[BLOG] Reorganizando fotos e histórias

— Nossa… Se eu sentasse e escrevesse tudo pelo que já passei… Foi tanta coisa!

Não era a primeira vez que eu ouvia minha avó dizer isso. E, agora, era a hora perfeita para colocar tudo no papel. Já havia trabalhado alguns anos como jornalista e estava começando a organizar, com a Marina Almeida, a ideia de abrir uma empresa de produção de livros personalizados.

— Vó, quer que a gente faça um livro com suas fotos e histórias?

— Ah, eu quero!

Como ela tinha acumulado muitas fotos (algumas do início do século 20), pensei em criar um livro organizado a partir delas. Quais fotos eram as mais significativas para ela? O que ela notava primeiro? Qual era a história daquela fotografia? Que lugar era aquele? Que ano era? Que roupa era aquela?

Mas é claro que havia muito mais além das fotos. Histórias que não tinham sido registradas em imagens: sustos com os filhos pequenos, brincadeiras de infância, o cansaço sem fim da vida de comerciante, o sumiço da cachorrinha Mel e sua volta para casa…

O resultado foi um livro que mescla textos longos sobre memórias (páginas de fundo branco) e observações sobre fotografias relacionadas aos períodos que coincidem com essas lembranças (páginas de fundo preto).

Para mim, foi uma incrível volta às histórias que minha vó contava, aos lugares de que ela falava, às fotos que eu costumava tirar dos armários para fuçar sempre que, quando criança, ia passar meu período de férias escolares na casa dela. Olhava aquelas fotos em preto e branco, perguntava quem eram aquelas pessoas e ela me explicava — só para eu esquecer e voltar, nas férias seguintes, a olhar as mesmas imagens e fazer as mesmas perguntas.

Gravar entrevistas com minha vó e depois transcrevê-las, digitalizar imagens, anotar informações sobre quem eram aquelas pessoas… Todo o processo me ajudou a organizar coisas que eu ouvia desde criança, mas que estavam bagunçadas na minha cabeça.

Então, o Barreirão — esse lugar de que ela tanto falava — foi onde ela passou os primeiros anos de infância… A adolescência foi em Osvaldo Cruz… Os nomes dos avós paternos eram Domingas e João, ambos portugueses. Os avós maternos eram Henrique e Carolina — ela, mineira; ele, também português. Domingas e João vieram de Funchal; Henrique, de Trás-os-Montes…

Na primeira entrevista, os nomes e lugares de origem ainda me confundiam. Montei uma árvore genealógica para não me perder e parar de repetir perguntas. Deu certo.

A maior parte das fotografias estava bem conservada. Gosto de pensar que devo agradecer, em parte, à súbita vontade que tive um dia, quando criança, de colar nos álbuns as fotos que antes estavam soltas. Isso provavelmente ajudou a evitar que elas se desbotassem. Claro que em meu trabalho/diversão de infância não havia organização nenhuma — de repente, em meio a fotos da década de 1980, aparecia uma imagem dos anos 30.

Eis que, agora, o livro existe! Antes de receber os exemplares impressos, cheguei a sonhar que tudo tinha dado errado. Que havia erros na capa, que a impressão estava ruim, que faltavam páginas… Mas nada disso aconteceu. A impressão está ótima, as cores estão vivas, nenhuma página falta.

Agora, o livro existe (leia trechos)! Olha… Ainda me impressiono com isso. (risos)

[FLÁVIA SIQUEIRA]

 

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