[BLOG] Ecléa Bosi e seu pensar sobre a memória

Morreu nesta segunda-feira (10) a professora e pesquisadora Ecléa Bosi. Ecléa era professora emérita do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e foi a idealizadora do Programa Universidade Aberta à Terceira Idade.

O tema memória é central em seu trabalho. No livro Memória e sociedade – Lembranças de velhos (Companhia das Letras, 1994), Ecléa faz um resgate não apenas das informações sobre o passado de famílias imigrantes na cidade de São Paulo, mas da arte e do trabalho de viver, lembrar, narrar e registrar. Velhos somos e seremos todos — e isso é bom (e necessário). Leia, a seguir, alguns trechos do livro:

“A criança recebe do passado não só os dados da história escrita; mergulha suas raízes na história vivida, ou melhor, sobrevivida, das pessoas de idade que tomaram parte na sua socialização. Sem estas haveria apenas uma competência abstrata para lidar com os dados do passado, mas não a memória.”

“Curiosa é a expressão ‘meu tempo’ usada pelos que recordam. Qual é o meu tempo, se ainda estou vivo e não tomei emprestada minha época a ninguém, pois ela me pertence tanto quanto a outros, meus coetâneos?”

“A memória do trabalho é o sentido, é a justificação de toda uma biografia. Quando o sr. Amadeu fecha a história de sua vida, qual o conselho que dá? De tolerância para com os velhos, tolerância mesmo para com aqueles que se transviaram na juventude: ‘Eles também trabalharam’.”

“Por muito que deva à memória coletiva, é o indivíduo que recorda. Ele é o memorizador e das camadas do passado a que tem acesso pode reter objetos que são, para ele, e só para ele, significativos dentro de um tesouro comum.”

“É preciso reconhecer que muitas de nossas lembranças, ou mesmo de nossas ideias, não são originais: foram inspiradas nas conversas com os outros. Com o correr do tempo, elas passam a ter uma história dentro da gente, acompanham nossa vida e são enriquecidas por experiências e embates.”

“O narrador é um mestre do ofício que conhece seu mister: ele tem o dom do conselho. A ele foi dado abranger uma vida inteira. Seu talento de narrar lhe vem da experiência; sua lição, ele extraiu da própria dor; sua dignidade é a de contá-la até o fim, sem medo. Uma atmosfera sagrada circunda o narrador.”

“Há casas em cidades tranquilas em que o tempo parou; o relógio das salas é o mesmo que pulsava antigamente e as pessoas que pisam as tábuas largas do assoalho conservam um forte estilo de vida que nos surpreende pela continuidade.”

“Por que decaiu a arte de contar histórias? Talvez porque tenha decaído a arte de trocar experiências. A experiência que passa de boca em boca e que o mundo da técnica desorienta.”

 

 

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