Resoluções de Ano Novo, mas nem tanto

Nosso modo de vida muitas vezes nos obriga a pensar apenas no amanhã, e quase sempre em termos de falta: o que ainda não tenho, o que ainda não consegui, o que ainda não consertei em mim. Não é de se estranhar que as resoluções de Ano Novo sigam esse padrão: no ano que vem quero perder os quilos que não perdi, quero ganhar o dinheiro que não ganhei, conseguir o cargo que não consegui. É claro que ter objetivos é algo importante, mas precisamos prestar atenção se eles não estão nos angustiando em vez de nos ajudar a caminhar.

Se uma resolução se repete todo ano (e todo ano não se cumpre), pode ser que não seja algo que você queira de verdade. Ou pode ser algo que você queira, sim, mas que dependa muito mais de fatores externos do que do seu esforço. Ou talvez tenha mais a ver com as expectativas dos outros ou a expectativa que você imagina que os outros tenham de você. E, nesse caso, colocá-la para o ano que vem pode ser apenas uma maneira de adiar algo que você considera desagradável.

Neste ponto, a saída mais fácil seria falar sobre o tal autoconhecimento. Um conceito que está em alta em tempos de mídias sociais: preciso saber quem eu sou, o que mostro de mim, o que curto e o que não curto (aqui, uma entrevista bem bacana sobre o tema). Mas esse discurso também tem servido mais para angustiar do que para ajudar: dúvidas, indecisões e mudanças de ideia passam a ser vistas como obstáculos para uma certa noção de sucesso.

Mas o fato é que mudamos com o passar do tempo. Deixamos de querer algumas coisas para querer outras, conseguimos coisas que queríamos e então descobrimos que na verdade não gostamos tanto delas assim, descobrimos que é possível querer coisas que antes achávamos que não eram para nós…

Antes de pensar em resoluções para o ano que vem, um exercício interessante é examinar o ano que acaba: o que você aprendeu? O que mudou em você? Conheceu lugares novos? Fez amigos? Mudou de ideia em algum momento? E o fato de muitas dessas coisas não terem sido planejadas não mostra falta de controle, e sim que a vida acontece para muito além das listas de metas.

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Microcontos de Ano Novo

A cor da roupa

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Acabava o ano, começavam a correria, os amigos secretos e happy hours e festas de firma e embarques em navio e malas sendo feitas e telefonemas e brigas familiares de última hora.

Onde vai passar a virada?

Com que roupa?

Branco é paz, amarelo é dinheiro, verde é esperança, vermelho é amor… Já tentara todas aquelas cores, mas, sinceramente, nunca notava muita diferença nos meses que se seguiam. Por isso, neste ano iria passar de blusa preta de banda, calça roxa, calcinha laranja, meia xadrez e um treco brilhante na cabeça. Quem sabe assim atrairia o diferente de fato, a revolução, a ousadia, a epifania.

Na véspera do Réveillon, teve a mala extraviada na rodoviária. Alguma confusão de malas trocadas por causa de um passageiro que tinha subido no ônibus errado e que precisou descer de última hora para esperar o ônibus das 11h46, e não das 11h38. O homem acabou ficando com a mala preta dela – muito parecida com a dele.

Então, passou a virada de ano com um vestido cinza da prima – a única coisa do guarda-roupa dela que lhe servira.

E assim começava o melhor ano de sua vida.

Fogos ao longe

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Crescera num bairro ao lado de um pólo petroquímico. Gigantesco, praticamente uma cidade em si, com seus próprios dormitórios, hospitais e tragédias. Um mar de torres prateadas durante o dia e douradas durante a noite. Douradas por causa das luzes que subiam e criavam uma aura imensa e amarela, assustadora e bonita, às vezes fumacenta, às vezes tão clara a ponto de deixar perceptível a textura do metal.

O bairro era pobre e não havia ali fogos de artifício como os que se via na televisão. O que havia eram rojões e bombinhas tão barulhentas que estremeciam a janela. Para os ouvidos de uma criança, era um tormento, reduzido de leve por chumaços de algodão que a avó lhe colocava nas orelhas.

À meia-noite, a família se reunia diante da janela do quarto, que oferecia a melhor visão das torres da petroquímica. Atrás delas, na direção do centro da cidade, subiam fogos por uns 15 minutos. Pequeninos, mas muito coloridos. Gostava de como eles se misturavam ao dourado da petroquímica – aquele mundo enorme e misterioso.

Não queria estar em outro lugar.

O melhor Ano Novo da vida

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Os fogos estouravam sobre o mar. Chuvas de cores que se espalhavam e se desfaziam e que logo se cobriam umas às outras e, mal você se admirava com a cor azul brilhante, logo já estavam lá também o vermelho, o amarelo, o laranja, o verde, o azul de novo, e o barulho dos estouros e gente falando e gritando e rindo e chorando e bebendo e se abraçando e se beijando, e deixou que tudo aquilo se tornasse um transe, uma viagem mental colorida e anestésica.

O turbilhão foi diminuindo.

As pessoas se acalmando.

Os fogos acabando.

Passou. Ficaram alguns gritos isolados e uma leve fumaça branca. Era 1º de janeiro e tudo parecia já ter voltado ao normal. O ano começava. Tão rápido.

Os fogos foram bonitos, sim. Muito agradável a experiência de ficar praticamente bêbada com as cores dos fogos…

Mas não havia sido suficiente para assumir o lugar de melhor virada de ano da vida.

O título continuava com o ano novo de 15 anos atrás, passado em casa, ouvindo música, comendo pizza congelada, tomando vinho e ao lado de seu cachorro, o Zeca. Um momento cheio de tranquilidade, em que percebeu que gostava da própria companhia. Os gritos que vinham da rua e dos apartamentos vizinhos eram suficientes para lhe dar a certeza de que não estava sozinha.

Na época, quando contava para os amigos como havia sido sua virada de ano, logo via nascer em seus rostos uma expressão de pena. “Por que você não veio passar com a gente aqui em casa?”. Ela explicava que estava tudo certo, que tinha sido ótimo. Ninguém se convencia.

Tudo bem – bastava que aquela verdade ficasse apenas entre ela e a vida.

Mente mais velha, mente mais cheia

brain-2750453_1280A ideia de que nossas capacidades cerebrais se deterioram com o envelhecimento é uma das mais cristalizadas na medicina e no senso comum. De fato, pessoas mais jovens costumam se sair melhor em testes de memória e velocidade de raciocínio aplicados por pesquisadores. Mas será que isso é suficiente para associar aos mais velhos a ideia de menor capacidade cerebral? As coisas podem ser bem mais complexas do que isso – e elas geralmente são.

Um artigo científico publicado por linguistas da Universidade de Tübingen, na Alemanha, aponta que a “mente mais velha” na verdade é uma “mente mais cheia” – cheia de memórias, vocabulário e conhecimento. E procurar algo específico dentro dessa mente é (naturalmente) mais demorado do que dentro de um cérebro mais jovem, com menos “conteúdo”.

Outro ponto importante é o formato dos testes de capacidade de raciocínio mais tradicionais. Pessoas mais velhas costumam ter menos motivação diante de jogos de memorização e atividades estressantes – o que está relacionado com a tendência que temos de, com o passar dos anos, produzir e aprender mais facilmente com estímulos positivos do que negativos.

“Como a maior parte das pesquisas solicitam que os participantes se relacionem com estímulos neutros ou negativos, esse paradigma tradicional pode colocar os mais velhos em desvantagem”, explica um dos autores do artigo.

Então, diante da dificuldade para se lembrar de uma palavra, olhe pelo lado positivo e diga a si mesmo: “não é que estou ficando mais devagar, é que eu sei demais!”.

[Traduzido e adaptado de The Older Mind May Just Be a Fuller Mind – New York Times]

Já pensou em registrar em livro suas histórias de vida ou as experiências de uma pessoa querida? Aqui na Daria um Livro, acreditamos que o exercício de ouvir e contar histórias, tão simples, é capaz de dar sentido às nossas vidas e enriquecer o mundo que habitamos. Convidamos você a conhecer nosso trabalho. 🙂

A praia quando criança

Não há um dia sequer em que eu coloque os pés numa praia e não me lembre do deslumbramento que o mar e a areia me causavam quando eu era criança.

Eu conheci o mar na Praia Grande, quando tinha uns quatro anos de idade. Me lembro de estar no carro a caminho desse lugar chamado “praia”, imaginando uma espécie de laguinho com uma multidão de pessoas em volta.

Mas, não. Era algo muito diferente. Era enorme. Era cheio de ondas barulhentas. Tinha aquela areia molhada que, escorrendo do meu baldinho vermelho, formava bolinhas. E as bolinhas podiam ser empilhadas. E aquilo era muito, muito legal. E dava pra correr no mar e encher o baldinho de água. E a água era salgada. Um dia peguei um peixinho preto no baldinho. Cheguei a carregá-lo comigo por aí, até que alguém me convenceu a devolver o pobre coitado ao mar.

Mas nada superava o mar em si. Entrar na água. Estar no mar, levar pancadas das ondas, sair rolando, me ralar na areia, levantar e voltar correndo para a água, esperando a próxima onda. Ficava no raso, e mesmo assim engolia muita água – mas muita mesmo.

E então eu pegava uma virose em praticamente toda e qualquer ida à praia. Me esbaldava o quanto podia no mar e depois passava uns dois dias vomitando. Mas, tudo bem. Não conseguia ainda examinar e entender as causas do mal-estar. Só lamentava não poder mais entrar na água naquela semana.

Ir embora, de volta à grande cidade sem praias, era um momento de profundo luto.

[Flávia Siqueira]

Já pensou em transformar suas memórias em livro? Conheça nosso trabalho.

 

[BLOG] Fotografar ajuda ou prejudica nossa memória?

Nunca tivemos nossas experiências tão mediadas por telas como nos dias de hoje. Em locais turísticos, shows, museus, diante de um prato de comida visivelmente apetitoso… Lá está a câmera do celular apontando para as coisas do mundo. Será que, na ansiedade de registrar o momento em bits e pixels, estamos esquecendo de viver? Perdemos contato com a realidade? Estamos deixando nossos cérebros preguiçosos e transferindo o papel de memorizar para os arquivos digitais?

Embora tirar momentos para se “desintoxicar” da vida digital e enxergar as coisas apenas com os próprios olhos possa ser mesmo uma boa ideia, talvez nossa situação não seja assim tão desesperadora. A fotografia, afinal, não é uma vilã: pesquisas recentes apontam que o ato de fotografar nos ajuda a recordar com mais eficiência dos aspectos visuais de um determinado momento — mesmo que nunca mais olhemos de novo para a foto.

Muitas dessas pesquisas são feitas em museus, buscando comparar as recordações mentais de dois grupos: pessoas orientadas a fotografar os objetos e pessoas orientadas a não tirar fotos. Nos estudos mais recentes, aquelas que fotografaram — sobretudo se tivessem usado o recurso de zoom para capturar detalhes — conseguiram reconhecer mais objetos do que o outro grupo. Por outro lado, aqueles que fotografaram também tiveram desempenho pior ao tentar recordar as explicações em áudio sobre as obras.

Efeito back-up?
Pesquisas realizadas nos anos 1960 apontavam para um fenômeno chamado “cognitive offloading” (“descarga cognitiva”), uma espécie de esquecimento intencional: como nosso cérebro sabe que pode contar com outros dispositivos para se lembrar de objetos e afazeres, ele economizaria esforços e deixaria de memorizar essas coisas. Faz sentido, principalmente se pensarmos em recursos como listas de compras e receitas.

A hipótese atual, contudo, é que o comportamento do cérebro dependeria, na verdade, da nossa intenção ao realizar determinado registro num suporte externo (papel, galeria do celular etc.). Se escrevemos um aviso no papel simplesmente para tirá-lo da nossa cabeça e reduzirmos nossa preocupação, o cérebro “relaxa” e abre mão daquela memória. Mas, se o que queremos é guardar o registro de algo que foi significativo para nós, essa motivação pode nos ajudar a olhar com mais atenção para os detalhes ao fotografar — e, consequentemente, produzir recordações mentais mais ricas.

(Adaptado de How Taking Photos Affects Your Memory of the Moment Later On – Nymag.com)

Você tem fotografias que são muito importantes para você? Guarda imagens antigas da família, registros de viagem, fotos dos filhos quando pequenos? A Daria um Livro pode ajudar você a reunir todas essas imagens num livro, acompanhadas de textos produzidos com muito cuidado. Conheça nosso trabalho e entre em contato conosco.

[FLÁVIA SIQUEIRA]

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4 dicas para editar e organizar suas fotos digitais

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[BLOG] Entrevistas em vídeo de Carlos Drummond de Andrade

Nesta quinta-feira (17) completam-se 30 anos desde a morte do poeta Carlos Drummond de Andrade. Trinta anos, uma data redonda, destas que — segundo se aprende entre jornalistas — pedem um lembrar-se especial: uma matéria grande e vistosa, uma sequência de entrevistas com grandes teóricos…

Sim, há algo de artificial nisso, mas onde não há? Os marcos da vida e da rotina são invenções nossas, de qualquer maneira. E nunca é demais falar de Drummond. Então, falemos.

O Drummond do papel é o gênio que todos que estudam literatura conhecem. Mas existem, por aí, entrevistas em vídeo que mostram de relance também o gênio humano de Drummond, que fala de maneira franca e meio tímida sobre a vida e sua poesia. Selecionamos alguns desses vídeos:

1) Nesta entrevista, o poeta fala sobre ser ao mesmo otimista e pessimista, a idade e seu método de trabalho. Seus “perrengues” como trabalhador da escrita o aproximam de nós todos: “Quando tô no ônibus, assim, vem uma ideia, mas eu não tenho lápis nem papel… Aquilo voa e não volta mais, né? Chato, mesmo…”

2) Aqui, Drummond fala um pouco sobre Itabira, sua cidade natal. Pacata, tranquila e entediante, é dela que o poeta fala em Cidadezinha qualquer:

3) No próximo vídeo, Drummond recita o poema No meio do caminho e fala sobre o espanto que ele causou na época, por sua simplicidade:

[BLOG] Por que nos esquecemos?

Tendemos a achar que ter uma boa memória é se lembrar de tudo — ou quase tudo. Mas será que carregar em nossa mente tanta informação sobre coisas do passado seria mesmo algo desejável? De acordo com um artigo publicado por dois neurocientistas na revista Neuron, o esquecimento exerce, sim, um papel importante em nosso cérebro.

Segundo eles, a memória não tem a função de gravar tudo o que vemos e ouvimos, mas de registrar informações e regras que sejam úteis para tomarmos decisões. Ela deve ser seletiva, portanto. Por isso, faz todo o sentido que o cérebro se livre de informações irrelevantes e desatualizadas — coisas que, se não caíssem no esquecimento, poderiam até nos causar problemas no dia a dia.

E esquecer não sai “de graça” para o cérebro: na verdade, ele gasta energia para desfazer antigas conexões entre os neurônios e substituí-las por novas. Se evoluímos ao longo de milênios para operar dessa maneira, é porque deve valer a pena.

Esquecer nos deixa mais eficientes. Imagine, por exemplo, que você memorize o nome errado de uma pessoa — se você não conseguir esquecê-lo e substituí-lo pelo nome correto, acabará sempre se confundindo. Outro aspecto útil do esquecimento é impedir que a mente gaste energia se apegando a inúmeros detalhes e consiga, em vez disso, formar “quadros gerais” para definir objetos e situações.

De qualquer maneira, não existe uma fórmula que defina o que vamos esquecer e do que vamos nos lembrar. Esquecer-se logo em seguida ou lembrar-se de algo por anos (ou talvez pela vida inteira) são caminhos que dependem de muitos fatores: a novidade da situação, o grau da nossa atenção naquele momento, o nível de adrenalina no organismo. Memórias de eventos traumáticos, por exemplo, continuam conosco porque o cérebro as entende como informações importantes para nossa sobrevivência.

Portanto, esquecer-se é uma função do cérebro, e não um defeito.

(Traduzido e adaptado de Are you forgetful? That’s just your brain erasing useless memories | The Verge)

Mas é claro que há maneiras de driblar nossa tendência ao esquecimento. Há muita coisa que merece ser lembrada! Você costuma registrar os bons momentos? Guarda com você as boas histórias vividas ao lado de amigos e familiares? Criar um livro com essas histórias (e lições) pode ser uma forma de autoconhecimento, além de um belo registro para as gerações futuras. Não sabe por onde começar? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias.

[Flávia Siqueira]

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Memórias que atravessam gerações (por meio de seus genes!)

Do que é feita a memória?

Por que escrever nos ajuda a viver melhor

[BLOG] Dia do escritor: por que escrever?

Hoje, 25 de julho, é o Dia Nacional do Escritor. A data foi instituída em 1960, pela União Brasileira de Escritores.

O processo de criação e escrita é tema frequente de entrevistas com escritores. Reunimos, a seguir, o que grandes nomes da literatura já disseram sobre a arte de organizar pensamentos em palavras escritas:

“Para mim, não existe diferença entre a literatura e a vida. A literatura foi o caminho que eu encontrei para enfrentar essa bela tarefa de viver.” (Ariano Suassuna)

“A gente escreve a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os demais, para denunciar o que dói e compartilhar o que dá alegria. A gente escreve contra a própria solidão e a dos outros.” (Eduardo Galeano)

“Escrevo para salvar a alma.” (Fernando Pessoa)

“Para que meus amigos me amem mais.” (Gabriel García Márquez)

“Escrevo contra a passagem natural do tempo. Jogo o passado na direção do presente para fazê-lo tropeçar.” (Günter Grass)

“Antes eu dizia: ‘Escrevo porque não quero morrer’. Mas agora eu mudei. Escrevo para compreender. O que é um ser humano?” (José Saramago)

“No fundo, é uma coisa que não entendo: por que algumas pessoas têm necessidade de viver duas vezes? Uma vez quando vivem, e outra quando escrevem?” (Marguerite Duras)

“Acho que para cada escritor há uma razão diferente. No meu caso, num certo sentido, é o desejo interior de dar testemunho do meu tempo, da minha gente e principalmente de mim mesma: eu existi, eu sou, eu pensei, eu senti, e eu queria que você soubesse. No fundo, é esse o grito do escritor, de todo artista. É se fazer ver.” (Rachel de Queiroz)

[Fonte: Coletânea Por que escrevo?; José Domingos de Brito (org.)]

Na Daria um Livro, acreditamos que sua história é única e merece ser registrada; que o exercício de ouvir e contar histórias, tão simples, é capaz de transformar e dar sentidos às nossas vidas. Conheça nosso trabalho.
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Leia também:
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Do que é feita a memória?
A história de um livro (e o início de outros)

[BLOG] Ecléa Bosi e seu pensar sobre a memória

Morreu nesta segunda-feira (10) a professora e pesquisadora Ecléa Bosi. Ecléa era professora emérita do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e foi a idealizadora do Programa Universidade Aberta à Terceira Idade.

O tema memória é central em seu trabalho. No livro Memória e sociedade – Lembranças de velhos (Companhia das Letras, 1994), Ecléa faz um resgate não apenas das informações sobre o passado de famílias imigrantes na cidade de São Paulo, mas da arte e do trabalho de viver, lembrar, narrar e registrar. Velhos somos e seremos todos — e isso é bom (e necessário). Leia, a seguir, alguns trechos do livro:

“A criança recebe do passado não só os dados da história escrita; mergulha suas raízes na história vivida, ou melhor, sobrevivida, das pessoas de idade que tomaram parte na sua socialização. Sem estas haveria apenas uma competência abstrata para lidar com os dados do passado, mas não a memória.”

“Curiosa é a expressão ‘meu tempo’ usada pelos que recordam. Qual é o meu tempo, se ainda estou vivo e não tomei emprestada minha época a ninguém, pois ela me pertence tanto quanto a outros, meus coetâneos?”

“A memória do trabalho é o sentido, é a justificação de toda uma biografia. Quando o sr. Amadeu fecha a história de sua vida, qual o conselho que dá? De tolerância para com os velhos, tolerância mesmo para com aqueles que se transviaram na juventude: ‘Eles também trabalharam’.”

“Por muito que deva à memória coletiva, é o indivíduo que recorda. Ele é o memorizador e das camadas do passado a que tem acesso pode reter objetos que são, para ele, e só para ele, significativos dentro de um tesouro comum.”

“É preciso reconhecer que muitas de nossas lembranças, ou mesmo de nossas ideias, não são originais: foram inspiradas nas conversas com os outros. Com o correr do tempo, elas passam a ter uma história dentro da gente, acompanham nossa vida e são enriquecidas por experiências e embates.”

“O narrador é um mestre do ofício que conhece seu mister: ele tem o dom do conselho. A ele foi dado abranger uma vida inteira. Seu talento de narrar lhe vem da experiência; sua lição, ele extraiu da própria dor; sua dignidade é a de contá-la até o fim, sem medo. Uma atmosfera sagrada circunda o narrador.”

“Há casas em cidades tranquilas em que o tempo parou; o relógio das salas é o mesmo que pulsava antigamente e as pessoas que pisam as tábuas largas do assoalho conservam um forte estilo de vida que nos surpreende pela continuidade.”

“Por que decaiu a arte de contar histórias? Talvez porque tenha decaído a arte de trocar experiências. A experiência que passa de boca em boca e que o mundo da técnica desorienta.”

 

 

[BLOG] Faça download gratuito das obras de Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839 no Rio de Janeiro. Morreu em setembro de 1908, aos 69 anos. Mestre da ironia, é considerado por muitos como o maior nome da literatura brasileira. Neto de escravos alforriados, ele não frequentou a escola de forma regular — foi um autodidata.

As obras de Machado estão em domínio público e, portanto, o acesso a elas é livre e gratuito. Reunimos, a seguir, alguns links para baixar seus contos e romances em formato digital:

– No endereço http://machado.mec.gov.br/obra-completa-lista, está disponível a obra completa de Machado de Assis, nos formatos PDF e HTML — dos livros mais famosos a seus textos de crítica literária.

– No site LeLivros, é possível baixar romances e coletâneas de contos em vários formatos: ePUB (livro digital), mobi (para leitura no aparelho Kindle), pdf e leitura online. Algumas sugestões:

  1. Memórias Póstumas de Brás Cubas, a obra-prima cujo narrador é um autor defunto (ou seria um defunto autor)?
  2. Dom Casmurro, outra obra-prima sempre lembrada pelas listas de leitura para vestibulares. Embora muitos leitores considerem a pergunta Capitu traiu Bentinho? como algo central na narrativa, mais importante é perceber como Machado constrói o narrador, que está ali para dar sua versão dos acontecimentos, e não para apresentar um retrato imparcial da verdade.
  3. Memorial de Aires, útimo romance de Machado. Construído como um diário, muitos enxergam nesse livro elementos autobiográficos.
  4. 50 Contos de Machado de Assis, antologia de 2007. Está ali A Cartomante, um dos contos mais lidos de Machado.
  5. Quincas Borba, a história de um homem que recebe toda a herança e o cachorro de um filósofo.

 

Já conhece a Daria um Livro? Somos uma editora especializada em livros personalizados. As memórias de seus avós e seus pais, lembranças de viagens, momentos marcantes entre amigos, histórias de amor… Tudo isso pode ser transformado em livro. Saiba mais sobre nosso trabalho.