O buraco

O buraco tinha uns três metros de diâmetro e já tinha se tornado o grande assunto da vizinhança naquela manhã. “Você foi ver o buraco que abriu na casa do Seu M.?”. A filha dele estava varrendo a escadinha e, assim que alcançou o último degrau, o chão atrás dela desabou. Diziam que ela não tinha caído por sorte, muita sorte, imagina! Para muita gente aquele tinha sido o tema da primeira conversa do dia. Alguém da família levantava, ia comprar pão e ficava sabendo. Chegava em casa e botava o assunto na roda da mesa do café da manhã.

O portão da casa do Seu M. ficou aberto naquele dia e ninguém precisava bater palmas para anunciar a chegada. Era só ir entrando e dar de cara com o buraco. Dentro dele, uma água suja, fedida e borbulhenta. Ninguém sabia ao certo qual era a profundidade, mas com certeza era muita. Devia ser uma fossa, mesmo. Em silêncio, seu conteúdo foi penetrando a terra e enfraquecendo a camada de cimento.

Se vivêssemos num livro do García Márquez, aquele buraco poderia ser o lugar de todas as coisas que mandamos pra longe e que, tempos depois, voltam todas de uma vez, voltam com seus cheiros, sua coloração e sua profundidade desconhecida. Poderia ser o fim do mundo, que chega aos poucos, que primeiro engole uma casa, depois um quarteirão, um bairro, uma cidade e, por fim, um país inteiro. Um fim do mundo anunciado, que antecipa os pedidos de desculpas, os agradecimentos, as pazes e as brigas adiadas, as demissões, os amores que até aquele momento se construíam aos poucos. Uma alegoria até bonita da miséria e da beleza humana.

Mas, aqui, era mesmo só um buraco, e ninguém sabia ao certo o que fazer com ele, se tinha que chamar a Sabesp ou só um pedreiro. (Flávia Siqueira)

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