Império Kalunga: cortejo de tradição e fé

Papel colorido e flores pra enfeitar a praça em frente à capela da Vila de São Jorge. A mesa de bolos já está pronta e os músicos se aquecem enquanto o povo vai chegando. O Império, do povo Kalunga, vai começar no Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros. É uma festa tradicional da comunidade quilombola de Vão de Almas, no Sítio Histórico Kalunga (GO), em honra ao Divino Espírito Santo.

Os Kalungas todos já aguardam. Vêm arrumados para a festa, que dia de santo é dia de tirar a gravata do armário, a melhor camisa. Chapéu de palha para arrematar, mas a turma mais nova só quer é saber de boné. Faz mal não, o importante é proteger a cabeça, fazer a homenagem e não atrasar o compasso do pandeiro. Também saem de casa os brincos e as pulseiras. E os laços de fita amarrando as tranças dos cachos.

No cantinho, enquanto não começa o cortejo, dá tempo de chupar uma laranja, mas come com pressa, não pode perder a saída. Os músicos aceleram, viola, sanfona, pandeiro, triângulo e atabaque. Um pé que bate daqui, outro dali… Os turistas estão chegando, vai começar.

Bandeira e espada se apresentam. Cada uma na sua vez e com sua dança – esgrima no ar, movimentos e giros e voltas. “É uma comparação, mostrando a tradição. Ele me mostra a dele, e eu mostro a minha. Isso é de muito tempo que eles fazem”, me explica no final da festa o seu Santana dos Santos Rosa, nome de nascido no dia da mãe de Nossa Senhora. Sua apresentação da espada é tradição antiga. “Eu via os mais velhos e disse: uai, vou aprender a fazer isso. Tinha um velho que fazia e peguei entendimento de fazer. Prestando atenção faz bem, né? Igual ele, aprendeu com os criador dele, né, Antero?”, e o colega da dança da bandeira concorda.

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Pelas ruas

O cortejo sai. Protegido por um quadro feito de varas coloridas, lá vai seu Santana com a espada, seu Antero com a bandeira do Divino. Vão também o rei e os anjos. E mais a avó para segurar as asas, “que o anjo é pequeno e não vá deixar cair as asas”. Anda muito compenetrado em sua função e só aperta com força de susto os olhos quando soltam fogos – às vezes os anjos também dão de ter medo. Já a anjinha no colo mal ainda sabe andar, mas de nada se assusta, vai toda grande de olhos, curiosidade.

O rei vai firme em sua coroa de flores, não abaixa a cabeça, não tropeça, não perde o passo. Óculos escuros para não franzir o rosto com o sol que já quer se pôr. Coisas de realeza. Na tradição Kalunga, a cada ano um rei é escolhido e seu trabalho é organizar toda a festa. Sorriso mesmo só em quem segura o bastão, que às vezes é difícil segurar o orgulho num momento assim.

Segue o povo, não para a música e quando a rua é de aperto, eles fazem do quadro losango, que esse é povo de adaptação. Seu Santana fala o porquê da separação: “Vamos ali dentro do quadro, que se não for é muita gente e separa os cabeceiras. Ali só o líder, o rei, os anjos…”. Na volta para a praça tem mais apresentação de espada e de bandeira. Os tocadores param e a voz das mulheres assume na capela. Agudas, tremendo pedidos ao Divino e ao nosso Senhor. Mas não se enganem, que o trabalho delas começou bem antes, nas flores, nos enfeites de papel, da coroa do rei e dos anjos. “Antes era flor do campo porque nem tinha papel lá, pelos anos 60, agora nós faz assim. Comecei a fazer essas flores com uns nove pra dez anos, era mais destacada e começaram a sempre me chamar para ajudar. Fui professora e agora todos já sabem fazer”, fala dona Dainda, que desde a véspera ajudava as mulheres a preparar todos os enfeites.

Na capela

Dona Procópia já não tem pernas para o cortejo, mas é o povo chegar que ela sai se apoiando na bengala para alcançar a capela. Logo já está bem na frente, lenço colorido enrolado na cabeça puxando o canto. A voz é fininha, mas, ai, que a fé é das largas. Olhos fixos no pequeno altar, tem sempre outra música pra não parar tão cedo as rezas. Só não peçam pra benzer. “Quando que eu sei benzer? Reza de rezar no altar pra defender todo mundo, pode me chamar que eu tô pronta. Mas benzimento? Isso não é comigo, não, uai”.

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Texto escrito originalmente para o Encontro de culturas

Fotos: Ana Caroline de Lima (Antropologia visual)

[Marina Almeida]

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