Ocupação Antonio Candido: pensar a literatura, pensar a vida

O que perdemos ao abrir mão da literatura em nosso dia a dia? Ao encarar Machado de Assis, Clarice Lispector e outros grandes nomes apenas como tópicos enfadonhos de um currículo escolar burocrático?

ant-candido.jpgPara o crítico literário e professor universitário Antonio Candido (1918 – 2017), “negar a fruição da literatura é mutilar nossa humanidade”. Afinal, os livros organizam sentimentos e visões de mundo, ajudando seus leitores a encontrar uma saída para o caos externo e interno. Colocar a literatura num pedestal de acesso restrito contribui apenas para manter os privilégios de poucos.

Facetas várias e entrelaçadas

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Na obra e na vida de Antonio Candido, a produção acadêmica, a docência e a busca por justiça social andam juntas. É o que mostra a Ocupação Antonio Candido, em cartaz no Itaú Cultural, em São Paulo.

Painéis, vídeos, fotografias, recortes e objetos apresentam a variedade dos trabalhos de Candido. Em cópias de seus manuscritos, o processo de (re)escrita vem à tona: trechos riscados, a busca pela palavra mais precisa, ideias sendo reorganizadas… Afinal, não existe reflexão verdadeira sem autocrítica.

Num documento da época em que Candido era estudante (e já leitor voraz de grandes obras), descobrimos uma nota 7 em Português. Não seria uma prova de que a literatura e a reflexão são muito maiores do que um boletim escolar?

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O boletim de Candido quando estudante
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Dedicatória de Guimarães Rosa a Antonio Candido

Ocupação Antonio Candido
Até 12 de agosto.
De terça a sexta, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h.
Itaú Cultural (Av. Paulista, 149. São Paulo, SP).
Entrada gratuita.
Saiba mais em http://www.itaucultural.org.br/ocupacao/antonio-candido/



Leia também:

Literatura como direito humano: arte, educação e justiça social se entrelaçam na Ocupação Antonio Candido | Escrevendo o futuro

[Por Flávia Siqueira]

 

 

 

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Oficina na escola: uma conversa sobre escrita e jornalismo

oficinanaescolaPor que escrever? Como colocar as ideias no papel? Quais as características da escrita no jornalismo e na literatura? Estivemos no dia 22 de maio na escola Luciane do Espírito Santo, na zona leste de São Paulo, para conversar com os alunos do terceiro ano do Ensino Médio sobre questões como essas.

Chegamos até lá por meio da iniciativa Quero na Escola, que conecta alunos da escola pública à comunidade externa. Os estudantes divulgam suas demandas – por palestras, oficinas, atividades – e voluntários se apresentam para atendê-las.

Começamos a conversa abordando nossas motivações para escrever: organizar ideias, memorizar e enxergar melhor as coisas do mundo e a nós mesmos. O escritor Hélio Pellegrino afirma que escrever é nascer – ou seja, dar-se conta da própria humanidade e, com ela, da própria finitude.

As boas histórias não estão apenas nos acontecimentos grandiosos, mas também nas situações do dia a dia, nas repetições, nos lugares simples. Escrever é colocar uma lupa sobre os detalhes da vida e, com isso, expandir nossa compreensão sobre o mundo e nosso universo interior.

Exercício de atenção
Vivemos tantos de nossos dias no automático: acordar, cumprir nossas rotinas da mesma forma, transitar pelos mesmos lugares sem prestar muita atenção à nossa volta. Se você olhar bem, fará descobertas mesmo naqueles locais por onde passa há anos.

Uma forma de sairmos desse “modo automático”, mesmo que apenas por alguns instantes, é realizar atividades simples de maneira mais lenta e com foco no momento – a chamada atenção plena.

Tente passear pelas ruas do seu bairro observando as casas, os comércios, as pessoas, os sons que se sobrepõem – procurando colocar sua atenção em uma coisa por vez. Ou tomar um copo de água em dez ou quinze minutos: observe bem a sensação de segurar o copo, a temperatura da água, os sabores sutis.

Nossa proposta aos alunos foi comer um biscoito de maneira lenta: qual a textura? Qual o cheiro? Que lembranças ele evoca? Há sabores em camadas? E será que o biscoito é mesmo tão bom quanto imaginávamos ou como vendia a embalagem? Por fim, que textos poderiam nascer dessa experiência?

Jornalismo
Os estudantes compartilharam seus hábitos de escrita – poemas, diários, recados, lembretes – e quiseram saber mais sobre o curso de jornalismo e o dia a dia profissional.

Conversamos sobre como a profissão mudou muito (e muito rápido) nos últimos anos: muitos veículos impressos deixaram de existir, redações foram reduzidas, ainda não existem fórmulas seguras para “fazer dinheiro” com jornalismo na internet. Muitas vezes falamos em “crise” na profissão, mas o ideal talvez seja chamarmos de transição: quem está na área ou pretende entrar nela deve estar disposto a pensar em novas alternativas e formatos inéditos. Há muito a ser construído.

Além disso, em meio à atual profusão de notícias falsas, temos muito a ganhar com a difusão dos princípios éticos e do senso crítico que sempre acompanharam o (bom) jornalismo.

De novo, é preciso sublinhar a necessidade de atenção: resista por um momento à tentação do botão “compartilhe”, reflita um pouco e questione as informações que você vê nas redes sociais – ou mesmo nos veículos de mídia profissionais. O que está sendo dito e não dito? De onde vêm os dados e as conclusões apresentadas? Qual é a fonte e qual sua credibilidade? Existe um autor que se responsabiliza por aquela informação? Que interesses estão em jogo?

Agradecemos aos professores e alunos da Escola Estadual Luciane do Espírito Santo e à iniciativa Quero na Escola pela oportunidade de trocar tantas ideias e aprendizados. A construção de um mundo mais justo, aberto e livre começa pela educação.


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Dia do escritor: por que escrever?

CPTM ou Aconteceu no trem

O rapaz, de no máximo 25 anos, entra pela porta que divide os vagões do trem:

— Olá, pessoal, tô aqui pedindo uma ajuda de vocês pra comprar uma mercadoria nova pra vender, porque o segurança levou a que eu tinha lá na primeira estação… É sério, pessoal, não tô querendo enganar vocês, não. Eu perdi toda a minha mercadoria. Tenho três filhos em casa que precisam comer. Uma ajuda pra comprar mercadoria nova… Uma ajuda… Qualquer dez centavos…

Ele vai até o fim do vagão e volta, agitando nas mãos algumas moedinhas. Desiste — deste vagão vazio não vai sair muita coisa — e senta-se em um dos bancos, de frente para dois meninos que já estão ali há algum tempo. O menor deve ter uns sete anos; o maior, dez.

O garoto menor olha para o rapaz e sorri:

— E aê?

— E aê, menor! — o rapaz responde. — Que que cê tá fazendo aqui?

— O mesmo que você! — o menino alarga o sorriso, orgulhoso.

— Vendendo?

— É.

— Faz isso não! Cês têm é que ir pra escola, estudar, pra depois ganhar bastante dinheiro, ficar rico…

— É que a gente tá de férias…

— E cês passaram de ano?

— Aham…

— Mas passou empurrado, né?

— Não foi empurrado, não! – diz o menino mais velho. – Tô no quinto ano agora.

— Quinto ano! Não para, não, hein. Vai estudando… Tem que estudar pra ganhar dinheiro! Porque isso aqui não é vida, não. Um dia cê ganha e no outro cê perde… Olha eu aqui! Tomaram minha mercadoria… E cadê o pai e a mãe de vocês? Cês tão sozinhos?

Eles fazem que sim com a cabeça.

— Fica esperto, menor! Fica esperto! Que se os hómi pegam vocês, levam pro juizado… Fica esperto! Vai pra casa! — ele olha para os pés do menino menor. — E por que cê tá descalço? Não tem sapato, não?

— Não. E esse tênis aí? Vou comprar um igual…

— Isso aqui é falsificado — o rapaz se levanta. — Não cai nessa vida, não, menor!

Ele desce na estação seguinte, enquanto os meninos se escondem, rindo, debaixo de um banco. Na plataforma lá fora, homens de uniforme marrom e boina passam rentes à janela.

As portas se fecham, o trem sai. A pequena dupla se levanta e comemora, pulando e se pendurando nas barras de metal:

— Vixe! Quase que pegam a gente!

O garoto de dez anos corre até a porta e encosta a bochecha no metal. Assopra e vê um pedaço do vidro se embaçar.

— Já é a próxima que a gente desce, né?

— É. Mas eu não quero ir pra casa, não.

[FLÁVIA SIQUEIRA]


 

Transformamos suas histórias de vida em livro. Conheça nosso trabalho aqui na Daria um Livro.

Por que escrevo? Grandes escritoras respondem

O que leva uma pessoa a se dedicar à escrita? A celebrar e brigar com as palavras? Neste Dia Internacional das Mulheres, reunimos falas de grandes escritoras sobre o ofício. Clique sobre cada uma das imagens para ler:

 

* Fonte: coletânea Por que escrevo?, organizada por José Domingos de Brito.

Ferrante, frantumaglia e léxico familiar

Li quase tudo o que há para ler de Elena Ferrante e sinto que em breve precisarei voltar a seus livros: há muitas camadas em suas histórias, e várias delas ainda não consegui acessar. Hoje, me debruço sobre o livro Frantumaglia (Intrínseca, 413 págs.), coletânea de correspondências, artigos e entrevistas nos quais a escritora fala sobre seu trabalho.

Ferrante é italiana e tem obras publicadas desde o começo da década de 1990. Tornou-se um fenômeno global nos últimos anos, com o sucesso de sua Série Napolitana, traduzida e publicada no Brasil pelo selo Biblioteca Azul.

Elena Ferrante é ao mesmo tempo autora e personagem, ficção e realidade. Isso porque não sabemos quem é a pessoa física que escreve suas obras. Não há ninguém para tietar, pedir um autógrafo ou enquadrar numa selfie. Justificativas não faltam para essa decisão: segundo a autora, o que importa são os livros e o que seus leitores fazem deles; trazer à tona uma suposta “autoria real”, sob formato de celebridade, não faz sentido nenhum em seu universo.

Além disso, é impossível não colocar muito de si e das pessoas próximas na literatura que se produz. E a escrita de Ferrante é visceral, dolorosamente íntima e reveladora. Ficção e realidade não são opostos – e, no caso de Elena, é a ficção de si que permite a exposição de realidades tão cruas em suas obras.

É claro que, mesmo “ausente”, Elena Ferrante pode ter adquirido status de celebridade –  que, aliás, vende seu produto falando justamente de seu distanciamento. Mas essa é uma discussão que vai longe e tira o foco do que é mais interessante: o que Ferrante e seus personagens têm a dizer sobre a condição e as relações humanas.

Léxico familiar
Frantumaglia é daqueles títulos que atraem. Palavra longa e cortante. Com a obra em mãos, fui direto para o capítulo 16, no qual ela explica o termo:

“Minha mãe me deixou um vocábulo do seu dialeto [napolitano] que ela usava para dizer como se sentia quando era puxada para um lado e para o outro por impressões contraditórias que a dilaceravam. Dizia que tinha dentro de si uma frantumaglia. A frantumaglia (ela pronunciava frantumalha) a deprimia. Às vezes, causava-lhe tonteira, um gosto de ferro na boca. Era a palavra para um mal-estar que não podia ser definido de outra maneira, remetia a um monte de coisas heterogêneas na cabeça, detritos em uma água lamacenta do cérebro. A frantumaglia era misteriosa, causava atos misteriosos, estava na raiz de todos os sofrimentos que não podiam ser atribuídos a uma razão única e evidente. (…) essa palavra ficou na minha mente desde a infância para definir, sobretudo, os choros imprevistos e sem um motivo consciente: lágrimas de frantumaglia.

(…) O que de fato era a frantumaglia, eu não sabia e não sei. Hoje, no entanto, tenho em mente um catálogo de imagens que tem mais a ver com os meus problemas do que com os dela. (…) A frantumaglia é o efeito da noção de perda, quando temos certeza de que tudo o que nos parece estável, duradouro, uma ancoragem para a nossa vida, logo se unirá àquela paisagem de detritos que temos a impressão de enxergar. (…)”

É impossível definir com exatidão a frantumaglia. As palavras se aproximam, contornam o significado, mas nunca chegam a ele de fato. Como são, aliás, as leituras que nos absorvem e que levamos para a vida: o que as torna tão fascinantes é enxergarmos nelas esse algo a mais tão grandioso e inacessível, do qual nos aproximamos sem nunca tocar.

Frantumaglia é também sobre herança familiar imaterial. Ferrante toma a palavra da mãe e a reorganiza para si, emprestando-a a cada uma de suas personagens. Uma amostra de como somos ao mesmo tempo semelhantes aos adultos de nossa infância e diferentes deles, de como o que veio antes de nós permanece conosco, ainda que reelaborado.

[FLÁVIA SIQUEIRA]

Você já pensou em transformar em livro sua história, a de sua família ou a de uma pessoa querida? Conheça o trabalho da Daria um Livro.

> Mais sobre a frantumaglia de Ferrante:
Elena Ferrante: autora ou personagem? (Revista Cult)

Resoluções de Ano Novo, mas nem tanto

Nosso modo de vida muitas vezes nos obriga a pensar apenas no amanhã, e quase sempre em termos de falta: o que ainda não tenho, o que ainda não consegui, o que ainda não consertei em mim. Não é de se estranhar que as resoluções de Ano Novo sigam esse padrão: no ano que vem quero perder os quilos que não perdi, quero ganhar o dinheiro que não ganhei, conseguir o cargo que não consegui. É claro que ter objetivos é algo importante, mas precisamos prestar atenção se eles não estão nos angustiando em vez de nos ajudar a caminhar.

Se uma resolução se repete todo ano (e todo ano não se cumpre), pode ser que não seja algo que você queira de verdade. Ou pode ser algo que você queira, sim, mas que dependa muito mais de fatores externos do que do seu esforço. Ou talvez tenha mais a ver com as expectativas dos outros ou a expectativa que você imagina que os outros tenham de você. E, nesse caso, colocá-la para o ano que vem pode ser apenas uma maneira de adiar algo que você considera desagradável.

Neste ponto, a saída mais fácil seria falar sobre o tal autoconhecimento. Um conceito que está em alta em tempos de mídias sociais: preciso saber quem eu sou, o que mostro de mim, o que curto e o que não curto (aqui, uma entrevista bem bacana sobre o tema). Mas esse discurso também tem servido mais para angustiar do que para ajudar: dúvidas, indecisões e mudanças de ideia passam a ser vistas como obstáculos para uma certa noção de sucesso.

Mas o fato é que mudamos com o passar do tempo. Deixamos de querer algumas coisas para querer outras, conseguimos coisas que queríamos e então descobrimos que na verdade não gostamos tanto delas assim, descobrimos que é possível querer coisas que antes achávamos que não eram para nós…

Antes de pensar em resoluções para o ano que vem, um exercício interessante é examinar o ano que acaba: o que você aprendeu? O que mudou em você? Conheceu lugares novos? Fez amigos? Mudou de ideia em algum momento? E o fato de muitas dessas coisas não terem sido planejadas não mostra falta de controle, e sim que a vida acontece para muito além das listas de metas.

Microcontos de Ano Novo

A cor da roupa

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Acabava o ano, começavam a correria, os amigos secretos e happy hours e festas de firma e embarques em navio e malas sendo feitas e telefonemas e brigas familiares de última hora.

Onde vai passar a virada?

Com que roupa?

Branco é paz, amarelo é dinheiro, verde é esperança, vermelho é amor… Já tentara todas aquelas cores, mas, sinceramente, nunca notava muita diferença nos meses que se seguiam. Por isso, neste ano iria passar de blusa preta de banda, calça roxa, calcinha laranja, meia xadrez e um treco brilhante na cabeça. Quem sabe assim atrairia o diferente de fato, a revolução, a ousadia, a epifania.

Na véspera do Réveillon, teve a mala extraviada na rodoviária. Alguma confusão de malas trocadas por causa de um passageiro que tinha subido no ônibus errado e que precisou descer de última hora para esperar o ônibus das 11h46, e não das 11h38. O homem acabou ficando com a mala preta dela – muito parecida com a dele.

Então, passou a virada de ano com um vestido cinza da prima – a única coisa do guarda-roupa dela que lhe servira.

E assim começava o melhor ano de sua vida.

Fogos ao longe

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Crescera num bairro ao lado de um pólo petroquímico. Gigantesco, praticamente uma cidade em si, com seus próprios dormitórios, hospitais e tragédias. Um mar de torres prateadas durante o dia e douradas durante a noite. Douradas por causa das luzes que subiam e criavam uma aura imensa e amarela, assustadora e bonita, às vezes fumacenta, às vezes tão clara a ponto de deixar perceptível a textura do metal.

O bairro era pobre e não havia ali fogos de artifício como os que se via na televisão. O que havia eram rojões e bombinhas tão barulhentas que estremeciam a janela. Para os ouvidos de uma criança, era um tormento, reduzido de leve por chumaços de algodão que a avó lhe colocava nas orelhas.

À meia-noite, a família se reunia diante da janela do quarto, que oferecia a melhor visão das torres da petroquímica. Atrás delas, na direção do centro da cidade, subiam fogos por uns 15 minutos. Pequeninos, mas muito coloridos. Gostava de como eles se misturavam ao dourado da petroquímica – aquele mundo enorme e misterioso.

Não queria estar em outro lugar.

O melhor Ano Novo da vida

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Os fogos estouravam sobre o mar. Chuvas de cores que se espalhavam e se desfaziam e que logo se cobriam umas às outras e, mal você se admirava com a cor azul brilhante, logo já estavam lá também o vermelho, o amarelo, o laranja, o verde, o azul de novo, e o barulho dos estouros e gente falando e gritando e rindo e chorando e bebendo e se abraçando e se beijando, e deixou que tudo aquilo se tornasse um transe, uma viagem mental colorida e anestésica.

O turbilhão foi diminuindo.

As pessoas se acalmando.

Os fogos acabando.

Passou. Ficaram alguns gritos isolados e uma leve fumaça branca. Era 1º de janeiro e tudo parecia já ter voltado ao normal. O ano começava. Tão rápido.

Os fogos foram bonitos, sim. Muito agradável a experiência de ficar praticamente bêbada com as cores dos fogos…

Mas não havia sido suficiente para assumir o lugar de melhor virada de ano da vida.

O título continuava com o ano novo de 15 anos atrás, passado em casa, ouvindo música, comendo pizza congelada, tomando vinho e ao lado de seu cachorro, o Zeca. Um momento cheio de tranquilidade, em que percebeu que gostava da própria companhia. Os gritos que vinham da rua e dos apartamentos vizinhos eram suficientes para lhe dar a certeza de que não estava sozinha.

Na época, quando contava para os amigos como havia sido sua virada de ano, logo via nascer em seus rostos uma expressão de pena. “Por que você não veio passar com a gente aqui em casa?”. Ela explicava que estava tudo certo, que tinha sido ótimo. Ninguém se convencia.

Tudo bem – bastava que aquela verdade ficasse apenas entre ela e a vida.

Mente mais velha, mente mais cheia

brain-2750453_1280A ideia de que nossas capacidades cerebrais se deterioram com o envelhecimento é uma das mais cristalizadas na medicina e no senso comum. De fato, pessoas mais jovens costumam se sair melhor em testes de memória e velocidade de raciocínio aplicados por pesquisadores. Mas será que isso é suficiente para associar aos mais velhos a ideia de menor capacidade cerebral? As coisas podem ser bem mais complexas do que isso – e elas geralmente são.

Um artigo científico publicado por linguistas da Universidade de Tübingen, na Alemanha, aponta que a “mente mais velha” na verdade é uma “mente mais cheia” – cheia de memórias, vocabulário e conhecimento. E procurar algo específico dentro dessa mente é (naturalmente) mais demorado do que dentro de um cérebro mais jovem, com menos “conteúdo”.

Outro ponto importante é o formato dos testes de capacidade de raciocínio mais tradicionais. Pessoas mais velhas costumam ter menos motivação diante de jogos de memorização e atividades estressantes – o que está relacionado com a tendência que temos de, com o passar dos anos, produzir e aprender mais facilmente com estímulos positivos do que negativos.

“Como a maior parte das pesquisas solicitam que os participantes se relacionem com estímulos neutros ou negativos, esse paradigma tradicional pode colocar os mais velhos em desvantagem”, explica um dos autores do artigo.

Então, diante da dificuldade para se lembrar de uma palavra, olhe pelo lado positivo e diga a si mesmo: “não é que estou ficando mais devagar, é que eu sei demais!”.

[Traduzido e adaptado de The Older Mind May Just Be a Fuller Mind – New York Times]

Já pensou em registrar em livro suas histórias de vida ou as experiências de uma pessoa querida? Aqui na Daria um Livro, acreditamos que o exercício de ouvir e contar histórias, tão simples, é capaz de dar sentido às nossas vidas e enriquecer o mundo que habitamos. Convidamos você a conhecer nosso trabalho. 🙂

A praia quando criança

Não há um dia sequer em que eu coloque os pés numa praia e não me lembre do deslumbramento que o mar e a areia me causavam quando eu era criança.

Eu conheci o mar na Praia Grande, quando tinha uns quatro anos de idade. Me lembro de estar no carro a caminho desse lugar chamado “praia”, imaginando uma espécie de laguinho com uma multidão de pessoas em volta.

Mas, não. Era algo muito diferente. Era enorme. Era cheio de ondas barulhentas. Tinha aquela areia molhada que, escorrendo do meu baldinho vermelho, formava bolinhas. E as bolinhas podiam ser empilhadas. E aquilo era muito, muito legal. E dava pra correr no mar e encher o baldinho de água. E a água era salgada. Um dia peguei um peixinho preto no baldinho. Cheguei a carregá-lo comigo por aí, até que alguém me convenceu a devolver o pobre coitado ao mar.

Mas nada superava o mar em si. Entrar na água. Estar no mar, levar pancadas das ondas, sair rolando, me ralar na areia, levantar e voltar correndo para a água, esperando a próxima onda. Ficava no raso, e mesmo assim engolia muita água – mas muita mesmo.

E então eu pegava uma virose em praticamente toda e qualquer ida à praia. Me esbaldava o quanto podia no mar e depois passava uns dois dias vomitando. Mas, tudo bem. Não conseguia ainda examinar e entender as causas do mal-estar. Só lamentava não poder mais entrar na água naquela semana.

Ir embora, de volta à grande cidade sem praias, era um momento de profundo luto.

[Flávia Siqueira]

Já pensou em transformar suas memórias em livro? Conheça nosso trabalho.

 

[BLOG] Fotografar ajuda ou prejudica nossa memória?

Nunca tivemos nossas experiências tão mediadas por telas como nos dias de hoje. Em locais turísticos, shows, museus, diante de um prato de comida visivelmente apetitoso… Lá está a câmera do celular apontando para as coisas do mundo. Será que, na ansiedade de registrar o momento em bits e pixels, estamos esquecendo de viver? Perdemos contato com a realidade? Estamos deixando nossos cérebros preguiçosos e transferindo o papel de memorizar para os arquivos digitais?

Embora tirar momentos para se “desintoxicar” da vida digital e enxergar as coisas apenas com os próprios olhos possa ser mesmo uma boa ideia, talvez nossa situação não seja assim tão desesperadora. A fotografia, afinal, não é uma vilã: pesquisas recentes apontam que o ato de fotografar nos ajuda a recordar com mais eficiência dos aspectos visuais de um determinado momento — mesmo que nunca mais olhemos de novo para a foto.

Muitas dessas pesquisas são feitas em museus, buscando comparar as recordações mentais de dois grupos: pessoas orientadas a fotografar os objetos e pessoas orientadas a não tirar fotos. Nos estudos mais recentes, aquelas que fotografaram — sobretudo se tivessem usado o recurso de zoom para capturar detalhes — conseguiram reconhecer mais objetos do que o outro grupo. Por outro lado, aqueles que fotografaram também tiveram desempenho pior ao tentar recordar as explicações em áudio sobre as obras.

Efeito back-up?
Pesquisas realizadas nos anos 1960 apontavam para um fenômeno chamado “cognitive offloading” (“descarga cognitiva”), uma espécie de esquecimento intencional: como nosso cérebro sabe que pode contar com outros dispositivos para se lembrar de objetos e afazeres, ele economizaria esforços e deixaria de memorizar essas coisas. Faz sentido, principalmente se pensarmos em recursos como listas de compras e receitas.

A hipótese atual, contudo, é que o comportamento do cérebro dependeria, na verdade, da nossa intenção ao realizar determinado registro num suporte externo (papel, galeria do celular etc.). Se escrevemos um aviso no papel simplesmente para tirá-lo da nossa cabeça e reduzirmos nossa preocupação, o cérebro “relaxa” e abre mão daquela memória. Mas, se o que queremos é guardar o registro de algo que foi significativo para nós, essa motivação pode nos ajudar a olhar com mais atenção para os detalhes ao fotografar — e, consequentemente, produzir recordações mentais mais ricas.

(Adaptado de How Taking Photos Affects Your Memory of the Moment Later On – Nymag.com)

Você tem fotografias que são muito importantes para você? Guarda imagens antigas da família, registros de viagem, fotos dos filhos quando pequenos? A Daria um Livro pode ajudar você a reunir todas essas imagens num livro, acompanhadas de textos produzidos com muito cuidado. Conheça nosso trabalho e entre em contato conosco.

[FLÁVIA SIQUEIRA]

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