O prédio

O  homem comprou o terreno, derrubou a casa abandonada que havia ali e deu início ao empreendimento. Subsolo, primeiro andar, segundo andar, terceiro andar, quarto. Naquele lugar cheio de casas térreas, muito distante de centros financeiros e onde ainda se faz churrasco na praça, aquilo era definitivamente algo ousado. Tinha até o nome de um engenheiro civil numa plaquinha na entrada. Veja só! Nossa!

Mas, afinal, o que será esse prédio? Uma igreja? Ele é pastor, dizem. Vamos ter problemas com barulho, então? Nada a ver, melhor que uma balada. Escritórios, ué! Mas aqui?! Podia ser uma clínica… Tem certeza que não são apartamentos? Não dá. Não tem janelas nas laterais. Salão de festa, tá na cara. Será?

Passou-se um ano. Ele, sempre ali, observando com orgulho aquela coisa que tomava a forma de uma imensa caixa. Estacionava o carro em frente, encostava na porta e ficava sorridente a olhar a fachada de cima a baixo.

– E, então, seu Fulano, o que vai ser?

– Não sei, acho que vou alugar. Vamos ver…

Mais alguns meses e a obra parou. O dinheiro havia acabado no meio daquilo tudo, era o que se dizia.

E lá ficou a construção cinza, parada, silenciosa, esperando para ser qualquer coisa. Começaram a surgir notícias, espalhadas boca a boca, de que alguém havia invadido a obra para roubar material de construção. Ou só para fumar maconha. Foi ontem à noite. E antes de ontem também. Ah, e na terça – você ouviu?

Mais alguns meses e um pedreiro voltou. Solitário. A partir de agora, seria apenas ele o responsável a dar forma e função àquele prédio, por um tempo bem próximo da eternidade. Fios, acabamento, banheiros, piso… Muita coisa faltando.

E a primeira coisa a fazer era expulsar o grupo de gatos da vizinhança que havia adotado aquele lugar abandonado como ponto de encontro. Percebemos isso quando o gato branco e preto voltou assustado da rua, derrapando pelo chão e disposto a ficar dias apenas dormindo em seu lar seguro e entediante.

Desde então, todos os dias começam com um bate-bate de um pedreiro só. De segunda a sábado.

Vamos ver no que vai dar.

Hoje, acho que o prédio pode ser o que ele quiser. Mas tudo no tempo dele. (Flávia Siqueira)

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