Jornalismo, educação e combate às ‘fake news’

Em oficina apresentada na Ação Educativa, Flávia Siqueira falou sobre os desafios e a importância na escola no combate à desinformação

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“Não basta um grande jornal publicar uma lista de ‘X itens para identificar uma notícia falsa’, pois a credibilidade desses  veículos tem sido posta em xeque. Sem o protagonismo da educação, é impossível enfrentar o problema das fake news de forma efetiva”. Com base nessa premissa, Flávia Siqueira, jornalista e escritora da Daria um Livro, realizou uma oficina sobre jornalismo na escola e combate às notícias falsas. Voltado para estudantes e profissionais da educação, o evento foi promovido pela Ação Educativa, como parte da 4ª Semana de Formação em Direitos Humanos e Educação Popular.

Flávia ressalta que é preocupante observar o impacto que as “fake news” ou “notícias falsas” passaram a ter na nossa realidade política e social e que são necessárias novas abordagens para lidar com o problema. “Em paralelo à disseminação de informações deturpadas, ao longo dos últimos anos, a mídia tradicional e o jornalismo profissional passaram a ser questionados também. Jornais, sites e emissoras de TV têm sido acusados de ter uma agenda ideológica. De um lado, é positivo que a suposta imparcialidade da mídia profissional seja questionada – lembrando que imparcialidade total ou neutralidade não existem em contexto nenhum. De outro, é preciso que as pessoas tenham, então, embasamento para realizarem uma leitura crítica das informações e do mundo por si mesmas – de modo que elas consigam decidir, com alguma clareza, em quais fontes de informação confiar. O único caminho para isso é a educação. E é um caminho longo e complexo.”

Ela explica que o problema da desinformação envolve muitos fatores: posicionamentos políticos, situação econômica, nossa relação com as novas tecnologias, nossa tendência de acreditar apenas no que confirma nossas crenças já estabelecidas, nossa vontade de que problemas complexos e históricos sejam resolvidos imediatamente, e muitas outras coisas. “Não se enfrenta um problema assim apenas com listas ou vídeos rápidos sobre como identificar uma notícia falsa. Nem se colocando na posição de autoridade e dizendo para as pessoas simplesmente pararem de compartilhar o que recebem no WhatsApp ou nas redes sociais”, aponta.

Papel da escola

Para ela, a única solução efetiva é dar às pessoas ferramentas para que possam lidar com a informação num mundo complexo e tecnológico. “Para que elas saibam que existem intenções por trás dos conteúdos e dos formatos das mensagens, que todos nós temos pontos fracos que são explorados por empresas e sites que querem ganhar dinheiro com cliques em links e publicidade, que os dispositivos digitais criam artificialmente uma sensação de urgência, que o discurso do marketing político tenta manipular emoções. Isso só é possível no longo prazo e por meio da educação”.

Para poder fazer essa análise das informações recebidas, o papel da escola é fundamental. Flávia defende, por exemplo, a importância de aprender como funciona o trabalho jornalístico em sala de aula. “Esse olhar crítico exige que as pessoas entendam como se faz bom jornalismo. Essa noção pode ser desenvolvida se elas experimentarem os métodos de apuração na escola, se entenderem por si mesmas o que funciona e o que não funciona, o que é ético e o que não é (e o porquê), se fizerem exercícios de leitura crítica de reportagens”.

Para os participantes da oficina, a escola passa por um momento de angústia: não há dúvidas sobre a importância da educação no combate à desinformação, mas ainda não existem respostas prontas sobre os caminhos a seguir. “É algo que precisamos construir. Pensar, por exemplo, como trabalhar com os pais nessa caminhada, entender que o aprendizado não ocorre de uma hora para a outra, que é preciso tempo para que todos da comunidade escolar discutam, pensem sobre o assunto e formulem suas visões e leituras. Algum sentimento de frustração é inevitável ao longo do processo, e precisamos aprender a lidar com ele”, acredita a jornalista.

Fotos: @acaoeducativa

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