Doce de maracujá

Hoje tem doce de maracujá – mousse ou torta? – para o lanche da tarde.

Eu não chego a tempo do aroma do café, mas quase ouço a chaleira apitar. A manhã passa rápido e muito antes do horário de almoço comercial o cheiro da comida sendo preparada já invade a minha sala, e parece tão melhor que a marmita congelada que me aguarda ou que a refeição cara do restaurante em frente.

Ao lado do meu trabalho há uma casa com aromas. Os cheiros marcam os períodos do dia, ainda, nessa cidade de congelados e microondas.

A tarde corre mais devagar, entre sestas e vozes de crianças no quintal. Os doces se anunciam pelo ar e me fazem lembrar do tempo em que eu também sabia o que eram tardes longas com leite e biscoitos.

E ainda antes de eu ganhar novamente a liberdade comprada das ruas, já quando o dia começa a ser noite, é hora da cadela branca e simpática dar sua volta revigorante pelo bairro.

 

***

Gosto de pensar nesta casa com uma vida própria. Ela acorda, devagar, com seus cheiros e sons – despertador, café, pão quente, xícaras, água, rádio -, aí vêm os programas infantis da manhã na sala. Até chegar, tão logo, a preparação e o almoço, o aroma da comida, a panela de pressão a chiar, a salada servida fresca enquanto o sol bate na área da casa em pleno meio dia.

O tilintar das louças, a pausa do início da tarde… e depois as crianças correndo, a bola que bate nas paredes do quintal tão surradas e mais firmes que nunca. O barulho da água caindo nas folhas das plantas no final da tarde quente, o calor perfumado da cozinha enquanto o bolo está no forno.

E depois o acender das luzes, o vapor do banheiro e novamente o cheiro da comida na cozinha, a refeição barulhenta das crianças à noite, com todos os adultos à sua volta, e o jornal da noite falando baixinho, o beijo de boa noite antes do silêncio infantil e o apagar das últimas luzes.

***

É um mundo que lembra da água das plantas, que antes das onze já prepara o almoço, que às três decide fazer um pudim com calda de açúcar queimado para as crianças, que não esquece do passeio da cadela no final da tarde, que espalha o cheiro de sua comida – feita de fogo e temperos – por toda a vizinhança…. Parece ser de um outro tempo, uma outra cidade… Um mundo que está se acabando.

(Mal sabem eles). Nos escritórios com elevadores de mármore, câmeras de segurança e ar-condicionado não entram a luz do dia, as crianças, a cadela, nem o cheiro da cozinha. (Marina Almeida)

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