Entre tempos

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Lá onde a noite é mais escura e não dá pra contar as estrelas, atrás de vales de pedra, uma fogueira aquece o ar. Em volta dela, dois pandeiros distraem o cansaço com cantigas destes e de outros tempos.

Das portas ainda abertas da pequena igreja ao lado escapa uma vaga luz amarela. Sozinho, iluminado por velas e por algum raio de estrelas que ali conseguisse entrar, seu Tico estuda as palavras que dirá amanhã. Sorriso no rosto, apesar da ansiedade pelo grande dia que virá, ele reza para que tudo corra bem.

A igrejinha de Nosso Senhor do Bonfim, que dá nome àquele núcleo de casas, não celebrava uma missa há 30 anos, segundo disseram. Mas aquela noite ela estava aberta. E iluminada.

As famílias que vivem no Vale do Pati, em pequenos agrupamentos como esse, viviam da plantação de café. Com a instituição do Parque Nacional da Chapada Diamantina, o cultivo foi proibido, mas os antigos moradores ganharam o direito de continuar vivendo ali e hoje oferecem base de apoio para quem faz trilhas nessa região.

Das flores

No final da tarde já havíamos encontrado dona Luzia e sua irmã colhendo flores. Elas nos falaram da vida, de amor a Deus e das açucenas que estavam colhendo e iam enfeitar a igreja… Assim como seu Tico, elas cresceram e viveram muitos anos em Igrejinha. Saíram de lá há cerca de dez anos, por conta de problemas de saúde dele, quando foram todos viver em Andaraí, uma pequena cidade da região.

Para voltar à Igrejinha eles fizeram uma trilha parecida com a que tivemos que enfrentar – com muita caminhada, subidas e descidas (leia aqui). Ao avistar, do alto, a pequena vila e a casa em que morou, dona Luzia não conteve as lágrimas. “A gente se emociona, né, de ver o lugar que a gente viveu. Que Deus dê saúde para a gente continuar vindo, poder fazer essa caminhada…”

“Ainda quero ver o túmulo da minha mãe, no cemitério aqui do Vale. Mas não sei se vai dar tempo, a gente ainda vai na casa que o padre vai ficar… Ela gostava muito de quaresma e agora tem uma plantada no pé do túmulo dela”, lembra Dona Luzia.

No cemitério antigo, onde a terra mais alta marca o lugar dos túmulos junto a pequenas cruzes brancas com nomes e datas que mal se conseguem enxergar, a natureza derruba portões e ergue plantas. E flores roxas, quaresmais, consolam filhos que lembram seus pais.

“Já meu pai morreu em São Paulo. Ele tava muito doente, espinha no fígado. Até levamos num curandeiro, mas ele disse que só Deus mesmo, porque a hora dele tinha chegado… Foi para um hospital em São Paulo e a gente nem viu.”

Da fé

Na manhã seguinte, de velas na mão, as irmãs receberam os moradores e turistas para a missa. A igreja estava lotada, com 30 ou talvez 40 pessoas, e a comunidade ansiosa para que tudo saísse bem. Há tempos que não recebiam um padre.

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Entre cantos e rezas, falaram do Pati e saudaram os visitantes. A alegria era muita e a vontade de celebrar o momento também. Na paz de Cristo – quando cumprimentamos as pessoas ao nosso lado durante a missa – era só se levantar e estender a mão para logo ser alcançado pelos braços.

Das lembranças

“Vocês não sabem como está meu coração neste momento”, disse o seu Tico no final da missa. E, tentando conter a emoção, recitou as palavras cuidadosamente estudadas na noite anterior.

Seu Tico
Seu Tico

“Só me resta lembranças da casa onde eu nasci e criei, terreno onde eu trabalhei, dos frutos que desfrutei, pois aqui, graças a Deus, fome, sede e nudez eu nunca passei. Ainda a minha escolinha, onde eu estudei, aprendi o bê a bá e com o tempo a passar, passei a ensinar. Por isso, Pati querido, tenho muito a relembrar: os rios onde eu banhava, nas pequenas cachoeiras, nos caminhos onde eu passava andando sempre alerta. Ou às vezes apressado, sem olhar pra qualquer lado, para socorrer quem precisava.

“As matas lindas floridas, as Arapongas a martelar, Beija-flores nas roseiras, borboletas a vagar ainda pelas manhãs, o canto do Sabiá. Tudo isso deixei aqui, não pude levar pra lá. Ah quem me dera, meu Deus, se eu pudesse voltar pra cá. Pati, ainda me resta a igreja que eu batizei com uns meses de nascido e depois de já crescido, com 9 anos preferido, na mesma eu comunguei. Com o passar dos tempos ela foi desmoronhada e duas vezes restaurei. Hoje eu voltei aqui, ao meu querido Pati, pedindo ao nosso Deus, a divina proteção, muitas bênçãos, paz e coragem, para todos que estão aqui.”

Enquanto ele falava eu imaginava como seria viver nesse lugar tão bonito e também tão isolado, a dificuldade para socorrer alguém, o trabalho na roça e a liberdade dessa vida sem muros. Ele também pediu ao Senhor que abençoasse os que vem ali de todos os lugares: “que venha e torne a voltar. Talvez [nos] encontramos aqui, pois mais vezes também quero voltar ao meu querido Pati”.

Ao som de muitas palmas e a emoção pouco disfarçada de todos, concluiu: “Em poucos versos ditados, quero dizer só assim: viva o povo do Pati, todos que vêm aqui, e viva Senhor do Bonfim!”

Ainda teve rojões para o padroeiro da festa. E seu Tico distribuiu pessoalmente fitinhas do Nosso Senhor do Bonfim. Junto a cada uma, num pequeno embrulho de presente, um texto chamado “Prossegue lutando”, trecho do livro psicografado Messe de Amor. No canto da página, à mão, seu Tico escreveu: “Lembrança da minha volta no Paty”.

No final teve uma feijoada e nós, turistas, também fomos convidados para o almoço. Nosso amigo alemão, que não entendeu uma palavra do que foi dito na missa, veio me perguntar por que estava todo mundo chorando. Não sei se consegui explicar muito bem…

A igrejinha

Seu Tico, que chama Edson, é muito católico. E médium também. A primeira construção da igrejinha quem fez foi seu tio e ele conta com orgulho que ajudou na sua reconstrução. Até colocou uma plaquinha no fundo da igreja com seu nome e a data da reforma: 8/9/2005.

Mesmo não morando mais ali, ele participou ativamente da preparação para a missa. Ajudou na decoração, encomendou as fitinhas, fez os embrulhos e escreveu o texto lido na missa sobre aquele momento: “a inspiração veio quando voltei da missa da festa de São Francisco, faz umas duas semanas. Os outros foram dormir, mas as palavras começaram a vir e eu me sentei para escrever”.

Dona Luzia conta que também se emocionou com a missa. “A gente caprichou para o padre vir de novo. Ele disse que vem, tomara. Esse padre é mais novo para fazer a trilha… Quem sabe vocês não vêm de novo, na próxima também, né?” Tomara, dona Luzia. (Marina Almeida)

[Veja o post original e mais fotos aqui]

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