguns de seus poemas, a autora imagina, com muito humor, a resposta da Senhora às Cantigas de Amigo tradicionais, em outro, Inês e Pedro velhinhos estão às voltas com o dia a dia, a paixão do passado e um presente de companheirismo, câimbras, artrose e aparelhos para surdez.

No poema abaixo, um dos meus favoritos de todo o livro, ela imagina outras histórias, mais bonitas, sobre o que poderia ter sido o primeiro contato entre Europa e América (aqui o poema completo, porque é lindo):

 

“As penas coloridas sobre um elmo,
a cota de malha lançada pelo ar como uma seta,
os sons dos pássaros sobre a cabeça,
imitar os seus sons,
num lago de água doce limpar corpo e
pecados de imaginação,
sentir a noite dentro da noite,
a pele junto da pele,
imaginar um sítio sem idade.

Trocar o fogo escondido pelo fogo alerta,
o arpão pelo braço que se estende,
gritar «eis-me, vida»,
sem ouro ou pratas.
Com a prata moldar um anel
e uma bola de fogo a fingir,
e do fogo desperto fazer uma ponte a estender-se
à palmeira mais alta.

Esquecer-se do estandarte no navio,
depois partir da areia branca, nadar até ao navio,
as penas coloridas junto a si,
trazer de novo o estandarte e desmembrá-lo.
Fazer uma vela, enfeitá-la de penas,
derretidos que foram, entretanto,
sob a fogueira alta e várias noites,
elmo e cota de malha.

Serão eles a dar firmeza ao suporte da vela,
um barco novo habitado de peixes
brilhantes como estrelas.

Não eleger nem mar, nem horizonte.
E embarcar sem mapa até ao fim
do escuro.” 

 

– A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha: este livro virou filme e está em cartaz nos cinemas. Ainda não consegui assistir, mas recomendo muito a leitura. No Rio de janeiro dos anos 1940, conhecemos a história de uma mulher brilhante, tentando criar um novo mundo para si, inventando possibilidades num tempo em que as mulheres eram criadas para o lar, a família e a falta de aspirações. Um trechinho que mostra bem isso:

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“Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar. E foi assim que concluiu que não deveria pensar. Que para não pensar deveria se manter ocupada todas as horas do dia, e que a única atividade caseira que oferecia tal benefício era aquela que apresentava o dom de ser quase infinita em suas demandas diárias: a culinária. Eurídice jamais seria uma engenheira, nunca poria os pés num laboratório e não ousaria escrever versos, mas essa mulher se dedicou à única atividade permitida que tinha um certo quê de engenharia, ciência e poesia.”

 

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A cabeça do santo, Socorro Acioli: um estranho peregrino chega a uma cidade quase abandonada do sertão nordestino. Ali, encontra abrigo na cabeça de uma estátua de Santo Antônio abandonada e descobre que, lá dentro, consegue ouvir as preces das mulheres para o santo casamenteiro. Quando o realismo fantástico encontra o canganço… E o livro tem uma história curiosa: a autora começou a desenvolver a trama numa oficina com Gabriel Garcia Marquez.

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“Candeia era quase nada. Não mais que vinte casas mortas, uma igrejinha velha, um resto de praça. Algumas construções nem sequer tinham telhado, outras, invadidas pelo mato, incompletas, sem paredes. Nem o ar tinha esperança de ser vento. Era custoso acreditar que morasse alguém naquele cemitério de gigantes.”

 

 

Jornalismo, educação e combate às ‘fake news’

Em oficina apresentada na Ação Educativa, Flávia Siqueira falou sobre os desafios e a importância na escola no combate à desinformação

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“Não basta um grande jornal publicar uma lista de ‘X itens para identificar uma notícia falsa’, pois a credibilidade desses  veículos tem sido posta em xeque. Sem o protagonismo da educação, é impossível enfrentar o problema das fake news de forma efetiva”. Com base nessa premissa, Flávia Siqueira, jornalista e escritora da Daria um Livro, realizou uma oficina sobre jornalismo na escola e combate às notícias falsas. Voltado para estudantes e profissionais da educação, o evento foi promovido pela Ação Educativa, como parte da 4ª Semana de Formação em Direitos Humanos e Educação Popular.

Flávia ressalta que é preocupante observar o impacto que as “fake news” ou “notícias falsas” passaram a ter na nossa realidade política e social e que são necessárias novas abordagens para lidar com o problema. “Em paralelo à disseminação de informações deturpadas, ao longo dos últimos anos, a mídia tradicional e o jornalismo profissional passaram a ser questionados também. Jornais, sites e emissoras de TV têm sido acusados de ter uma agenda ideológica. De um lado, é positivo que a suposta imparcialidade da mídia profissional seja questionada – lembrando que imparcialidade total ou neutralidade não existem em contexto nenhum. De outro, é preciso que as pessoas tenham, então, embasamento para realizarem uma leitura crítica das informações e do mundo por si mesmas – de modo que elas consigam decidir, com alguma clareza, em quais fontes de informação confiar. O único caminho para isso é a educação. E é um caminho longo e complexo.”

Ela explica que o problema da desinformação envolve muitos fatores: posicionamentos políticos, situação econômica, nossa relação com as novas tecnologias, nossa tendência de acreditar apenas no que confirma nossas crenças já estabelecidas, nossa vontade de que problemas complexos e históricos sejam resolvidos imediatamente, e muitas outras coisas. “Não se enfrenta um problema assim apenas com listas ou vídeos rápidos sobre como identificar uma notícia falsa. Nem se colocando na posição de autoridade e dizendo para as pessoas simplesmente pararem de compartilhar o que recebem no WhatsApp ou nas redes sociais”, aponta.

Papel da escola

Para ela, a única solução efetiva é dar às pessoas ferramentas para que possam lidar com a informação num mundo complexo e tecnológico. “Para que elas saibam que existem intenções por trás dos conteúdos e dos formatos das mensagens, que todos nós temos pontos fracos que são explorados por empresas e sites que querem ganhar dinheiro com cliques em links e publicidade, que os dispositivos digitais criam artificialmente uma sensação de urgência, que o discurso do marketing político tenta manipular emoções. Isso só é possível no longo prazo e por meio da educação”.

Para poder fazer essa análise das informações recebidas, o papel da escola é fundamental. Flávia defende, por exemplo, a importância de aprender como funciona o trabalho jornalístico em sala de aula. “Esse olhar crítico exige que as pessoas entendam como se faz bom jornalismo. Essa noção pode ser desenvolvida se elas experimentarem os métodos de apuração na escola, se entenderem por si mesmas o que funciona e o que não funciona, o que é ético e o que não é (e o porquê), se fizerem exercícios de leitura crítica de reportagens”.

Para os participantes da oficina, a escola passa por um momento de angústia: não há dúvidas sobre a importância da educação no combate à desinformação, mas ainda não existem respostas prontas sobre os caminhos a seguir. “É algo que precisamos construir. Pensar, por exemplo, como trabalhar com os pais nessa caminhada, entender que o aprendizado não ocorre de uma hora para a outra, que é preciso tempo para que todos da comunidade escolar discutam, pensem sobre o assunto e formulem suas visões e leituras. Algum sentimento de frustração é inevitável ao longo do processo, e precisamos aprender a lidar com ele”, acredita a jornalista.

Fotos: @acaoeducativa

Tô vendo a banda passar…

Na janela, olhando a rua, cumprimentando os vizinhos ou admirando sua quaresmeira rosa em flor, minha vó cantarola uma música lá de quando ainda era nova. E conta histórias:

Eu tava à toa na vida, o meu amor me chamou para ver a banda passar cantando coisas de amor…

Isso era lá em Cambuquira, passava aquelas bandas na rua e a gente ficava na janela vendo.

Mas o povo é maldoso, tinha uma moça que não era muito bonita e ficava olhando também, logo falaram dela… Que a moça feia achou que a banda tocava pra ela.

Às vezes eu fico olhando a rua, passa alguém e pergunta o que estou fazendo, eu respondo que tô vendo a banda passar. Mas eles não conhece essa música, é que é lá de Minas…”

Conheça a música (composição de Chico Buarque):

Leia trechos de ‘Do outro lado do Atlântico’

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Entre trincheiras

No escuro das frias trincheiras dos alpes italianos, após um dia de combates, numa noite quem sabe de que medos e dores feita, imagino meu pai, um jovem soldado pensando na família e na mulher cuidando de tudo sozinha desde que ele fora convocado para servir o exército italiano. Ele devia se afligir sem saber o que se passava conosco, se teríamos escapado aos bombardeios, se estaríamos passando quais necessidades…

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Na Segunda Guerra Mundial (1940-1945), escapar da morte é a tarefa de dia e noite. Mas, quando cai a luz do sol e os combates diminuem, é a hora da saudade de casa e da incerteza da guerra. Lavinio, meu pai, trabalhava memórias e saudades com as mãos. Esculpia sonhos e mensagens em sua mente, imaginando um dia registrá-las. Como? Onde? Na gaveta de alumínio onde era servida sua comida. Eu, Franco, seu filho primogênito, ainda era um bebê – nasci seis meses antes do início da guerra –, e o pai não sabia se voltaria para me ver crescer. (…)

Um tesouro que guardo com muito cuidado. As mensagens se combinam com ilustrações de traço fino e perspectiva perfeita. Contra a dureza da guerra, a leveza e a precisão das mãos de artista. Não era só à noite que era preciso ocupar a cabeça. Às vezes o trabalho podia ser também durante o dia. Quando os bombardeios eram muitos e todos precisavam se esconder enquanto o mundo explodia acima de suas cabeças, entalhar a vida e a saudade era a sua forma de não enlouquecer. Quem sabe pelo que passava quando fez cada um desses desenhos, inscreveu os nomes da família, suas dedicatórias e pensamentos.

***

 

Quando a guerra acaba…

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Finda a guerra, era hora de reconstruir cidades e famílias. Os escombros podiam ser reerguidos, mas e as pessoas que ficaram pelo caminho? O pai voltou para casa, mas seu cunhado, Enzo, que também tinha sido convocado, não. Ele foi dado como morto, embora seu corpo nunca tivesse sido encontrado.

Dois anos já haviam se passado quando, um dia, chegaram da rua gritando pela avó:

— Albina, Albina!

— Calma, o que foi?

— O Enzo! O Enzo! Não sei se é… está muito magro! Está vindo aí!

Ela correu o máximo que aguentava em seu vestido negro de luto até os pés, avental branco por cima. Ao se aproximar do homem que chegava, ela perdeu o fôlego e diminuiu o passo, embora tivesse os olhos sempre fixos nele. Ele foi chegando mais e mais perto…

— Enzo!

A voz embarga e os olhos se enchem de lágrimas – os da nonna Albina e os meus, ao relembrar a história. Ele estava um esqueleto ambulante, mas ali só uma coisa importava: ele estava vivo! O filho perdido na guerra voltara para casa.

Tio Enzo havia sido enviado para combater no front russo, mas a chegada do inverno deixou os soldados italianos totalmente desguarnecidos. Ele foi preso pelo exército inimigo e quase morreu fuzilado.

Estava prestes a ser morto por um soldado quando um oficial russo se colocou entre eles com seu cavalo.

— Deixa o rapaz ir embora! Acaba com essa história…

Enzo deu o nome daquele oficial russo, Ivan, a um de seus filhos, como homenagem àquele que salvara sua vida. Havia homens de boa índole também do lado de lá das trincheiras…

***

 

Rumo ao Brasil

Para nós, crianças, a viagem de navio era uma aventura com destino a um mundo desconhecido. Tentava imaginar como seria o Brasil, principalmente as pessoas que habitavam aquele país recente: feições diferentes, outras tonalidades de pele, outros cheiros e cores. Antes de deixar a Itália, o navio fez uma parada em Nápoles, para o embarque de mais passageiros e carga e, através de Gibraltar, passamos do Mediterrâneo ao Oceano Atlântico. Nenhum dragão, nem monstros marinhos. Sol, bom oceano, com ondas mais alongadas e tranquilas. (…)

Dias antes de nos aproximarmos do Equador, a tripulação do navio começou a preparar uma festa em comemoração à passagem pela fronteira entre os hemisférios norte e sul. As mentes infantis imaginavam como seria aquele momento especial de travessia. Como faz? Passa por baixo? Haveria um risco no céu? O oceano mudaria de cor? A festa no navio era simples, mas divertida e com boa comida. Houve um concurso para premiar aquele que fosse capaz de comer a maior quantidade de macarrão à bolonhesa em menor tempo. Gritos e palmas acompanhavam os grandes comedores em sua luta, sem talheres, com a massa e o molho. Entre homens grandes e gordos, um genovês alto e magro – magro como uma caneta! – começou a chamar atenção: sugava com rapidez e barulho porções imensas de espaguete.

Terminou a montanha do primeiro prato e pediu logo o segundo, enquanto seus adversários desistiam um a um:

— Bota outro aí! — ele gritou mais de uma vez, com os braços para cima e feliz da vida.

E logo fez a comida do segundo prato desaparecer. O navio inteiro ficou alucinado com o feito do genovês esguio! A música e a dança seguiram noite adentro, em meio a risos e homenagens.

Eu tinha apenas 12 anos, mas já conhecia bem a guerra para imaginar que aquele homem provavelmente sofrera muito com a fome durante os anos de escassez. Mesmo com o balançar do oceano e da dança, o genovês não passou mal com o estômago tão cheio.

Aquelas porções imensas de comida e o baile que veio depois talvez festejassem, na verdade, a promessa de fartura em terras distantes.

***

 

Música para viver

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Meados da década de 1940. Na cozinha de uma casa simples de Padova, uma família se reúne para o jantar. Nos pratos, pouca comida, mas o suficiente para resistir aos tempos difíceis e esperar pelo retorno daqueles que travam as batalhas da Segunda Guerra Mundial. Quando todos terminam de comer, tio Gastone – ainda muito jovem para o front – quebra o silêncio com os primeiros versos de La Montanara. Aos poucos, todos se unem e cantam juntos aquela canção sobre amor no alto das montanhas.

A montanara é a jovem das montanhas e também o cântico dos que se esforçam nas subidas em terreno íngreme e gelado. A música marcava o ritmo de caminhada dos povos dos Alpes, soando como um espetacular coral de anjos. Hoje, se não podemos ouvi-los, nos resta imaginar. Gastone aprendeu a cantar La Montanara com o pai, que tivera como companhia aquela música durante seus anos de combate na Primeira Guerra Mundial. Os soldados entoavam aquela canção para se aquecer e ganhar forças. A emoção de cantar em grupo ajudava a encarar o medo da morte e aceitar que sacrifícios seriam necessários em nome de suas famílias. Cantava-se para viver e para sobreviver, por dentro e por fora.

Tio Gastone cantava para mim na hora de dormir, mas eu muitas vezes preferia cantar junto em vez de me entregar ao sono. O treino informal de quase todos os dias deu afinação ao timbre de criança e fez com que eu me tornasse a segunda voz de um dueto que muitas vezes seguia por mais quatro ou cinco músicas antes de o sono vencer.

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Conheça outros livros nossos

Agenda: oficina sobre Jornalismo, fake news e educação

É com muito orgulho que a Daria um Livro anuncia sua participação na Semana de Formação em Direitos Humanos e Educação Popular, promovida pela Ação Educativa, em São Paulo.

O evento deste ano, com o tema Nós contamos histórias: memórias, imaginação e reinvenção, busca contar e reafirmar histórias, falar de memória e narrativas.

Diante de um contexto em que falsas narrativas estão sendo criadas e disseminadas, a proposta é revisitar as construções e as lutas por direitos estabelecidas ao longo das décadas em nosso país, como forma de orientar novas estratégias políticas e compartilhar as narrativas invisíveis, mas fundamentais para a compreensão do país em que vivemos e de todas as suas desigualdades. 

Serão mais de 50 atividades entre os dias 16 e 20 de julho. No dia 18, às 10h, nossa apresentação falará sobre Jornalismo, fake news e educação (veja abaixo). Para participar, é necessário pagar uma taxa única (R$75,00), que permite a inscrição em todas as atividades. 

Jornalismo na escola: direito à informação e combate às fake news

O problema das notícias falsas – popularizado na expressão “fake news” – assumiu papel central nos últimos anos. Trata-se de um tema que envolve questões e problemáticas diversas: propaganda política, disputas de poder, o uso e a dinâmica de mídias digitais, o contexto da produção de conteúdo por veículos de mídia tradicionais, formação e reforço
de identidades, credibilidade de instituições científicas e educacionais, entre outras.

Em discussões envolvendo especialistas na área, é praticamente unanimidade a ideia de que enfrentar esse problema passa necessariamente por sua discussão em todos os níveis escolares.

Na oficina, iremos abordar o problema das notícias falsas e sua disseminação, o modo de produção de veículos jornalísticos, ética e direito à informação, o conceito de checagem e as possibilidades de abordar o tema no ambiente escolar.

  • Carga horária: 3 horas
  • Data: 18 de julho, quinta-feira
  • Horário: das 10h às 13h

A quem se destina

Professores/as de todos os níveis e disciplinas da Educação Básica.

Educadora

Flávia Siqueira

Foto_FlaviaSiqueira (2) (1)Formada em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Passou por redações de veículos impressos e on-line. Foi subeditora das revistas Educação e Ensino Superior, da Editora Segmento. Trabalhou por seis anos como redatora do portal de notícias UOL, onde produziu e editou conteúdo para home pages, aplicativos e redes sociais. Também atuou como repórter para publicações especializadas em Construção Civil, Ciência e Cinema. Entre outras atividades, faz graduação em Letras (licenciatura), participou de encontros do Núcleo de Estudos em História Oral (Neho) da USP e fez cursos sobre produção editorial e preparação de texto. Tem pós-graduação em Gerenciamento de Projetos pela Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec- SP). Cursou disciplinas de pós-graduação na ECA-USP nas áreas de Análise de Discurso e Ambientes Digitais.

Veja a programação completa aqui.

INSCRIÇÕES: www.centrodeformacao.acaoeducativa.org.br 

* Aqueles que se inscreverem até sexta-feira, dia 05/07, podem utilizar um cupom de desconto de 20% do Centro de Formação: Educação Popular, Cultura e Direitos Humanos. Na página de pagamento, é só inserir SEMANA2019 no campo “Cupom”.

4ª edição da Semana de Formação em Direitos Humanos e Educação Popular
Data: entre os dias 16 e 20 de julho
Taxa de inscrição: R$75,00 (pagamento via site – débito, crédito ou boleto)
Inscrições: www.centrodeformacao.acaoeducativa.org.br
Mais informações: (11) 3151-2333, ramal 177 | semanadeformacao@acaoeducativa.org.br

Reaprendendo a caminhar: a história de Pedro Alves

Conheci Pedro no Caminho do Sertão. Enquanto caminhávamos por dezenas de quilômetros – eu calejando os pés, e ele calejando também as mãos, do aperto firme nas muletas –, ele me ensinava a ter tranquilidade para enfrentar os desafios da estrada e da vida. Esta é sua história:

 

Pedro por Patrícia Pacheco
Pedro Alves e seus recomeços. Foto: Patrícia Pacheco

Aos 32 anos, Pedro Alves estava casado, tinha filhos e trabalhava como vigia noturno numa empresa. Naquela altura, ele já tinha superado a dureza do trabalho infantil no campo – onde ajudava os pais no plantio de milho, mamona e feijão desde os 7 anos de idade, muitas vezes trocando a escola, a 5 km de caminhada, pela enxada sob o sol quente de Irecê (BA). Mas no dia 20 de maio de 2011, durante seu expediente, um disparo atravessou o caminho, e também sua perna esquerda. Calibre 12. “Eram cerca de 22h30 e eu vi a morte na minha frente”.

Pedro estava perdendo muito sangue, e com ele os sentidos, mas conseguiu se arrastar até o telefone para pedir socorro. Ele ainda se lembra do foco de luz da viatura da polícia que chegava, como uma esperança a se agarrar.

A noite foi longa. O hospital local não tinha as condições necessárias para atendê-lo e foi preciso fazer sua transferência para uma unidade maior. Quando chegou ao hospital de Campina Grande, a 450 km de São Bento (PB), onde vivia, já passava das 5h da manhã. Apesar de suas condições, as lembranças de Pedro ainda são nítidas: “pedi ao médico que colocasse minha perna no lugar. Não acreditei quando acordei da cirurgia e vi que ela não estava mais lá”.

 

Recomeços

Três dias depois, ele estava de volta à sua cidade, mas recomeçar foi difícil. Ele tinha perdido uma perna, o emprego e o rumo. “Minha esposa tinha vergonha de ser vista comigo, andando com uma perna só. Meu casamento acabou e muitas pessoas, ao me verem sozinho, acharam que seria meu fim.”

Pedro chegou a conseguir um novo emprego, de garçom, em uma churrascaria. “Mesmo com uma perna só eu atendia os clientes, mas ainda não estava bem. Foi quando resolvi sair pelo mundo à procura de novos horizontes.” Ele tinha uma irmã morando em Uauá, no norte da Bahia, e foi visitá-la por alguns dias.

Andando pela nova cidade, na região de Canudos e Monte Santo, parou para ouvir um artista local que se apresentava na rua. Foi quando algo inesperado aconteceu: “soltei as muletas e fui dançar no meio da praça – coisa que, quando eu tinha as duas pernas, eu não fazia! As pessoas foram se aproximando para ver… O músico parou de cantar para observar enquanto eu dançava, depois disse que aquilo era um exemplo de vida.”

Ali Pedro percebeu, pela primeira vez, que poderia recomeçar sua vida em Uauá. Alugou uma casa e começou a trabalhar na rádio comunitária Luz do Sertão, como locutor de um programa romântico e também como repórter cidadão pelas ruas da cidade.

É onde vive até hoje, apesar dos desafios que continua a enfrentar. “Amo o que faço, mas não ganho quase nada com isso. Do INSS são R$ 480, mas às vezes cortam o benefício e demora até conseguir restabelecê-lo, e só de aluguel são R$ 250. É difícil.”

Lutando a batalha de todo dia para viver num país como o Brasil e com uma deficiência física, Pedro buscava um sentido para sua trajetória. Ele conta que um dia estava na rádio quando ouviu sobre a Caminhada dos Umbuzeiros, um trajeto de 55 km a serem percorridos em três dias pelo sertão baiano. “Senti que era uma oportunidade para eu me redescobrir, liguei e me inscrevi. Queria ver até onde eu podia ir, qual era meu limite físico. Eu queria desafiar a mim mesmo, saber para que fiquei vivo depois de perder minha perna.”

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Nas caminhadas, Pedro supera limites e descobre novos horizontes para sua vida. Foto: Patrícia Pacheco

No dia da caminhada todos se surpreenderam ao conhecer Pedro pessoalmente e descobrir que ele usava muletas e não tinha uma perna. “Alguns caminhantes disseram que eu iria dar trabalho para eles durante o percurso. O maior desafio foi eu acreditar em mim mesmo e passar essa crença para as pessoas que estavam comigo. Tive medo, não vou dizer que não tive. Tive medo de desapontar a mim mesmo.” Mas Pedro conseguiu. E ali algo começou a mudar.

“Conseguir chegar foi um sonho realizado, o melhor presente da minha vida foi ter completado o percurso da Caminhada dos Umbuzeiros. Ali eu percebi que poderia ir muito mais além. Meu maior desafio não era nem a caminhada em si, era eu ter uma vida… normal.”

 

Atleta

Empolgado com a experiência, Pedro se inscreveu depois no Caminho do Sertão. O percurso – 180 km pelo noroeste mineiro – assustou-o, mas mesmo assim resolveu tentar e conseguiu completar a maior parte do trajeto.

Animado com as conquistas, ele participou de uma mini-maratona de 10 km e depois foi até São Paulo para a São Silvestre de 2017. “Tinha 18 pessoas na categoria deficiente por amputação da perna e eu cheguei em sexto lugar. Foi uma felicidade sem tamanho”.

Em 2018, aos 39 anos, ele voltou ao Caminho do Sertão para completar o trajeto incluindo o que faltava: o Morro do Fogo, com 3,5km de subida e depois descida, e o Vão dos Buracos, uma trilha estreita e íngreme que pede a subida em 4 apoios em alguns trechos.

“Tive medo, mas a vontade de vencer foi maior que o meu medo”.

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Com força e persistência, Pedro atravessa o sertão. Foto: Patrícia Pacheco

Foi nessa caminhada que conheci Pedro. Enquanto caminhávamos – eu calejando os pés, e ele calejando também as mãos, do aperto firme nas muletas –, ele me deu conselhos sobre ter tranquilidade para enfrentar os desafios.

Pedro pretendia voltar à São Silvestre em 2018, mas não conseguiu os recursos para a viagem – ele não tem nenhum apoio institucional, apesar de ter a resistência de um atleta. Em 2019, ele vai tentar novamente.

“Tudo isto tem servido para eu ser grato a Deus. Podemos pensar que estamos entregues, mas ainda conseguimos enxergar um novo horizonte. Esta é minha história”.

***

Mais sobre o Caminho do Sertão

E meu relato pessoal sobre a caminhada: Pelos caminhos do Grande Sertão: Veredas

[Por Marina Almeida]

A voz, e a letra, de mulheres escritoras

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No livro Um teto todo seu (Editora Tordesilhas, 2014), Vírginia Woolf fala sobre o que seria necessário para que uma mulher escreva ficção: um lugar sossegado para trabalhar, certa independência financeira e alguma validação social. Parece pouco, mas, como a autora nos mostra, a vida das mulheres foi por muito tempo condicionada aos cuidados do lar, dos filhos e do marido, e suas capacidades intelectuais questionadas. A luta das mulheres vem trazendo importantes mudanças para esse cenário, mas os desafios ainda são muitos.

Por isso, neste 8 de março queremos relembrar o trabalho de grandes escritoras brasileiras e estrangeiras que superam as mais diversas dificuldades para colocar sua voz no mundo.

Ana Cristina Cesar: a Ana C., como era conhecida, foi uma escritora, poeta e tradutora brasileira que participou do movimento Literatura Marginal, na década de 1970. Sua obra, em tom confessional e íntimo, é também irreverente e muitas vezes enigmática. Conheça mais sobre ela

Ecléa Bosi: foi uma estudiosa das relações entre memória e velhice. Em seu livro Memória e sociedade – Lembranças de velhos (Companhia das Letras, 1994), ela faz um resgate não apenas das informações sobre o passado de famílias imigrantes na cidade de São Paulo, mas da arte e do trabalho de viver, lembrar, narrar e registrar. Leia alguns trechos selecionados

Elena Ferrante: a italiana tem obras publicadas desde o começo da década de 1990, mas tornou-se um fenômeno global nos últimos anos, com o sucesso de sua Série Napolitana. A escritora é ao mesmo tempo autora e personagem, ficção e realidade. Isso porque não sabemos quem é a pessoa física que escreve suas obras. A autora fala sobre seu processo de escrita, construção de linguagem e relações familiares na obra Frantumaglia.

Alice Munro: a canadense é a primeira autora de contos a conquistar o Nobel de Literatura – prêmio recebido por ela em 2013. Leia mais sobre seu livro O amor de uma boa mulher.

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Outros nomes – entre tantos – que merecem ser conhecidos:

Ana Paula Tavares, poeta angolana; Teolinda Gersão, escritora portuguesa que une diversas artes em suas obras líricas e sensíveis; Graça Graúna, poeta indígena potiguara e professora de literatura; Lídia Jorge, que une realidade e fantasia em sua narrativa e também na linguagem; Amélie Nothomb, autora belga de humor ácido e personagens excêntricos; Carmen Laforet, com sua narrativa existencialista num mundo marcado pela violência; e Margaret Artwood, com suas personagens femininas fortes e cenários distópicos. Falamos mais sobre  todas elas neste post.

O tempo das mudanças

Sobre os planos de mudanças e o tempo que nem sempre segue a nossa vontade, Domingos Pellegrini nos diz tudo que precisamos ouvir:

“O tempo pôs a mão na tua cabeça e ensinou três coisas.

Primeiro: você pode crer em mudanças quando duvida de tudo, quando procura a luz dentro das pilhas, o caroço nas pedras, a causa das coisas, seu sangue bruto.

Segundo: você não pode mudar o mundo conforme o coração. Tua pressa não apressa a História. Melhor que teu heroísmo, tua disciplina na multidão.

Terceiro: é preciso trabalhar todo dia, toda madrugada para mudar um pedaço de horta, uma paisagem, um homem. Mas mudam, essa é a verdade.”

Feliz ano novo a todos!

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Geraldinho: a alegria e os causos do interior do Brasil

geraldinhoGeraldinho Nogueira era um contador de causos, um homem que falava a língua da roça, do interior do Brasil e fazia todos rirem com suas histórias e suas habilidades cênicas para a narração. Conta-se que Geraldinho não perdia uma oportunidade de contar (e alegrar com) suas histórias. Toda hora era hora: na roça, nas festas, no boteco, nas folias, quermesses e – acreditem – até nos velórios!

Natural de Bela Vista de Goiás (GO), Geraldinho não tinha estudos e dizia “minha caneta é a enxada na saroba”. Ainda assim, seus causos chamaram a atenção tanto pela originalidade quanto por sua linguagem única. Seu talento foi revelado por Hamilton Carneiro e José Batista em 1984. Eles levaram os causos de Geraldinho para o programa Frutos da Terra, da TV Anhanguera, o que trouxe reconhecimento nacional para o contador.

Além das características próprias da linguagem regional e oral, as histórias de Geraldinho utilizam-de de variações estilísticas para criar seu efeito cômico e original. Como bom contador de causos, Geraldinho usava expressões muito criativas: “subaquim da perna” (atrás do joelho), “recursim de minguar a toada” (freio), “esgotamento do mês” (menstruação), “molas do jueio” e “ferramenta de mijá” são algumas das expressões que se tornaram sua marca.

Antes de se apresentar para o grande público na TV, o linguajar do contador de causo sofreu algumas alterações. Orientado pelo apresentador e empresário, adequou sua linguagem aos meios de comunicação, removeu algumas palavras e expressões que conteriam “excessos de regionalismo”. Mas a originalidade de Geraldinho está justamente em sua habilidade com a linguagem e em sua espontaneidade.

Geraldinho Nogueira é um dos grandes contadores de causos do Brasil. Apesar de bastante esquecido após sua morte, seu trabalho merece ser preservado pela maestria com que trabalhava a linguagem dos contos e a originalidade de suas histórias.

Conheça o “Causo da Bicicleta”, uma de suas histórias mais famosas:

 

Você ou seus familiares também têm muitos causos para contar? Já pensou em registrar essas histórias como forma de preservá-las? Nós, da Daria um livro, podemos ajudá-lo nesse trabalho, com muito respeito às suas histórias e valorizando a linguagem original do contador. Entre em contato conosco!