BLOG | Um conto sobre ser criança em outros tempos

(Estamos escrevendo o livro de Dona Geórgia, senhora de 90 anos que mora em São Paulo. O conto a seguir foi escrito a partir de relatos dela sobre a infância no interior do Estado na década de 1930. Trata-se, assim, de ficção baseada em acontecimentos reais: um exercício de imaginação sobre ser criança em outros tempos e lugares.)

***

Barrigas que crescem

 

A barriga da mãe havia crescido muito nos últimos meses. A menina mais nova não tinha prestado muita atenção naquilo. A menina mais velha já tinha visto aquilo acontecer antes. A barriga da mãe acabou murchando um tempo depois de a menina mais nova ter chegado. Essa era, talvez, a lembrança mais antiga dela. Uma coisa tinha a ver com a outra? A menina mais velha tinha quase certeza que sim. Na fazenda, aquilo sempre acontecia: barrigas que crescem, crescem, ficam bem redondas e que murcham algum tempo depois de um bebê aparecer.

Naquele dia, uma velhinha chegou em casa logo pela manhã. Usava um xale cinza, um vestido vermelho com flores brancas e um sapatinho preto, sem salto. O cabelo vinha preso num coque bem feito, de um cinza brilhante.

Quando ela chegou, as duas meninas tinham acabado de acordar. Foi o pai quem deu o café da manhã: um pedaço de pão com manteiga e um copo de leite para cada uma.

— Cadê a mãe? — perguntou a menina mais velha ao pai.

— Tá descansando. Daqui a pouco ela levanta.

Assim que a velhinha de xale apareceu na porta da cozinha, o pai a levou pelo corredor, até o quarto onde a mãe descansava. A menina mais velha fez menção de ir atrás, mas o pai logo mandou:

— Cêis fiquem aí!

Elas obedeceram e terminaram o café da manhã. Um som que não era nem um grito nem um gemido veio pelo corredor. Não demorou muito e o pai voltou:

— Agora cêis vão brincar lá no quintal.

— A mãe tá boa? — quis saber a menina mais velha.

— Tá boa, sim. Mas agora cêis vão pro quintal e fiquem lá até eu chamar. Vão brincar.

E lá se foram as meninas. Resolveram começar brincando de boneca. A menina mais velha chamava aquilo de “brincar de comadre”: a irmã seria madrinha da boneca. A menina mais velha corria até a biquinha de água, enchia uma vasilha meio amassada e pedia para a menina mais nova jogar na cabeça da boneca. Ela adorava: fazia a água escorrer devagar da vasilha pela cabeça careca e lisa da boneca.

Depois, foram ver os porquinhos que tinham nascido naquela semana. Emendaram um esconde-esconde e mais um batismo de faz-de-conta.

As duas meninas estavam tão mergulhadas naquele mundo imaginário que não perceberam quando o pai chamou pela primeira vez, da porta da cozinha.

— Fia! Já chamei. Vem logo. Nasceu sua irmãzinha.

— Irmãzinha?

As meninas deixaram as bonecas no pé de uma árvore e correram pelo corredor da casa. Quando entraram no quarto da mãe e do pai, lá estava a velhinha numa cadeira ao lado da cama. O coque ainda brilhava. A mãe, meio deitada e meio sentada na cama, tinha no colo um bebê muito pequenininho enrolado em panos brancos.

As meninas ficaram em pé, ao lado da cama.

— Ói o que ela trouxe pra mim debaixo do xale dela! — disse a mãe, sorridente.

As irmãs se aproximaram para ver o bebê mais de perto. Ele fazia uns barulhinhos, que lembravam choro. A menina mais nova — que agora era a do meio — ficou contente, soltou uma gargalhada e levou as mãos à boca.

A menina mais velha ficou olhando séria para a irmãzinha, concluindo que existia mesmo alguma relação entre barrigas que crescem e bebês que aparecem. E era sempre com as mulheres. As barrigas dos homens nunca murchavam. Será que um dia isso iria acontecer com ela também? A barriga crescer até uma velhinha chegar em casa e lhe entregar um bebezinho pra cuidar?

[Flávia Siqueira]
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