Elena Ferrante: o talento de um escritor é como uma rede de pesca; ele captura experiências que podem nos ensinar

[Traduzido e adaptado de Elena Ferrante: A writer’s talent is like a fishing net, catching daily experiences that can educate]

Elena Ferrante, para o The Guardian

Nós nos apaixonamos por um texto também pela maneira como ele nos ensina alguma coisa, mesmo sem querer

Existe uma função muito antiga da literatura que, com o tempo, perdeu espaço – provavelmente em razão de sua proximidade perigosa com as esferas política e ética. Refiro-me à ideia de que um dos propósitos de um texto é ensinar. Nos últimos 50 anos, nos convencemos (com razão) de que a satisfação que sentimos durante a leitura está ligada ao estilo da obra. Faz sentido: um texto é composto de palavras, e quanto mais bem escolhidas e harmônicas elas forem, mais sedutora e impactante será a experiência para o leitor. Mas as palavras, enquanto nos deliciam, moldam nossas visões do mundo; elas penetram nosso corpo, fluem por ele e o modificam, educando nosso olhar, nossos sentimentos e até nossa posição sobre diferentes questões. Além de satisfazer, o estilo – de acordo com uma longa tradição – é capaz de mobilizar e ensinar.

Nós nos apaixonamos por um texto, em parte, pela maneira como ele nos ensina alguma coisa, mesmo sem querer; ou seja, pela riqueza de experiências vívidas e verdadeiras que passam do escritor diretamente para o universo do leitor. Não é apenas a escolha meticulosa de vocabulário, das metáforas, das semelhanças… O que faz diferença é como a autora ou o autor se insere na tradição literária – não apenas por sua capacidade de orquestrar palavras, mas por suas ideias e pelo repertório pessoal de coisas urgentes que precisam ser colocadas no papel.

O talento individual age como uma rede de pesca que captura experiências diárias e que consegue, com imaginação, mantê-las unidas e conectá-las a questões fundamentais da condição humana.

Portanto, o estilo é tudo, mas no sentido de que, quanto mais potente ele é, mais material ele possui para transmitir lições de vida. Observe, porém, que não estou me referindo a romances que usam a literatura para lidar com graves temas contemporâneos: fome no mundo, ameaça do neofascismo, terrorismo, conflitos religiosos, racismo, sexualidade, vida digital, entre outros. Não tenho nada contra esses livros – na verdade, fico ansiosa para lê-los. Histórias emocionantes podem estar cheias de ciência ou sociologia e jogar luz sobre as várias catástrofes que ameaçam o planeta; disseminam-se ideologias, sustentam-se teses, travam-se batalhas políticas.

Mas quando falo sobre ensinamentos, não me refiro a esse tipo de obra. Não estou pensando em uma literatura didática e moralizante. Quero apenas dizer que todo trabalho de valor é também uma transmissão de conhecimento em primeira mão – conhecimento inesperado e, principalmente, difícil de reduzir a uma forma que não seja a literária. É um aprendizado agradável, um aprendizado capaz de nos mudar internamente – dramaticamente, até – sob o impacto de palavras que são verdadeiras e carregadas de sentimentos.

[Tradução: Flávia Siqueira]

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22 dicas e inspirações para escrever sobre sua infância

Algumas pessoas se lembram com clareza da própria infância. Outras têm mais dificuldade, talvez por estarem mergulhadas em preocupações da vida adulta.

Se você faz parte do segundo grupo, considere este convite: faça uma pausa, pegue caneta e papel, concentre-se. Busque uma memória de infância que costume vir com mais facilidade e mergulhe nela. Tente recordar sensações, pensamentos, lugares. Escreva livremente sobre tudo isso e perceba como outras lembranças virão em seguida.

Ao longo do nosso trabalho na Daria um Livro, percebemos que recordar é como puxar a linha de um novelo de lã. De história em história, de personagem em personagem, o emaranhado vai se soltando e compondo uma narrativa.

Dicas
No blog do site WriteShop, encontramos 22 perguntas e dicas que podem nos ajudar a escrever sobre nossas infâncias e reativar memórias adormecidas. Vamos a elas:

1. Pense nos seus amigos de infância. Liste seus nomes, características e brincadeiras favoritas.

2. Descreva suas memórias mais antigas. Quantos anos você tinha? Que imagens e sensações vêm à sua mente?

3. Você já tentou fugir de casa? Já se escondeu dos seus pais? Como foi?

4. Tente descrever a cozinha da sua avó ou da sua mãe. O que havia nela?

5. Descreva os lugares em que você morou quando criança – as casas, as ruas e vizinhanças.

6. Você tinha um quarto só seu ou dividia com irmãos? Como era?

7. Como você era quando criança? Tímido? Mandão? Sorridente? Você continua do mesmo jeito?

8. Que memórias você tem dos seus pais? Descreva algumas situações vividas com eles.

9. Escreva sobre alguma viagem que você fez quando criança. Estava de férias? Qual foi o destino?

10. Você gostava de se esconder em algum lugar?

11. Você ia à escola? Como eram seus colegas e professores?

12. Tente se lembrar de algo errado que você fez quando criança. Como foi? Como você se sentiu?

13. Você se machucou quando criança? Ficou doente? Conte como foi.

14. De que parentes você se lembra?

15. Como eram as datas comemorativas na sua casa, como Natal e Páscoa?

16. Sua família tinha algum hábito ou tradição? Descreva um ou dois deles.

17. Você teve contato com livros quando criança? Algum deles foi marcante?

18. Que jogos e brincadeiras você e seus irmãos ou primos faziam?

19. Qual era seu brinquedo favorito? Como ele era? Que sentimentos ele traz à sua mente?

20. Algum acontecimento assustou você quando criança? Procure descrevê-lo.

21. Que expressões você ouvia quando criança? Que conselhos recebeu? Você levou algum deles para sua vida adulta?

22. Quais são suas memórias mais felizes de infância? Tente descrevê-las.

Gostou das inspirações? Essa lista de perguntas também é bem útil se você pretende entrevistar familiares e registrar suas histórias de vida.

(Traduzido e adaptado de 22 writing prompts that jog childhood memories – Write Shop)

Se você está pensando em escrever um livro de memórias ou registrar a trajetória da sua família, a Daria um Livro pode ajudar a concretizar esse projeto. Saiba mais aqui.

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A alma literária das nossas correspondências eletrônicas

Reencontros, novas e velhas amizades, namoros, pedidos de ajuda, desculpas… Quase todas as experiências que temos hoje produzem registros escritos em formato digital. Pense em seus e-mails, em seus posts de Facebook, nas longas conversas de WhatsApp.

Existe literatura nessas trocas de mensagens? A resposta pode ser controversa, mas é certo que esse tipo de material documenta com riqueza nossas vivências. Ele tem uma alma, composta por emoções, silêncios, medos, surpresas e alegrias.

A publicação americana The California Sunday Magazine abordou o tema em uma reportagem publicada no dia 04 de abril:

Boa parte da nossa comunicação acontece por meio da escrita, dos pequenos e grandes textos que escrevemos uns para os outros. Hoje, com as inúmeras ferramentas que nos permitem exteriorizar pensamentos em tempo real, cada um de nós se torna seu próprio biógrafo, produzindo registros íntimos do que se vive ao mesmo tempo em que as experiências acontecem.

Algumas pessoas abriram esses registros à publicação. Entre elas, dois estranhos que descobriram ser irmãos. Traduzimos, a seguir, o resumo da história e a troca de mensagens:

:: Dois estranhos que descobriram ser irmão e irmã ::

Yadira Izaguirre tinha 17 anos quando deu à luz seu primeiro filho – uma menina – em São Francisco (EUA), em 1965. Na época, ela morava com uma tia, que não permitiu que a jovem ficasse com o bebê. A criança foi entregue para adoção.

Mais tarde, Yadira se casou e teve mais três filhos – Marcos, Daniel e Raquel -, para quem ela falava abertamente sobre a filha mais velha. Em 2018, décadas após a morte de Yadira, Daniel se inscreveu em um serviço de testes genéticos e foi conectado a outra cliente – com quem, segundo o serviço, ele estava relacionado.

Daniel recebeu uma mensagem de Bianca Seed:

“Olá, a mãe da minha mãe tem exatamente a mesma história que a sua. Sua mãe veio para São Francisco quando chegou nos Estados Unidos?”

Ele ficou encarando a mensagem, atordoado, antes de responder:

Sim, minha mãe deixou a Nicarágua e foi criada por uma tia em São Francisco. Bianca, sua mãe pode ser minha irmã.”

Bianca colocou sua mãe em contato com ele.

28 de maio de 2018

LUCIANNA SEED:
Olá, Daniel.
Nasci em San Francisco em 8 de janeiro de 1965. O nome da minha mãe é Yadira Izaguirre. Eu fui colocada para adoção. Minha mãe tinha 17 anos. Estou muito curiosa para saber se temos a mesma mãe!!!

DANIEL RIVERA:
Oi, Lucianna.
O nome da minha mãe também é Yadira Izaguirre e ela foi criada pela tia Josephina. Meus irmãos e eu sempre soubemos que nossa mãe teve que desistir de seu primeiro filho e dá-lo para adoção. Parece que você é nossa irmã mais velha.

LUCIANNA SEED:
Meu Deus!!!! Estou maravilhada. Eu tenho um irmão!!! Você tem outros irmãos e irmãs?

DANIEL RIVERA:
Luci,
Você tem outro irmão, Marcos, e uma irmã, Raquel. Ambos moram em Ohio. Eu também tenho outras três meias-irmãs com quem cresci. Raquel e Marcos estão me mandando mensagens e querem se conectar com você também.

LUCIANNA SEED:
Estou sem palavras!!

A conversa migra para um grupo formado pelos irmãos.

29 de maio de 2018

LUCIANNA:
Olá, Daniel. Olá, Marcos! Olá, Raquel! Isso é tão surreal. Ainda estou em choque. Sou Lucianna (Luci). Não posso acreditar que este dia se tornou realidade. Eu tenho 2 irmãos e uma irmã !!!

RAQUEL:
Eu mal consigo me expressar em palavras. Você é uma conexão com a mamãe, e só por isso já é gratificante.

DANIEL:
Ficou difícil me concentrar no trabalho. Eu amo tanto todos vocês.

RAQUEL:
Não posso acreditar que isso está acontecendo.

MARCOS:
Eu não sou mais o irmão mais velho, hahaha. Falando sério, eu sempre pensava sobre onde minha irmã poderia estar. E aqui estamos.

Traduzido e adaptado de Re: re: re: re: A glimpse inside the lives of asylum-seekers, new couples, prisoners, and pen pals through their letters, texts, WhatsApp messages, and Facebook posts (The California Sunday Magazine).

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Como transformar posts de redes sociais em livro


Você já pensou em transformar suas histórias ou correspondências em livro? Conheça o trabalho da Daria um Livro.

Carl Sagan: livros quebram os grilhões do tempo

Uma das mais belas falas sobre o poder dos livros é de Carl Sagan (1934-1996). Em um dos episódios da série Cosmos, o cientista descreve de forma poética como um livro consegue quebrar a barreira do tempo:

“What an astonishing thing a book is. It’s a flat object made from a tree with flexible parts on which are imprinted lots of funny dark squiggles. But one glance at it and you’re inside the mind of another person, maybe somebody dead for thousands of years. Across the millennia, an author is speaking clearly and silently inside your head, directly to you. Writing is perhaps the greatest of human inventions, binding together people who never knew each other, citizens of distant epochs. Books break the shackles of time. A book is proof that humans are capable of working magic.”

Tradução:

“Que coisa extraordinária é um livro. Um objeto plano, produzido a partir de uma árvore, com camadas flexíveis nas quais são impressos vários traços e rabiscos. Mas basta um olhar e você se vê dentro da mente de outra pessoa, talvez alguém que tenha morrido há milhares de anos. Atravessando os milênios, aquele autor fala clara e silenciosamente dentro da sua cabeça, diretamente para você. A escrita é talvez a maior das invenções humanas, capaz de unir pessoas que nunca se conheceram, cidadãos de épocas distantes. Livros quebram os grilhões do tempo. Um livro é uma prova de que os humanos são capazes de fazer mágica. “

 


 

Transformamos sua história em livro. Saiba mais.

Como fazer sua árvore genealógica

Árvore genealógica é um diagrama que representa o histórico familiar de uma pessoa ou de um grupo de pessoas. Os nomes dos antepassados – pais, avós, bisavós, tataravós – são conectados por linhas que indicam casais, filhos e irmãos.

Começando com seu nome na base, a típica árvore genealógica cresce para o alto e vai formando uma “copa” cada vez maior. Afinal, você tem dois pais (pai e mãe), quatro avós, oito bisavós e 16 trisavós (que muitos chamam de tataravós). Caso você esteja interessado em representar apenas uma ramificação da sua família, também é possível montar uma árvore parcial.

A árvore genealógica é uma ferramenta bem útil para quem está pesquisando a história da própria família, seja para guardá-la como registro ou para solicitar cidadania em outro país.

Algumas dicas para enriquecer sua árvore genealógica:

  • Busque os nomes completos e corretos (atenção à grafia) dos sobrenomes.
  • Acrescente retratos, caso tenha.
  • Anexe à arvore e aos nomes outras informações relevantes, como datas importantes (nascimento, chegada ao Brasil, casamento, óbito), nacionalidade, local de nascimento, profissão.

Como criar a árvore genealógica

Se você estiver montando sua árvore em papel, considere digitalizá-la. É uma boa forma de manter o registro mais seguro e compartilhar com outras pessoas.

Também é possível criar a árvore do zero já em formato digital. Para isso, você pode usar programas de computador tradicionais, como o Excel ou outro aplicativo de planilhas ou o Microsoft Word. O Canva, um aplicativo on-line de design, também oferece alguns modelos gratuitos.

Existem sites que combinam funcionalidades: montar sua árvore e pesquisar registros de antepassados. É o caso do MyHeritage, do Geni, do Genoom e do Family Search.

O que aconselhamos: se quiser utilizar um desses sites, pesquise bem as opções e leia com cuidado as condições de uso. Alguns deles têm serviços pagos e usarão suas informações (pessoais e familiares) para alimentar a própria base de dados. De um lado, isso pode ajudar outras pessoas a encontrar parentes distantes e informações sobre seus antepassados. Por outro lado, sabemos que os dados também podem ser usados de outras formas, para propaganda, direcionamento de campanhas específicas etc.

A título de curiosidade: o site Family Search, por exemplo, é um braço da Igreja Mórmon – no Brasil, conhecida como Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Embora o site não faça propaganda ostensiva da igreja e seja de fato útil na pesquisa de documentos, há casos de “batismo póstumo” (e, portanto, involuntário) que já causaram bastante polêmica. Sobre isso, recomendamos a leitura desta matéria da Vice: Como e por que os mórmons estão catalogando todos os registros civis do Brasil.

Obtendo informações sobre seus antepassados

Hoje, já existe bastante informação on-line sobre imigrantes que chegaram ao Brasil, principalmente nos séculos 19 e 20. O Museu da Imigração, por exemplo, tem um ótimo acervo digital e uma equipe dedicada a ajudar qualquer cidadão na busca por informações.

Para a maioria dos casos, contudo, ainda é necessário realizar pesquisas mais demoradas, manuais e trabalhosas, mas que podem valer muito a pena justamente pelas descobertas do processo:

  • Converse com seus familiares mais velhos. Pergunte sobre nomes, sobrenomes, informações de antepassados, lugares e datas.
  • Procure e guarde os documentos que encontrar. Lembre-se que os registros dos documentos “puxam” outros, que ajudarão você a montar o quebra-cabeças da sua família: o registro de nascimento leva aos nomes dos pais, que podem levar a uma certidão de casamento, que pode levar aos nomes dos avós, e assim por diante.
  • Pode ser necessário visitar igrejas e cartórios para obter mais informações. Se possível, divida o trabalho (e a curiosidade) com outros familiares.

Você já pensou em registrar em livro a história da sua família? Essa é nossa especialidade aqui na Daria um Livro – fale conosco.

Leia também:
5 dicas para preservar memórias de família

5 dicas para preservar memórias de família

Já aconteceu com todo mundo: você está folheando o álbum de fotos de família, depara-se com uma imagem e não sabe quem são as pessoas que aparecem naquela foto. Pergunta para um familiar, que também não sabe… e a dúvida permanece.

É claro que situações como essa acabam se transformando em momentos de muita conversa e descobertas. Mas que tal organizar as informações e registrar as lembranças para o futuro?

Reunimos 5 dicas para preservar as memórias de família:

1) Registre em texto informações sobre fotografias
Quem são aquelas pessoas? Onde estavam? O que faziam? Que época era aquela? Você pode fazer anotações no verso das imagens ou (melhor) em um arquivo separado – pode ser em papel ou no formato digital.

2) Faça uma árvore genealógica e, se possível, digitalize e guarde os documentos que encontrar
Anote os nomes completos de seus familiares e antepassados. Existem ferramentas on-line que facilitam a criação da árvore, como o Canva. Para mais detalhes e ideias, veja também este passo a passo.

3) Entreviste seus familiares e registre suas histórias e lembranças
Você pode gravar as entrevistas em áudio ou vídeo. Imagine que incrível será rever o material daqui a alguns anos! Outra opção é fazer um livro, nossa especialidade aqui na Daria um Livro – saiba mais sobre nosso trabalho 🙂

4) Digitalize as fotografias mais significativas
Esse é um passo importante, já que as fotos impressas se deterioram com o tempo. Se o volume for muito grande, escolha as imagens mais significativas. Para mais segurança, armazene em um pen drive e também em algum serviço de nuvem, como o Google Drive ou o Dropbox.

5) Considere restaurar algumas das fotografias impressas mais desgastadas
Existem profissionais especializados em restauração digital de fotografias. Nós já testamos esse serviço e gostamos muito do resultado – veja aqui o antes e depois.

Sua história importa.
Sua história é única.
Sua história daria um livro.
Fale conosco.

Entre Abismos – Aventura no Carstensz

mockupAtravessar o mundo para enfrentar dias de caminhada em meio a selva e lama. Com o corpo dolorido, após noites mal dormidas, ainda encarar uma escalada de quase 800 metros e andar sobre uma crista de montanha escorregadia, com abismos despencando pelos dois lados. O médico brasileiro Rafael Scanavacca relata essas experiências no livro Entre Abismos – Aventura no Carstensz, publicado pela Editora Extremos.

Fizemos o trabalho de revisão e preparação de texto para o livro, o segundo publicado por Rafael. A seguir, o depoimento do autor sobre nosso trabalho:

“Fiquei muito satisfeito. Os ajustes e sugestões não descaracterizaram minha linguagem original. O trabalho foi realizado de maneira tranquila, dentro do prazo combinado e sempre aberta a conversas – me senti muito à vontade para apontar os caminhos que preferia seguir. Eu certamente indicaria a Daria um Livro para trabalhos de revisão e preparação de texto.” (Rafael Scanavacca)

O livro amarra experiências vividas por Rafael no Nepal – onde ele presenciou o trágico terremoto de 2015 – e na Papua, província da Indonésia onde está localizada a Pirâmide Cartensz, montanha mais alta da Oceania e parte do projeto Sete Cumes.

Rafael Scanavacca conquistou o cume do Cartensz ao lado de montanhistas como Eduardo Sator Filho, Carlos Santalena e Thais Pegoraro –  ela, aliás, bateu naquele momento o recorde brasileiro de escalada dos Sete Cumes e assina o prefácio da obra.

Leia alguns trechos do livro Entre Abismos:

O terremoto de 2015 no Nepal

“Eu estava sentado na calçada de uma viela estreita quando senti um impacto que me empurrou para cima e me deixou em pé. Os prédios balançavam e tremiam, o chão se movia instável sob meus pés, como se eu tentasse me equilibrar numa placa de madeira sobre um rio. Por vezes tudo balançava de um lado para o outro, como se eu estivesse no convés de um navio atravessando um mar em tormenta. Pedaços de tijolos se desprendiam dos prédios e caíam à minha volta enquanto eu tentava me reequilibrar. Fiquei em pé e novamente fui jogado ao chão, vendo o asfalto da pequena rua se partir ao meio – uma rachadura foi se formando e percorrendo toda a sua extensão. Pessoas corriam desesperadas de um lado para o outro, tropeçando e se desequilibrando. Outro tijolo caiu muito perto de mim e se espatifou no chão, desfazendo-se em pó e pedaços. Era um aviso de que eu não podia ficar ali parado. Novamente fiz um esforço para me equilibrar, fiquei em pé e entrei numa pequena loja com a porta aberta para a rua. Uma mulher desesperada abraçava uma criança de cerca de cinco anos de idade, que berrava enquanto os pequenos suvenires empilhados nas prateleiras balançavam e vinham ao chão, mostrando que aquele também não era um lugar seguro. Voltei para o lado de fora e reencontrei ali meu amigo Gustavo Villa. Olhamos apavorados um para o outro e, com o pingo de racionalidade que nos restava, nos perguntamos: ‘o que a gente faz?’. Fomos nos arrastando em meio ao tremor pelo chão de asfalto, que mais parecia uma maré, e nos sentamos no meio da rua, tentando ficar o mais longe possível dos humildes e pequenos prédios de Katmandu e seus tijolos à mostra – e quem sabe minimizar o risco de algo cair sobre nossas cabeças. No fim da rua, um prédio cedeu e levantou uma grande nuvem de pó, como em uma implosão.  Ao me sentar, parei de brigar com o tremor, fiquei apenas observando e pensei: ‘meu Deus, estamos no meio de um terremoto’.”

A escalada da Pirâmide Carstensz

“Às 3h30 da manhã comecei a ouvir sons de pessoas se revirando dentro das barracas, pegando equipamentos e acendendo lanternas. Estava cansado, não tinha conseguido pregar o olho um minuto, na expectativa de como seria a escalada. Enquanto isso, meu companheiro de barraca, Carlos Mussoi, dormia o sono dos justos e roncava, com sua missão já concluída. Eu sabia que estava a um dia de concretizar um sonho e finalizar uma jornada que tinha relevância no mundo da escalada. Quantos escaladores mais experientes e dedicados do que eu não sonham em ter a oportunidade de escalar o Carstensz? E eu estava ali, deitado aos seus pés, a um dia de seu cume. A expectativa de como seria a escalada me deixava eletrizado, e o perigo que a cercava parecia tornar tudo mais real: a textura da rocha, a arquitetura da montanha, o perfil das nuvens. Tentava não imaginar o momento de chegada ao cume, para não dar azar. Sabia que seria uma subida difícil, que era um novato tentando acompanhar montanhistas experientes. Sabia que, apesar dos equipamentos de segurança, há sempre um perigo real.

(…)

Eu tinha dormido – ou, melhor, descansado – praticamente pronto, com casacos, luvas e equipamentos. Não queria perder tempo. Juntei-me ao grupo e vesti minha cadeirinha, conferindo as outras ferramentas de escalada: ascensor, freios e mosquetões. Em pouco tempo estávamos todos prontos. Havia silêncio, tensão e seriedade no ar. Ainda era noite e, sob a luz de nossas headlamps, fizemos um círculo e uma breve oração em respeito à montanha. Que ela nos deixasse escalar e nos permitisse voltar a salvo no fim do dia. Fizemos alguns minutos de silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos e motivações.

Saímos rumo ao Carstensz.

(…)

Logo começou a amanhecer e a crescente claridade foi revelando a imensa parede de pedra escura e vulcânica, sob o céu nublado e chuvoso da Papua. Caía uma fina garoa. Ao redor, eu podia ver os picos sem nome que se erguiam e pareciam maiores e mais ameaçadores do que antes. Ao lado, uma construção colossal, muito maior do que uma cidade e com aspecto feio e industrial. Também via um enorme buraco perfurado no chão em meio a camadas e camadas de terra e pedras reviradas, e um rio cor de lama esbranquiçada. Era a mina de ouro, uma presença incômoda e que destoava da paisagem.

A escalada foi se tornando cada vez mais íngreme e exposta e às vezes fazia minha cabeça rodopiar. Sob meus pés, a parede despencava por 400 metros; para cima, elevava-se com autoridade por 370 metros em direção à crista.”

Ocupação Antonio Candido: pensar a literatura, pensar a vida

O que perdemos ao abrir mão da literatura em nosso dia a dia? Ao encarar Machado de Assis, Clarice Lispector e outros grandes nomes apenas como tópicos enfadonhos de um currículo escolar burocrático?

ant-candido.jpgPara o crítico literário e professor universitário Antonio Candido (1918 – 2017), “negar a fruição da literatura é mutilar nossa humanidade”. Afinal, os livros organizam sentimentos e visões de mundo, ajudando seus leitores a encontrar uma saída para o caos externo e interno. Colocar a literatura num pedestal de acesso restrito contribui apenas para manter os privilégios de poucos.

Facetas várias e entrelaçadas

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Na obra e na vida de Antonio Candido, a produção acadêmica, a docência e a busca por justiça social andam juntas. É o que mostra a Ocupação Antonio Candido, em cartaz no Itaú Cultural, em São Paulo.

Painéis, vídeos, fotografias, recortes e objetos apresentam a variedade dos trabalhos de Candido. Em cópias de seus manuscritos, o processo de (re)escrita vem à tona: trechos riscados, a busca pela palavra mais precisa, ideias sendo reorganizadas… Afinal, não existe reflexão verdadeira sem autocrítica.

Num documento da época em que Candido era estudante (e já leitor voraz de grandes obras), descobrimos uma nota 7 em Português. Não seria uma prova de que a literatura e a reflexão são muito maiores do que um boletim escolar?

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O boletim de Candido quando estudante
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Dedicatória de Guimarães Rosa a Antonio Candido

Ocupação Antonio Candido
Até 12 de agosto.
De terça a sexta, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h.
Itaú Cultural (Av. Paulista, 149. São Paulo, SP).
Entrada gratuita.
Saiba mais em http://www.itaucultural.org.br/ocupacao/antonio-candido/



Leia também:

Literatura como direito humano: arte, educação e justiça social se entrelaçam na Ocupação Antonio Candido | Escrevendo o futuro

[Por Flávia Siqueira]

 

 

 

Oficina na escola: uma conversa sobre escrita e jornalismo

oficinanaescolaPor que escrever? Como colocar as ideias no papel? Quais as características da escrita no jornalismo e na literatura? Estivemos no dia 22 de maio na escola Luciane do Espírito Santo, na zona leste de São Paulo, para conversar com os alunos do terceiro ano do Ensino Médio sobre questões como essas.

Chegamos até lá por meio da iniciativa Quero na Escola, que conecta alunos da escola pública à comunidade externa. Os estudantes divulgam suas demandas – por palestras, oficinas, atividades – e voluntários se apresentam para atendê-las.

Começamos a conversa abordando nossas motivações para escrever: organizar ideias, memorizar e enxergar melhor as coisas do mundo e a nós mesmos. O escritor Hélio Pellegrino afirma que escrever é nascer – ou seja, dar-se conta da própria humanidade e, com ela, da própria finitude.

As boas histórias não estão apenas nos acontecimentos grandiosos, mas também nas situações do dia a dia, nas repetições, nos lugares simples. Escrever é colocar uma lupa sobre os detalhes da vida e, com isso, expandir nossa compreensão sobre o mundo e nosso universo interior.

Exercício de atenção
Vivemos tantos de nossos dias no automático: acordar, cumprir nossas rotinas da mesma forma, transitar pelos mesmos lugares sem prestar muita atenção à nossa volta. Se você olhar bem, fará descobertas mesmo naqueles locais por onde passa há anos.

Uma forma de sairmos desse “modo automático”, mesmo que apenas por alguns instantes, é realizar atividades simples de maneira mais lenta e com foco no momento – a chamada atenção plena.

Tente passear pelas ruas do seu bairro observando as casas, os comércios, as pessoas, os sons que se sobrepõem – procurando colocar sua atenção em uma coisa por vez. Ou tomar um copo de água em dez ou quinze minutos: observe bem a sensação de segurar o copo, a temperatura da água, os sabores sutis.

Nossa proposta aos alunos foi comer um biscoito de maneira lenta: qual a textura? Qual o cheiro? Que lembranças ele evoca? Há sabores em camadas? E será que o biscoito é mesmo tão bom quanto imaginávamos ou como vendia a embalagem? Por fim, que textos poderiam nascer dessa experiência?

Jornalismo
Os estudantes compartilharam seus hábitos de escrita – poemas, diários, recados, lembretes – e quiseram saber mais sobre o curso de jornalismo e o dia a dia profissional.

Conversamos sobre como a profissão mudou muito (e muito rápido) nos últimos anos: muitos veículos impressos deixaram de existir, redações foram reduzidas, ainda não existem fórmulas seguras para “fazer dinheiro” com jornalismo na internet. Muitas vezes falamos em “crise” na profissão, mas o ideal talvez seja chamarmos de transição: quem está na área ou pretende entrar nela deve estar disposto a pensar em novas alternativas e formatos inéditos. Há muito a ser construído.

Além disso, em meio à atual profusão de notícias falsas, temos muito a ganhar com a difusão dos princípios éticos e do senso crítico que sempre acompanharam o (bom) jornalismo.

De novo, é preciso sublinhar a necessidade de atenção: resista por um momento à tentação do botão “compartilhe”, reflita um pouco e questione as informações que você vê nas redes sociais – ou mesmo nos veículos de mídia profissionais. O que está sendo dito e não dito? De onde vêm os dados e as conclusões apresentadas? Qual é a fonte e qual sua credibilidade? Existe um autor que se responsabiliza por aquela informação? Que interesses estão em jogo?

Agradecemos aos professores e alunos da Escola Estadual Luciane do Espírito Santo e à iniciativa Quero na Escola pela oportunidade de trocar tantas ideias e aprendizados. A construção de um mundo mais justo, aberto e livre começa pela educação.


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Por que escrevo? Grandes escritoras respondem

Dia do escritor: por que escrever?

CPTM ou Aconteceu no trem

O rapaz, de no máximo 25 anos, entra pela porta que divide os vagões do trem:

— Olá, pessoal, tô aqui pedindo uma ajuda de vocês pra comprar uma mercadoria nova pra vender, porque o segurança levou a que eu tinha lá na primeira estação… É sério, pessoal, não tô querendo enganar vocês, não. Eu perdi toda a minha mercadoria. Tenho três filhos em casa que precisam comer. Uma ajuda pra comprar mercadoria nova… Uma ajuda… Qualquer dez centavos…

Ele vai até o fim do vagão e volta, agitando nas mãos algumas moedinhas. Desiste — deste vagão vazio não vai sair muita coisa — e senta-se em um dos bancos, de frente para dois meninos que já estão ali há algum tempo. O menor deve ter uns sete anos; o maior, dez.

O garoto menor olha para o rapaz e sorri:

— E aê?

— E aê, menor! — o rapaz responde. — Que que cê tá fazendo aqui?

— O mesmo que você! — o menino alarga o sorriso, orgulhoso.

— Vendendo?

— É.

— Faz isso não! Cês têm é que ir pra escola, estudar, pra depois ganhar bastante dinheiro, ficar rico…

— É que a gente tá de férias…

— E cês passaram de ano?

— Aham…

— Mas passou empurrado, né?

— Não foi empurrado, não! – diz o menino mais velho. – Tô no quinto ano agora.

— Quinto ano! Não para, não, hein. Vai estudando… Tem que estudar pra ganhar dinheiro! Porque isso aqui não é vida, não. Um dia cê ganha e no outro cê perde… Olha eu aqui! Tomaram minha mercadoria… E cadê o pai e a mãe de vocês? Cês tão sozinhos?

Eles fazem que sim com a cabeça.

— Fica esperto, menor! Fica esperto! Que se os hómi pegam vocês, levam pro juizado… Fica esperto! Vai pra casa! — ele olha para os pés do menino menor. — E por que cê tá descalço? Não tem sapato, não?

— Não. E esse tênis aí? Vou comprar um igual…

— Isso aqui é falsificado — o rapaz se levanta. — Não cai nessa vida, não, menor!

Ele desce na estação seguinte, enquanto os meninos se escondem, rindo, debaixo de um banco. Na plataforma lá fora, homens de uniforme marrom e boina passam rentes à janela.

As portas se fecham, o trem sai. A pequena dupla se levanta e comemora, pulando e se pendurando nas barras de metal:

— Vixe! Quase que pegam a gente!

O garoto de dez anos corre até a porta e encosta a bochecha no metal. Assopra e vê um pedaço do vidro se embaçar.

— Já é a próxima que a gente desce, né?

— É. Mas eu não quero ir pra casa, não.

[FLÁVIA SIQUEIRA]


 

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