[BLOG] Do que é feita a memória?

As lembranças costumam ter formas, cores, sons, às vezes cheiros — informações que obtemos do mundo por meio dos nossos sentidos. Algumas ficam conosco apenas por alguns minutos, outras se enfraquecem com o passar dos dias, outras permanecem vivas e fortes por anos e anos. Mas como essas memórias ficam armazenadas no cérebro? Pensando no rosto de uma pessoa, por exemplo: como conseguimos acessar uma imagem tão complexa em nossa mente?

Em computação, sabemos que as informações podem ser resumidas em gigantescas sequências de bits – cada bit pode assumir apenas dois valores, ligado (1) ou desligado (0). No nosso cérebro, aconteceria algo parecido? Existe alguma unidade fundamental? Alguma proteína ou molécula que estaria na base de tudo?

Cientistas e médicos classificam a memória em alguns tipos e subtipos: de curto prazo e longo prazo, anterógrada e retrógrada, recente e remota, semântica… Aqui, há uma explicação rápida sobre cada uma delas.

Quanto às bases moleculares do armazenamento da memória (expressão linda que aprendi na Wikipedia), as explicações ainda não são muito claras. Sabe-se que várias áreas do cérebro estão envolvidas no armazenamento e processamento de lembranças. Mas como seus detalhes são guardados? É um mecanismo ainda em grande parte desconhecido, sobre o qual existem algumas hipóteses. Uma delas envolve o conceito de potencial de longa duração (em inglês, Long-term potential, sigla LTP). Aqui, as coisas se complicam:

“Em neurociência, potenciação de longa duração (Long Term Potentiation ou LTP, em inglês) é uma melhoria duradoura na transmissão do sinal entre dois neurônios que resulta de estimulá-los de forma síncrona. É um dos vários fenômenos que contribuem para a plasticidade sináptica, a capacidade das sinapses químicas de mudar sua potência. Acredita-se que a memória é codificada por modificação da força sináptica, por isso a LTP é amplamente considerada como um dos principais mecanismos celulares que está na base da aprendizagem e memória.”

E esse é apenas o primeiro parágrafo do tópico sobre a LTP na Wikipedia, que retoma conceitos como síntese de proteínas, associatividade, reflexo condicionado, neurotransmissão sináptica…

A explicação mais compreensível para leigos talvez esteja no site do médico Drauzio Varella. O texto destaca três dos modelos propostos sobre a forma como o cérebro armazena informações e sensações: (1) atividades elétricas seriam a base para todo o processo; (2) substâncias químicas sintetizadas pelos neurônios conteriam os “códigos” das informações; (3) nosso cérebro criaria, para cada memória, conexões (de impulsos nervosos) específicas entre os neurônios – conexões que poderiam ser reforçadas ou enfraquecidas (e aqui entraria a LTP) com o tempo e o uso.

Trata-se de um campo de estudo tão complexo que faz jus à questão que busca resolver: do que é feita a memória em nossas mentes? São muitas células e moléculas envolvidas em relações (e reações) que, pelo jeito, levaremos muitos e muitos anos para mapear.

Por enquanto, o que nos resta é contemplar o desconhecido. Aos cientistas que trabalham montando esse gigantesco quebra-cabeças, boa sorte e paciência.

[FLÁVIA SIQUEIRA]

(Imagem: cena do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças)


LEIA MAIS:

Como funciona a memória humana (site How stuff works)
O primeiro choro de seu filho, o gosto dos biscoitos de polvilho da sua avó, o cheiro da brisa do oceano. São esse tipos de memórias que formam a experiência contínua de sua vida – elas oferecem uma percepção de personalidade. São elas que fazem você se sentir confortável com pessoas e lugares familiares, conectam seu passado com seu presente e oferecem uma estrutura para o futuro. De certa maneira, é nosso conjunto de memórias coletivas – nossa “memória” como um todo – que nos torna quem somos. (…)

O fascínio da memória (revista Scientific American Brasil)
A memória humana é uma faculdade maravilhosa e enganosa. Embora muitos a considerem um arquivo imutável de experiências e recordações, o que ela guarda não está esculpido em pedra. De fato, as lembranças tendem a desbotar com o tempo, deformando-se e indo ao encontro, mesmo em condições normais, de uma lenta decadência, de um esquecimento fisiológico. E não é raro que gerem em nós perturbadoras sensações de estranheza, fragmentação, não pertencimento e até mesmo recombinações ilusórias de imagens e informações que ocupam nossa mente como um caleidoscópio. (…)

How does memory work? (revista Vital Record, da Universidade do Texas)
We tend to think our memory works like a filing cabinet. We experience an event, generate a memory and then file it away for later use. However, according to medical research, the basic mechanisms behind memory are much more dynamic. In fact, making memories is similar to plugging your laptop into an Ethernet cable—the strength of the network determines how the event is translated within your brain. (…)

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