Como ler mais em tempos de internet?

Uma das minhas metas para 2019 era ler mais. Chego ao final deste ano com mais de 30 livros lidos, mais alguns pela metade e a sensação de que com algum esforço e intenção, não é tão difícil recuperar os velhos hábitos.

Também ouvi de muitos amigos que sentem a concentração menor em tempos de redes sociais e cultura do imediatismo e que estão lendo menos. Eu entendo o sentimento e não tenho uma resposta única para a pergunta do título, mas pensei em compartilhar o que funcionou para mim neste último ano:

-Listar os títulos que interessam e mantê-los sempre à vista. Lembrar que quero ler aquele livro que parece muito legal funcionou melhor como incentivo do que uma autocobrança vazia de que eu deveria ler mais.

-Manter bons livros por perto. Eu baixei e-books que eu poderia acessar a qualquer momento do celular, deixei outros na minha mesinha de cabeceira e na estante… Quando tinha um tempinho, eles estavam ali ao lado, era só esticar o braço ou apertar um botão.

-Frequentar bibliotecas ❤. Poder escolher entre tantos livros ajuda a encontrar um que se encaixe no que você busca. Além disso, não custa nada nas bibliotecas municipais. Nem sempre tem uma por perto, é verdade, eu mesma não tenho, mas me organizo para passar na biblioteca entre uma atividade e outra do dia, no caminho para o trabalho ou passeio.

 

E o que ler?

Pensando nessa deia de ler porque os livros são bons, não porque “é preciso”, listei 5 livros que me marcaram especialmente neste ano, porque me inspiraram, emocionaram ou, simplesmente, me divertiram durante a leitura. Quem sabe você não se interessa por algum deles e inclui na sua listinha de leituras para 2020 🙂 .

 

 faxineiraManual da faxineira, Lucia Berlin: em sua vida, Lucia Berlin morou nos EUA, Alasca, Chile e México. Foi faxineira, enfermeira, secretária, professora de espanhol, professora universitária. Casou três vezes, teve 4 filhos, criou-os sozinha a maior parte do tempo, travou uma dura batalha contra o alcoolismo… Conto tudo isso porque seus contos têm grande inspiração autobiográfica. E porque a vida escorre de suas páginas com uma força e inteireza que nos fazem acreditar que tudo ali aconteceu, mesmo o que talvez seja ficção. Em sua escrita, as observações precisas sobre os mundos que conheceu vêm em doses de humor, poesia e sarcasmo.

No conto que dá nome ao livro, entre a narração de sua rotina, encontramos pequenas dicas sobre o trabalho:

“(Faxineira: Mostre a eles que você faz um serviço completo. No primeiro dia, ponha todos os móveis de volta no lugar errado… dez a vinte centímetros mais para um lado, ou virados em outra direção. Quando tirar o pó, inverta a posição dos gatos siameses. Ponha a cremeira à esquerda do açucareiro. Troque todas as escovas de dentes de lugar.)”

 

– Olhos d’água, Conceição Evaristo: em contos curtos e sensíveis, a autora – consagrada personalidade do ano pelo Prêmio Jabuti – traz para a literatura o cotidiano de trabalhadores, empregadas domésticas, crianças de rua, mendigos… Entre ruas de terra e barracos, as notícias policiais ganham cor, cheiros, sonhos e afetos enquanto a violência não interrompe seus contos e suas histórias antes da hora.

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“Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face. E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.”

  

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– Vozes, Ana Luisa Amaral: entre silêncios e vozes de tempos e espaços diversos, a poeta portuguesa reconta muitas histórias da tradição portuguesa e europeia sob outros pontos de vista, como o das mulheres e crianças. Em alguns de seus poemas, a autora imagina, com muito humor, a resposta da Senhora às Cantigas de Amigo tradicionais, em outro, Inês e Pedro velhinhos estão às voltas com o dia a dia, a paixão do passado e um presente de companheirismo, câimbras, artrose e aparelhos para surdez.

No poema abaixo, um dos meus favoritos de todo o livro, ela imagina outras histórias, mais bonitas, sobre o que poderia ter sido o primeiro contato entre Europa e América (aqui o poema completo, porque é lindo):

 

“As penas coloridas sobre um elmo,
a cota de malha lançada pelo ar como uma seta,
os sons dos pássaros sobre a cabeça,
imitar os seus sons,
num lago de água doce limpar corpo e
pecados de imaginação,
sentir a noite dentro da noite,
a pele junto da pele,
imaginar um sítio sem idade.

Trocar o fogo escondido pelo fogo alerta,
o arpão pelo braço que se estende,
gritar «eis-me, vida»,
sem ouro ou pratas.
Com a prata moldar um anel
e uma bola de fogo a fingir,
e do fogo desperto fazer uma ponte a estender-se
à palmeira mais alta.

Esquecer-se do estandarte no navio,
depois partir da areia branca, nadar até ao navio,
as penas coloridas junto a si,
trazer de novo o estandarte e desmembrá-lo.
Fazer uma vela, enfeitá-la de penas,
derretidos que foram, entretanto,
sob a fogueira alta e várias noites,
elmo e cota de malha.

Serão eles a dar firmeza ao suporte da vela,
um barco novo habitado de peixes
brilhantes como estrelas.

Não eleger nem mar, nem horizonte.
E embarcar sem mapa até ao fim
do escuro.” 

 

– A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha: este livro virou filme e está em cartaz nos cinemas. Ainda não consegui assistir, mas recomendo muito a leitura. No Rio de janeiro dos anos 1940, conhecemos a história de uma mulher brilhante, tentando criar um novo mundo para si, inventando possibilidades num tempo em que as mulheres eram criadas para o lar, a família e a falta de aspirações. Um trechinho que mostra bem isso:

vidainvisivel

“Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar. E foi assim que concluiu que não deveria pensar. Que para não pensar deveria se manter ocupada todas as horas do dia, e que a única atividade caseira que oferecia tal benefício era aquela que apresentava o dom de ser quase infinita em suas demandas diárias: a culinária. Eurídice jamais seria uma engenheira, nunca poria os pés num laboratório e não ousaria escrever versos, mas essa mulher se dedicou à única atividade permitida que tinha um certo quê de engenharia, ciência e poesia.”

 

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A cabeça do santo, Socorro Acioli: um estranho peregrino chega a uma cidade quase abandonada do sertão nordestino. Ali, encontra abrigo na cabeça de uma estátua de Santo Antônio abandonada e descobre que, lá dentro, consegue ouvir as preces das mulheres para o santo casamenteiro. Quando o realismo fantástico encontra o canganço… E o livro tem uma história curiosa: a autora começou a desenvolver a trama numa oficina com Gabriel Garcia Marquez.

cabeçasanto2

“Candeia era quase nada. Não mais que vinte casas mortas, uma igrejinha velha, um resto de praça. Algumas construções nem sequer tinham telhado, outras, invadidas pelo mato, incompletas, sem paredes. Nem o ar tinha esperança de ser vento. Era custoso acreditar que morasse alguém naquele cemitério de gigantes.”

 

 

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