Causos de onça, jacaré e outros animais

Em volta da fogueira, cercados pela floresta que começava a revelar seus sons noturnos, conversávamos antes de ir para as nossas redes. Foi quando Isaquias, mateiro e caboclo que não fala inglês, mas conta um causo como o que, disparou a lembrar suas histórias. E era engraçado, mas também era uma viagem àquela realidade de ribeirinhos crescidos entre cheias e vazantes, entre a floresta amazônica e as águas dos rios.

Tinham ido pescar, ele, o pai e o irmão. Mas não era que nem aqui, não. Era um paranazão assim. Pegaram um tracajá e fizeram uma fogueira que nem aquela nossa. Depois de comer, resolveram queimar o casco ali no fogo e foram dormir. Nem era em rede, era no chão mesmo, tudo junto. Acordaram com o barulho dos animais.

Estavam todos indo para lá. Jacaré, capivara, paca, macaco… tudo os bichos. Eles saíram correndo pro bote e os jacarés atrás deles. Foram para o meio do rio, e os bichos atrás. Pegaram a rede de pesca e colocaram em volta do barco, para não deixar eles chegarem mais perto. A noite foi toda assim, nem dormiram mais direito. Os jacarés ali: só via o olhão deles para fora da água cercando o bote. Ouviram até barulho de onça na beira do rio. Nunca mais queima nada, Deus o livre, que o cheiro atrai mais de longe os bichos.

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Lucivado também tem suas histórias de onça. Seu pai, conta, matava para vender a pele. Ele se lembra de pequeno estar na canoa com o pai quando ouviram um rugido. Fizeram silêncio. O barulho vinha cada vez mais alto, a onça cada vez mais perto. E não parava. Parecia que estava falando com outra. A água do rio toda tremia e a onça pulsava dentro dele. Coração disparado, compassado pelos rugidos que chegam mais fortes. Seu pai já se preparava para ir atrás: uma onça assim, ou duas, não queria perder. Arma no colo, remo nas mãos. Mas o menino não segura o choro. Um tanto de medo, de dó também quem sabe.

Os rugidos se afastam. Já não ressoam mais no oco de seu peito. São novamente dois corações: um humano e pequeno que segue pelo rio, e um animal, grande e felino, que corre solto e livre, farejando o fresco do ar pelas florestas enquanto tiver sorte.

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Você e sua família também são cheios de histórias? Causos de animais, coragem e medo, da vida na roça, de longas viagens de barco desses e de outros tempos? Já pensou em registrar essas histórias no papel? Entre em contato conosco! A Daria um Livro escreve e edita suas histórias, ajudando você a preservar memórias.

Leia os causos completos aqui: Causos ribeirinhos (uma noite na floresta amazônica) IMG_0239trat.JPG

[Marina Almeida]

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