O tempo das mudanças

Sobre os planos de mudanças e o tempo que nem sempre segue a nossa vontade, Domingos Pellegrini nos diz tudo que precisamos ouvir:

“O tempo pôs a mão na tua cabeça e ensinou três coisas.

Primeiro: você pode crer em mudanças quando duvida de tudo, quando procura a luz dentro das pilhas, o caroço nas pedras, a causa das coisas, seu sangue bruto.

Segundo: você não pode mudar o mundo conforme o coração. Tua pressa não apressa a História. Melhor que teu heroísmo, tua disciplina na multidão.

Terceiro: é preciso trabalhar todo dia, toda madrugada para mudar um pedaço de horta, uma paisagem, um homem. Mas mudam, essa é a verdade.”

Feliz ano novo a todos!

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Geraldinho: a alegria e os causos do interior do Brasil

geraldinhoGeraldinho Nogueira era um contador de causos, um homem que falava a língua da roça, do interior do Brasil e fazia todos rirem com suas histórias e suas habilidades cênicas para a narração. Conta-se que Geraldinho não perdia uma oportunidade de contar (e alegrar com) suas histórias. Toda hora era hora: na roça, nas festas, no boteco, nas folias, quermesses e – acreditem – até nos velórios!

Natural de Bela Vista de Goiás (GO), Geraldinho não tinha estudos e dizia “minha caneta é a enxada na saroba”. Ainda assim, seus causos chamaram a atenção tanto pela originalidade quanto por sua linguagem única. Seu talento foi revelado por Hamilton Carneiro e José Batista em 1984. Eles levaram os causos de Geraldinho para o programa Frutos da Terra, da TV Anhanguera, o que trouxe reconhecimento nacional para o contador.

Além das características próprias da linguagem regional e oral, as histórias de Geraldinho utilizam-de de variações estilísticas para criar seu efeito cômico e original. Como bom contador de causos, Geraldinho usava expressões muito criativas: “subaquim da perna” (atrás do joelho), “recursim de minguar a toada” (freio), “esgotamento do mês” (menstruação), “molas do jueio” e “ferramenta de mijá” são algumas das expressões que se tornaram sua marca.

Antes de se apresentar para o grande público na TV, o linguajar do contador de causo sofreu algumas alterações. Orientado pelo apresentador e empresário, adequou sua linguagem aos meios de comunicação, removeu algumas palavras e expressões que conteriam “excessos de regionalismo”. Mas a originalidade de Geraldinho está justamente em sua habilidade com a linguagem e em sua espontaneidade.

Geraldinho Nogueira é um dos grandes contadores de causos do Brasil. Apesar de bastante esquecido após sua morte, seu trabalho merece ser preservado pela maestria com que trabalhava a linguagem dos contos e a originalidade de suas histórias.

Conheça o “Causo da Bicicleta”, uma de suas histórias mais famosas:

 

Você ou seus familiares também têm muitos causos para contar? Já pensou em registrar essas histórias como forma de preservá-las? Nós, da Daria um livro, podemos ajudá-lo nesse trabalho, com muito respeito às suas histórias e valorizando a linguagem original do contador. Entre em contato conosco!

 

Uma visita à casa (e à obra) de Guimarães Rosa

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Cordisburgo (MG) é uma cidadezinha de menos de 10 mil habitantes e a terra natal do escritor Guimarães Rosa. Na casa-museu do autor, que viveu ali até os 9 anos de idade, podemos conhecer um pouco mais sobre sua vida, sua obra, suas inspirações e a origem de seus personagens tão singulares…

A casa mantém a decoração de uma moradia do interior no início do século 20. O quarto da família tem terços, oratório e colcha bordada; a cozinha, fogão a lenha, panelas de ferro, pilão e cristaleira; além de um poço e um carro de boi no quintal dos fundos.

O pai de Guimarães Rosa tinha uma venda e conta-se que o primeiro contato do autor com as falas e as histórias sertanejas vem do que ele ouvia ali enquanto seu pai trabalhava. Na venda encontramos os produtos que serviam à vida daqueles tempos: os artigos de couro e de palha, os vasos de barro, o berrante, ­os brinquedinhos da época, os chapéus e as violas, as espingardas, as selas, os esteios, entre outros.

Descobertas sobre Rosa

O museu também possui um grande acervo sobre Guimarães Rosa. A máquina de escrever do autor, objetos de seu escritório pessoal, cartas, originais de suas obras e as correções feitas por ele. Podemos ver ali o longo processo por trás de cada um de seus trabalhos: ele relembrava, com a ajuda de cartas ao pai, as histórias da região, pesquisava sobre as plantas e o vestuário das pessoas, fazia viagens… Claro que seu trabalho ia muito além de recolher essas histórias, transformando-as em grandes obras literárias, mas é interessante ver que mesmo um grande autor precisa estudar e pesquisar. Não se cria no vazio, é preciso perguntar, ver e ouvir de peito aberto a natureza e o povo do sertão para escrever sobre ele. Viver para contar.

Portal do sertão

A cidade ainda abriga o Portal do Sertão, uma homenagem ao escritor e a alguns de seus personagens mais famosos: sete estátuas em bronze, que representam parte do bando de jagunços de Riobaldo – do livro Grande Sertão: Veredas. Atrás deles, de óculos, papel e caneta na mão, o próprio autor nos sorri e parece cumprimentar quem se aproxima de sua criação.

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Leia mais sobre o passeio a Cordisburgo (MG)

[Marina Almeida]

Objetos de memória

Quando minha avó chegou ao Brasil com minha mãe, trouxe, no navio, um baú de ferro e madeira. Quando eu era criança, fazia de conta que aquele era o baú de um tesouro pirata.

Eu gostava de abrir a caixa pesada e ficar remexendo nas coisas que estavam dentro dela. Brincava que eram meus tesouros, embora nada ali se parecesse com as moedas de ouro e as joias que eu via nos filmes de pirata.

A verdade é que só hoje eu consigo perceber que aquele baú realmente guardava – e guarda – alguns dos tesouros da minha família.

Nosso baú está cheio de tecidos: toalhas, colchas, panos bordados, retalhos diversos. Minha avó costurava, e cada pedaço de pano ali tem uma história. Entre eles, uma toalhinha feita do linho que minha própria bisavó plantou, colheu, lavou, fiou, teceu e costurou. Tudo feito em casa por mãos que nunca cheguei a conhecer, mas que se comunicam comigo não só pelo desenho de minhas digitais, mas pelo toque de seu trabalho manual.

No baú também está uma colcha de frio feita com a lã dos carneiros que minha família criava em Portugal.  E alguns dos retalhos de pano comprados por minha avó na feira, já aqui no Brasil – tecidos que, com muita criatividade, foram transformados em peças de roupa para toda a família, e sem nenhum remendo visível, como até hoje todos se orgulham de lembrar.

Também estão lá os bordados da minha mãe, a renda fina da Ilha da Madeira dada pela vizinha em troca de um empréstimo num momento de necessidade…

Alguns objetos podem guardar parte da nossa história. Os trabalhos manuais são recordações que nos permitem tocar as mãos de outras gerações. E não precisam ser coisas grandiosas ou caras – importa apenas que nos ajudem a contar, sentir e ver um pouco da história que fez nossa vida ser o que é. Ainda quero aprender a tecer algo com as mãos, para dar minha contribuição ao nosso baú.

E você? Que objetos contam sua história?

E já pensou em transformar a história de sua família em livro? Conheça nosso trabalho.

[Marina Almeida]

Dica de leitura: Alice Munro

alicemunro_livroDica de leitura: você conhece Alice Munro? A canadense é a primeira autora de contos a conquistar o Nobel de Literatura – prêmio recebido por ela em 2013.

No livro O amor de uma boa mulher (Companhia das Letras, 2013), viajamos com a escritora para pequenas cidades do interior do Canadá e conhecemos os detalhes de seu cotidiano e da vida de mulheres dali, em histórias que se passam entre os anos 1950 e os dias atuais.

As personagens, muitas aspirantes a artistas, buscam seu espaço em um mundo que as relega a posições marginais, de caminhos estreitos e limitados, ora subvertendo-os, ora dobrando-se para se encaixar neles.

A riqueza das descrições e o olhar intimista para o interior das personagens, aliados a um texto de linguagem clara, garantem um mergulho profundo em cada uma de suas histórias.

Recomendamos! 🙂

Sabedoria indígena: uma língua não é feita só de palavras

“Às vezes fico pensando por que Deus fez nós índios falar cada um uma língua diferente. Mas acho que é porque nós falamos a língua da terra, das matas, dos bichos. Os animais da caatinga não são os mesmos da floresta, como é que a nossa língua ia ser a mesma? A língua dos Fulni ôs é a língua do sertão, da seca, daquelas pedras, daquelas plantas, dos calangos… não podia ser a mesma língua de quem vive na Amazônia, onde chove todo dia. E por isso que é importante que cada um de nós preserve a nossa língua, porque é a língua que conhece as plantas da nossa região, os animais, que conhece a vida na seca…”

Parece poesia, mas foi só uma conversa com a jornalista Amazonir, que pertence à etnia Fulni ô – povo de cantos fortes e alegria transbordante que vive no interior de Pernambuco, lutando contra a seca e pelo direito à terra.

Lembro dos Fulni ô cantando à noite em volta da fogueira, vozes potentes de timbres que se completam preenchendo espaços e corações. Era contagiante e eles sabiam: nos convidavam a acompanhá-los. Algumas frases em português para facilitar intercaladas com outras em Iatê, sua língua. Nada mais justo. “ Agora é homens contra mulheres para ver quem canta mais”. E a brincadeira seguia.

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Foto de André Rodrigo Pacheco para o Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros

A Amazonir escreve um blog sobre questões indígenas:  http://amazonirfulnio.blogspot.com.br/

Leia mais posts como este no blog: Notícias de toda sorte

[Marina Almeida]

Como transformar posts de redes sociais em livro

Tenho uma amiga que publica com frequência pequenas crônicas de seu cotidiano nas redes sociais – texto bem escrito, olhar apurado e bem-humorado para as pequenas aventuras do dia a dia. Ela, que é também uma grande leitora, nunca havia levado a sério minhas sugestões de que guardasse seus textos também fora das redes sociais de algoritmos desconhecidos e regras que sempre mudam sem nosso prévio conhecimento. Foi quando tive a ideia de reunir seus textos num pequeno livro. Quando entreguei o presente ela ficou muito surpresa: disse que não imaginava que já tinha escrito tanto e que nem se lembrava mais de algumas histórias registradas.

Grande parte do trabalho foi encontrar seus textos entre as fotos, notícias e outras publicações que postamos diariamente em nossas redes. Daí que minha primeira sugestão para todos que gostam de escrever e postar nas redes sociais – sejam crônicas, pequenas histórias cotidianas, frases engraçadas dos filhos ou comentários políticos, econômicos ou sociais mais elaborados – é: guardem também num arquivo pessoal seus textos, pois muitos podem se perder nesse processo. Como eu disse a ela, queria um livro que fosse inspiração e também espelho, em que ela pudesse se reconhecer, para incentivá-la a continuar escrevendo e, quem sabe, um dia publicar suas histórias para mais pessoas. Acredito ter conseguido alcançar meu objetivo.

Reunidos os textos, meu próximo passo foi organizá-los, fazer o sumário e o prefácio (onde escrevi minha dedicatória). Em seguida, cuidei da diagramação dos textos, design da capa, impressão, encadernação… Pronto: tinha um livro de 60 páginas, inédito e muito pessoal para presenteá-la.

E vocês, já olharam para as publicações de seus blogs e redes sociais e pensaram neles como o início de algo maior, mais perene? Ou procuram um presente especial para um familiar ou amigo que gosta de escrever? Ou talvez de desenhar, pintar… São muitas as possibilidades de fazer lindos presentes e ainda incentivar um merecido talento. E nós podemos ajudar com todo o processo de revisão, edição, design e impressão do livro, é só entrar em contato conosco! 🙂

[Marina Almeida]

Palestra na escola: olhar crítico para as notícias

Num momento de grande disseminação de notícias falsas pelo Brasil e pelo mundo –manchando reputações, influenciando o eleitorado e colocando vidas em risco –, ficamos muito felizes com o convite para uma palestra sobre fake news para os alunos da Escola Estadual Murtinho Nobre Doutor, na zona sul de São Paulo.

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A partir de nossa experiência em redações impressas e digitais e de nossa formação em jornalismo, elaboramos um guia sobre como descobrir se uma notícia é falsa e os riscos de se compartilhar publicações mentirosas.

Começamos a apresentação relembrando o caso do linchamento de Fabiane Maria de Jesus, no Guarujá (SP). O crime aconteceu após uma página de Facebook ter disseminado a falsa notícia de que haveria uma mulher sequestrando crianças no bairro de Morrinhos.

Como mostramos aos alunos do ensino médio da escola, notícias com tom muito alarmista, apelo a emoções fortes (como raiva e indignação) e referências a teorias conspiratórias devem ligar os primeiros sinais de alerta de que aquela informação talvez não seja verdadeira. Frases como “ABSURDO!” e “COMPARTILHE ANTES QUE APAGUEM”, escritas geralmente em letras garrafais, são algumas das expressões mais usadas por essas publicações.

Mesmo nos casos em que a publicação mentirosa busca imitar uma notícia de verdade, dificilmente a informação resiste a um olhar mais crítico e a uma apuração básica de informações – que pode ser feita a partir de ferramentas simples, como uma busca na web pelos principais termos citados no texto. Sites como E-farsas e Boatos.org desmascaram há anos mentiras compartilhadas em correntes de e-mail, redes sociais e – mais recentemente – grupos de Whatsapp.

Também sugerimos o acompanhamento de veículos de checagem e aprofundamento, como o projeto Truco (Agência Pública), a Agência Lupa, o Nexo Jornal, o site Me explica? e editorias de verificação de portais como o UOL e o G1.

Também conversamos um pouco sobre como ler de forma mais crítica os veículos tradicionais de informação: é preciso conhecer seus principais anunciantes e a linha editorial de cada um deles. Na chamada “grande mídia”, embora existam esforços para não publicar informações mentirosas, o direcionamento e a parcialidade se constróem em torno de elementos mais sutis: na definição das pautas, na inclusão de certos entrevistados e na exclusão de outros, na escolha de palavras.

Foi muito gratificante falar sobre o assunto com os jovens e ficamos honradas com o convite e a confiança dos professores da escola. Acreditamos que o desenvolvimento de uma leitura mais crítica e a discussão sobre a forma como nos informamos são fundamentais para a construção de uma sociedade melhor.

[Flávia Siqueira e Marina Almeida]

 

8 escritoras para conhecer em 2018

Ana Paula Tavares
ana2bpaula2btavares3A poeta angolana Ana Paula Tavares é uma das principais vozes da poesia africana de língua portuguesa. Em seus versos, a cultura e as tradições africanas aparecem não apenas como opção temática, mas num processo de reconstituição da identidade nacional e de afirmação da ótica do colonizado sobre a terra e o mundo em que vive. Ela também é uma das primeiras poetas angolanas a reivindicar para a mulher o papel de sujeito de sua vida, de seu corpo e seus desejos. O erotismo do ponto de vista feminino também está presente em muitas de suas poesias, assim como uma visão africana de valorização do prazer corporal e isenta da noção de pecado. Conheça algumas de suas obras: http://www.elfikurten.com.br/2015/06/ana-paula-tavares.html, http://www.lusofoniapoetica.com/artigos/angola/ana-paula-tavares.html  e http://www.jornaldepoesia.jor.br/anap05.html

Teolinda Gersão
teolinda-gersao2Teolinda Gersão usa a arte para falar da vida e do mundo em que vivemos. Não apenas a arte de sua escrita, lírica e sensível, mas também a música, a dança, a pintura… Nascida em Portugal, ela viveu também na Alemanha, em São Paulo (reflexos dessa estada surgem em alguns textos de Os Guarda-Chuvas Cintilantes, 1984) e Moçambique, onde se passa A árvore das palavras (1997). Nesse romance, os elementos da natureza se fundem com a dança – a africana e o balé – na vida da protagonista Gita, ou talvez da África. Em Os teclados (1999) é a música, e às vezes o silêncio, que nos faz pensar no sentido da vida, da arte e da literatura. Entre outras premiações, ela ganhou duas vezes o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Saiba mais: https://teolindagersao.com/

Graça Graúna
grauna02“É difícil viver entre dois mundos, mas a gente se acostuma”, ouvi Graça Graúna falando em uma palestra em São Paulo. A escritora, poeta, crítica e professora de literatura é indígena, do povo potiguara, e traz esse universo para sua obra (assim como para seu trabalho acadêmico). A aparente simplicidade de suas palavras acaba por revelar ao leitor uma profundidade de sentidos e saberes ancestrais. Conheça mais: http://ggrauna.blogspot.com.br/ e http://www.elfikurten.com.br/2016/02/graca-grauna.html

Lídia Jorge
lidiajorgeUnindo o fantástico à realidade, com uma imaginação que alcança também o nível lexical e morfológico, Lídia Jorge é uma das mais reconhecidas escritoras portuguesas contemporâneas. Professora, ela lecionou alguns anos em Angola e Moçambique, em pleno período da guerra colonial – que será retratada em A Costa dos Murmúrios (1988). Seu primeiro romance, O dia dos prodígios (1980), é uma alegoria sobre o impacto da revolução dos cravos portuguesa na vida de uma pequena aldeia no interior do país. Entre livros de contos e romances, como o ótimo A manta do soldado (2003), que trata do emaranhado entre memória e imaginação, suas obras já foram traduzidas para mais de 20 línguas. Veja mais: http://www.lidiajorge.com/

Amélie Nothomb
anothomb_600x600-400x400A escritora belga passou sua infância e adolescência na Ásia, que tem grande influência em sua obra. O Japão, onde seu pai foi embaixador, é um dos países que mais a marcaram e que aparece em diversos de seus livros, como no alegórico A metafísica dos tubos (2000). Com uma escrita crua e de humor cortante, seus romances e contos recorrem ao realismo mágico para dar vida a personagens excêntricos e diálogos muito vivos. Sucesso de vendas e traduzida para muitas línguas, suas obras já foram adaptadas para o cinema e o teatro. Em 1999, recebeu o Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa.

Carmen Laforet
10945049_111582445700A espanhola Carmen Laforet Díaz (1921 – 2004) desenvolveu a maior parte de seu trabalho durante o regime franquista, de caráter ditatorial. Publicou em 1945, aos 24 anos, aquela que se tornaria sua obra mais conhecida: o romance Nada, sucesso entre críticos e leitores. O livro conta a história de uma jovem estudante que chega a Barcelona logo após o fim da Guerra Civil Espanhola. A narrativa, considerada existencialista, constrói um ambiente asfixiante, marcado pela violência, pela fome e pela opressão. Um tema constante em suas obras é o embate entre o idealismo juvenil e um entorno marcado pela mediocridade e pela desilusão.

Elena Ferrante
A escritora italiana já é bem conhecida entre leitores e críticos no mundo tudo. O sucesso mais estrondoso veio com sua Série Napolitana, sequência de quatro romances que contam a história de duas amigas, Elena Greco e Lila Cerullo. A narrativa de Ferrante se constrói em camadas: a mais superficial é composta por uma escrita simples, fácil de acompanhar e que consegue prender o leitor. Mas, para além dessa “simplicidade”, surgem camadas mais profundas, que retratam de forma crua as complexidades das relações sociais, da busca por ascensão, da desigualdade de gênero e dos relacionamentos. O estilo e a obsessão pela sinceridade estão em todas as obras publicadas pela autora, com destaque para Dias de Abandono (2002). Infelizmente, o fato de Elena Ferrante ser um pseudônimo e os rumores em torno de quem seria a “pessoa real” por trás das obras muitas vezes tomam o primeiro plano em discussões sobre a obra da escritora. Leia mais no post Ferrante, frantumaglia e léxico familiar.

Margaret Atwood
margaret-atwoodMais um nome bem conhecido no meio literário, mas a produção da escritora canadense vai muito além de O Conto da Aia (1985), que recentemente deu origem a uma série de TV de sucesso. Atwood tem uma produção extensa, de estudos literários a contos e poesias, passando por livros infantis. Uma constante em suas obras são as personagens femininas que se distanciam de qualquer postura passiva ou romântica.

E mais:

É claro que há muito mais escritoras a se conhecer, e muitas delas publicam suas obras de forma independente. Existem perfis nas redes sociais que divulgam diariamente o trabalho dessas autoras – conheça alguns deles:

Leia Mulheres – https://www.facebook.com/leiamulheres

Leia Mulheres Negras – https://www.facebook.com/intelectuaisnegras/

Mulheres que escrevem – https://www.facebook.com/mulheresqueescrevem/

Clube da escrita para mulheres – https://www.facebook.com/clubedaescritaparamulheres/

 

E leia também:

8 escritoras que você deveria conhecer | Guia do Estudante

Mulheres escritoras | Huffpost Brasil

40 escritoras para ler antes de morrer | Revista Fórum

14 livros de escritoras brasileiras contemporâneas que você deve ler | Galileu

 

[Marina Almeida e Flávia Siqueira]

Vingança e injustiça: de quantas dores é feito um rio?

capaNo reino das palavras, os poemas esperam calmamente o momento em que serão escritos, dizia Drummond. Acredito em algo parecido quanto aos romances, que algumas tramas já existem e aguardam que alguém as desenlace com as palavras certas para que possam finalmente ganhar vida. Ao ler O rio de todas as nossas dores (2017) essa ideia me veio novamente à mente. A obra fala sobre uma vingança que se alimenta de uma das muitas injustiças sociais surgidas no período militar brasileiro. Se ainda estamos longe de acertar nossas contas com esse passado ao contrário, continuamos produzindo esse tipo de ação violenta , desta vez, ao menos, essa história foi finalmente escrita. Um passo importante para nos fazer lembrar dessas histórias e suas implicações futuras.

O livro fala ainda de histórias que não costumam ser contadas, lugares geralmente esquecidos, dos trabalhadores em suas lutas diárias, da vida que se leva do jeito que dá enquanto tudo acontece. E se às tensões do cotidiano soma-se o suspense da trama, outros momentos de grande lirismo nos lembram que, apesar de tudo, nunca se atravessa duas vezes o mesmo rio: são outras as águas, outras as dores.

A obra traz uma narrativa não convencional, em que os tempos se mesclam e pensamento e ação misturam-se, sem, no entanto, comprometer a fluência da narrativa. Já as situações inusitadas, o clima de suspense que permeia todo o livro, e ainda algumas doses de humor, garantem uma leitura fácil e envolvente.

O livro é uma publicação independente do jornalista João Caetano do Nascimento, que atua nos movimentos culturais e sociais na Zona Leste de São Paulo desde a década de 1970 e ficou entre os finalistas do Prêmio SESC de Literatura de 2011 com seu primeiro romance, não publicado.

O rio de todas as nossas dores pode ser adquirido diretamente com o autor ou pelo site da editora Expressão Popular: https://expressaopopular.com.br/loja/produto/o-rio-de-todas-as-nossas-dores/

O  rio de todas as nossas dores
Romance, 2017: 230 páginas; R$ 30,00
Edição do autor – João Caetano do Nascimento
Ilustração de capa – Rodrigo Martins

[Marina Almeida]