Microcontos de Ano Novo

A cor da roupa

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Acabava o ano, começavam a correria, os amigos secretos e happy hours e festas de firma e embarques em navio e malas sendo feitas e telefonemas e brigas familiares de última hora.

Onde vai passar a virada?

Com que roupa?

Branco é paz, amarelo é dinheiro, verde é esperança, vermelho é amor… Já tentara todas aquelas cores, mas, sinceramente, nunca notava muita diferença nos meses que se seguiam. Por isso, neste ano iria passar de blusa preta de banda, calça roxa, calcinha laranja, meia xadrez e um treco brilhante na cabeça. Quem sabe assim atrairia o diferente de fato, a revolução, a ousadia, a epifania.

Na véspera do Réveillon, teve a mala extraviada na rodoviária. Alguma confusão de malas trocadas por causa de um passageiro que tinha subido no ônibus errado e que precisou descer de última hora para esperar o ônibus das 11h46, e não das 11h38. O homem acabou ficando com a mala preta dela – muito parecida com a dele.

Então, passou a virada de ano com um vestido cinza da prima – a única coisa do guarda-roupa dela que lhe servira.

E assim começava o melhor ano de sua vida.

Fogos ao longe

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Crescera num bairro ao lado de um pólo petroquímico. Gigantesco, praticamente uma cidade em si, com seus próprios dormitórios, hospitais e tragédias. Um mar de torres prateadas durante o dia e douradas durante a noite. Douradas por causa das luzes que subiam e criavam uma aura imensa e amarela, assustadora e bonita, às vezes fumacenta, às vezes tão clara a ponto de deixar perceptível a textura do metal.

O bairro era pobre e não havia ali fogos de artifício como os que se via na televisão. O que havia eram rojões e bombinhas tão barulhentas que estremeciam a janela. Para os ouvidos de uma criança, era um tormento, reduzido de leve por chumaços de algodão que a avó lhe colocava nas orelhas.

À meia-noite, a família se reunia diante da janela do quarto, que oferecia a melhor visão das torres da petroquímica. Atrás delas, na direção do centro da cidade, subiam fogos por uns 15 minutos. Pequeninos, mas muito coloridos. Gostava de como eles se misturavam ao dourado da petroquímica – aquele mundo enorme e misterioso.

Não queria estar em outro lugar.

O melhor Ano Novo da vida

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Os fogos estouravam sobre o mar. Chuvas de cores que se espalhavam e se desfaziam e que logo se cobriam umas às outras e, mal você se admirava com a cor azul brilhante, logo já estavam lá também o vermelho, o amarelo, o laranja, o verde, o azul de novo, e o barulho dos estouros e gente falando e gritando e rindo e chorando e bebendo e se abraçando e se beijando, e deixou que tudo aquilo se tornasse um transe, uma viagem mental colorida e anestésica.

O turbilhão foi diminuindo.

As pessoas se acalmando.

Os fogos acabando.

Passou. Ficaram alguns gritos isolados e uma leve fumaça branca. Era 1º de janeiro e tudo parecia já ter voltado ao normal. O ano começava. Tão rápido.

Os fogos foram bonitos, sim. Muito agradável a experiência de ficar praticamente bêbada com as cores dos fogos…

Mas não havia sido suficiente para assumir o lugar de melhor virada de ano da vida.

O título continuava com o ano novo de 15 anos atrás, passado em casa, ouvindo música, comendo pizza congelada, tomando vinho e ao lado de seu cachorro, o Zeca. Um momento cheio de tranquilidade, em que percebeu que gostava da própria companhia. Os gritos que vinham da rua e dos apartamentos vizinhos eram suficientes para lhe dar a certeza de que não estava sozinha.

Na época, quando contava para os amigos como havia sido sua virada de ano, logo via nascer em seus rostos uma expressão de pena. “Por que você não veio passar com a gente aqui em casa?”. Ela explicava que estava tudo certo, que tinha sido ótimo. Ninguém se convencia.

Tudo bem – bastava que aquela verdade ficasse apenas entre ela e a vida.

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