O que aprendi (sobre mim) na aldeia com os indígenas

Na aldeia, em aprendizados sem hora para acontecer, o tempo parece largo de tanto que cabe, mas os indígenas tinham menos pressa e o tempo obedecia correndo suave. Grande e calmo, o tempo era rio cortando a paisagem. A cada pôr do sol, o dourado banhava danças e cantos com sua luz. Música sagrada de povos de resistência. Já noite, eram muitas vozes em torno do fogo. De manhã, o dia começava mais cedo com seus cantos espantando a madrugada. O tempo de cada tempo.

20228728_1639219666150217_3455230372346096317_n
Cantos da manhã. Foto: Marcelo Santos Braga/Encontro de Culturas

Fui voluntária de comunicação na Aldeia Multiénica e no Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros, mas ainda estou com dificuldades para expressar tudo que vi e senti ali.  Cheguei sem saber bem o que esperar e foi bom, porque a surpresa foi maior, sem as ansiedades que gente branca costuma criar. Logo descobri que eu sabia menos do que imaginei: culturas, histórias, etnias que eu nunca tinha ouvido falar. E tão distintas entre si, as línguas e as músicas, os traços, os rezos e as crenças. As casas diferentes de cada uma delas. Em comum, sua força, e o arrebatamento que seus cantos provocavam em todos nós.

mulheres
Mulheres das diferentes etnias indígenas. Foto: Ana Caroline de Lima (Antropologia Visual)/Encontro de Culturas

Olhar para o outro primeiro é o desconhecido: corpos pintados, penas coloridas, palavras nunca ouvidas em muitas línguas novas. É diferente, mas também é bonito. Estranhamento que tentamos registrar em imagens e textos. Depois passa a ser também reflexo. As risadas de um início de amizade, o alimento partilhado, o gosto pela música e pelo banho de rio. As crianças que choram para fugir da água fria e a mãe que insiste. Somos todos o mesmo. Chega ainda a hora em que as dores são compartilhadas, e essas também são muitas: a falta de assistência médica, o preconceito, a luta pela terra, o luto.

 

 

20229592_1639570352781815_8306189725781324807_o
Cores, música e dança. Foto: André Rodrigo Pacheco/Encontro de Culturas

Mas quando você olha pro outro, também pode se enxergar melhor. E conviver um pouco mais de perto com os indígenas foi muito revelador de mim. Já tinha ouvido comentários de quem, no contato com eles, percebeu seu apego às coisas e aos bens materiais. Nunca fui muito consumista, então não era algo que me tocava especialmente. Desta vez não foi assim. Comecei a notar que eles tinham uma outra relação com as coisas, sim, mas não só com elas, também com o tempo, o momento presente, a noção de futuro. Entendi que eles têm uma relação diferente com o capitalismo e que isso afeta o viver em muitas outras esferas. E aí pude ver melhor como sou e como somos todos, em geral, tão moldados por um modelo econômico baseado na exploração, como estamos tão adaptados a ele, mesmo quando nos consideramos seus questionadores.

 

Nós

Nosso tempo é o futuro (e curiosamente somos nós também que o destruímos devastando o ambiente em que vivemos). E enchemos nosso futuro de metas e objetivos e muitos planos. Nossa força é a da privação para o trabalho, e o trabalho não só nos define como pessoas e como corpo físico, se impõe também nas horas de lazer e descanso.

Olhando para o futuro planejamos, e nos prendemos aos planos, mesmo que a vontade seja outra, que o corpo esteja cansado, que o dia não favoreça. E assim vamos perdendo a naturalidade, a vontade, o fluir das coisas e do tempo presente. Como conseguimos? Com muito controle. O controle da forma, do corpo, das regras muito estritas, do tempo, dos números. Mas com isso matamos também, quase sempre, o tempo e o espaço do que na vida pode acontecer de real, de sincero, espontâneo: este é o nosso preço.

Levamos a lógica do lucro para todas as esferas da vida: tudo tem de valer a pena, compensar o tempo gasto ali (mas como saber antes?), precisamos ser produtivos, fazer o dia render. E escolhemos atividades que tragam algo além do prazer do momento (talvez um diploma, ou contatos, ou algum status de pessoa culta ou esportista ou aventureira, a gosto). Nas férias, vamos viajar, mas já com tudo planejado, porque não podemos perder nosso tempo valioso, e cada atração visitada tem de valer o tempo investido nela, não podemos nos dispersar da obrigação de nos divertir intensamente nesse período. Nas nossas horas vagas, idem. E eu entendo, porque sei bem como é duro ter tão poucos dias contados de férias e de tempo livre.

No relacionamento com os amigos é quase a mesma coisa. Nos amorosos também. E as sensações, a sabedoria do corpo e das emoções vão sendo sufocadas, presas, moldadas para se encaixar num certo padrão pré-determinado do que valerá o investimento de vida. Por que não nos deixamos sentir – sentidos e sentimentos – e responder ao momento?

E quantas vezes não transformamos nossa vida numa linha de montagem? Alguém que passeie com nosso cachorro, alguém que organize nossa casa e alguém que cozinhe, enquanto nós trabalhamos. Para poder trabalhar mais, porque acreditamos que seremos melhores se formos máquinas de uma só função e que seremos capazes de fazer a mesma coisa por horas e horas (eu sei, também não nos dão muita opção).

No nosso tempo livre, vamos ouvir um cantor ou assistir a um espetáculo ou ler um livro. Mas nós mesmos sabemos muito pouco de cantar ou dançar ou contar histórias. Quem faz isso é um especialista no assunto. É ótimo que existam pessoas que se dediquem às habilidades humanas, mas quando nos retiramos da vivência desse processo, nossa vida fica mais pobre. E com ela todo o mundo. Já falei como os indígenas cantam bem? Mas nós só sabemos fazer o nosso trabalho.

 

Uma casa sem preço

Estava conversando com Beptuk Metuktire, Kaiapó Mebêngôkre, neto do cacique Raoni (leia a entrevista com os dois aqui), e ele dizia que a vida na cidade era mais difícil, porque para tudo era preciso dinheiro. “Na aldeia não, você vive tranquilo. Você faz sua casa sem ter de pagar a madeira, você pode caçar, pescar…” [E eles fazem tudo isso sem danificar o meio ambiente…]

19961627_1631330616939122_3579621613575835377_n
Casa em construção. Foto: Melito/Encontro de Culturas

Continuei pensando nisso que ele me falou por vários dias. Morar é uma das nossas necessidades básicas, mas ter uma casa é muitas vezes a conquista de toda uma vida para nós. É caro. Tem gente que mora em barracos sem nenhuma segurança, tem os que vivem nas ruas, os que pagam aluguel e temem pelo dia que não possam mais pagar e os que trabalham muito para conseguir pagar sua casa. E se quiser morar perto do serviço para ter tempo para fazer algo mais além de trabalhar, tem de pagar muito mais… Tem a questão da falta de espaço nas cidades, mas não é só isso (os prédios vazios do centro estão aí para provar que não).

É feito para não ter opção. Para você não poder escolher uma vida mais simples e com menos horas de trabalho. Para não ter a opção de sair do emprego degradante, das exigências absurdas, da pressão, das metas impossíveis, da carga horária desumana. E assim, presos à manutenção das nossas necessidades básicas, paramos de cantar (para trabalhar), paramos de dançar (para trabalhar), de nos encontrar (para trabalhar).

Mas será que só dá pra ser assim? Acredito na luta pela mudança (preciso acreditar), mas também nas pequenas batalhas. Que sejamos guerrilheiros do tempo. Guerrilheiros da espontaneidade dos pequenos momentos. Não parece muito, mas acho que pode abrir espaço para todo um mundo novo de experiências e trocas, se nos dermos mais a isso, de entendimentos e também tranquilidades. Espaço para a vida. Às vezes ela até parece fazer algum sentido quando deixamos que ela aconteça.

20116920_1633199593418891_4865973640291602291_o
Menina xinguana. Foto: André Rodrigo Pacheco/Encontro de Culturas

Eles

Ainda pretendo escrever mais sobre esses dias na aldeia, mas depois de falar tanto sobre o que somos, preciso falar um pouco sobre eles. Deve ser muito difícil ser indígena! Para além da luta pela terra, contra o preconceito, pelo direito de existir e viver à sua maneira, como se fosse pouco, eles precisam estar sempre afirmando sua identidade indígena. Porque o direito às suas terras por direito, e portanto ao seu meio de sustento, depende do reconhecimento dessa identidade pelo branco. Eu posso me dar ao luxo de nem pensar a respeito do assunto, de hoje me identificar mais com o lado português da família e amanhã com o brasileiro, ou resolver que é a cultura japonesa que me encanta, posso ir morar na Europa e depois voltar sem que ninguém diga que não sou mais brasileira. Eles não. Se precisam sair da aldeia, são sempre questionados que então não são mais índios (e não sendo indígenas, não deveriam mais ter direito à terra, subentende-se). E precisam estar sempre provando que são, sim, que não é uma camiseta ou chinelo que vai apagar tudo que são. Nem um celular.

Aliás, com um celular eles podem se articular com outros indígenas, registrar suas tradições, filmar e denunciar os abusos… Pensando bem, até dá para entender a implicância de alguns, sim.

E por que as tradições deles têm de ser puras, sem nenhum traço do contato com o branco? Não faz parte também da história deles hoje? O prato mais tradicional da Itália é feito com molho de tomate, que veio da América. A batata, presente na culinária de metade dos europeus, também veio daqui. Nesses casos, 500 anos são mais que suficiente para estabelecer uma tradição. Por que para os indígenas não? É importante que preservem e defendam suas tradições, claro, mas que eles nos digam como vão fazer isso.

20108653_1633242666747917_13016286577001922923_n.jpg
Rikbaktsa, tradição guerreira. Foto: Ana Caroline de Lima (Antropologia Visual)/Encontro de Culturas

 

Perigo indígena

Saí de lá pensando como podemos saber – e falar e ouvir – tão pouco sobre os povos indígenas do nosso próprio país. Verdade que não foi por acaso, são cinco séculos de apagamento intencional de sua cultura. E, infelizmente a luta pela terra continua, cada dia mais acirrada com nossos desgovernos, mas ainda assim… Talvez os indígenas representem mesmo um grande perigo para o Brasil: ao nos mostrar uma parte de quem somos, ao nos fazer questionar nosso modo de vida e ao nos mostrar que existem outros jeitos de se viver. Para evitar tantos riscos, o melhor caminho deve ser mesmo a ignorância. Além disso, conhecer um pouquinho mais sobre eles pode nos transformar todos em grandes apaixonados por esses povos, e aí será impossível não apoiar sua causa.

Antes que me questionem, não quero dizer que as sociedades indígenas sejam perfeitas, mas sim que elas têm muito a nos ensinar. Mais do que imaginamos.

Cheguei na aldeia na lua nova: pequenas e muitas luzes – rastro de claridade –atravessando o céu. Voltei da Chapada já era a cheia, quando parece que há um só astro no firmamento. Mas agora eu sabia que todas as outras luzes estavam também lá, iluminando cada pedacinho do céu ao seu redor, mesmo que eu já não pudesse vê-las. Penso que cada etnia, cada cântico, cada dança e cada reza dos tantos povos indígenas que lutam para sobreviver são como essas estrelas do céu da Chapada: trazem um pouco mais de luz para o nosso mundo, mesmo que não possamos sempre vê-los, mesmo que nem saibamos às vezes que eles estão lá.

20245758_1641003385971845_3772406304215628918_n
Noite na aldeia. Foto: Marcelo Santos Braga/Encontro de Culturas

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s